O populismo na política brasileira começa como farsa e termina em tragédia

Jânio Quadros e Fernando Collor são exemplos de políticos milagreiros que iludiram os eleitores. No momento, há políticos seguindo o mesmo caminho, e, se eleitos, tendem a decepcionar

Imagem: Pintura de Chris Mars

Espécie de PT da direita, a União Democrática Na­cio­nal (UDN) era excelente no discurso — o jornalista Carlos Lacerda era um de seus próceres — e péssima em termos de voto. Bancou candidatos contra Eurico Gaspar Dutra, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek e perdeu três eleições presidenciais seguidas. Na sucessão de JK, como não tinha um candidato competitivo, optou por bancar o outsider Jânio da Silva Quadros, governador de São Paulo. Havia uma espécie de ilusão de que o homem que prometia varrer a corrupção — para sempre, como se isto fosse possível — poderia, uma vez instalado no Palácio do Planalto, em Brasília, ser controlado pela intelligentsia política udenista.

Jânio Quadros, o professor de português que erigia frases do tipo “fi-lo porque qui-lo” e “bebo porque é líquido, se sólido fosse, comê-lo-ia”, era um outsider incontrolável, mas uma das principais ilusões humanas é acreditar que pessoas e circunstâncias históricas podem ser totalmente controláveis. As religiões seculares, como o marxismo, postulam que, por meio do planejamento, é possível construir uma sociedade sem fissuras — o que, claro, não é possível. Jânio Quadros, populista da estirpe dos que misturam ideologias contraditórias sem se tornar representante de nenhuma delas, queria mandar, não como democrata, e sim como ditador — uma espécie de Getúlio Vargas meio faquir. Carlos Lacerda, homem de inteligência fina e ferina, subestimou aquele que, tempos depois, acabou sendo chamado de “uisquezofrênico” — teria visto, sem que outros vissem, forças ocultas num litro de uísque escocês, desses de 18 anos.

Ilustração de Igor Morski

No poder, que revela o político, Jânio Quadros decidiu mandar, à revelia da UDN e de políticos como Carlos Lacerda. Aos poucos, dizendo-se pressionado, o presidente começou a se afastar de alguns udenistas, como o jornalista conspirador. Em 1961, no fatídico mês de agosto, renunciou à Presidência da República. No fundo, era uma renúncia “provisória”, pois o político pretendia voltar ao comando do País — nos braços do povo e ancorado nas armas dos generais e dos coronéis. Mas os políticos, que não apreciavam a relativa independência do outsider, decidiram pespegar um golpe e aceitaram a renúncia e, por meio de um pacto faustiano, empossaram o vice, João “Jango” Goulart.

O outsider estava fora do poder, assim como a UDN. O milagroso Jânio Quadros, ao renunciar, contribuiu para gestar a crise que, em 1964, levou ao golpe de Estado contra João Goulart (pai de João Goulart Filho que, em 2018, é candidato a presidente da República, pelo PPL). O populismo brejeiro, que se propõe resolver todos os problemas, de maneira mágica — como a literatura de García Márquez —, acabou por levar o País à ditadura dos generais, como Castello Branco e Artur da Costa e Silva, e dos civis, como Magalhães Pinto, Bilac Pinto, Roberto Campos, Pedro Aleixo, José Maria Alkmin, Petrônio Portela, Mario Henrique Simonsen, Daniel Krieger, Luís Antônio da Gama e Silva, Leitão de Abreu. O historiador (ou jornalista) perdoa os civis quando se referem à ditadura meramente como militar — talvez para realçar sua feição sombria e brutal. Mas sobretudo a política fazendária, o planejamento e o arcabouço institucional — cernes de qualquer governo — couberam a civis. A proposta de um civil para o AI-5 era ainda mais dura do que a aprovada por Costa e Silva.

Ilustração de Igor Morski

Vinte e oito anos depois da renúncia de agosto de 1961 surge o Jânio Quadros, afiançam, sem caspa — com o propósito de, mais uma vez, salvar a pátria e levar o povo para o paraíso. Ao assumir o governo, em 1990, Fernando Collor de Mello (nasceu em 1949, como o senador Ronaldo Caiado e o ex-governador Maguito Vilela) tinha meros 40 anos. Era praticamente um garoto — bonito, viril e altivo. Era um político duro e prometia ser uma espécie de novo Moisés, cujo objetivo era levar os brasileiros a um porto seguro, ou ao menos a ter automóveis que não mais seriam, dizia o presidente, carroças mecanizadas. A abertura do mercado contribuiu para a modernização de parte da indústria patropi — o que se deu acentuadamente na automobilística. A entrada de veículos japoneses e europeus abriu os olhos dos brasileiros, que se tornaram mais exigentes.

Pesquisa do Datafolha, divulgada em março de 1990, revelava que 71% dos eleitores acreditavam que o governo de Fernando Collor seria “ótimo” ou “bom”. Havia um otimismo em correnteza — não em gotas — com o presidente que exalava saúde e vigor. Consta que, quando alguém se aproximava do gestor energético, ficava logo com vontade de ir à academia — para correr 1989 quilômetros e fazer 1961 abdominais. Mas, enquanto o presidente sugeria que se teria no Brasil uma geração de atletas — jornalistas, afeitos a cerveja e feijoada, se tivessem uma pancinha, não conseguiam acompanhá-lo —, seus aliados, como Paulo César Farias, o mais emblemático dos mãos-leves, assaltavam o Erário à luz do dia. Empresários eram achacados livremente — sem nenhuma espécie de pudor.

