Não importa se Nathalia Zucatelli era de classe média. Seu assassinato deve ser pranteado pela sociedade

O marxismo pôs um ovo da serpente na linguagem comum e quase todos repetem que a causa dos crimes é a desigualdade social. A maldade assassina de Natália Gonçalves tem pouco ou nada a ver com pobreza

Reprodução/Facebook

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O iluminismo é o pai (Laio?) e o positivismo (Jocasta?), diria o filósofo britânico John Gray, é a mãe do marxismo (Édipo?). Os pensadores do iluminismo sugeriram, implícita ou explicitamente — e seus seguidores políticos, como os da Revolução Francesa, radicalizaram suas ideias, promovendo mudanças rápidas e drásticas —, que os principais problemas da Humanidade podem ser resolvidos, por assim dizer, num “golpe de força”. A vontade de mudar — que os leninistas chamariam mais tarde de voluntarismo —, impulsionada pela ação organizada, resultaria em mudanças conjunturais e, sobretudo, estruturais. Os marxistas — ou marxicidas, diriam seus desafetos — apropriaram-se da ideia, aperfeiçoaram-na e decidiram que era possível mudar o mundo, até com certa facilidade e, sobretudo, rapidez. Os indivíduos estavam “cansados” de ideias que indicavam que as mudanças seriam lentas ou se dariam apenas no plano espiritual.

Utilizando-se do iluminismo como servo, o marxismo precisava, porém, de um escravo — o positivismo. A ideia de mudanças lineares, de modos de produção sequenciais — comunitário, escravista, feudal, capitalista, socialista e, finalmente, comunista (o nirvana dos materialistas) —, de um mundo progressista, sempre avançando, é um assalto promovido pelo marxismo ao banco de ideias do positivismo. Posteriormente, o leninismo “aperfeiçoou” a ideia de um partido único e o parto estava feito: nascia o monstro — o comunismo como sistema. O resultado: mais de 100 milhões de mortos, apenas em dois países, a União Soviética e a China, no século 20. Nunca um sistema político havia matado tanto e de maneira tão ordenada — inclusive com cotas diárias.

Mas o marxismo, um sistema bipolar (iluminista e positivista; John Gray aponta seu caráter religioso, ainda que laico), é responsável por outro mal — este mais difícil de ser extirpado: criou uma linguagem comum (George Orwell quase imaginou isto, ma non tropo). Todos (ou quase) falam como marxistas, mesmo quando não marxistas. Pode-se dizer que o marxismo é uma espécie de cristianismo da linguagem. A linguagem e o comportamento comuns estão impregnados pelo discurso marxista, fortalecido pela hegemonia dos comunistas na União Soviética (extinta em 1991) e na China.

Morte de Nathalia Zucatelli

Na segunda-feira, 22, Natália Gonçalves de Sousa, de 20 anos, matou Nathalia Araújo Zucatelli, de 18 anos. A primeira é assaltante; a segunda era estudante. Encontraram-se frente a frente. Nathalia Zucatelli não reagiu ao assalto — perpetrado por Natália Gonçalves e seu comparsa, Mateus Queiroz Aguiar. Ainda assim, como se fosse um personagem do escritor francês Albert Camus, o Meursault de “O Estrangeiro”, ou do escritor russo Fiódor Dostoiévski, o Raskólnikov de “Crime e Castigo, Natália Gonçalves matou Nathalia Zucatelli.

Num vídeo, aparentando calma e capacidade de racionalização, Natália Gonçalves admitiu que, mesmo sendo assaltada, Nathalia Zucatelli comportou-se com relativa tranquilidade. No dizer da assassina: “A reação dela foi normal. Virou as costas e saiu”.

Ao racionalizar, como se fosse uma Raskólnikov dos trópicos, Natália Gonçalves acrescenta: “Foi quando a moto acelerou e eu assustei”. Era noite, portanto, ao contrário de Meursault, a criminosa não pode mencionar o Sol como causa do susto. É provável que a racionalização, ainda sem orientação de advogados experimentados, é da própria assassina. Busca um atenuante: o tiro teria sido, por assim dizer, acidental. O assassinato deixaria de ser doloso para se tornar culposo. Tese que promotores de justiça e juízes raramente aceitam — dadas as evidências de que se pretendia matar e de que não houve reação alguma por parte da vítima.

Ao delegado Clayton Camilo, que investiga o caso, a hábil Natália Gonçalves — econômica nas palavras, às vezes — contou uma história mais plausível. Estava com a arma engatilhada e atirou em Nathalia Zucatelli, que, se não estava, simulava certa calma. Talvez a tranquilidade dos jovens e dos bons — que acreditam que, dada a ideia de imortalidade (típica dos jovens, necessária para que não percam a esperança), sempre “escaparão” aos momentos ruins. É raro o jovem que acredita na maldade absoluta — como a de Natália Gonçalves.

