Irismo pode sacrificar 2018 pensando em 2016. PSDB pode sacrificar 2016 pensando em 2018

Iris Rezende pode sacrificar 2018, desde que Ronaldo Caiado apoie seu grupo em Goiânia em 2016. Outra parte do PMDB pode sacrificar 2016, apoiando Vanderlan Cardoso, para cacifar-se para 2018. O PSDB pode “esquecer” 2016, aliando-se ao presidente do PSB, para manter o poder em nível estadual

Foto: Ronaldo Caiado, Daniel Vilela e Júnior Friboi: os três políticos estão no jogo para a disputa de 2018 e tendem a sacrificar o jogo eleitoral de 2016. O primeiro está se tornando irista e isto tende a afastar o PMDB do PT. Vilela e Friboi preferem aliança com Vanderlan Cardoso / Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Ronaldo Caiado, Daniel Vilela e Júnior Friboi: os três políticos estão no jogo para a disputa de 2018 e tendem a sacrificar o jogo eleitoral de 2016. O primeiro está se tornando irista e isto tende a afastar o PMDB do PT. Vilela e Friboi preferem aliança com Vanderlan Cardoso / Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Há um truísmo em política: ninguém engana ninguém. Há o que acreditam que enganam e há os que creem que foram enganados. Mas enganados, mesmo, ninguém é. A política não perdoa inocência e ilusões e os políticos, espécie de antenas da sociedade, sabem disso como poucos. O leitor atento, ao examinar os jornais, deve pensar que, diria Stanislaw Ponte Preta, o samba do crioulo doido está de volta e com força total. Por que o senador Ronaldo Caiado (DEM) se tornou aliado de Iris Rezende e, ao mesmo tempo, pode apoiar, digamos, o deputado federal Daniel Vilela para prefeito de Goiânia? (frise-se que o jovem filho de Maguito Vilela afirma que não planeja disputar mandato em 2016). Sabe-se o jovem peemedebista não morre de amores por Iris Rezende, mas mantém uma relação civilizada com Ronaldo Caiado. Já Vanderlan Cardoso, numa fase pendular, numa tática (mais do que estratégia) inteligente, sugere que pode conversar com todos os grupos. O que está acontecendo: a política enlouqueceu?

Na verdade, a política é uma atividade racional. Nem sempre parece assim porque não há vida, confronto de ideias e personalidades, sem paixão. Mas a paixão não exclui a racionalidade. Pelo contrário, às vezes a impulsiona. O que está em jogo é simples: a vitória do governador Marconi Perillo em 2014 — a quarta para o governo do Estado de Goiás — sinaliza que, em 2018, haverá aquilo que os políticos chamam de “buraco” ou “vácuo” de poder. Os mais “xenófobos” dizem que, daqui a quatro anos, sem Marconi no páreo, todos serão “japoneses”. Quer dizer, estarão em igualdade de condições. Mas é assim mesmo? Se todos ficarem esperando, se as articulações não começarem agora — “em política não há cedo; só tarde”, ensinava Tancredo Neves —, o quadro será, de fato, japonês.

Porém, como não têm nada de bobos — podem, alguns, eventualmente serem incultos —, os políticos mais hábeis estão pondo seus blocos na rua agora. Todos dizem: “Está cedo e precisamos passar primeiro pelas eleições de prefeito”. Estão certo, é claro. Mas o olhar prioritário é outro. Os políticos querem fortalecer suas bases para a disputa do governo de Goiás em 2018. Por isso vão usar a eleição de 2016 para estabelecer e sedimentar novas alianças. As arestas de 2016, se se cristalizarem, permanecerão até 2018, o que possivelmente impedirá alianças eleitorais.

Ronaldo Caiado não ama Iris Rezende, como Iris Rezende não ama Ronaldo Caiado, que não ama Daniel Vilela, que não ama Ronaldo Caiado, que não ama Vanderlan Cardoso, que não ama nenhum deles. Na política cada grande, ou que se julga grande, pensa exclusivamente no próprio projeto. Não há problema nisto, não. É assim que funciona a vida real, expurgada de fantasias românticas sobre como deveria ser a sociedade ideal.

Iris Rezende é uma espécie de oxigênio para Ronaldo Caiado (e vice-versa), que, apesar de eleito senador, não conta com uma estrutura político-partidária substantiva. Se disputar o governo em 2018, com a atual “máquina” do DEM, seu partido, estará frito. Não será considerado nem mesmo como terceira via. Entretanto, se contar com o apoio do PMDB, de alta capilaridade em praticamente todas as cidades de Goiás, se tornará um nome forte. Como Iris Rezende sabe que, em 2018, com 85 anos, não terá qualquer chance de disputar o governo do Estado, pode “trocar” apoio com Ronaldo Caiado. 2018 por 2016.

