O nacional não determina política de Goiás. Por isso Marconi e Iris tendem a se enfrentar

O quadro político ainda não está inteiramente definido. Mas o governador tucano e o ex-prefeito peemedebista são os favoritos para a disputa. O empresário Júnior Friboi pode ter errado ao apostar na determinação nacional. A pressão contra o prefeito Antônio Gomide é mais local do que federal

editorial

Marconi Perillo e Iris Rezende: os dois são as principais raposas políticas de Goiás. Fica-se com a impressão que, do ponto de vista dos eleitores, se quer ver o tira-teima entre o tucano e o peemedebista

O leitor desavisado às vezes pensa que a política dos bandeirantes, deixando de ser um fato de uma história longínqua, permanece. A política local, de alguns Estados, teoricamente seria determinada nacionalmente. Ledo engano. Pode ser que, de vez em quando, um partido, como o PT, subordina-se à determinação dos políticos ditos nacionais para aceitar uma aliança que, a rigor, não combina com seu ideário. Mas no geral a política nacional não interfere em Goiás, exceto, é claro, nos tempos da ditadura civil-militar. Antes de analisar o caso Antônio Gomide e também o contencioso entre Iris Rezende, a determinação local, e Junior Friboi, a suposta determinação nacional, examinemos o quadro de 1998.

Em 1998, há dezesseis anos, ninguém queria disputar contra Iris Rezende. Os alfaiates políticos já estavam preparando o terno para a terceira posse do peemedebista no governo de Goiás. Da pequena e culta Inhumas, devido ao receio de outros líderes, o deputado federal Roberto Balestra lançou-se candidato a governador. Era candidato para perder, para cumprir tabela — só para Iris não ganhar por w. o. Os demais líderes queriam disputar mandato de deputado federal ou de deputado estadual. Ninguém queria “perder” — é lógico. Percebendo a força de seu ex-ministro Iris, o presidente Fernando Henrique Cardoso, com o apoio de Serjão Motta, planejou uma saída honrosa para o seu PSDB. Sugeriu que Iris “permitisse”, repetindo uma aliança nacional — o PMDB está se tornando uma espécie de PRI tropicalizado: nunca sai do poder, qualquer que seja o grupo que está no mando político —, que o PSDB indicasse o candidato a senador.

Com quase 80% das intenções de voto, Iris ouviu a sugestão do grupo de FHC, mas seus aliados, avaliando que não precisavam do PSDB, decidiram vetar a coligação. Na verdade, disseram mais ou menos assim: “Senado, nem pensar. Que tal uma secretaria?” Nada de secretarias da Fazenda e do Planejamento. Uma secretaria do segundo time, quiçá uma “extraordinária”.

Aí, com a humilhação evidenciada, as oposições decidiram se reagrupar e um jovem, então com pouco mais de 30 anos, com cara de menino, saiu da sombra e disse: “Quero ser candidato”. A decisão do garoto chocou a situação e as oposições. Não porque fosse politicamente forte, e sim por não ter expressão política regional. Era deputado federal pelo PSDB, articulado, agressivo e inteligente, mas não era, por assim dizer, nem mesmo o “novo”. Em suma, no início, era praticamente “nada”.

Ao perceber a determinação do “menino”, como era conhecido em Brasília, Serjão Motta teria dito: “Tudo bem, se perder, você ganha um cargo no governo federal”. Era, então, visto como um candidato para fazer figuração.

Como a vida sempre trai convicções arraigadas, com os indivíduos mostrando-se mais avançados do que se costuma pensar — os seres humanos são, às vezes, mais conservadores no discurso do que na vida real do dia a dia —, o garoto Marconi Perillo pôs-se em campo, ao lado de desconfiados e desacorçoados aliados. Na campanha, nas caminhadas e comícios, passaram a chamá-lo de “o moço da camisa azul”. Era uma forma de identificá-lo e, assim, torná-lo mais conhecido. Em mais de uma cidade, depois de ouvi-lo — seu discurso era articulado, corrosivo e rebelde —, homens e mulheres do interior diziam, estupefatos: “Esse aí não ganha de Iris, não. Mesmo assim, vou votar nele”. Era quase um mantra. Em Brasília, uma ilha que o político e escritor francês André Malraux um dia chamou de “capital da esperança”, o alto tucanato dava pouca importância a Marconi e muito menos à cor de sua camisa. Na verdade, lamentava que estivesse “atrapalhando” a aliança com o PMDB de Iris.

