O fracasso do poste político e a eleição de quem conseguir conquistar a classe média

Os eleitores parecem acreditar que escândalos são típicos do meio político e tendem a apostar no candidato menos pior. Nas eleições deste ano, as classes médias devem apostar naquele candidato que prometer mais consumo e, portanto, crédito facilitado. A ética está pesando menos do que a economia

Dilma Rousseff: o poste de Lula cresceu, ganhou certa autonomia, mas ainda precisa do líder máximo. Seu principal problema é a insatisfação das classes médias, que, endividadas, querem consumir mais, porém esbarram na redução do crédito bancário|Foto: Ichiro Guerra/ Dilma 13

Dilma Rousseff: o poste de Lula cresceu, ganhou certa autonomia, mas ainda precisa do líder máximo. Seu principal problema é a insatisfação das classes médias, que, endividadas, querem consumir mais, porém esbarram na redução do crédito bancário|Foto: Ichiro Guerra/ Dilma 13

O marechal Henrique Teixeira Lott talvez tenha sido um dos primeiros postes da política brasileira. O militar havia garantido a posse de Juscelino Kubits­chek, em 1956 — noutras palavras, a manutenção da democracia — e por isso se tornou uma espécie de condestável, um homem respeitado e tido como incorruptível. Na eleição de 1960, o PSD lançou Lott para presidente da República. Parecia um “prêmio” ou um “agradecimento”. Há quem avalie que, na verdade, ao lançar um poste político, Juscelino, uma das maiores raposas políticas da história brasileira, pensava nas eleições de 1965, quando acreditava que voltaria ao poder com facilidade, dado ter se tornado o político mais admirado do País. JK era grato a Lott e o admirava, mas sabia que, como político, não era páreo para Jânio Quadros — um surpreendente político populista, tão habilidoso e matreiro quanto o político mineiro.

Lott era uma espécie de antipolítico num tempo em que os brasileiros tinham admiração pelos políticos — não todos, é claro. Na campanha, quando se esperava que o político aparecesse, quem surgia era o militar, avesso a conchavos e reuniões longas e nada objetivas. No contato com o eleitor, Lott era impaciente e avesso aos tapinhas nas costas. Seu padrinho, Juscelino, não comportou-se como Lula da Silva em relação à presidente Dilma Rousseff, quer dizer, não o protegeu nem o orientou sobre as “feras” da política. Lott era mesmo difícil de ser orientado, pois, homem de convicções arraigadas, não aceitava quaisquer opiniões sobre como nortear sua campanha.

Na oposição, Jânio Quadros aliou-se à UDN de Carlos Lacerda e, para os eleitores, dizia aquilo que eles queriam ouvir. O homem da vassoura — ele iria varrer a corrupção e os desmandos — antecipou Fernando Collor e fez um marketing agressivo e inteligente. Seu próprio corpo esguio, seus esgares e histrionismos, e sua fala entre o erudito e o pomposo o tornavam um homem a se observar. Os brasileiros ficaram encantados com aquele político “estranho”, uma espécie de político não-político, que pretendia mu­dar tudo ou quase tudo de ma­neira indolor para as pessoas, o que não era e não é possível, mas os eleitores pareciam mesmerizados pelo político sul-mato-grossense que havia feito nome e história em São Paulo.

JK parecia intuir, talvez tivesse certeza, que seu pupilo, um militar democrata, fracassaria, mas ele voltaria nos braços do povo na eleição de 1965. Juscelino não contou com o acaso. Não apenas não retornou na eleição seguinte, como acabou cassado e morreu num acidente na Via Dutra, em 1976, quando ia se encontrar com o segundo amor de sua vida (o primeiro era a política) — a socialite Lúcia Pe­dro­so. Uma vitória de Lott, ou de outro can­didato apoiado pelo moderado Jus­celino, possivelmente teria evitado o golpe civil-militar de 1964. O gol­pe, que havia sido gestado em 1954, só ocorreu provavelmente devido ao caos dos governos de Jânio Quadros e de seu sucessor, João Goulart.

FHC não bancou poste

Fernando Henrique Cardoso é tido como um dos mais brilhantes sociólogos brasileiros — embora não tenha escrito uma obra da envergadura intelectual de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre; “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, e “Os Donos do Poder”, de Raymundo Faoro — e se tornou presidente da República por acaso, como, em 1964, João Goulart. FHC é filho do caos gerado pelo governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello.