Com mandato de senador assegurado — oito anos são uma ilha de tranquilidade (terminará o mandato com 73 anos) —, portanto não corre o risco de ficar sem o mínimo de poder, Ronaldo Caiado tende a disputar a eleição para governador em 2018 e aí Iris Rezende o apoiaria. Aliança entre Iris Rezende e Ronaldo Caiado pressupõe o sacrifício de algum aliado (ou grupo) político.

O PT, ao menos o de Goiânia, é relativamente subordinado não ao PMDB, e sim a Iris Rezende. Por isso, petistas (note que, antes da palavra petistas, não se escreveu “os”) dizem que, se o peemedebista-chefe for candidato a prefeito de Goiânia, a aliança entre PMDB e PT por certo será mantida. Porém, se Ronaldo Caiado entrar na articulação, azeda a sopa. Há quem argumente que, se como o líder do partido Democratas não vai disputar eleição em 2016, não haverá prejuízo para o PT na capital. Ora, a questão que deve ser examinada é outra — é o jogo seguinte. Se Iris Rezende, leia-se o PMDB, receber o apoio de Ronaldo Caiado em 2016, na disputa pela Prefeitura de Goiânia, terá de, fatalmente, bancá-lo para o governo de Goiás em 2018. Na política, como na vida, não há nada de graça — nem o almoço.

Por que Iris Rezende pode sacrificar o PT de Goiânia e optar pelo apoio de Ronaldo Caiado? A resposta talvez seja simples. A gestão de Paulo Garcia (PT), com certo desgaste e muito questionada pela população, não apenas pelos políticos, não contribuirá para fortalecer uma possível candidatura de Iris Rezende ou de qualquer outra peemedebista a prefeito da capital. Aquele candidato que “carregar” Paulo Garcia possivelmente não receberá em 1º de janeiro de 2017 a chave do cofre da Prefeitura de Goiânia.

Os luas vermelhas do PT fingem que está tudo bem no casamento com o PMDB. Mas não está. O affair do peemedebismo com o Democratas de Ronaldo Caiado indica que o casamento entre PMDB e PT se tornou “aberto”. Porém, os chifres não são dos dois lados — crescem só na cabeça do petismo. Mas este sabe que precisa do PMDB para que Paulo Garcia conclua de maneira não inteiramente melancólica sua administração em Goiânia. Com o PMDB, a relação com a Câmara Municipal já está difícil, muito difícil; sem, o petista-chefe não governará a cidade.

Se estivesse lendo este Editorial, o jogador Garrincha certamente diria: “Mas Iris Rezende e Ronaldo Caiado combinaram com os russos?” Não combinaram. O PMDB irista está em decadência no Estado e vive do balão de oxigênio simbolizado por Goiânia. Ronaldo Caiado pode apoiar Iris Rezende em Goiânia, mas, em 2018, talvez não conquiste o apoio do PMDB para sua pretensão de disputar o governo do Estado.

Além do irista, há outro PMDB, que tende a ser mais forte, a partir de 2015, com a ascensão de Daniel Vilela e Pedro Chaves como únicos parlamentares federais do partido. Em Brasília importa o voto que se tem no Congresso Nacional e o grupo irista não tem nenhum deputado federal ou senador. O irismo morreu primeiro em termos nacionais — com a acachapante derrota de Iris Araújo —, está morrendo em termos estaduais, mas está espantosamente vivo em Goiânia.

Vanderlan Cardoso pode ser o principal beneficiário do jogo que PSDB e PMDB estão armando com vistas a manter, caso do primeiro, e conquistar, caso do segundo, o poder na disputa eleitoral para o governo do Estado em 2018

Vanderlan Cardoso pode ser o principal beneficiário do jogo que PSDB e PMDB estão armando com vistas a manter, caso do primeiro, e conquistar, caso do segundo, o poder na disputa eleitoral para o governo do Estado em 2018

Daniel Vilela, Pedro Chaves, Maguito Vilela e Júnior Friboi querem dar as cartas no PMDB e já nas eleições de 2016, mas tendo em vista o pleito de 2018. O quarteto planeja lançar candidato a governador — seja Júnior Friboi ou Daniel Vilela — e, apesar dos salamaleques, não vai apoiar a candidatura de Ronaldo Caiado. Alega-se: o PMDB é um partido mais sólido do que o DEM, tem mais estrutura — aliás, o DEM não tem nenhuma, e a que tem, se apoiou Ronaldo Caiado para senador, dificilmente o apoiará para governador, preferindo aliar-se ao tucano-marconismo —, tem nomes consistentes para a disputa e, se não disputar em 2018, estará praticamente decretando a sua extinção como, digamos, “segunda voz” da política do Estado. Pela primeira na história, o PMDB goiano estaria se subordinando a outra força política, que, diga-se de passagem, sempre foi sua adversária.