Por que, se Nathalia Zucatelli não reagiu e não deu importância alguma aos bens materiais, Natália Gonçalves a matou? Porque quis, admitiu a criminosa, que tem passagem pela polícia. No mesmo dia em que cometeu o crime mais grave que se pode cometer, contra vida, a jovem de cara fechada cometeu mais dois assaltos.

Entrevistas rápidas não servem de base para se formatar um perfil preciso de um indivíduo. Mas, observando bem o semblante e escrutinando as palavras de Natália Gonçalves, é possível constatar ao menos três coisas.

Primeiro, trata-se de um jovem obstinada, dessas que saem às ruas para matar ou, quem sabe, morrer. Sua postura física é de uma pessoa, mesmo presa, resoluta.

Segundo, embora fale em pagar por seus “pecados”, não se mostra arrependida. Pagar “pecados” não é o mesmo que, por assim dizer, “renegeração”.

Terceiro, racionaliza com frequência — inclusive parece entender a hegemonia de um discurso típico da esquerda mas comprado por quase todos: a origem social dos crimes. Numa tentativa sutil de “atenuar” a barbárie que cometeu, Natália Gonçalves quase teoriza: “Ele [Mateus] me chamou para fazer um assalto e eu estava precisando de dinheiro… Meus filhos estavam sem água e sem energia, e eu aceitei”.

A teoria do social como produtor de crimes é manqué. A maioria dos pobres é decente e trabalhadora. Se a teoria estivesse certa, a maioria dos pobres seria criminosa. O crime às vezes tem origem difusa. Em alguns casos, os criminosos sentem certo prazer com suas atividades, com a violência. Noutros, sobretudo no crime organizado, unem-se o prazer e a vontade de ganhar dinheiro.

No caso de Natália Gonçalves, é muito provável que tenha cometido crimes na segunda-feira — e, possivelmente, em vários outros dias —, não por que precisava necessariamente comprar água e pagar energia. É bem possível que queria dinheiro para outras coisas — como se divertir e comprar drogas (crack, maconha). Mas sugerir que o crime tem vínculo com o social — Natália Gonçalves sabe das coisas —, se não justifica o assassinato, ao menos o “atenua”. A má consciência da sociedade, formatada e sedimentada pelo discurso da esquerda — que a transforma em culpada, quando é vítima —, se torna uma produtora de dúvidas, de questionamentos infrutíferos. Os criminosos se tornam vítimas — párias sociais — e as pessoas de bem, sobretudo se tiverem alguma renda razoável, passam a ser consideradas “culpadas”.

Urge retomar parcialmente a discussão do início do texto. Na semana passada, ante a repercussão e a comoção — justíssimas — geradas pela morte de Nathalia Zucatelli, na porta do Colégio Protágoras, onde estudava, pôde-se ouvir, em vários lugares, determinados discursos que merecem exame da Filosofia, da Antropologia, da Sociologia, da Psiquiatria e da Psicanálise. Não é o que se pretende fazer aqui. O que se pretende é insistir que o marxismo “introduziu” o ovo da serpente em quase todos os indivíduos. Por isso é que se comentava, e não apenas en passant, que a grande repercussão tem origem no fato de que se trata de uma filha da classe média, assassinada na porta de um colégio particular. Este tipo de comentário é desumano, mas é típico da racionalização da esquerda, quer dizer, pessoas que não são de esquerda — que estão próximas da direita — adotam discurso de esquerda. “Se fosse um po­bre, se fosse uma pessoa da periferia, a sociedade não estaria tão mobilizada”, disseram muitos, quase todos com formação universitária.

Procede que é preciso “prantear” todos os mortos. Mas Nathalia Zucatelli não era pobre, não era classe média, não era rica. Isto não importa. Era um indivíduo, um ser humano, uma cidadã de bem. Morreu porque certamente tinha doçura no coração, porque “virou as costas e saiu”, acreditando que o mal tinha “pernas curtas”, sem nenhuma reação.

Há, por fim, um aspecto pouco examinado. Casos como o do assassinato geram uma mobilização social, a sociedade sai de certo marasmo e se posiciona. O próprio governo de Goiás trocou o secretário de Segurança Pública. O vice-governador José Eliton assumiu o cargo com um discurso mais duro, mais posicionado. Ao contrário dos iluministas, temos poucas certezas. Mas uma delas é que, além de investir em educação — uma arma letal contra o crime — é mesmo preciso ser duro com os criminosos. Duríssimo. O tom do discurso de José Eliton é o correto. A polícia — assim como a sociedade — precisa sentir-se “protegida” pelo secretário. Discursos bambos ou flácidos são úteis aos criminosos e contribuem para paralisar a polícia. Tolerância zero com o crime — não com a lei — é o novo recado. Ele funciona. Até os criminosos entendem esta linguagem.

