Margem de erro alta da pesquisa do Serpes sugere que Vanderlan e Waldir estão empatados

Pesquisa do Serpes, com margem de erro de quase 5%, indica que Waldir Soares pode estar bem atrás ou ligeiramente à frente de Iris Rezende

Fotos: Arquivo Pessoal

Fotos: Arquivo Pessoal

Num país em que crítica e achincalhe se equivalem, antecipando o que se vai dizer a seguir, é imperativo afirmar que há institutos de pesquisa sérios em Goiás — como Grupom, dirigido por Mário Rodrigues, Serpes, comandado por Antonio Lorenzo, e Fortiori, chefiado por Gean Carvalho. Citamos apenas três, os mais experimentados, mas há outros. O Observatório, por exemplo, faz pesquisas qualitativas que o mercado político leva em consideração. Na verdade, é raro o instituto que manipula pesquisa, porque sabe que, num prazo curto, será desmascarado. Nenhuma pesquisa tem a obrigação de ser o retrato exato do que sai das urnas — porque as campanhas tendem a mudar os quadros eleitorais, que não são fixos —, mas tem o dever, se for íntegra, de retratar com relativa precisão o momento, a circunstância. O que se escreverá a seguir sobre a pesquisa de intenção de voto feita pelo Serpes e publicada no domingo, 5, não deve ser entendido como um desmentido, e sim como um questionamento (e avanço na análise) de alguns pontos. São interpretações diferentes de uma mesma pesquisa, o que equivale a inferir que, frequentemente, o jornalismo não extrai dos levantamentos, sobretudo dos quantitativos — que são vistos como objetivos, mas escondem certa subjetividade —, o que podem render. Não se trata de forçar dados, para que sustentem nossos argumentos, mas de extrair deles aquilo que é menos óbvio.

A margem de erro das pesquisas do Datafolha é, em geral, de 2%. A margem de erro da pesquisa do Serpes é de 4,38%, extremamente elástica, o que não quer dizer, necessariamente, equivocada. É uma opção, possivelmente para reduzir custos, pois a crise econômica solapa todas as atividades. Numa cidade com quase 1 milhão de eleitores, como Goiânia, é fundamental que mais pessoas sejam ouvidas. Dois pesquisadores sugerem que se deve ouvir de 800 a mil indivíduos. “Por vezes, uma pesquisa com 600 pessoas, somente cem a mais do que no levantamento do Serpes, proporciona resultados mais precisos e gera menos dúvidas”, afirma um pesquisador. “Mas não há manipulação na pesquisa do Serpes, o que há, por assim dizer, é uma margem de erro que supera as expectativas da maioria dos pesquisadores.”

Quadro abertíssimo

Iris pode não ir para o segundo turno com Waldir, aponta pesquisa | Foto: Fernando Leite

Iris pode não ir para o segundo turno com Waldir, aponta pesquisa | Foto: Fernando Leite

É a margem de erro extremamente elástica que permite o que se dirá a seguir. Noutras palavras, o que a pesquisa “explica” é que, no fundo, o quadro de Goiânia está mais do que aberto. Está abertíssimo. Favoritos com 24,8% (Iris Rezende, do PMDB) e 22,4% (Waldir Delegado Soares, do PR) não são, rigorosamente, favoritos.

Há uma leitura que, sem necessidade de exacerbar os dados, pode e deve ser feita (“O Popular” não ousou fazê-la, infelizmente para seus leitores, que não puderam ter ante os olhos um quadro ampliado de uma pesquisa instigante). Juntos, Iris Rezende e Waldir Soares somam 47,2% das intenções de voto — isto é, não têm o apoio da maioria absoluta. A “apuração” sinaliza que 52,8% dos eleitores não estão com os postulantes do PMDB e do PR. Acrescente-se que 75,2% disseram que não estão com Iris Rezende e 77,6% sublinharam que não estão com Waldir Soares. Os números são expressivos e sinalizam, insistamos, que o quadro de Goiânia — ainda sem campanha e sem apresentação dos candidatos que não são conhecidos — está aberto, livre e sujeito a mudança, que pode ser tênue ou mesmo radical.

A seguir, ousaremos mais um pouco na interpretação dos dados, sem forçá-los. O Serpes mostra Waldir Soares (PR) com 22,4%, portanto, a se aceitar a margem de erro de 4,38%, tanto pode ter 18,02%, para baixo, quanto 26,78%, para cima. Quer dizer, pode estar na frente de Iris Rezende, que tem 24,8%. O peemedebista, por seu turno, pode ter 20,42% ou 29,18%. Vanderlan Cardoso (PSB) aparece com 11%, mas pode ter 6,62% ou 15,38%. A rigor, se se considerar que Waldir Soares pode ter 18,02%, os dois estão tecnicamente empatados, admitida a margem de erro.