Itamar Franco era vice de Fernando Collor e, com o impeachment deste, assumiu a Presidência da República. Não era inexperiente, como o grupo de FHC tenta fazer crer, mas não tinha a intelligentsia ao seu lado. Daí ter convocado a turma de Fernando Hen­rique Cardoso, que incluía alguns dos economistas mais experimentados do país, tanto em termos práticos quanto teóricos. O Plano Real é uma criação do governo de Itamar Franco, mas não teria sido forjado sem os formuladores atraídos por Fernando Henrique Cardoso.

Na eleição de 1994, dava-se Lula da Silva como praticamente eleito. No entanto, Itamar Franco tinha seu poste, Fernando Henrique Cardoso. Os dois nunca se amaram politicamente, mas, dado o imenso sucesso do Plano Real — filho de dois pais —, era a alternativa viável, a ser po­tencializada, contra um fenômeno como Lula da Silva, que nada tem de apedeuta e é inteligentíssimo (tem aquela inteligência intuitiva poderosa e, nos últimos anos, ampliada pelo estudo detido de pesquisas e pelo marketing político). Fernando Henrique Cardoso era uma espécie de Lott, e Lula da Silva era Jânio Quadros, ou, como já disseram, a UDN de macacão.

Porém, ao contrário de Lott, o poste Fernando Henrique Cardoso tinha certa experiência política e, como sociólogo, soube interpretar as potencialidades do Plano Real como veículo eleitoral. Sobretudo, contou, então, com certa miopia dos petistas, que não entenderam que o Plano Real havia conquistado os brasileiros, notadamente as classes médias. Embora eleito duas vezes, FHC nunca foi tão popular quanto Lula. Tanto que, quando terminou seu último governo, depois de derrotar o petista duas vezes consecutivas, não se tornou um político amado — ao contrário de Getúlio Vargas e Juscelino. Resta saber como, adiante, os historiadores vão avaliá-lo. No calor da hora, com o tempo ainda quente, não se avalia nenhum presidente com a devida isenção. As paixões do historiador não são as paixões dos contendores ou dos eleitores. Julgar com os fatos um pouco mais frios aumenta a possibilidade de entendimento de um governo e de um indivíduo. É preciso verificar, daqui a 50 anos — para mencionar um número —, quais os resultados efetivos das privatizações e das demais ações dos governos de FHC. Getúlio Vargas morreu há 60 anos, em 1954, e só agora, por intermédio do jornalista Lira Neto — que fez trabalho de historiador rigoroso e consciencioso —, sai uma biografia que consegue nuançá-lo de modo exemplar. Ao mostrar Getúlio na sua inteireza, com acertos e erros — as contradições —, longe de diminui-lo, Lira Neto o situou com precisão na história brasileira, mostrando que, paralelo ao equívoco do governo ditatorial (1937-1945), foi o estadista que contribuiu para modernizar a economia, as relações de trabalho e, enfim, a sociedade. O que resulta é um Getúlio grande, mas não infenso à pequenez da política. Trata-se de um homem de seu tempo, mas que às vezes, pensando no futuro, contribuiu para construir e consolidar uma sociedade moderna, para potencializar o capitalismo, apesar de que muitos capitalistas e políticos, e não só os da UDN, não compreendiam sua política de modernização, que era progressista e, ao mesmo tempo, conservadora (daí ser criticada por capitalistas e comunistas).

Entretanto, se operou com habilidade para derrotar Lula da Silva — único mito vivo da política brasileira e que, ao contrário do que imagina a direita, certamente terá (já tem, de certo modo) um grande papel na história do País —, postulando a tese de crescimento e desenvolvimento com estabilidade da moeda (com inflação baixa) e, claro, maior possibilidade de consumo, FHC não operou com a devida mestria a sua sucessão.

Dada sua formação intelectual, FHC certamente não acredita na política do poste e, por certo, não conseguiria impor um poste para presidente da República. Sabe-se, porém, que, em certo período, tentou bancar o economista Pedro Malan como seu sucessor. Ele seria apresentado como uma espécie de padrasto durão do Plano Real, mas, a partir de certo momento, deve ter percebido que se tratava de um Lott dois (até na casmurrice) e que seria devorado pelos políticos, tanto os internos (José Serra, Aécio Neves) e os externos (Lula, Brizola). No final de seu governo, FHC não tinha mais o que oferecer às classes médias, que, quando insatisfeitas com a queda da possibilidade de consumo, costumam usar o voto como instrumento para derrotar candidatos a presidente da República.

