Polêmica sobre foto de Sergio Moro e Doria é artificial. O que importa é o combate à corrupção

O magistrado da Justiça Federal recebe prêmio em Nova York porque se tornou um símbolo do combate à impunidade dos poderosos. Discussão sobre fotografia é fofoca

O ex-prefeito de São Paulo João Doria e o juiz federal Sergio Moro, com suas mulheres Rosângela Doria e Bia Moro, em Nova York. O que diz a foto? Tem a ver com civilidade e sociabilidade, nada mais

“Uma imagem vale mais do que mil palavras.” A frase, de tão repetida, se tornou uma verdade do tipo incontestável. Será mesmo? O filósofo do humor Millôr Fernandes apresentou uma resposta tão boa quanto o aforismo: “Agora diga isto sem palavras”. Difícil, não é? Mas não se pode jamais desprezar a força das imagens. No Vietnã, mais do que os textos dos correspondentes — muitos deles denunciaram a atrocidade dos conflitos —, o que mais contribuiu para o fim da guerra, além da resistência dos comunistas, foram as fotografias de crianças queimadas por napalm jogado, de maneira indiscriminada, pelos militares dos Estados Unidos. Imagens, portanto, não são dispensáveis e, algumas vezes, têm o mesmo poder de denúncia e grau de informação dos melhores textos-libelos. Mas uma coisa é certa, até óbvia: até as melhores fotografias, aquelas que denunciam por si, precisam de legendas — quer dizer, da história escrita.

Colonialismo udenista

O Brasil participou da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) ao lado dos Aliados, notadamente dos americanos, na Itália. Vinte e cinco mil soldados e oficiais brasileiros contribuíram para derrotar o nazi-fascismo e dezenas de pracinhas foram mortos e feridos em combate, no qual lutaram bravamente. O presidente Franklin D. Roosevelt, dos Estados Unidos, se tornou um dos admiradores do presidente Getúlio Vargas e dos brasileiros. Em 1946, no governo de Harry Truman, o general Dwight Eisenhower visitou o Brasil. O deputado federal Otávio Mangabeira (1886-1960) — avô de Roberto Manga­beira Unger, professor de Harvard —, encarregado do discurso para homenageá-lo, saudou o militar que foi decisivo para a vitória das tropas aliadas na luta contra o nazismo de Adolf Hitler. Ao fazer a saudação, ajoelhou-se e beijou a mão do homem que, mais tarde, seria presidente dos EUA.

O deputado federal Otávio Mangabeira beija a mão do general Dwight Eisenhower. O gesto ficou como uma prova do sabujismo da UDN aos Estados Unidos, mas por que ignorar a história do democrata baiano?

O gesto de ajoelhar e beijar a mão de Eisenhower, visto como subserviente e caricato, provocou uma repercussão imensa. A foto sinalizava que um súdito, brasileiro, estava beijando a mão de um rei, americano. Um integrante da elite patropi mostrava que o colonialismo estava ativo. O País trocara apenas de senhor — Portugal pelos Estados Unidos. Otávio Mangabeira ficou carimbado como o político que se ajoelhara aos pés de um prócer da terra de William Faulkner.

Deixando de lado o som e a fúria da circunstância, deve-se concluir que Otávio Mangabeira era mesmo um político serviçal, como sugere a fotografia? Na realidade, a imagem não explica sua história.

Otávio Mangabeira foi deputado, governador da Bahia e ministro das Relações Exteriores do governo de Washington Luís, na década de 1920. Fundou a União Democrática Nacional (UDN), em 1945, como uma resposta liberal à ditadura de Getúlio Vargas — que governara o País de 1930 a 1945, sem eleições presidenciais. Como parlamentar, apresentou a emenda que reduziu o mandato do presidente da República de seis para cinco anos. Em 1946, quando o governo decidiu cassar o senador Luiz Carlos Prestes e cancelar o registro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), embora não fosse de esquerda, posicionou-se contra. “A nova democracia que procuramos estabelecer não é ainda uma árvore que dê abrigo e sombra; é uma planta tenra, que exige todo o cuidado para medrar e crescer”, disse. Quando parte da UDN queria impedir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek, o político baiano, contrariando aliados como Carlos Lacerda, defendeu a “pacificação nacional”. Mais uma vez, defendeu a democracia, sugerindo que, do contrário, “o que aí vem, inelutavelmente, é o governo militar”.

