Por que Iris Rezende não diz que, se eleito, pode retomar a usina de Cachoeira Dourada?

Se a galinha dos ovos de ouro é a usina de Cachoeira Dourada, privatizada por um governo do PMDB, e não a Celg, uma mera distribuidora, por que o candidato peemedebista não apresenta um plano para retomar a primeira?

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Iris Rezende: o político que entregou a usina de Corumbá para Furnas e nunca condenou a privatização de Cachoeira Dourada descobriu a importância da Celg tardiamente,

Há pouco tempo, o presidente da Sony concedeu uma entrevista à revista “Veja” e comentou sobre o problema da qualidade da energia elétrica no Brasil. Uma fábrica de chips, para não perder matéria prima, precisa de energia constante, sem quedas bruscas e frequentes. No Japão, a estabilidade é praticamente total, o que possibilita a fabricação de produtos refinados e delicados, como chips. No Brasil, em praticamente todo o seu território, a instabilidade é a regra — o que prejudica todos os negócios e os indivíduos no seu dia a dia.

O que importa aos cidadãos em suas residências e aos empresários e aos produtores rurais nos seus negócios é a qualidade da energia elétrica oferecida pela distribuidora. Goiás, um dos Estados que mais crescem no país, investiu na construção de usinas geradoras de energia, como Corumbá e Cachoeira Dourada, mas alguns de seus governantes não souberam mantê-las. Como a Celg é o nome mais conhecido, portanto mais emblemático, fica-se com a impressão de que ela, a distribuidora, é mais importante do que as geradoras.

Não é assim. Porque, sem as geradoras, a Celg tem de comprar energia no mercado. Em determinados períodos, embora isto raramente seja ventilado pelos jornais, o custo da energia se torna muito alto — principalmente nos períodos em que não chove e os reservatórios das usinas ficam baixos —, mas a tarifa para os consumidores mantém-se estável, porque o governo federal não autoriza aumentos seguindo estritamente as leis do mercado. Quando tinha Cachoeira Dourada, uma usina lucrativa, a Celg equilibrava o jogo e era perfeitamente viável e rentável.

Um dos primeiros equívocos nem foi a venda de Cachoeira Dou­rada para uma empresa chilena — que já pagou a usina e comemora lucros estratosféricos —, e sim a concessão da usina de Corumbá para Furnas. O equívoco foi cometido por Iris Rezende, quando governador, e não se sabe exatamente por quê fez isto. O líder do PMDB nunca explicou, ao menos não de modo convincente, por qual motivo entregou uma usina que custou muito ao Erário goiano e, ao mesmo tempo, seria importante, até decisiva, para equilibrar as contas e dar lucro à Celg. No passado, não muito longínquo, Iris Rezende contribui para “matar” o futuro da Celg.

Na segunda metade da década de 1990, na onda de privatizações capitaneadas pelo governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o então governador de Goiás, Maguito Vilela, do PMDB, vendeu a usina de Cachoeira Dourada por cerca de 1 bilhão de reais. Embora desaconselhado por políticos experimentados e técnicos da Celg, Maguito Vilela, dizendo-se pressionado pelo governo federal, decidiu vendê-la. Com o dinheiro, o governo peemedebista pagou uniformes de funcionários públicos e cestas básicas, reformou a Avenida Anhanguera (mais conhecida como curral de ônibus — uma obra condenada por arquitetos, engenheiros e, sobretudo, pela população) e não se sabe o que foi feito do restante do dinheiro. O PMDB passou uma borracha sobre o assunto e se recusa a discuti-lo.

Noutras palavras, vendeu-se um patrimônio dos goianos — justamente a chamada “galinha dos ovos de ouro” da Celg — e aplicou-se mal o dinheiro obtido. Quanto às pressões, vale ressaltar que Itamar Franco, como governador de Minas Gerais, também teria sido pressionado para vender a usina da Cemig. No entanto, se pressão houve, não a aceitou e manteve a Cemig capitalizada, sólida.

O que diferencia um gestor privado ou público eficiente de um gestor amador é a capacidade de perceber como manter um negócio que dê lucro. Para manter a Celg ativa, investindo na qualidade e ampliação de suas redes de distribuição, era fundamental não vender a geradora de energia elétrica, Cachoeira Dourada. Mesmo sabendo que sem a geradora a Celg teria problemas, o governo do PMDB decidiu privatizá-la. Iris Rezende, um administrador experiente e líder máximo do PMDB, poderia ter se insurgido e pressionado Maguito Vilela a não privatizá-la. No entanto, embora sabendo que a Celg passaria por problemas graves, em nenhum momento disse para seu aliado não comercializá-la.

Na campanha para governador em 1998, sabendo que a Celg passaria por dificuldades, por não ter mais uma geradora de energia elétrica, Iris Rezende não disse uma palavra sobre a venda de Cachoeira Dourada. Não disse, em nenhum momento, que, se eleito, a retomaria para o governo de Goiás. Nos anos seguintes, não disse uma palavra sobre a privatização de Cachoeira Dourada, talvez com receio de que alguém discutisse a perda Corumbá, outro erro administrativo e estratégico grave.