O moço da camisa azul, extremamente perceptivo, começou a captar que, sim, Iris era o favorito de uma maneira, digamos, inercial. Votava-se nele, não por suas qualidades, que existem — é um gestor eficiente —, e sim porque, enfim, ia ganhar mesmo. Mas, como se disse acima, as pessoas diziam, cada vez mais: “Iris vai ganhar, mas vou votar no menino”. A partir das impressões colhidas em todo o Estado, aos poucos analisadas e sedimentadas por um marketing político apurado e afiado, o jovem da camisa azul percebeu que, sim, era possível derrotar o ícone.

A eleição de Marconi em 1998 é a prova de que, na política e na vida, quase tudo é possível, desde que se tenha arrojo, coragem e competência. Mas é preciso desafiar o coro dos contentes e os contentes, ou acomodados, estão em todos os lugares — entre os aliados e entre os adversários. O indivíduo só muda mesmo quando percebe que as coisas estão mudando e que, por isso, não pode ficar para trás. Em 1998, com o moço da camisa azul, aconteceu mais ou menos assim. Na falta de melhores palavras para explicar o que aconteceu, ainda que resida aí certa imprecisão conceitual, talvez seja adequado usar a expressão “inconsciente coletivo”. Por incrível que possa parecer, Iris não era o “velho”, porque é um modernizador, ainda que de matiz populista — o que parece, mas não é, uma contradição —, e Marconi era o novo ma non tropo. Porque o novo, em política, não se define apenas pelo indivíduo que disputa o governo. A aliança de Marconi era uma combinação do “novo”, o moço da camisa azul, com políticos absolutamente tradicionais — e isto, adiante, provocou quase uma implosão da base governista. A modernização da máquina pública — adoção da meritocracia e de controles institucionais, não políticos — esbarra nas forças tradicionais.

Gomide versus Garcia

O PT, como se sabe, fez uma opção pelo controle do poder federal. Porque a política das províncias, com seus deputados federais, senadores, governadores e prefeitos, depende dos formidáveis recursos do governo instalado em Brasília. Assim, numa espécie de pacto faustiano, o PT aliou-se às correntes progressistas e conservadoras para governar o Brasil. Nos Estados, exceto em poucos casos, como Bahia e Sergipe, mandam as velhas elites, no poder às vezes há décadas, sem nenhum contestações dos reds do PT.

Em Goiás, porém, talvez dada sua fraqueza inicial, o PT quase sempre teve liberdade de ação, lançando candidatos a governador em quase todas as eleições. Mas o PT de 2014 não é o mesmo PT de anos atrás. Agora, o partido tem os prefeitos das duas cidades mais importantes de Goiás — o de Goiânia, o médico Paulo Garcia, e o de Anápolis, o dentista Antônio Gomide. É um partido forte, claro que apenas nas grandes cidades.

Na eleição de 2010, o PT submeteu-se ao PMDB de Iris Rezende. Agora, tanto Iris Rezende quanto Júnior Friboi, os dois pré-candidatos a governador do PMDB, pressionam o PT para lançar o vice ou, sobretudo, o candidato a senador. Porém, administrando Anápolis de modo competente, daí ter uma certa popularidade — seria o novo com capacidade de gestão —, Gomide está ruas e nos jornais do Estado anunciando-se como candidato a governador. Frisa que não deixa a prefeitura para ser vice — ou candidato a senador — de quem quer seja. Parte do PMDB divulga a tese de que, se o candidato a governador for Iris, Gomide aceita compor. Ele seria pressionado nacionalmente. No entanto, Gomide tem dito que será candidato, independentemente do nome do candidato do PMDB.

Fica-se com a impressão, dadas reportagens e notas de jornais, que a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula da Silva vão pressionar Gomide para compor com o PMDB. A pressão é possível, sim. Mas a pressão primeva seria mesmo nacional? Não. A pressão é local. Parte do PT, capitaneada pelo prefeito de Goiânia, Paulo Garcia, prefere manter a aliança com o PMDB de Iris, ou mesmo o de Friboi, por objetivos mais estratégicos do que oportunísticos.

Ao grupo de Paulo Garcia interessa sobretudo manter o controle da Prefeitura de Goiânia. Se Gomide sai candidato a governador, ganhando ou perdendo, o PMDB, para manter algum poder, provavelmente vai lançar candidato a prefeito de Goiânia, aliado ou contra o PT, em 2016. Ao mesmo tempo, o grupo de Paulo Garcia acredita que a aliança com o PMDB é vital para tentar derrotar o governador Marconi Perillo. Como se disse, não é oportunismo. É realpolitik.

