Jogos de Iris e Marconi em 2016 sinalizam para a disputa de 2018

Iris Rezende deve ser candidato a prefeito de Goiânia com o objetivo de, se eleito, montar estrutura para Ronaldo Caiado. Aí rompe com o PT. Marconi Perillo prepara José Eliton, desde já, para apresentá-lo como renovação e gestor eficiente

Cada eleição tem sua história, quer dizer, sua especificidade. Mas não é falso sugerir que há conexões entre os processos eleitorais — como os municipais e os estaduais. Os elos podem ser invisíveis, à primeira vista, mas as palavras, como se fossem mágicas, podem torná-los visíveis. Os políticos profissionais, os vocacionados — como expôs Max Weber —, nunca jogam só um pleito; pelo contrário, articulam o futuro a partir das pelejas do presente. Aqueles políticos que estiverem pensando tão-somente em 2016, apostando que uma eleição pode ser isolada da seguinte, tendem a chegar enfraquecidos à disputa de 2018. Por isso, as verdadeiras raposas políticas, como o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), o ex-governador Iris Rezende (PMDB) e o prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela (PMDB), estão “instrumentalizado” a disputa de 2016 para enrijecer a musculatura própria e dos aliados para 2018.

Próximo de completar 82 anos, em dezembro, o ex-governador Iris Rezende montou dois bunkers em Goiânia. A articulação geral é feita no seu escritório. As conversas mais íntimas são entabuladas no seu apartamento. Ambos estão localizados no Setor Marista. Há uma verdadeira romaria à porta do escritório e Iris Rezende atende todos que o procuram com boa vontade, mais ouvindo do que falando. Por lá passam o deputado federal Jovair Arantes, presidente do PTB goiano, e o deputado federal Waldir Soares, do PSDB. Ambos pertencem à base política de Marconi Perillo, mas estão “agastados” com a cúpula do partido ou diretamente com o tucano-chefe, caso do primeiro (procede que também se aproximam de Iris Rezende para se valorizarem junto ao tucano-chefe). As articulações que estão sendo promovidas têm a ver com a eleição para prefeito de Goiânia? Em parte sim, em parte não.

Se candidato a prefeito de Goiânia, como quer a torcida do PMDB, Iris Rezende vai buscar um vice noutro partido. Tanto pode ser o deputado federal Lucas Vergílio — como sugeriu-lhe Iris Araújo (se o marido for eleito, ela, como primeira suplente, assume a vaga do líder do Solidariedade na Câmara dos Deputados) —, filho do empresário do setor de seguros e ex-deputado Armando Vergílio, quanto o deputado estadual Henrique Arantes, filho de Jovair Arantes. Apesar do desejo de Iris Araújo, Iris Rezende pode acabar bancando Henrique Arantes? Por quê? Simples: estaria conquistando um grupo político que há mais de uma década e meia dá sustentação ao governador Marconi Perillo.

Embora não seja um ideólogo, um formulador de longo alcance, Iris Rezende, ao perceber um certo descontentamento na base do governador Marconi Perillo, aderiu à tese de que, para ganhar do grupo do tucano-chefe, precisa dividi-lo. Arma-se, pois, o jogo de 2016 pensando na batalha de 2018. Não é o único jogo do peemedebista-chefe. Nenhum político da estatura de Marconi Perillo e Iris Rezende pensa exclusivamente no curto prazo e tampouco vão para os embates com um jogo ou com um nome. Armam vários jogos — alguns, claro, para despistar.

Iris Rezende, Ronaldo Caiado, Maguito Vilela e Daniel Vilela: o jogo de 2018, atropelando o de 2016, passa pelos quatro nomes no campo oposicionista | Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Iris Rezende, Ronaldo Caiado, Maguito Vilela e Daniel Vilela: o jogo de 2018, atropelando o de 2016, passa pelos quatro nomes no campo oposicionista | Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Note-se que, quando manda Samuel Belchior dizer na entrevistas que não quer disputar eleição para prefeito de Goiânia em 2016, Iris Rezende está mais jogando do que mentindo. A verdade é que planeja ser candidato e está se preparando para a disputa. Entre­tanto, como não quer “fechar” as conversas com os vários aliados — inclusive com aliados de Marconi Perillo, como Jovair Arantes e Waldir Soares —, prefere sugerir que pode não disputar a eleição.

