Pesquisas só provam que o eleitor não está preocupado com eleição neste momento

A sociedade está mais preocupada com a crise, o desemprego e o custo de vida cada vez mais elevado. O período da campanha será curto mas adequado para o eleitor avaliar os candidatos

Iris Rezende, do PMDB, e Waldir Delegado Soares, do PR: de matizes populistas, são os  políticos mais conhecidos, mas não há garantia alguma de que irão para o segundo turno. Vanderlan Cardoso, Adriana Accorsi, Giuseppe Vecci, Luiz Bittencourt e Francisco Júnior: eles não são muito conhecidos, mas, quando forem avaliados de fato, a tendência é que pelo menos um deslanche e vá para o segundo turno. São modernos e também apontados como gestores

Iris Rezende, do PMDB, e Waldir Delegado Soares, do PR: de matizes populistas, são os
políticos mais conhecidos, mas não há garantia alguma de que irão para o segundo turno. Vanderlan Cardoso, Adriana Accorsi, Giuseppe Vecci, Luiz Bittencourt e Francisco Júnior: não são muito conhecidos, mas, quando forem avaliados de fato, a tendência é que pelo menos um deslanche e vá para o segundo turno. São modernos e também apontados como gestores

Político inteligente e experimentado não “briga” com resultado das pesquisas de intenção de voto. Porque, assim como os pesquisadores, sabem que, na prática, registram estritamente o quadro do momento — com os políticos mais conhecidos geralmente em primeiro lugar. Iris Rezende, do PMDB, e Waldir Delegado Soares, do PR, são os nomes, mais do que aceitos, conhecidos dos eleitores.

Iris Rezende foi governador de Goiás, senador e prefeito de Goiânia. Só o governador Marconi Perillo, do PSDB, é tão conhecido quanto o veterano do PMDB. Embora apontado como “superado” por parte da sociedade, porque deixou de ser contemporâneo dos homens de “seu” tempo — sua linguagem é nostálgica, como se fosse “prisioneiro” das décadas de 1960, 1970 e 1980 —, é visto por outra parte como o tipo de administrador que, ainda que pouco criativo e inovador, “não deixa a peteca cair”. Quer dizer, faz o feijão com arroz — e só. O que é isto? Limpar a cidade, pagar os servidores e fornecedores, fazer asfalto nos bairros e tapar buracos das ruas.

Iris Rezende, de certa forma, governou como se Goiânia fosse não uma capital, e sim uma provinciana cidade do interior. O Centro Cultural Oscar Niemeyer deveria ter sido construído pela Prefeitura de Goiânia, porque beneficia essencialmente o município, mas foi edificado pelo governador Marconi Perillo.

Compare a arquitetura do Centro de Convenções de Goiânia, construído por Iris Rezende — trata-se de uma obra positiva —, com a arquitetura do Centro Cultural Oscar Niemeyer. O leitor perceberá que há duas visões de mundo e, portanto, de cultura. Observe detalhadamente o Centro de Convenções, por vários ângulos. Parece construção com um núcleo e vários puxadinhos. É de uma pobreza arquitetônica, uma ausência de visão artística, que impressiona.

Pode-se não gostar de nenhum dos dois, por razões partidárias, ideológicas ou idiossincráticas, mas Iris Rezende e Marconi Perillo são os dois políticos goianos com mais autoridade para “puxar” a sociedade para novos caminhos. Ocorre que, em termos de modernização, o peemedebista ficou para trás, embora tenha um imenso valor histórico, e o tucano permanece modernizando-se, atualizando-se. Sua ligação atenta com os jovens e sua percepção aguçada das mudanças econômicas, sociais e culturais indicam que não quer se tornar o Iris Rezende do PSDB. No mundo atual, com mudanças cada vez mais velozes, o desafio de todos, não só dos políticos, é permanecer atento ao que é moderno e não simulacro. O tempo devorou Iris Rezende em vida. Fica-se com a impressão de que Marconi Perillo tem um olhar mais atento para o fenômeno.