Se Iris Rezende quer negociar com Ronaldo Caiado porque 2018 não lhe interessa mais, o grupo liderado por Maguito Vilela e Júnior Friboi não pensa o mesmo e vai bancar candidato a governador em 2018.

O pingo estava fora do “i” e, com ligeiras pinceladas, voltamos a colocá-lo no lugar. Agora, portanto, vamos ao jogo de Vanderlan Cardoso.

Por sua discrição, Vanderlan Cardoso às vezes não é percebido como um político hábil. Porém, após a segunda derrota na disputa para governador de Goiás, no lugar de encontrar “defeitos” no vencedor — tais como: “gastou dinheiro e fez publicidade demais” (típica crítica dos peemedebistas, que, assim, não percebem suas próprias deficiências, como lançar um candidato fragilizado e não renovador) —, o empresário imediatamente começou a traçar um novo caminho.

Vanderlan Cardoso está dizendo, de maneira enfática, que não vai contrariar o sentimento do eleitor goiano, quer dizer, não quer mais ser candidato, a prefeito ou a governador, pela chamada terceira via. Planeja disputar a Prefeitura de Goiânia, em 2016, ou o governo do Estado, em 2018, tão-somente se conseguir articular uma aliança política forte. Por isso abriu conversações tanto com Júnior Friboi, do PMDB, quanto com o governador Marconi Perillo, do PSDB. E uma aliança com o irismo? Nem pensar, porque Vanderlan sabe que o irismo — no seu último suspiro, quem sabe — pretende bancar candidato em Goiânia.

O grupo de Júnior Friboi “sacrificaria” Goiânia — pois percebe em Vanderlan Cardoso um aliado mais sólido do que o petismo —, apoiando a candidatura do presidente do PSB a prefeito, com o objetivo de ter seu apoio para a disputa de 2018. Vanderlan Cardoso seria, digamos, o Ronaldo Caiado do grupo Friboi-Vilelas. Na conversa com Júnior Friboi, o líder do PSB ressaltou que não se pode estabelecer aliança com um grupo que, no momento, não tem a hegemonia no PMDB. Vanderlan Cardoso não “fecha” com Iris Rezende, mas teme que o peemedebista permaneça no comando do partido, ainda que por meio de propostos.

Porém, como não é hora de fechar acordos, e sim de iniciar e aprofundar conversações, Vanderlan Cardoso também vai dialogar com Marconi Perillo. O tucano-chefe tem um nome forte para a disputa de Goiânia, Jayme Rincón — que tem a imagem de gestor eficiente, de executivo que faz as coisas acontecerem —, mas pode abrir conversações, tendo em vista que 2018 é, do ponto de vista político, administrativo e econômico, mais importante do que 2016. Sacrificar Goiânia — curiosamente, tanto o PMDB quanto o PSDB estão pensando de maneira parecida — para manter o controle do poder em termos estaduais é um jogo inteligente, de grande sagacidade.

Em suma, o momento é de jogar, com o máximo de abertura possível. Mas não é, em definitivo, de “fechar” o jogo. Os políticos sabem disso. Espera-se que os jornalistas — que precisa deslindar a barafunda criada pelo políticos — e os (e)leitores também saibam.

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Mario Borges

A maldade quando é muito grande….cresce e come o Dono , Iris Rezende sempre foi um lider, com a idade ficou prejudicado, Ronaldo Caiado como Senador tem 8 anos pela frente, portanto.. Marconi deve se candidatar ao Senado novamente após o termino de seu mandato, quem vai concorrer com Ele ??? sobra assim o filho de Maguito Vilela e o candidato de Marconi,….. e Ele ganha novamente.

Di Almeida

Vanderlan Cardoso é, sem dúvida alguma, o melhor nome para prefeito de Goiânia. A aliança mais coerente seria mesmo PSB-PSDB, tendo em vista que ambos os partidos são da oposição em nível federal. O Vanderlan seria o Márcio Lacerda de Goiás. E, político habilidoso, com bom discurso e sendo um gestor experimentado, tem muita chance de vencer.

Jayme Ríncon deveria continuar o bom trabalho na Agetop.