Iris Rezende sabe que a política está lhe dizendo “adeus” — até por motivo de idade, resistência física —, mas não quer dizer adeus à política em 2016 e em 2018. Ao deixar a eleição de Goiânia como uma “obra aberta” (ao estilo de Umberto Eco) — “posso não ser candidato” ou “não quero ser candidato” (as explicitações são formuladas mais por aliados do que por ele) —, o peemedebista quer manter o foco também nas eleições de 2018. O fato é que “cansou” de perder para Marconi Perillo. Qual é, então, seu outro jogo?

Se “confiasse” no prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela, Iris Rezende pensaria em bancar um peemedebista, Daniel Vilela, para enfrentar o candidato de Marconi Perillo para o governo em 2018. Iris Rezende quer um candidato que confronte o tucano-chefe, que faça críticas contundentes, mas, como percebe tanto Maguito Vilela como Daniel Vilela como pesos leves, tende a bancar um candidato para governador que “lute” entre os pesos pesados. Trata-se, logicamente, do senador Ronaldo Caiado, do DEM.

Os dois Iris, o Rezende e a Araú­jo, acreditam que Ronaldo Caiado tem mais “tutano” do que Daniel Vi­le­la para enfrentar o candidato de Mar­coni Perillo — seja José Eliton, do PSDB, seja Thiago Peixoto, do PSD. Mas o que fazer da aliança com o PT?

Como político profissional, Iris Rezende sabe que alianças são feitas e desfeitas e o que as justificam é a conjuntura. Alianças não são estratégias — são táticas. Para 2018, ante a debacle do PT, que dificilmente fará o próximo presidente da República, dado seu desgaste abissal, os peemedebistas certamente buscarão novos aliados nos Estados. Ninguém, mesmo quando simpatizante, vai querer carregar o “carma” pesado do petismo. Astuto, Iris Rezende pode usar a eleição da Prefeitura de Goiânia como cobaia — distanciando-se do PT, desde já, mas sem romper em definitivo, porque mantém um carinho especial pelo prefeito Paulo Garcia.

É possível que a sobrevivência do irismo — que não é o mesmo que peemedebismo —, a partir de 2018, seja garantida externamente, por um aliado como Ronaldo Caiado, e não internamente, por aliados-adversários, como Maguito Vilela e Daniel Vilela. “Sacrificar” o PT no altar da política e “elevar” Ronaldo Caiado a candidato a governador são táticas com uma única estratégica: ter um candidato competitivo para tentar arrancar o grupo de Marconi Perillo do poder.

Porém, e isto é seminal, para que Ronaldo Caiado chegue em 2018 — isto se não optar por ser vice de Aécio Neves ou Geraldo Alckmin na disputa pela Presidência da República — sólido, incontestável, é preciso que, antes, Iris Rezende seja candidato a prefeito de Goiânia. Se o peemedebista-chefe não for eleito prefeito da capital, Ronaldo Caiado perderá o apoio tanto do líder, que, derrotado, sairá enfraquecido — e sua queda fortalece Maguito Vilela e Daniel Vilela, pai e filho —, quanto do PMDB. Mais claro: o PMDB de Iris Rezende só resiste em 2018 se o veterano for eleito prefeito de Goiânia. Noutras palavras, o peemedebista-chefe será candidato a prefeito. É a contingência.

Marconi Perillo, José Eliton, Thiago Peixoto e Vanderlan Cardoso: a única “peça” duvidosa é a quarta, mas os três primeiros são essenciais no jogo de 2018 | Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Marconi Perillo, José Eliton, Thiago Peixoto e Vanderlan Cardoso: a única “peça” duvidosa é a quarta, mas os três primeiros são essenciais no jogo de 2018 | Fotos: Fernando Leite/jornal Opção

Se Iris Rezende não disputar a Prefeitura de Goiânia ou se perder a eleição, Maguito Vilela e Daniel Vilela assumem o controle do partido. Aí a aliança com Ronaldo Caiado estará dinamitada. Pois Daniel Vilela planeja ser candidato a governador.

O jogo de Marconi

Se Iris Rezende, Ronaldo Caia­do e Maguito Vilela estão jogando 2016 como se fosse o primeiro tempo de 2018, movimentando as peças do xadrez a partir das contradições da realidade, o governador Marconi Perillo também movimenta suas peças.