Porém, independentemente se “envelheceu” — e não se está falando em termos de idade, que isto, na prática, importa quase nada —, Iris Rezende é um nome referencial. Ele está aí — velho mas sólido. Um homem de 82 anos que está firme no batente, que planeja participar das lutas de seu tempo, é sempre bem-visto. No entanto, quando a campanha começar de fato, o que o eleitor vai avaliar é se suas propostas vão ao encontro do que pensa para a cidade e se vão surpreendê-lo positivamente. Se o peemedebista falar em asfaltar mais bairros e garantir que vai resolver o problema do transporte coletivo, ainda que em quatro anos, os eleitores vão ficar, por assim dizer, de orelhas em pé — desconfiados.

É preciso ressaltar que Iris Rezende, por sua história, tem um eleitorado, digamos, residual, quiçá cativo. Mas não se ganha eleição com este tipo de eleitorado — é preciso atrair eleitores que estão “soltos”, que não são controláveis nem manipuláveis, e que por isso podem mudar de candidato em pouquíssimo tempo, ao passar a avaliar as propostas em jogo e a credibilidade de cada um dos postulantes. Os eleitores voláteis, longe de inconsistentes, são os mais conscientes. Não se apegam a ideologias, a partidos, e sim observam e levam a sério ideias e projetos. Mas têm percepção precisa se as ideias e projetos são apenas “bonitos” e, por vezes, ilusórios.

Pelo que se disse, Iris Rezende está garantido no segundo turno? Não. Ninguém está. Pode ser que vá para o segundo turno com Waldir Soares, Vanderlan Cardoso, do PSB, Giuseppe Vecci, do PSDB, Adriana Accorsi, do PT, Francisco Júnior, do PSD, ou Luiz Bittencourt, do PTB. Pode ser que não vá para o segundo turno. Pode ser que Waldir Soares e mais um vão para a etapa final. Pode ser que Iris Rezende e Waldir Soares, políticos de matizes populistas, sejam excluídos da finalíssima. Em política, como sabem os políticos, a melhor certeza é a dúvida. Embora, para avançar, o mundo precise de certezas. Quem só tem dúvidas é improdutivo.

Waldir Soares

Como examinar Waldir Soares? Primeiro, é preciso dizer que o deputado federal e delegado de polícia não aprecia críticas e, por isso, processa jornalistas com frequência. Recorre à Justiça para retirar notas que são até leves a seu respeito — sem nenhuma agressividade, contando, não raro, com seu contraditório. Se faz isto como deputado federal, o que não fará se for eleito prefeito de Goiânia? Oxalá, no poder, não tenha vocação para ditador. O eleitor conhece a faceta de Waldir Soares avesso à crítica? Talvez não.

Marconi Perillo e Iris Rezende se tornaram políticos longevos porque souberam combinar popularidade e prestígio. Popularidade é volátil — ganha-se e perde-se com relativa facilidade. Mas prestígio é mais ou menos fixo. Por vezes, é o prestígio que ajuda o político a recuperar a popularidade. Quando um político perde prestígio, que seria a popularidade cristalizada, tornada pedra, dificilmente se mantém na crista da onda por muito tempo. Waldir Soares tem popularidade, é fato. Mas ainda não tem prestígio. Os eleitores ainda não o respeitam no sentido de admirá-lo por alguma coisa que fez de importante para a sociedade. Não há, por assim dizer, um cartel de realizações.

Se Waldir Soares é uma aposta no escuro, por que aparece em primeiro lugar, empatado com Iris Rezende, em pesquisa recentemente divulgada? Primeiro, porque trata-se mesmo de uma aposta no escuro. O eleitor, antes do processo eleitoral, o está bancando, mas sem saber de fato o que é, do que se trata. Diga-se, desde já, que se trata de um político sem mácula, até porque não tem passado, só presente e um presente ainda bem diminuto.