Agora, dezesseis anos depois, possivelmente devido ao período eleitoral, Iris Rezende insurge-se contra a federalização da Celg. Na semana passada, o governo de Goiás (49%) entrou em acordo com o governo federal e a Eletrobrás (51%) vai assumir, oficial e definitivamene, o controle da Celg. O valor total da companhia de eletricidade é avaliado em R$ 116,729 milhões. O que prova, mais uma vez, que importante era Cachoeira Dourada, que valeu 1 bilhão de reais e, segundo cálculos atualizados, vale aproximadamente 5 bilhões de reais. O acordo possibilita à Celg Distribuição a obtenção de um empréstimo de 1,9 bilhão de reais junto à Caixa Econômica Federal com o objetivo de fazer investimentos cruciais para garantir o crescimento e o desenvolvimento de Goiás.

O objetivo da negociação entre os governos do tucano Marconi Perillo e da petista Dilma Rousseff é, além de salvar a Celg, garantir a expansão da economia goiana, que, com seu agronegócio e empreendimentos industriais pujantes, contribui para o crescimento do país. Não se trata de uma jogada política. Trata-se de um negócio, de economia.

Porém, como “eleitoralizaram” o debate, cabem algumas indagações. Se a galinha de ovos de ouro é Cachoeira Dourada e não a Celg — que, mesmo nas mãos da Eletrobrás, pode continuar sendo uma máquina de produzir dívidas —, por que lutar para retomar a segunda e não a primeira? O que Iris Rezende tem a dizer sobre a pergunta, que já deveria ter sido feita pelos jornalistas?

Se Iris Rezende, um gestor capacitado e sério, preocupa-se de fato com a “alta política”, e não com a visão eleitoreira do processo, certamente vai apresentar uma ideia, exequível, para retomar Cachoeira Dourada dos chilenos. O que alegar? Não sabemos, mas Iris certamente sabe. Tido como administrador nato, além de ter trabalhado como advogado entre 1969 e 1982 — atuando até em casos famosos (como o julgamento de Nuri Andraus) —, o líder do PMDB certamente terá um plano para retomar Cachoeira Dourada.

Mais do que Ronaldo Caiado, que não tem experiência administrativa, Iris sabe que a Celg sem uma usina, como Cachoeira Dourada, para azeitá-la, para torná-la competitiva no mercado nacional de energia elétrica, é quase nada e dificilmente sairá da crise, com ou sem novos empréstimos. O que é preciso mesmo é a retomada da usina de Cachoeira Dourada, absolutamente mal vendida por um governo do PMDB. Se defender a reconquista da usina, sobretudo se apresentar uma ideia precisa de como fazê-la, então o eleitor saberá que Iris Rezende estará falando sério, e não fazendo política eleitoreira.

O que se exige de Iris Rezende, um homem de 80 anos e larga experiência, duas vezes prefeito de Goiânia, governador de Goiás por duas vezes, ministro da Agricultura e da Justiça e senador, é que permaneça sério e avesso a ações meramente eleitoreiras. Um pesquisador conta que o ex-prefeito de Goiânia é avesso a pesquisas e que acredita que pode chegar ao poder mais nos braços de Deus do que nos do povo. Porém, sugere-se aqui que examine com mais cuidado o que o eleitor está dizendo, nas pesquisas qualitativas e nas ruas de Goiás, sobre políticos que fazem críticas sobre possíveis equívocos dos adversários, mas não assumem os próprios erros. Se estivesse lendo o que dizem os eleitores nas pesquisas e nas ruas, Iris Rezende saberia que querem apoiar candidatos que apresentem alternativas efetivas para substituir quem está no poder — e não alternativas meramente de nomes. Não querem também ataques gratuitos e propostas que, embora bonitas no papel, não levam a lugar algum. Os eleitores cobram agendas positivas fundamentadas. A retomada de Cachoeira Dourada — embora difícil, pois demandará uma pendenga judicial extraordinária — talvez seja uma agenda positiva. Porque, como se sabe, a usina continua sendo uma galinha de ovos de ouro… dos chilenos. Mas, do ponto de vista eleitoral, é mais fácil discutir a Celg. O fato é que, se Iris Rezende fosse governador, faria o mesmo que está sendo feito pelo tucanato e pelo petismo. No poder, o PMDB fez pior: entregou uma geradora, Corumbá, e privatizou outra, Cachoeira Dourada. A federalização não é o mesmo que privatização e tem um motivo explícito: dar sustentabilidade ao desenvolvimento de Goiás e, por consequência, contribuir para o desenvolvimento do país. Daí o empenho dos governos do PT e do PDSB.

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Paulo Cesar Pc

Porque se disse isto, sera pura demagogia, e demagogia não é coisa de iris Rezende, pois foi o iris que construiu a quarta etapa de Cachoeira Dourada, portanto a privaticação da usina não foi obra de iris e nem do pmdb, e sim do determinação do Sr. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, que determinou a privatização te todas as autarquias em Goiás, portanto tá passando da hora ma média goiana ir ate o sr fernando henrique cardozo é lhe questionar sobre isto, e para com esta besteira de que foi o governo do PMDB que privatizou a usina, e saiba que manter… Leia mais