A pregação de que o impeachment é golpe é um discurso mais pra história do que para o presente

O PT está destruindo a si próprio. Se fizer autocrítica, pode sobreviver. Se continuar falseando a realidade, não terá salvação. Para escapar da extrema-unção, precisa, para além da refundação, de reaprender a dizer a verdade a si e à sociedade

"Life's Lessons", de Rodel Gonzalez

“Life’s Lessons”, de Rodel Gonzalez

Criado em 1980, em plena ditadura civil-militar, o PT era um alento, um partido diferente. Podia até ser radical, no nascimento, mas moderou-se, sem deixar de defender a ética. Mas, como sugere o Nobel de Literatura V. S. Naipaul, no romance “Os Mímicos”, só o poder revela o político. Políticos corretivos-normativos só funcionam, revela a história, na oposição. No poder, dado o realismo da vida, que por vezes esconjura idealismos, transformam-se e, até, transtornam-se. Descobre-se que não se governa apenas com os melhores — ou “escolhidos” —, mas com os que existem, quer dizer, com todos, ou quase todos. A vida é feita mais de impurezas do que de purezas e muitos dos que mais cobram pureza eventualmente são impuros. Mas uma escorregada aqui e ali, pela necessidade da governabilidade — um fato —, vá lá: não é inteiramente descartável. Porém, ao conspurcar o processo político, mesmo que o objetivo inicial tenha sido legítimo, a governabilidade, o PT, com seus principais integrantes, acabou por se contaminar. Nenhum fator externo destruiu o PT. O PT destruiu-se sozinho. Avaliou que, para manter-se no poder no plano nacional, poderia corromper impunemente políticos do PMDB, do PP, do PR e do PTB, além das rémoras de sempre. Ocorre que os meios corromperam os fins e vários petistas, quase todos de proa, se corromperam. O PT “perdeu-se” — o que não é nada positivo para o país. Ter um grande partido de esquerda, sensato e moderado, é crucial para a democracia — porque contribui para conter as porções radicais e equilibra o debate com os partidos de centro e de direita.

O PT não é um partido de corruptos, mas sim um partido que, como os demais, tem corruptos entre seus filiados — sobretudo figuras de proa. A maioria dos petistas provavelmente é honesta e só não critica os líderes que deformaram o partido por uma questão de fidelidade partidária. Trata-se do “eficiente” espírito de corpo. Há correntes que falam em “refundar” o PT. Mas com quem? Como excluir uma figura gigantesca como Lula da Silva? Dá para refundar o partido com o ex-presidente? É provável que o petista-chefe permaneça na liderança do PT. Assim que for concluído o impeachment, se confirmada a saída da presidente Dilma Rousseff, é provável que Tarso Genro lidere um grupo de deputados federais, além de senadores, e crie um novo partido.

Mas uma coisa é certa: petistas que ficarem no PT e aqueles que saírem, tentando escapar da contaminação geral — que leva a derrotas eleitorais —, terão de fazer autocrítica. Mas autocrítica verdadeira para entender e, até, aceitar o fato de que estão sendo “banidos” pela sociedade — e não meramente, como fingem acreditar, pelas oposições conspiradoras (aliadas — até ontem). Não dá mais para iludir, a si e aos outros, de que não há um processo de corrupção e uma crise econômica assombrosos. A sociedade está “banindo” o PT, basicamente, por que se tornou aquilo que não era e que ninguém, nem seus adversários, esperava que se tornasse: um partido que, corrompendo outros partidos, se corrompeu. A corrupção do honesto é muito pior, para a sociedade, do que a corrupção dos que são corruptos quase por tradição — como alguns líderes de partidos de centro. É por isso que um petista corrupto é mais execrado do que figuras tradicionais da política — como o senador Renan Calheiros e o deputado federal Eduardo Cunha, ambos do PMDB, de quem, aparentemente, se espera tudo ou quase tudo. Eles representam, do ponto de vista da sociedade, a falta de limite e compostura que se cobra ou se cobrava do PT.

Ao se corromper, o PT reduziu ainda mais a esperança do cidadão na política como instrumento de desenvolvimento e construção de uma sociedade baseada nas leis, na vitalidade das instituições. A consagração de magistrados, como Joaquim Barbosa, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, e Sergio Moro, juiz federal, tem a ver com o desgaste dos políticos, sobretudo dos petistas. Mas é preciso entender que, não sendo políticos, não são a solução para tudo. Procuradores de justiça, como Helio Telho, e magistrados, como Sergio Moro, fazem a sua parte. Mas a sociedade precisa dos políticos para que façam a outra parte. Instituições sólidas podem levar os políticos para um caminho mais reto, ainda que desvios tendam a ocorrer, porque não há e jamais haverá perfeição na sociedade.

A autocrítica do PT deveria começar pela admissão de que errou, sugerindo que pode mudar e retomar o bom caminho. Se insistir em clichês e frases de efeito, evitando entender o que pensa a sociedade, o petismo não vai convencer nenhuma viv’alma — exceto tarefeiros e convertidos. Um dos principais erros de políticos, sobretudo dos que não creem totalmente numa sociedade democrática, é pregar exclusivamente para convertidos, que, a rigor, não precisam ser convencidos de nada.