O deputado federal Barreto Pinto foi cassado por falta de decoro. Ele afirma que foi enganado pelo fotógrafo francês Jean Manzon e pelo repórter David Nasser. Hoje, sua cueca samba-canção passaria quase que como uma bermuda

Como morreu em 1960, Otávio Mangabeira não pôde ver a ditadura articulada pelos militares com o apoio de políticos da UDN, com Carlos Lacerda na comissão de frente (e logo depois cassado, porque confundiu ditadura com democracia).

A fotografia carimbou Otávio Mangabeira como sabujo — o que não era. Uma imagem, portanto, não deve balizar a história integral de um indivíduo. Mas por que, diabos!, o político tinha de ajoelhar e beijar a mão do general ianque?!

A quase-nudez castigada

No mesmo ano, em 1946, o deputado Edmundo Barreto Filho (1900-1972), ao ser entrevistado pelo repórter David Nasser — mestre do “jornalismo de invenção” —, posou de cueca samba-canção para o fotógrafo francês Jean Manzon (o cuecão, de tão grande, parece mais uma bermuda e a fotografia, se fosse publicada hoje, não incomodaria nem a mais pudica das pessoas).

Ao ser cassado pela Câmara dos Deputados, por falta de decoro, Barreto Filho disse que teria sido iludido pelos profissionais da revista “O Cruzeiro” (a “Veja” da época, em termos de circulação). Teriam lhe dito que não publicariam a fotografia inteira — o que não parece crível.
O que se aprende na relação entre políticos e jornalistas — que raramente podem ser amigos — é que não há ninguém inocente. Quando diz alguma coisa ao jornalista, mesmo se cobra segredo, o político quer, na verdade, ver a informação publicada. O que não quer, na maioria das vezes, é que a informação lhe seja atribuída. Há off da fonte, mas não há off para informação. Jornalista que guarda segredos deve mudar de profissão. Padre, quem sabe, lhe cai bem.

Sergio Moro e Doria

No Brasil, fica-se com a impressão de que não se compreende os papeis dos procuradores da República e dos magistrados. Juízes analisam processos, julgam e condenam ou absolvem os denunciados. Os procuradores, como os promotores estaduais, denunciam. Devem se cercar de informações objetivas porque no processo serão contestadas pelos advogados dos acusados e, se estiverem mal formuladas e com escassa documentação comprobatória, não serão levadas em conta pelos magistrados. Procuradores são “parte”, o que não resulta que devem propor denúncias estapafúrdias com o único objetivo de destruir a vida dos indivíduos, de queimá-los no mercado ou em termos pessoais. São obrigados a apresentar denúncias consistentes e fundamentadas. No processo, aceita a denúncia, os acusados poderão apresentar sua defesa — que será acatada ou não pela Justiça.

Nas redes sociais e em sites mal-intencionados há o costume de se sugerir que o juiz Sergio Fernando Moro, da Justiça Federal em Curitiba, “denuncia só políticos petistas, deixando de lado políticos tucanos”. Primeiro, juiz julga e condena, mas não denuncia. Segundo, para citar um caso, o processo do senador Aécio Neves, do PSDB, está no Supremo Tribunal Federal — portanto, fora da alçada do juiz que, não aceitando pressões, condenou o ex-presidente Lula da Silva à prisão. Cobrar posição de Sergio Moro a respeito do político mineiro é falta de informação e, sobretudo, decência.

Sergio Moro é um juiz exemplar. Além de sua independência, até agora total, é de uma competência extraordinária. Os processos que julga podem até ser questionados, e têm sido, mas raramente são tecnicamente refutados de maneira bem-sucedida. Há raras brechas — o que tem dificultado contestações equilibradas e não meramente retóricas. Como é rigoroso e não faz concessões, é vítima frequente de campanhas radicalizadas e difamatórias nas redes sociais e sites. É mostrado, não raras as vezes, como se fosse tucano — o que não é. Tucanos de proa provavelmente o detestam quase tanto quanto petistas o abominam. Magistrados íntegros, desses que não aceitam subornos e pressões, não são “amados” pelos políticos. Observe-se que as esquerdas — mesmo as que em tempos idos mas não muito distantes defendiam o combate à corrupção — se tornaram críticas das decisões do juiz federal.