6 respostas para “Não importa se Nathalia Zucatelli era de classe média. Seu assassinato deve ser pranteado pela sociedade”

  1. Procede que é preciso “prantear” todos os mortos. Mas Nathalia Zucatelli não era pobre, não era classe média, não era rica. Isto não importa. Era um indivíduo, um ser humano, uma cidadã de bem. Morreu porque certamente tinha doçura no coração, porque “virou as costas e saiu”, acreditando que o mal tinha “pernas curtas”, sem nenhuma reação. Que o ovo da Serpente não continue sendo ‘chocado’ por nossos impostos na universidade pública…

  2. Avatar Leandro de Araujo disse:

    Ao considerar a educação uma arma letal contra o crime, o editorial contradiz o seu texto, a educação é um problema social. Os de baixa renda são carentes de educação e quando se diz em investir em educação, é em educação pública, que é a acessível para os mais carentes. Se uma pessoa comete um crime para ter dinheiro para se divertir isso também é gerado pela desigualdade social. Os ricos tem dinheiro para lazer e os carentes não, o desejo por lazer também leva ao crime. O assassinato da Nathália Zucatelli pode ter sido mais maldade e menos fome, mas a entrada da Natália Gonçalves no mundo do crime foi, sem dúvida, devido à desigualdade social.

  3. Avatar Marcelo Brice disse:

    “Sobreviventes no inferno” e a violência no Estado

    Sobre a violência em Goiânia, é justo que as pessoas sintam ódio e queiram matar todos os bandidos. Bandidos não devem ser aliviados em seu julgamento. Fazem coisas ruins para a sociedade. Devem ser punidos. Quanto a isso, não se discute. Ao mesmo tempo, me estranha, como a muitos outros, que o governador de Goiás, “Marconi Perillo”, tenha definido como política pública de segurança a troca de comando, que até ontem era perfeito, e “Blitz”. Convenhamos, policiamento é importante, mas não resolve tudo, cumpre a agenda da tal da “sensação de segurança”, não a segurança. O vídeo com a acusada de assassinar a garota Nathalia deixa claro o desamparo social que motivou a tragédia.

    O policial acusado de liderar grupo de extermínio, indicado ao cargo de comandante de policiamento da capital, disse, em “O Popular”, que vai agir com rigor, para tirar os bandidos da rua. Correto. Consequência: os bandidos são empurrados mais para a periferia da cidade, aumenta a ‘nossa’ sensação de segurança, que frequentamos lugares mais asseados, eles (os que vivem a violência total) ficam lá reproduzindo o mal longe de nós e na próxima oportunidade, a arma estará na sua cabeça novamente, mas não na cabeça da filha do governador, que estudou na Suíça ou no Morumbi em São Paulo (que fique claro que não desejo isso pra moça, mas uso a referência para mobilizar mais sentido de representação).

    A mãe da garota Nathalia foi capa do maior jornal da capital, nesse sábado (26/02/16), dizendo: “Será que nossos também irmãos, que cometeram tamanha atrocidade, tiveram estrutura familiar?” Não acredito que estrutura familiar resolva tudo em absoluto, mas é razoável tê-la antes de qualquer coisa, não podemos ter em quantidade tão grande famílias às margens da cidade que vivem cheias de crianças sem pais, que fundamentados pelo machismo não assumem seu papel, e que são filhos de outras famílias como a que ele vai deixar. Isso é estatístico, é só estudar e ver como se organizam os espaços sociais em torno da vida da comunidade. Sem oportunidade e acolhimento da sociedade não tem possibilidade. Simples. Os casos de “sobreviventes”, dos que não caem nessa masmorra, são mesmo de “sobreviventes no inferno”. Existem, e fazem coisas maravilhosas, como o rap da periferia. Mas como fazer!? Mais que estrutura familiar, precisamos de estrutura social. Assim poderemos ‘desbanalizar o mal’.

    Ó, e certamente enquanto governos viverem de marketing, gastarem milhões com propaganda, mobilizarem policiamento para agredir estudantes e professores que lutam por uma melhor educação pública, enquanto o Juquinha das Neves, amigo de Lula e de Marconi Perillo, viver no Alphaville, só me resta torcer para que ele seja, no mínimo, o próximo… a ser preso e devolver os milhões que assaltou e tem gerado muitas outras mortes. Temos, infelizmente, muitos criminosos. Política, Estado, violência, não são problemas pessoais, são sociais.