Ilustração de Igor Morski

O que Fernando Collor esqueceu — assim como, mais tarde, o consórcio PT-MDB-PR-PP — é que, com a democracia ple­na, volta-se a se ter uma im­prensa livre, cáustica, quase uma UDN do papel, da imagem e da fala. As ações de Paulo César Farias, o batedor de caixa forte — que havia sido batedor de carteiras na terra de Graciliano Ramos —, que nada tinha a ver com “Vidas Secas”, e sim com vida gorda, começaram a ser descritas pelos jornalistas críticos e livres da tutela do Estado. Quan­do sofreu o impeachment, em 1992, a aprovação do presidente, o milagreiro que decepcionou os brasileiros, caíra a meros 9%.

Os brasileiros descobriram, a duras penas, que milagreiros existem, mas milagres são ficções criadas para iludir os que querem ser iludidos. Por isso, votaram num político racionalista, não populista, em 1994 — Fernando Henrique Cardoso, que, ainda no governo de Itamar Franco, o presidente decente que substituíra Fernando Collor, ajudou a implantar o Plano Real, que estabilizou a economia. Ao assumir o governo, em 2003, Lula da Silva — apesar de tudo, um grande político, com uma história maior do que a história da corrupção — rezou pela cartilha de FHC e convocou dois realistas para auxiliá-lo na economia: Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, e Antônio Palocci (um dos melhores quadros do PT, dado, porém, a bater caixa forte), ministro da Fazenda. Juntos, Meirelles e Palocci fizeram, na primeira gestão do petismo, uma espécie de terceiro governo tucano — o que resultou no equilíbrio da economia. Mais tarde, ao “inventar” Dilma Rousseff — esquecendo-se que um político não deve ser apenas gestor, precisa também ser político mesmo —, Lula da Silva e o PT deram com os burros n’água. A “presidenta” era uma espécie de Fernando Collor misturada com José Serra e, diria a grande historiadora americana Barbara Tuchman, não aprendera, como muitos políticos que se tornam poderosos quase do nada, a ouvir. O fato é que o “experimento” do PT — o milagre do social — chafurdou na lama.

Ilustração de Igor Morski

A democracia brasileira tem a idade de Jesus Cristo quando morreu — 33 anos. É jovem. Saiu da adolescência há pouco mais de 10 anos. No momento, o eleitor assiste — porque não está participando da pantomina, exceto de maneira indireta — às campanhas eleitorais de Jair Bolsonaro (que luta pela vida num hospital, depois de esfaqueado), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB), Fernando Haddad (encarnação de Lula com cara tucana), Álvaro Dias (Podemos), Henrique Meirelles (MDB) e João Amoêdo (Novo). São todos iguais? Não são.

O que está — e, de fato, não é, por que interesses e expectativas são distintas — igual é o eleitor. Os eleitores estão indignados. A indignação não é mau começo para o início de uma ação, mas é ruim quando vista como fim. Porque a indignação pura e simples às vezes resulta do medo — do desconhecido (a quarta revolução industrial bate à porta, avisando que, se gera outros modelos de empregos, que exigem outro tipo de qualificação, é uma devoradora de empregos. Paradoxalmente, o desemprego surge, neste momento, não do insucesso, e sim do sucesso da economia) — e do desespero. Tal irracionalidade, que existe inclusive em meios intelectualizados, cria esperanças quiméricas em salvadores da pátria, dos quais Jair Bolsonaro não é o único exemplo, mas é o que galvaniza as maiores fantasias — assim como Ciro Gomes, talvez pela macheza explícita e pelo voluntarismo, catequiza notadamente os jovens, órfãos do lulopetismo.

Pintura de Salvador Dalí

O medo e o desespero reforçam a musculatura de candidatos, como Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes, o “essepecista”, que, prometendo salvar todos — como se o Estado pudesse gestar uma arca de Noé do social —, não salvam nem a si próprios. Se chegou até aqui, releia o que se disse de Jânio Quadros e Fernando Collor. Em termos de gestão, ideias revolucionárias — os populistas precisam de ideias grandiosas para galvanizar o apoio da sociedade — levam mais à inação do que à ação. É na rotina, em tempos pacíficos, que se desenvolvem grandes civilizações. Quando começam a inventar demais, em termos de experimentos políticos, sociais e comportamentais, as sociedades começam a naufragar. Observe que políticos não dados ao irracionalismo — Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Fernando Haddad, João Amoêdo e Álvaro Dias — são vistos como “insossos”. Dizer que um político é chato e provoca sono não é argumento — é, sim, uma opinião de quem não observa com atenção o que os candidatos dizem —, mas uma coisa é certa: o populismo começa como farsa e termina em tragédia. Reflita. Reflita. Reflita. Talvez acabe por perceber que políticos que não gritam podem ser mais qualificados do que os que gritam.

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