Daí que, sem conseguir produzir um poste, FHC optou por deixar o barco seguir pelas correntezas, meio à deriva, nas mãos de marinheiros tradicionais. A máquina paulista — o PSDB deveria ser chamado de PSDBP, quer dizer, Partido da Social Democracia Brasileira-Paulista — produziu, então, seus candidatos para enfrentar o dínamo Lula da Silva. José Serra, que havia sido um ministro da Saúde competente e é um economista altamente preparado, era visto como o político que, não sendo controlado por FHC — trata-se de uma espécie de outsider no PSDB, de um mau humor incomparável —, soava como uma alternativa quase não-governista.

José Serra não contou com a tal “fadiga de material”. Mesmo tentando descolar-se do governo de FHC, não podia negar que havia pertencido à equipe do presidente tucano — até bem-sucedido como ministro — e que era integrante do mesmo partido, o PSDB. Contra um Lula reformulado (ou “repaginado”, como se dizia) pelo marqueteiro Duda Mendonça e por si mesmo, José Serra não era o adversário ideal. Era “prussiano” demais — um Otto von Bis­marck — e, daí, incompatível com a falta de rigidez dos trópicos. O tucano é tão glacial, tão distante dos mortais comuns, que, se fosse “eleito” no Alasca ou no Canadá, ou na Sibéria, ninguém acharia estranho.

O que derrotou mesmo José Serra, um modernizador, foi a falta de um discurso de esperança. Ele não conseguiu convencer o eleitorado de que seria um passo adiante aos passos dados pelo governo de FHC. Lula surgiu como a opção de mudança, de esperança renovada. Pode-se dizer que, em 2002, Lula foi Marina Silva — e José Serra, Dilma Rousseff. José Serra, enfim, era um Lott, até melhorado, mas, ainda assim, um Lott. Faltava-lhe a malemolência do “mulatinho” Fernando Henrique Cardoso — que aprendeu, no poder, que era necessário conviver, com extrema paciência, com os extremos políticos e que não se governa só com os melhores e com os bons. Governa-se com o que existe, sobretudo com grupos e indivíduos que são, politicamente, fortes, coesos e que, desafiados, “mexem” com as estruturas em vários níveis, inclusive judiciais.

Na eleição seguinte, o PSDB compareceu com Geraldo Alckmin, que ganhou o típico apelido que encaixa: Picolé de Chuchu. Diferentemente de José Serra, Alckmin é simpático — aquele tipo de indivíduo que se quer para genro. Porém, era (e é) paulista demais (tanto que sempre ganha para governador de São Paulo; o brasileiro certamente o considera mais “paulista” do que “brasileiro”). Contra um candidato que conhecia o Brasil muito bem, sobretudo os humores do eleitorado, além de ter contribuído para aumentar o crédito aos consumidores, Alckmin se tornou presa nada difícil. Lula o derrotou com relativa facilidade.

Costuma-se atribuir o sucesso do PT no governo federal aos programas sociais, que conquistaram os pobres, e não apenas no Nordeste, como se costuma pensar (embora lá o apelo seja mais forte, dada a pobreza ilimitada). Porém, é possível dizer mais. Primeiro, Lula é um mito, um político admirado pelo brasileiro médio — aquele que é refratário às ideologias. O drama de uma vida substantiva — o retirante que deixou Garanhuns, em Pernam­buco, num pau de arara, tornou-se operário, líder sindical e, depois, presidente da República — torna Lula um indivíduo bem brasileiro, um batalhador, um exemplo. Em suma, um objeto de novela — o brasileiro que saiu de baixo e chegou ao posto máximo. Mirando no exemplo de Lula, outro indivíduo terá como dizer: “Eu posso!”. Segundo, o governo de Lula da Silva incentivou o consumo, facilitando o crédito. Não existiria capitalismo sem um sistema de crédito frequente e potencialmente ampliado. O que encanta as classes médias — que se tornaram consumidoras e contrarrevolucionárias (daí a ira da filósofa petista Marilena Chaui. A especialista em Espinosa disse: “Eu odeio a classe média! A classe média é uma abominação política porque é fascista; é uma abominação ética porque é violenta; e é uma abominação cognitiva porque é ignorante”) — é o consumo, não são as ideias. As classes médias querem trocar seus computadores, tablets, celulares, geladeiras, televisores, automóveis e os móveis de suas residências, comprar um imóvel extra para alugar e melhorar a expectativa da aposentadoria e viajar para países como Estados Unidos (Miami, sobretudo), Inglaterra, França, Itália, Alemanha. Se der, uma chegadinha na Espanha, Portugal e, até, Cuba. Lula, o homem do povo que mal comia na infância pobre de nordestino, contribuiu para ampliar o poder de consumo das classes médias. As classes médias foram “encorpadas”. Um dos motivos de os capitalistas não terem atacado Lula em nenhum momento é que sua política fortaleceu basicamente o sistema financeiro. O crédito democratizado e rápido é o “filho” mais visível do mercado financeiro.