Preocupado com a crise que solapa a economia do país, prejudicando enormemente os Estados, Marconi Perillo está mesmo voltado para a gestão. Na busca de um Estado necessário, que recupere sua capacidade de investimento e sirva a todos os cidadãos, o governante tucano faz um ajuste fiscal e administrativo rigoroso. Não é possível fazer tudo o que se quer, pois o setor público enfrenta a máquina corporativa, mas o gestor tucano está conseguindo, mais do que a maioria dos outros governadores, ajustar seu governo. Graças, em larga medida, à capacidade técnica e à coragem de sua secretária da Fazenda, Ana Carla Abrão Costa.

Porém, mesmo preocupado com a gestão, Marconi Perillo faz política, e com extrema energia. Faz política de maneira racional, equilibrada, sem atropelos. Porque sabe que não se faz o próprio jogo isoladamente — é preciso observar o jogo do adversário para definir as linhas mestres. O jogo vai sendo feito durante o processo, porque surgem fatos novos. Vanderlan Cardoso, pré-candidato a prefeito de Goiânia pelo PSB, pode ser um fato novo para a base governista, ou não. Na política nem sempre se pode confiar rapidamente nos aliados chegantes. Vanderlan Cardoso, até pouco dias, era anti-marconista. Agora, associado à senadora Lúcia Vânia, sugere que deve disputar a Prefeitura de Goiânia e que deve compor a base marconista. Se estiver na base, ao lado de Lúcia Vânia e do deputado federal Marcos Abrão, sobretudo se for eleito prefeito da capital, será um aliado forte para 2018. Porque retira a máquina da capital — que representa uma força gigantesca — das mãos dos oposicionistas petistas e peemedebistas.

Enquanto observa a armação do jogo de Vanderlan, que incorporou o jogo de Lúcia Vânia — se o nome do PSB for eleito, a senadora ganha força para disputar a reeleição na base governista —, Marconi Perillo arma seu próprio jogo. Ao atrair José Eli­ton para o PSDB, retirando-o do PP, o tucano-chefe sugere algumas cousas.

Primeiro, o jogo de 2018 passa por suas mãos, com um candidato do PSDB. Segundo, está fortalecendo seu candidato, possivelmente José Eliton, ao atrai-lo para o PSDB, o que evitará contestações da base. Terceiro, mesmo antes de qualquer definição, está fortalecendo José Eliton a partir de seu governo, no qual o jovem político ocupa a secretaria mais poderosa e que permite um contato amplo tanto com políticos quanto com os setores organizados da sociedade.

Hoje, pode-se dizer que José Eliton tem um status de quase-governador. Marconi Perillo criou uma estrutura para que o vice-governador, como secretário, possa operar a máquina como se fosse uma espécie de governador-adjunto. Por que o experimentado político, governador pela quarta vez, está fazendo isto?

Porque sabe, que depois de 20 anos de poder, vai ser cada vez mais difícil eleger o governador. Há aquilo que os políticos chamam de “fadiga de material”. Mesmo que o projeto seja bom, que apresente resultados, os eleitores tendem, um dia, a cobrar alternância. Foi assim em 1998. Por isso mesmo, com ampla destreza, Marconi Perillo está procurando formatar o “novo” — que pode ser José Eliton, primeiro da fila, Thiago Peixoto, ou Giuseppe Vecci — para que seu grupo possa se apresentar como “renovação” em 2018. José Eliton está ganhando musculatura, sua desenvoltura é cada vez maior. É, no momento, a aposta do tucano-chefe. Ser candidato a governador vai depender dele e das circunstâncias.

Um político disse a uma repórter do Jornal Opção que 2016 já “chegou” e, politicamente, está “finalizado”. O que ele quer dizer, na verdade, é que o jogo de 2016, inclusive suas alianças, está subordinado ao de 2018. Por exemplo: o PT, abandonado pelo PMDB, vai buscar novas alianças? Com quem? O tempo — senhor da razão, no dizer de Fernando Collor — certamente dirá.

Uma resposta para “Jogos de Iris e Marconi em 2016 sinalizam para a disputa de 2018”

  1. Ainda é cedo para o candidato a presidente de 2018. Mas se Geraldo Alckmin for o candidato, terá meu apoio e voto, como sempre.

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