    Marcelo Brice (Professor de sociologia da UFT e doutor em sociologia pela UFG) com colaboração de Herberth Duarte (doutorando em Geografia urbana pela Unicamp). email: [email protected] e [email protected]

  4. Avatar Moacir Romeiro disse:

    Quem nasce ruim morre ruim, mas falsos intelectuais querem fazer a sociedade crer que bandidos são vítimas de sociedades cruéis. Na entrevista da assassina de Nathália Zucatelli, aquela, na tentativa contar com a benevolência das pessoas, diz ter ido assaltar por não ter gás nem luz em casa. Vê-se, claramente, pela expressão facial e pelo cacoete, que isso é mentira. Pena máxima para a assassina de Zucatelli é o que desejo.

    • Avatar ulysses freire da paz jr disse:

      Não posso transigir com uma concepção de mundo [o BOLCHEVISMO] que, em toda parte onde alcança o poder, trata logo de libertar, NÃO os trabalhadores, mas a escória da humanidade, o elemento anti-social concentrado nas prisões – e soltar estas bestas selvagens no mundo impotente e aterrado que os rodeia… Esta é então a diferença entre a Revolução Bolchevista e a Nacional Socialista: “O Bolchevismo converte campos florescentes em sinistros montões de ruínas; o Nacional-Socialismo transforma um regime de miséria e destruição num Estado sadio, de próspera vida econômica…” . Discurso de Hitler a 14 de setembro de 1936 em Nüremnerg Confira no google 1 “то отверг мир: мирные инициативы Адольфа Гитлера.” 2 “ADOLF HITLER – UN PALADÍN PARA TODA LA HUMANIDAD” 3 “ADOLF HITLER: HOMBRE DE PAZ” 4 “President Roosevelt’s Campaign To Incite War in Europe: The Secret Polish Documents” 5 “What the World Rejected – Hitler’s Peace Offers, 1933- 1939” + as respectivas bibliografias. 6 Francis Parker Yockey “The Enemy of Europe” em pdf 7 ‘’ HOLOCAUST DEPROGRAMMING COURSE ’’ 8 “Chapter 5 The Red Terror katana Book – The Myth of German Villainy – Part 05 – The Red Terror” veja também deste mesmo livro ao menos os capítulos 10 e 13” 9 ‘’ DERROTA MUNDIAL” Salvador Borrego pdf

  5. Avatar Erick disse:

    O que a midia comprada (Oloares, TV Serra Dourada e cia) de Goiania nao mostra:

    Como faltam vagas nos presídios, o uso de tornozeleiras eletrônicas colocou quase 2 mil presos de volta as ruas somando-se a isso 22 mil foragidos da polícia nas ruas furtando, assaltando e matando…

    Cidades antes pacatas (Anápolis, Jaraguá, Itaberaí, Goianira…) estão sofrendo com a onda de violência (furtos, assaltos e latrocínios) todos os dias.

    Um bom exemplo para relatar a falta de policiamento é Goianira, onde 4 policiais e 2 viaturas da PMGO são responsáveis pela segurança de Goianira, Residencial Triunfo e Região do Solar das Paineiras, Brazabrantes e trevo de Caturaí.

    Cidades da Região da Estrada de Ferro (Bonfinópolis, Silvânia, Vianópolis e Leopoldo de Bulhões) ficam o final de semana todo sem nenhuma viatura para segurança dessas localidades.

    GOIÁS ANO 1998

    Efetivo da Polícia Militar: 22 mil homens

    (1 policial para cada 140 habitantes).

    (População de Goiás em 1998: 3 milhões de habitantes)

    Efetivo da Polícia Civil: 6 Mil homens.

    (População de Goiás em 1998: 3 milhões de habitantes)

    GOIÁS ANO 2016

    Efetivo da Polícia Militar:

    9 mil homens (1 policial para cada 725 habitantes).

    (População de Goiás em 2016: 6,5 milhões de habitantes)

    Efetivo da Polícia Civil:

    3 Mil homens.

    (Em 1998, a Polícia Civil possuía 6 mil homens no efetivo).

    22 mil foragidos da polícia

    2 mil presos usando tornozeleira eletrônica

    (voltam as ruas e cometem os mesmos crimes de antes…)

    GOIÂNIA

    1998: 1 policial militar para cada 140 habitantes.

    2016: 1 policial militar para cada 750 habitantes.

    (1500 lotados no efetivo para defender a Capital ou seja:

    média de 1 policial para cada habitante de Goiânia).

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