Portanto, os principais adversários à candidatura de Gomide estão no próprio PT, mas não no nacional, e sim no local. A determinação nacional, pois, é uma ficção. Mas, como está sendo acionada — e Iris sempre apresenta como trunfo extra o fato de ter o apoio do petista Paulo Garcia —, a cúpula nacional pode, sim, determinar ou orientar por uma aliança entre PT e PMDB, sacrificando um político jovem e em ascensão como Gomide.

Políticos tradicionais e mesmo jornalistas às vezes não conseguem entender o PT. Trata-se de um partido moderno e orgânico. Por exemplo: se ficar decidido que Gomide é candidato a governador, Paulo Garcia vai apoiá-lo. Fala-se que poderá cruzar os braços. Não procede. O PT não funciona assim. O prefeito de Goiânia pode até não se apresentar muito “animado” na campanha, mas certamente será uma voz ativa, participando dos comícios, encontros. Agora, se ficar decidido que o PT vai compor com o PMDB, apoiando Iris ou Friboi, Gomide também se empenhará na campanha. A organicidade do PT, com as teses do partido acima das questiúnculas pessoais, ainda é mal compreendida por seus adversários. Mas sua força é oriunda, em grande parte, disto.

Gomide quer ser candidato, apresenta-se como o novo, como agente da mudança, mas sabe que precisa de um mínimo de estrutura política — o que Marconi tinha em 1998. Sozinho, insulado, pode-se tornar boi de piranha. A devastação do novo, do seu novo, não será positiva para o PT. Tanto Gomide quanto Paulo Garcia sabem disso. Mas há um truísmo: time que não joga não tem torcida. 2014, dependendo das circunstâncias, pode ser o Céu ou o Inferno para Gomide e, mesmo, para o PT. Em 2018, sem ter disputado em 2014, o PT certamente estará mais fraco, sem expectativa de poder. Gomide, se permanecer na prefeitura, ficará fora do poder entre 2017 e 2018 — um tempo muito longo — e poderá ser “esquecido”. A expectativa criada em 2014 poderá não se repetir daqui a quatro anos.

Júnior Friboi e Antônio Gomide: o primeiro tentou determinar a política local pela força nacional do líder Michel Temer. O segundo sofre mais pressão do PT de Goiânia do que do PT nacional

Júnior Friboi e Antônio Gomide: o primeiro tentou determinar a política local pela força nacional do líder Michel Temer. O segundo sofre mais pressão do PT de Goiânia do que do PT nacional | Fotos: Renan Accioly

Iris versus Friboi

O presidente americano Franklin D. Roosevelt, por ter recuperado a economia dos Estados Unidos — arrancando o país de uma depressão feroz (com o apoio de um homem sensacional, Harry Hopkins, infelizmente pouco conhecido) — e por ter colaborado para derrotar o nazista Adolf Hitler, da Alemanha, legou às sombras outro presidente forte, seu parente Theodore Roosevelt. Ted Rex, que esteve no Brasil (onde adoeceu), andando ao lado do marechal Rondon, era adepto da política do “big stick”, ou seja, do grande porrete. Se os Estados Unidos não pudessem comprar os aliados, ou subordinados, descia-se o cassetete. No fim do século 20 e no início do século 21, com a família Bush e mesmo sob Bill Clinton — um dos mais duros presidentes americanos, apesar da retórica tão afável quanto a de Barack Obama —, os Estados Unidos eventualmente mudaram e mudam o discurso, mas a política do “big stick”, quando não funciona a política da “aquisição” monetária, ainda entra em cena. No Paquistão, para ficar num exemplo, não se precisa do “big stick”. Basta enviar bilhões de dólares.

Não se pode dizer que o empresário Júnior Friboi — que morou nos Estados Unidos, fala um inglês estropiado, mas conhece bem os métodos “comerciais” dos americanos — comprou o PMDB. Porque não há provas de que isto tenha ocorrido. Fala-se que ele vai financiar a campanha de vários candidatos a deputado federal e deputado estadual e, por isso, conquistou o partido. Pode até ser verdade. Porém sugerir que vai financiar e financiar de fato não são a mesma coisa. Mais: se cumprir as leis, respeitando as determinações da Justiça Eleitoral, não se poderá acusá-lo de nenhum crime. O fato é que, embora não se saiba exatamente o que ocorreu, o PMDB está nas mãos, em larga medida, de Friboi. Fala-se que ele “adquiriu” — e, mais uma vez, é preciso ressalvar que não há provas — o “controle acionário” do PMDB e que não estaria aceitando dois “donos”. Como um líder histórico como Iris Rezende perdeu o controle do PMDB para Friboi? O que aconteceu? Quem quer fazer jornalismo irresponsável, sem provas, pode apresentar ilações, mas nós avaliamos que não se deve fazer isto. Não devemos sugerir que Friboi “comprou” políticos sérios e competentes como os deputados federais Sandro Mabel, Pedro Chaves e Leandro Vilela. Por que, tendo estruturas que funcionam e lhes garantiram várias eleições, o trio teria se vendido por algumas moedas? Ao se apresentar como “novidade” — mais novidade do que o “novo” —, como aquele candidato que não precisa de recursos externos para bancar sua campanha, Friboi certamente convenceu os novos aliados do PMDB. Talvez seja mais isto.