O capitalismo é altamente funcional e, paradoxalmente, disfuncional — dado a crises cíclicas. Desde 1929, e até antes, se fala em “fim” do capitalismo, mas não inventaram nada mais produtivo e atraente. Porque não são apenas os capitalistas — industriais e financistas hoje são a mesma coisa, pais e filhos do capitalismo financeiro (não à toa grandes grupos produtivos compraram bancos e financeiras) — que amam o crédito. Todos, do pobre ao rico, passando pelas classes médias — os consumidores mais fiéis — amam o crédito; quanto mais farto, melhor. Tudo funciona bem, os capitalistas batem palmas, os lucros dos bancos são estratosféricos e os políticos do poder tendem a ser reeleitos — se o crédito é ampliado e fácil. Entretanto, dado ao fato de o capitalismo ser disfuncional e o indivíduo consumir além de suas posses — certa irracionalidade é uma das características tanto dos indivíduos quanto do setor financeiro —, cria-se uma situação complicada. Os consumidores querem continuar comprando fartamente, mas, endividados, começam a reduzir o consumo e os bancos, temendo um calote generalizado, reduzem o crédito, apesar dos rogos do poder público — que, sob o PT, tem usado o Banco do Brasil e a Caixa Eco­nô­mi­ca Federal como espécies de “agências reguladoras”, com o objetivo de pressionar o setor privado a manter o sistema de crédito azeitado. Endividadas, as classes médias — que absorveram, na chamada classe C (que é a “velha” classe mé­dia baixa, diria um sociólogo à antiga), milhares de pobres — se tornam, para usar um termo que agradaria Fiódor Dostoiévski, “possessas”. Querem comprar, mas falta-lhe crédito. O que fazer? Em ano eleitoral, se há um candidato alternativo a presidente, apoiá-lo e abandonar aquele que está no poder. Aquele que está no poder sente-se compelido a facilitar mais crédito. Parece mais uma pressão do “inconsciente coletivo” do que um comportamente racionalmente consciente. Uma espécie de efeito manada.

Fernando Henrique foi o presidente que priorizou a estabilidade econômica; Lula deu resposta aos anseios sociais; Marina, como eventual presidente, tem reforma político-eleitoral como missão

Há corrupção no governo da presidente Dilma Rousseff, aparentemente até mais do que no governo de Lula. O caso da Petrobrás, quando devidamente dimensionado, talvez passe a ser considerado, aliás já está sendo, como o maior escândalo com dinheiro público da história do Brasil. Porém, como Dilma Rousseff permanece com a imagem mais de técnica do que de política, o escândalo não a atingiu brutalmente. Daí manter-se um pouco à frente de Marina Silva, candidata do PSB (na simulação de segundo turno, talvez por atrair o eleitorado tucano, Marina aparece em primeiro lugar). Mas voltemos à política do poste.

Em 2010, o então presidente Lula da Silva, raposa tão escolada quanto Juscelino Kubitschek, bancou um poste para presidente da República — a, até então, neófita Dilma Rousseff. Parecia uma loucura. As oposições salivaram, acreditando que seria fácil derrotá-la. A máquina petista ficou contra, pois queria lançar um candidato do partido, o que Dilma Rousseff não era e continua não sendo. Ao lançar a tecnoburocrata mineira (radicada no Rio Grande do Sul), Lula, embora seja avesso às ideologias e ao pensamento teórico (que percebe como mera retórica), pensava além de políticos como José Dirceu e Ricardo Berzoini. Depois do mensalão, o petista-chefe percebeu a oportunidade de arrancar o PT do controle de petistas históricos, como José Dirceu e José Genoino. Ele queria um PT mais lulista e menos petista. Daí o surgimento do que se convencionou chamar de Lulopetismo — que nada mais, nada menos é o lulismo submetendo o petismo.