Há uma nova campanha no ar contra Sergio Moro — orquestrada pelos mesmos defensores (diretos ou sutis) de Lula da Silva. Na terça-feira, 15, o juiz recebeu o prêmio Personalidade do Ano, da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, no Museu de História Natural, em Nova York. Trata-se de uma honraria respeitada nos Estados Unidos e, em tempos menos radicalizados, o magistrado estaria nas capas dos jornais e revistas com destaque e louvor. A Câmara de Comércio está dizendo, com a concessão do prêmio, que o combate à corrupção no Brasil conquistou a opinião pública mundial. Sergio Moro está sendo aplaudido, internacionalmente, porque está fazendo aquilo que todos os brasileiros apoiam (na prática, a maioria, ou retoricamente, a minoria): condenando políticos e empresários corruptos, que, ao longo dos últimos anos, têm assaltado, de maneira sistemática, o Erário.

Entretanto, no Brasil, Sergio Moro está sendo destaque, nos últimos dias, por uma fotografia em que aparece ao lado de João Doria, ex-prefeito de São Paulo. Ah, sim João Doria é do PSDB e pré-candidato a governador de São Paulo. O que a fotografia tem de monstruosa e em que devasta a reputação do magistrado?

A fotografia não desabona o juiz em nada. Primeiro, João Doria não é nenhum criminoso — é um cidadão que está disputando mandato de governador do Estado mais rico do País e não responde a processos por corrupção. Até onde se sabe, é um político limpo. Segundo, uma fotografia, desde que não seja ao lado de um narcotraficante ou de um político efetivamente corrupto (condenado pela Justiça), às vezes diz muito pouco sobre uma pessoa. Ao ser questionado a respeito da foto, o magistrado disse palavras apropriadas: “São circunstâncias diferentes, estar em um evento social e tirar uma foto, não significa nada, acho uma bobagem isso” (a polêmica). A fotografia só tem a ver com civilidade e sociabilidade — e nada a ver com alianças políticas e conluios.

No Brasil, quando não há fatos explosivos para as manchetes, pega-se o acessório, deixando de lado o essencial — a homenagem internacional ao duro combatente da corrupção —, e fabrica-se o título sensacional, incluindo a palavra “polêmica”. A fotografia acabou por se tornar mais “importante”, para os jornais tropiniquins, do que a homenagem em si, que, no fundo, honra mais o País do que o próprio juiz. A redução da impunidade, devido às ações de juízes autônomos, deve ser comemorada por todos, até, quiçá sobretudo, pela Imprensa. Está nascendo um novo País, sob os escombros do velho, e fica-se com a impressão de que os jornalistas permanecem usando lentes do passado para entendê-lo — ou melhor, para não compreendê-lo — e explicá-lo, ou não explicá-lo. “As instituições estão operando, e políticos foram responsabilizados por crimes cometidos”, acrescentou Sergio Moro.

É isto: está nascendo um País mais institucional, no qual as leis são cumpridas e poderosos, desde que criminosos, estão sendo condenados à prisão. Será que o inconsciente de alguns jornalistas — durante anos foram orientados para defender o poder — continua traindo-os? Será que não percebem que Sergio Moro joga ao lado dos que querem um novo País, com leis respeitadas por todos? Será que toda Imprensa quer a constituição de um País, em que viceje o império da Lei? Não parece. Avacalhar Sergio Moro não é nenhum exercício de liberdade de imprensa. É jogar contra o novo País.

3
Deixe um comentário

3 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
3 Comment authors
Adalberto de Queiroz

Parfait!

Arthur de Lucca

Juiz Dr. SERGIO FERNANDO MORO, tornou-se uma senha. Todos que tentam denegrí-lo, não resistem a uma investigação. São malandros, ou bandidos ou são chegados a ‘rolos’ ou coisas erradas. Só isso. Arthur de Lucca – Goiânia. Go. 21/maio/2018.

Gildo Silva

Me engana que eu gosto!