O próximo presidente da República do Brasil pode ser o palhaço Tiririca?

Espera-se que não. A ditadura destruiu vários políticos, com o objetivo de acabar com a corrupção. Não acabou. A democracia está destruindo outra geração. Para colocar quem no poder?

Foto: divulgação

Os tenentes de 1930, os que derrubaram o presidente Washington Luís, impediram a posse do presidente eleito, Júlio Prestes, e “entregaram” a Presidência da República a Getúlio Vargas, se tornaram políticos, sobretudo a partir de 1945. Mas chegaram ao poder, de fato, com o golpe civil-militar de 1964. Nesse ano, com o apoio de civis golpistas, como as vivandeiras Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, derrubaram o presidente João “Jango” Goulart e colocaram o general Castello Branco, homem de rara decência, no comando do país. Os civis da UDN, depois reformada como Arena, ficaram contentes, pois contribuíram para arrancar do poder a dobradinha PTB-PSD.

Mas as raposas civis, governistas e oposicionistas, não entenderam de imediato que os militares haviam retirado um civil, não para, em seguida, substitui-lo por outro civil, ainda que aliado.

Os militares queriam, agora, o poder para si, subordinando os civis aliados e paralisando, via cassações e pressões, os civis da oposição, instalados no MDB. O resultado é que alguns civis da Arena, os que queriam o poder para si, acabaram cassados pelos generais. Tal é o caso de Carlos Lacerda, que interpretou mal, como Magalhães Pinto, as pretensões dos homens das casernas.

No poder, os militares pretendiam limpar o país da “corrupção”, da “indisciplina” e da “incompetência” dos civis. Governaram o país de 1964 a 1985, com cinco generais-presidentes — Castello Branco, Costa e Silva, Emilio Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo. Perguntado por pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas por que decidiu “matar” a ditadura, Ernesto Geisel admitiu que o regime civil-militar havia se tornado uma “bagunça”. Praticamente a mesma “anarquia” do pré-1964. Militares não são seres divinos, infensos a desejos. São homens que vestem farda. No geral, são como os civis. Os presidentes-generais, em termos de probidade administrativa, eram decentes, assim como o presidente Getúlio Vargas. Mas, como no governo de Getúlio Vargas, havia malfeitos nos governos militares.

Não se pode afiançar que o país não avançou nos 21 anos da ditadura, pois a modernização é inegável. Mas os militares não “devolveram” um país “perfeito”, limpo de malfeitos, como pretendiam em 1964, quando assumiram o poder. Com a ressalva de que, ao esmagarem uma geração de políticos civis — todos colocados na mesma arca de Noé, pois seriam “incompetentes” e, até, “corruptos” —, como Juscelino Kubitschek, do PSD, e Carlos Lacerda (excelente governador da Guanabara; portanto, não era um mero polemista), da UDN, o que colocaram no lugar? Quase nada. Na ditadura, mesmo administrando uma oposição controlada, brilharam Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, para mencionar apenas dois nomes. Ambos eram do MDB. Na situação, não há como não mencionar Bilac Pinto, Milton Campos e Petrônio Portella. Podem ser citados mais alguns, mas não muitos. A ditadura castrou uma geração de políticos, impedindo que os melhores tanto da Arena quanto do MDB dessem o melhor de si. Podiam ser senadores e deputados, mas, eunucos políticos, não podiam ser presidentes da República.

Com o fim da ditadura, assumiu o poder um político cevado pelos militares, José Sarney, numa prova de que houve mesmo uma conciliação pelo alto, sem a participação da sociedade, entre os que saíam, os militares, e os que chegavam, alguns civis. Há quem sugira que o governo de Sarney, dado seu vínculo anterior, foi o último do governo dos militares. Tanto que o general Leônidas Pires Gonçalves, participante na linha de frente da ditadura, pode ser considerado como uma espécie de “regente” do governo do político maranhense.

Como a velha guarda havia sido praticamente destruída, por cassação e, finalmente, porque havia envelhecido, o que sobrou para a primeira eleição de 1989? Dos políticos pré-1964, Leonel Brizola, que, goste-se ou não de suas ideias, era mesmo um grande político, Ulysses Guimarães, Mário Covas e Aureliano Cha­ves. Todos de valor, mas pouco cotados. Dos novos políticos, Lula da Silva e Fer­nando Collor — ambos, na época, sem o preparo adequado para governar um país como o Brasil.