O poste derrotou o outsider do PSDB, José Serra. Dilma Rous­seff, estranhamente, é uma espécie de José Serra do PT. Além de técnica, é tão mal-humorada quanto o tucano paulista. É uma espécie de José Serra de terninho. Ideologicamente, são próximos, muito próximos. Mas o paulista, que havia descartado Fernando Hen­rique Cardoso, supostamente desgastado, não tinha “padrinho” — enquanto a petista tinha e tem, Lula, no momento, o maior político patropi.
Dilma Rousseff governa o País, há quase quatro anos, com mão de ferro, em termos de planejamento econômico e controle fazendário (com crescimento econômico praticamente negativo). Mas com problemas. Em­bo­ra seja centralizadora, não conseguiu controlar alguns setores da Pe­trobrás, que foi entregue à sa­nha de líderes de pelo menos três partidos políticos, o PMDB, o PT e o PP. O chamado Petrolão — su­cedâneo do mensalão — significa corrupção de bilhões de reais que foram “sacados” da maior em­presa brasileira. Dilma Rous­seff diz que não sabia o que estava acontecendo na Petrobrás. E, por incrível que possa parecer, pode estar dizendo a verdade. A Petro­brás se tornou um feudo do PP (Paulo Roberto Costa, a face mais visível da corrupção, foi in­di­cado para uma diretoria pelo par­tido), do PMDB e do PT. A pre­sidente, até conseguir indicar Gra­ça Fos­ter — que parece uma exe­cutiva limpa e competente —, possivelmente não tinha informações objetivas sobre o que acontecia na empresa. A tendência é que, dada a campanha eleitoral, a crise da Petrobrás atinja a presidente. Até agora, não atingiu tan­to, porque o brasileiro médio está assimilando o fato aos poucos, sem entender sua verdadeira dimensão.

Uma leitura apressada sugere que a ascensão de Marina Silva tem a ver com a crise de credibilidade do governo de Dilma Rousseff, devido aos escândalos de corrupção recentes. De fato, a corrupção atinge o governo e reduz parte da força da presidente-candidata. Talvez seja possível sugerir que a relativa queda da presidente Dilma Rousseff — que, como Lott e José Serra, nunca vai ser muito popular, dado seu comportamento frio, racionalista, avesso ao populismo — tenha a ver muito mais com a crise financeira das classes médias.

As classes médias estão endividadas, se fossem empresas, teriam suas falências decretadas. Devem no cartão de crédito, no cheque especial e, muitas vezes, nas financeiras, como Losango, Panamericano e Finasa. Até hipermercados, como Carrefour e Extra, e lojas de departamento, como C&A, Riachuelo e Renner, se tornaram financeiras. Seus cartões são simulacros dos cartões de crédito tradicionais. Mesmo endividadas, as classes médias querem continuar comprando — comida, roupa, celulares, computadores, motocicletas, automóveis, eletrodomésticos. Assim, o candidato a presidente da República, se quiser ganhá-las e ser eleito, precisa dizer alguma coisa a respeito de novas facilidades para o consumo, ou seja, sobre a possibilidade de recuperar e incentivar o sistema de crédito. Candidato que acreditar que realismo é néctar não vai se eleger. Dilma Rousseff, que voltou a estabilizar-se eleitoralmente e tem amplas chances de derrotar Marina Silva — a esperança de dias melhores, mas, ainda assim, uma incógnita para as classes médias, sobretudo com sua suposta aliança com os banqueiros (e as classes médias talvez não estejam entendendo que banqueiros significam mais crédito, e não restrições) —, ao “demitir” Guido Mantega (de um hipotético segundo governo), o símbolo da contenção (na verdade, Dilma Rousseff é a mãe da relativa contenção), sinalizou que vai fazer, se re­eleita, um segundo governo me­nos rígido. O controle da inflação, embora tenha de ser feito, não será tão rígido a ponto de manter e ampliar a recessão. Vem aí, agora e depois, mais crédito para as classes médias, que, se forem ao paraíso moderno (de maneira quase entrópica) — shoppings e casas exclusivas —, não abandonarão Dilma Rousseff e o PT.