Se quisesse fazer autocrítica de fato, o PT deixaria de mencionar que impeachment é golpe. Porque não é — e a sociedade sabe disso. Como dissemos no parágrafo anterior, os líderes petistas, como Lula da Silva — não há a menor dúvida de que se trata do melhor político do PT e um dos melhores do país, mas equivocado ao se postar como messias e acima das leis —, e dos que “estão” petistas, como Dilma Rousseff, quando sugerem que o impeachment é golpe, estão pregando para convertidos e tarefeiros, como a militante e, algumas vezes, filósofa Marilena Chauí. Formataram uma tese para ser repetida nas ruas, nas repartições públicas, nos sindicatos e nas salas de aula. Porém, como é falsa, ninguém a aceita e mesmo os tarefeiros, quando conseguem evitar o curto-circuito entre os neurônios, sabem disso e, não tendo convicção, não conseguem convencer os indivíduos que não são convertidos. Lamentável é o contorcionismo de intelectuais, notadamente das universidades, que são “promovidos” a tarefeiros e, deixando de refletir, repetem os jargões criados por publicitários e petistas que se apresentam como líderes. É um mal “sinal” quando intelectuais deixam de pensar, comportando-se como meros militantes, repetidores de clichês e diluidores de ideias mal costuradas por alfaiates do marketing político.

A missão dos intelectuais do PT, e há vários respeitáveis, é mudar o eixo do debate, interpretando os fatos como de fato são e, assim, tentando encontrar um norte para o partido. Se querem contribuir para a tal refundação do PT — que muitos avaliam que é meramente uma “afundação” —, o primeiro passo e dever é dizer a verdade, contrapor-se ao discurso fácil que está sendo vulgarizado pela presidente Dilma Rousseff, que está falando como uma reles militante, o que não é, e pelo Lulopetismo.

Se continuar interpretando o momento do país como mero jogo político da suposta conspiração de Michel Temer e Eduardo Cunha — sem admitir o descompasso geral com a sociedade civil, que é o que dá vida aos dois políticos —, o PT vai continuar sendo “alimento do crescimento” para seus adversários, que estão com antenas mais apuradas para compreender o que está acontecendo. Dilma Rousseff sequer percebe que, na ânsia de salvar o mandato, está inerte como presidente, praticamente deixou de ser gestora de uma das maiores potências econômicas do mundo. Está na Presidência, mas não é mais presidente. Quando o vice-presidente Michel Temer aparece articulando a formação de um ministério supostamente de notáveis — como Armínio Fraga (que diz não querer) e Henrique Meirelles (que fala em aumentar impostos) —, a céu aberto, com ampla cobertura da imprensa, isto significa que o governo de Dilma Rousseff faz parte do passado. A sociedade, mais do que a Câmara dos Deputados e o Senado, já a “retirou” do poder. Não tem nada a ver com as elites — estas, por sinal, foram adubadas, durante 13 anos, pelos governos do PT. A queda do PT tem a ver com o pacto faustiano que fez com as elites econômicas e políticas.

Discutamos agora, de maneira breve, a tese do impeachment como golpe de Estado. Só nefelibatas, mal intencionados e desesperados dizem isto. Mas há um subtexto pouco ventilado na imprensa. Tudo indica que, como perceberam que já caíram, os petistas, com Dilma Rousseff e Lula da Silva na linha de frente, desenvolveram a tese do golpe menos para o presente e mais para o futuro, quer dizer, para a história.

Uma história “construída” pelos petistas, que são influentes nas universidades, certamente dirá que Dilma Rousseff sofreu impeachment — se o impeachment for aprovado pelo Senado — devido a uma conspiração das elites e de corruptos. É uma forma razoavelmente esperta de esconder ou de se contrapor à história real. Legalmente, a presidente deve sofrer impeachment devido as chamadas pedaladas fiscais, que, em suma, significam desrespeito às leis. Do ponto de vista da sociedade, o impeachment tem a ver com a corrupção desenfreada dos governos petistas. É provável que, sem a corrupção e a crise econômica (que gera recessão, desemprego, inflação alta), a sociedade não teria pressionado de maneira tão intensa os políticos e, daí, a Câmara dos Deputados não teria força suficiente para impor o impeachment a partir da denúncia das pedaladas.

O que o PT está tentando fazer, ao apostar na tese de golpe, é cristalizar uma ideia e forçar a aceitação desta pelos historiadores. Mas pesquisadores sérios não trocam fatos por discursos ideológicos. No futuro, os historiadores poderão admitir que, pessoalmente, Dilma Rousseff é/era honesta. Mas terão uma fartura de dados, a partir da Operação Lava Jato, para concluir que os governos do PT patrocinaram um dos maiores esquemas de corrupção — a Corruptobrás — da história do país. Isto levou ao descrédito da presidente, mais do que as pedaladas fiscais, e, portanto, à sua queda (se cair, é claro). Ao escavarem a versão do PT, os historiadores perceberão, por certo, que 2016 nada tem a ver com 1964 — quer dizer, não há/houve golpe algum.
Uma coisa é certa: se for destruído, o PT fará falta. Um partido de esquerda moderado sempre faz falta. Mas um partido que, mesmo numa crise profunda, continua falseando a realidade, tentando convencer não se sabe quem mais — os tarefeiros já estão “convencidos” —, não tem salvação. Para escapar da extrema-unção, o PT precisa, para além de falar em refundação, de reaprender a dizer a verdade a si e à sociedade.

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