Fernando Collor, embora eleito pelo voto popular, era filho da ditadura, inclusive com pose de militar. Havia duas diferenças entre o civil e o general João Figueiredo: o primeiro era (quando presidente) mais jovem e bonito. Mas o discurso de ambos era parecido. Um, num governo discricionário, prendia e, se quisesse, arrebentava. O outro, num governo democrático, não prendia nem arrebentava, mas a linguagem era “militarizada” (queria “acabar” com os marajás, como se isso fosse possível com uma canetada, com um decreto). Ficava-se com a impressão de que, para Fernando Collor, a sociedade civil e a sociedade política não tinham a menor importância. Imperial, ao estilo de Benito Mussolini, embora não seja fascista, sugeria que estava acima de tudo, até da Constituição. O presidente caiu menos devido à denúncia de que havia corrupção em seu governo, com a participação de PC Farias, e mais por causa da sua profunda desconexão com o Brasil real, o que inclui os políticos. Faltava a Fernando Collor a ambientação democrática que, com ou sem “bagunça”, o país viveu entre 1945 e 1964. Na democracia quem “submete” as pessoas são as leis — não os políticos que se consideram Napoleões. Frise-se que, neste sentido, a ex-presidente Dilma Rousseff é parecida com Fernando Collor, mas Lula da Silva não o é. O petista-chefe é mais aberto ao diálogo, relacionando-se com os homens-políticos reais de seu tempo. Dilma Rousseff, como certos marxistas, dialogava mais com fu­turo do que com o presente. Mas não se vive no futuro, vive-se no presente, ao lado dos homens possíveis. Não há homens escolhidos. A produção de uma geração de “ho­mens institucionais”, que respeitam e acatam as leis, depois de uma ditadura, leva décadas. Porém, mesmo “ho­mens institucionais” não são perfeitos.

No momento, depois de um conluio mafioso entre a sociedade política e parte da sociedade civil — no caso, empresários como Marcelo Odebrecht e Joesley Batista —, assiste-se a implosão dos políticos e da política. Não há sociedade democrática sem políticos, com defeitos e virtudes, e sem política. O início deste Editorial versa sobre a ditadura de 1964, que castrou uma geração de políticos relevantes, como Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, e abriu as portas para políticos medíocres. O resultado é que o primeiro político eleito pelo voto direto não era um grande político, e sim um jovem provinciano apresentado — numa confusão, talvez propositada, entre conteúdo e forma (pose) — pela imprensa como cosmopolita.

O que se está dizendo é que a destruição de uma geração política, com o objetivo de construir uma sociedade política depurada ou mais depurada, nem sempre gera uma geração política melhor, mais qualificada. O leitor desavisado certamente pensará que se está, neste texto, defendendo os políticos que se corromperam, ao lado de empresários — que, ao fazerem delação premiada, posam de santos e vítimas —, e condenando a Operação Lava Jato. Pode até parecer. Mas não é isso, não.

A Operação Lava Jato é importante e contribui para mostrar aos indivíduos que ninguém está acima da lei. Uma sociedade só é civilizada e democrática de verdade quando aceita que a lei é igual para todos. Neste sentido, a Lava Jato, com o impecável juiz Sergio Fernando Moro, merece o aplauso de todos. O que está se postulando, portanto, não é sua condenação. O que está se sugerindo, num tom moderado — “decibéis” abaixo do tom das redes sociais, cada vez mais violentas e selvagens na pregação de uma sociedade justa e moderna —, é que a destruição de uma geração política não resulta, necessariamente, numa geração política muito melhor.

O próprio Lula da Silva deve ser visto como a “desgraça da humanidade”, devido ao sítio de Atibaia e ao tríplex do Guarujá, símbolos do suposto enriquecimento ilícito? É provável que, quando puder ser julgado de maneira mais equilibrada, sopesando virtudes e defeitos de seus dois governos, o resultado não lhe seja tão adverso. É preciso avaliá-lo hoje, é claro, e até com rigor. Mas o julgamento mais amplo, o histórico, dificilmente pode ser formulado agora, dada a passionalidade das circunstâncias, aos nervos à flor da pele, tanto dos que lhe são contrários quanto dos que lhe são favoráveis. A razão é senhora do tempo e o tempo é o senhor da razão (Fernando Collor, ao menos com a frase, aqui ampliada, não está equivocado).

Retirados Lula da Silva, Geraldo Alckmin, José Serra, Aécio Neves, o que temos de melhor? O país vai se “entregar” para quem? Para Jair Bolsonaro, um Fernando Collor piorado? Para Marina Silva, decente, mas inexperiente? Para João Dória Júnior, que ninguém sabe exatamente o que é (um governo de cinco meses não credencia ninguém para ser presidente de uma nação como o Brasil)? Para o decente Joaquim Barbosa, que, sem experiência no trato com os políticos, seria “devorado” por eles, como Fernando Collor? Para Ciro Gomes, espécie de fusão de Brizola com Fernando Collor, mas sem as virtudes do primeiro? Frise-se que, para administrar um país, não basta ser decente, é preciso ser competente, ter uma visão de Estado e saber articular com a sociedade política e com a sociedade civil.

A ditadura destruiu os políticos e a democracia está fazendo o mesmo e sem colocar nada no lugar. O vazio político pode levar ao poder, sabe-se lá, um Tiririca? Oxalá não. Mas há Tiriricas que fizeram curso de verão em Harvard, mas não deixaram de ser Tiriricas…

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Luciano Almeida

A adoção do Parlamentarismo – com o voto distrital misto – é uma alternativa que deve ser condiderada, ou estaremos sujeitos a mais um governante que deverá “negociar” apoio no Congresso. Sabemos como isso começa e termina. O modelo atual, está provado, não funciona: apoios de partidos são vendidos sem pudor algum por políticos eleitos pelo poder econômico. Foi assim nos governos Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma e Temer. E deu no que deu. Afinal, todos os políticos que “compram” mandatos entendem que podem – e devem – vender o “apoio”; só diferem no preço, a cada dia mais inflacionado.… Leia mais

ADALBERTO DE QUEIROZ

Monarquia, já!