Fernando Haddad e Alexandre Padilha: o primeiro poste deu certo eleitoralmente, mas está fracassando como gestor; o segundo poste está patinando na disputa pelo governo de São Paulo

Pode-se dizer que é a economia que derrubou Dilma Rous­seff, circunstancialmente, quem sabe, e não a morte de Eduardo Campos e a ascensão de Marina Silva como candidata a presidente. É possível que Marina Silva seja apenas o “agente canalizador” da insatisfação das classes médias com o modelo econômico do governo petista, que está levando o País à recessão.

Depois de quase quatro anos de governo, Dilma Rousseff se tornou um semiposte, mas não mais um poste. A presidente ganhou certa identidade. Portan­to, se ainda depende da força eleitoral de Lula, talvez dependa muito mais do que está fazendo na economia. Se conseguir atrair as classes médias para seu “novo” projeto — mais consumo (com dívidas renegociadas a longuíssimo prazo) e menos contenção —, a petista poderá ser reeleita. Marina Silva, a ambientalista — que tende a propor menos consumo —, bem orientada por economistas e políticos, começa a falar menos para guetos, os da Rede Sustentabilidade, e mais para os brasileiros em geral. Para ganhar as eleições, superando o grupo altamente profissional que está no poder e que tem uma capacidade de destruição impressionante, terá de falar ao “coração” das classes médias, sugerindo que seu poder de consumo será, mais do que mantido, ampliado. Quem falar à alma das classes médias, aquele (ou aquela, porque Aécio Neves deve sair do processo menor do que entrou, inclusive com uma possível derrota de seu candidato a governador em Minas Gerais, Pimenta da Veiga) que conseguir convencê-las de que sua vida vai melhorar, com mais consumo, será eleito presidente da República.

Posterismo em São Paulo

O expert Lula decidiu cristalizar o poste como regra para controlar o PT e eleger candidatos exclusivos de seu círculo pessoal. Em São Paulo, em 2012, bancou o poste Fernando Haddad para prefeito. Parte do PT torceu o nariz, pois queria lançar Marta Suplicy. Lula farejou que, lá, para derrotar o “velho” consistente, José Serra, e o “novo” inconsistente, Celso Rus­so­ma­nno, era preciso apostar no novo. Deu certo. O poste Fernando Haddad derrotou o tucano e Russomanno.

Agora, em 2014, Lula decidiu manter a política do poste — o “posterismo”. Lançou o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha para governador de São Paulo. Padilha não decolou, apesar do apoio do popularíssimo Lula. Haddad está “ajudando” a derrotar Padilha. Mas a razão da crise pode ser maior. Os eleitores podem estar se cansando da política do poste e, por isso, não querem gestores teleguiados, sem autonomia. “Lula é bom”, avaliam os eleitores. Porém, depois de Dil­ma Rousseff — que é mais tolerada do que amada — e, sobretudo de Haddad, os eleitores parecem não aprovar as razões de Lula para manter o poder. O Lulo­pe­tismo, que usa a política do poste como regra, para Lula manter o controle do PT, está fracassando. Mas é possível que, apesar do fracasso do PT em quase todo o país — menos em Minas Gerais, onde Fernando Pimentel (menos lulista e mais dilmista) deve ser eleito governador, se não houver uma virada surpreendente —, Dilma seja reeleita. Sua vitória, se ocorrer, deverá ser atribuída menos a Lula e mais a possíveis promessas para as classes médias.

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Marcio

De uma lucidez rara, quem é o autor???

Tattiana

Muito Bom o teto. Parabéns ao autor. O que exatamente ocorre com o PSDB? Um partido social democrata, com notáveis semelhanças com a terceira via européia, tem mais em comum com o PT (centro esquerda) ideologicamente do que se imagina. Como disse o texto, Dilma e Serra são feitos do mesmo barro. O texto defende a ideia de que o partido é “mais paulista que brasileiro”. Eu acho que é um problema de discurso. Os Tucanos presidenciáveis simplesmente não conseguem se comunicar com o povo de modo geral. Apenas com economistas, advogados, cientistas políticos e sociólogos. Eu acho que o… Leia mais

davi

muito bom quem é o autor