Porém, desconsiderado a velha, desgastada mas ainda viva tese de que há uma “fila” na política, Friboi desafiou Iris, o líder histórico, e até mesmo o atropelou, com o apoio do PMDB nacional — leia-se Michel Temer, vice-presidente da República, e o senador Valdir Raupp, presidente nacional do PMDB. De novo, a história da determinação nacional. Friboi, com o apoio nacional de Temer e Raupp e certa ancoragem local, decidiu que poderia ser candidato a governador de Goiás pelo PMDB sem precisar consultar Iris, um político de 80 anos, mas ativíssimo.

Quem leu os jornais há, digamos, dois meses, ou pouco menos, certamente ficou com a impressão de que Friboi havia conquistado o PMDB e seria o seu candidato a governador. Chegou, num confronto com Iris, do qual sagrou-se vencedor, a ser estabelecido como pré-candidato. Iris começou a reunir peemedebistas, conversando com eles em seu escritório e, essencialmente, esperou as visitas de uma deusa das ruas, a pesquisa.

As pesquisas de intenção de voto começam a indicar que, ao contrário do que previam os luas-dolarizados, Friboi permanece no último pelotão, como se fosse um Felipe Massa ou Rubens Barrichello da política. Sempre o primeiro a chegar atrasado. Iris, sem fazer esforço e alarde, está lá: quando não em primeiro lugar, praticamente empatado com o governador Marconi Perillo. Friboi sempre aparece atrás de Vanderlan Cardoso, o modesto pré-candidato a governador pelo PSB, e há a possibilidade, até mesmo, de perder posição para Gomide. É possível que, numa disputa com Marconi, Vanderlan e Gomide, o empresário fique em terceiro ou quarto lugar. Para o PMDB, seria o fim. O partido deixaria de ser uma referência.

Assim, com Friboi na rabeira da pista, cansado antes mesmo da largada, o PMDB, e não timidamente, avalia a possibilidade de retirá-lo do páreo. Se ele quiser, se disser que será candidato, ninguém o segura — nem Iris. Porque, de fato, controla o partido. Só uma intervenção nacional poderia retirá-lo do páreo. Mas Temer e Raupp, raposas absolutamente felpudas, sabem que, se Friboi for candidato a governador, mas com Iris fora da campanha ou desmotivado, o PMDB tende a perder. Mais: uma derrota acachapante de Friboi pode reduzir a bancada de deputados federais do PMDB goiano. O PMDB controla o governo petista, de certa forma, porque mantém uma forte presença no Congresso Nacional. Por mais que Temer e Raupp apreciem as qualidades de Friboi, financeiras ou não, apreciam muito mais o poder. Não é à toa que estão tratando Iris a pão de ló.

Por falta de experiência política, Friboi acreditou na determinação nacional, na política dos bandeirantes. Pode dar com os burros n’água? Pode. Não deu ainda.

Marconi versus Iris

As pesquisas recentes são provisórias e lacunares. Só aos poucos os eleitores vão prestando atenção no quadro político, com as definições dos nomes. Mas, no momento, a se avaliar o que estão sugerindo as pesquisas qualitativas e quantitativas, os eleitores deixam a impressão de que estão torcendo para o tira-teima — a terceira disputa — entre Iris e Marconi.

Iris quer disputar e planeja enfrentar exatamente Marconi. O tucano quer disputar, e, contra Iris, sua vontade de concorrer aumenta ainda mais. Eles não se toleram, mas se temem e, politicamente, se respeitam. Um pede o outro. É assim que tem funcionado há 16 anos.

Portanto, a lógica sugere que, em 5 de outubro deste ano, Marconi e Iris estarão disputando aquilo que, antigamente, chamavam de a “negra”. Ressalve-se que às vezes a lógica é trucidada pelas contradições da realidade. O fato é que, ao contrário do que às vezes se pensa, ninguém está morto… nem mesmo Vanderlan Cardoso.

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