Segundo, o eleitor pode estar usando Waldir Soares — como poderia usar outro, e como já usou outros, em eleições passadas (já usaram até o rinoceronte Cacoreco e o macaco Tião) — para demonstrar sua profunda “irritação” com os políticos tradicionais. Waldir Soares certamente acredita que é o “sujeito” das ações, o responsável por sua popularidade, mas pode muito bem ser o “objeto” do sujeito-eleitor para posicionar-se contra tudo e contra todos.

O político que é “instrumento” dos eleitores precisa ficar muito atento. Por dois motivos. Primeiro, porque, se não ficar atento, se não constituir um projeto de longo prazo, poderá ganhar uma, duas e até três eleições, mas aos poucos vai sendo esquecido e, daí, abandonado pelos eleitores. O político que se torna uma espécie de resposta do eleitor a um momento dado — de profundo descontentamento — tende a desaparecer junto com a circunstância que o gerou. Segundo, o eleitor pode “escolhê-lo” para resposta, mas, se perceber, durante o processo eleitoral, que há uma resposta mais adequada, mais sólida e consistente, pode trocá-la.

Waldir Soares, insistamos, pode ser mais “objeto” do que “sujeito”. Espera-se que pense nisto mais como uma interpretação do que como uma crítica. O viés inteligente pode ajudá-lo a se tornar sujeito de fato. O que mais empobrece o homem é o elogio tosco e tolo. A vaidade é uma espécie de cova para vários políticos.

Voltando às pesquisas. Todas devem ser examinadas com atenção e dificilmente são falsificadas, porque os institutos ficariam desmoralizados, como alguns já ficaram. Mas é preciso entender que as quantitativas serão mais úteis quando os eleitores começarem a prestar atenção de fato ao processo eleitoral, aos candidatos e aos seus projetos. Sequer importa se a campanha será curta, pois o eleitor tem condições de avaliar os candidatos num curto espaço de tempo.

Hoje, a maioria dos eleitores não está avaliando os candidatos, porque só o faz de verdade quando conhece o que pensam para sua cidade. Damos aqui uma sugestão ao leitor: saia às ruas e pergunte ao eleitor quais são as duas principais propostas de Iris Rezende, Waldir Soares e Vanderlan Cardoso, para citar apenas três postulantes. Ele não saberá dizer, não porque seja mal informado, e sim porque os candidatos, apresentados como pré-candidatos, ainda não reuniram suas ideias e projetos num corpo único. Estão falando vagamente de trânsito, segurança pública, transporte coletivo, saúde, mas não especificamente sobre o tema “x” ou “y”. No fundo, os políticos nem estão sabendo como abordar o eleitor da atualidade, cada vez mais arredio, bem informado e checador (o celular-computador, com o Google e as redes sociais, é uma “arma” mais poderosa do que a pistola de Waldir Soares).

As pesquisas quantitativas não dizem, nem têm condições de dizer, o óbvio: agora, os eleitores não estavam avaliando candidatos, e sim nomes. Neste momento, os políticos são vistos mais como celebridades e não-celebridades. As pesquisas qualitativas, por outro lado, estão sugerindo que o perfil do prefeito que o goianiense quer não é o de Iris Rezende nem o de Waldir Soares. Querem um gestor? Querem. Mas um gestor que seja criativo, moderno e que seja audacioso. Alguém acredita de verdade que Waldir Soares é este tipo político?

Neste momento, a sociedade brasileira está mais preocupada com a crise, com o desemprego, com o custo de vida cada vez mais elevado. As pessoas estão interessadas em viver da melhor forma possível e a política, embora importante, não é o centro de suas atenções. Quem deve fazer política o tempo inteiro são os políticos. Os eleitores têm seu próprio tempo. É o recado das pesquisas, notadamente das qualis.

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