Adriana Accorsi, do PT, é citada com 6,4%. Dada a margem de erro, pode ter 10,78% — aparecendo empatada com Vanderlan Cardoso — ou 2,02%, portanto atrás (ou empatada) de Giuseppe Vecci, que tem 3%. O pré-candidato tucano pode ter 7,38% — acima de Adriana Accorsi — ou menos de 1%.

Pesquisa espontânea

Pode-se dizer que a pesquisa espontânea, pelo menos neste momento — em que as candidaturas não estão realmente postas e alguns dos postulantes podem desistir do pleito, optando por uma composição realista —, diz mais que a pesquisa estimulada. Na estimulada, força-se o eleitor a escolher entre políticos conhecidos e políticos desconhecidos. Os conhecidos, mesmo se não forem considerados “muito bons”, têm algum referencial e, por isso, tendem a ser escolhidos. Os desconhecidos, de cara, são abandonados pelos eleitores, que, com razão, não têm como avaliá-los.

Vanderlan Cardoso, Adriana Accorsi, Giuseppe Vecci, Francisco Júnior e Luiz Bittencourt: um deles, se fizer uma campanha bem feita e mostrar que é contemporâneo de todos os goianienses, pode ser eleito prefeito da capital

Vanderlan Cardoso, Adriana Accorsi, Giuseppe Vecci, Francisco Júnior e Luiz Bittencourt: um deles, se fizer uma campanha bem feita e mostrar que é contemporâneo de todos os goianienses, pode ser eleito prefeito da capital

Na pesquisa espontânea do Serpes, há um dado crucial: 65% dos eleitores entrevistados “não decidiram” em quem vão votar. Primeiro, não sabem quais são os candidatos. Segundo, porque o tempo dos políticos não é o mesmo dos eleitores, que, como cidadãos e não meros eleitores, têm outros afazeres e, até, diversões. Iris Rezende aparece com míseros 7,6% e Waldir Soares com 6,2%. Vanderlan Cardoso, considerada a margem de erro de 4,3%, está empatado com os dois, ao aparecer com 3,4%. Mas o pré-candidato do PSB pode ter 7,78% (0,18% a mais do que Iris Rezende). Giuseppe Vecci, do PSDB, e Adriana Accorsi, do PT, têm 1,2%.

A pesquisa espontânea sinaliza que o quadro está empatado — à espera da campanha. Quer dizer, será a campanha que vai definir um novo quadro, o real e não inercial, e não os dados expostos pela pesquisa estimulada (que reflete um quadro inercial paralisado, em que se avalia conhecidos, referências, e não o quadro real, com os elementos novos do processo). Mesmo sendo curta, o eleitor terá como avaliar os candidatos e seus programas de governo. Campanhas longas não indicam obrigatoriamente que os eleitores vão examinar candidatos e projetos com o devido cuidado. É mais provável que, numa campanha curta — num mundo cada vez mais veloz, no qual as pessoas mantêm múltiplas atividades, seja de trabalho, seja de lazer —, o eleitor decida com mais qualidade, de maneira mais concentrada.

Razão e pirotecnia

Para que o eleitor não entenda que se está reprovando a pesquisa do Serpes, é preciso assinalar que outros institutos apresentaram números parecidos. O que se disse acima é que uma margem de erro mais extensa leva às conclusões e argumentos apresentados. Porém, fundamental mesmo, e é preciso frisar que os eleitores são mais cautos do que costumam imaginar jornalistas e cientistas políticos, é entender, sobretudo insistir neste ponto, que o quadro de Goiânia não está nada decidido. Está, como se disse acima, abertíssimo. Ninguém ganhou. Ninguém perdeu. Iris Rezende e Waldir Soares podem não ir para o segundo turno — o que surpreenderá menos os eleitores do que os analistas políticos —, mas também podem ir. O eleitor goianiense, o mais politizado do Estado, mandará para o segundo turno políticos com perfis parecidos, ainda que não idênticos? Dificilmente.

Pesquisas qualitativas sugerem que o eleitor quer na Prefeitura de Goiânia um gestor competente e criativo. Não se trata apenas de um gestor burocrata, e sim de um gestor que não abdique de criatividade, atendendo às novas demandas dos goianienses. O eleitor não quer políticos pirotécnicos na prefeitura. Nas pesquisas quantitativas, Vanderlan Cardoso não aparece muito bem, e está sempre atrás de Iris Rezende e Waldir Soares. Entretanto, nas qualitativas, o postulante do PSB aparece bem, como gestor competente e político sério. O que lhe falta é mais presença, articulação política e agregar novos apoios.

Acrescente-se que, na falta de um gestor criativo e contemporâneo de todos os goianienses, o eleitor pode acabar ficando com políticos tradicionais, do estilo de Iris Rezende, ou com uma aposta no escuro, como Waldir Soares. Vanderlan, Adriana, Vecci, Bittencourt e Francisco conseguirão (re)colocar as ideias no lugar? Se escaparem do fatalismo típico dos brasileiros, sim.

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