Iris Rezende tem valor histórico mas trava fortalecimento das oposições e renovação política em Goiás

O candidato do PMDB a governador, Iris Rezende, não impede a renovação apenas do PMDB. Ele é um dos principais responsáveis por impedir a ascensão política do socialista Vanderlan Cardoso e do petista Antônio Gomide

Iris Rezende: a história do peemedebista merece respeito, pois ele contribuiu para a modernização  de Goiás, mas, ao se tornar um refém do passado, deixou de ser contemporâneo dos goianos atuais

Iris Rezende: a história do peemedebista merece respeito, pois ele contribuiu para a modernização
de Goiás, mas, ao se tornar um refém do passado, deixou de ser contemporâneo dos goianos atuais

Henrique Meirelles, executivo internacional, e Júnior Friboi, empresário que construiu um império econômico-financeiro no grupo JBS: vítimas da agressiva política de não-renovação de Iris Rezende

Henrique Meirelles, executivo internacional, e Júnior Friboi, empresário que construiu um império econômico-financeiro no grupo JBS: vítimas da agressiva política de não-renovação de Iris Rezende

O ex-governador de Goiás e ex-prefeito de Goiânia Iris Rezende (PMDB) tem um lu­gar garantido na história de Goiás. Pode não ser maior do que Pedro Ludovico Teixeira, porque este, com a construção de Goiânia, fato decisivo para o crescimento e para o desenvolvimento do Estado, é uma espécie de gestor hors concours. Iris pode não ser maior do que Mauro Borges, dado o fato de este ter, como Getúlio Vargas no país, constituído um Estado indutor que viabilizou a expansão goiana (note-se que a estrutura que criou não foi desmontada pelos governantes sugeridos pelos militares). O estatismo excessivo pode ser criticado, mas, em determinados momentos da história, é o Estado que investe a fundo perdido, criando pontes para o fortalecimento da iniciativa privada. O que se está dizendo é que Iris tem um lugar na história de Goiás, entre Pedro Ludovico, Mauro Borges, Irapuan Costa Junior, Henrique Santillo (é provável que, um dia, a história faça justiça a este idealista) e Marconi Perillo. Porém mais justo é inseri-lo entre os modernizadores não-ideológicos e, paradoxalmente, populistas. Ele combina os perfis do populista Jânio Quadros e o espírito protestante de Ernesto Geisel.

Hoje, candidato a governador pela quinta vez, tendo sido derrotado duas vezes —“sinal” que o político, mais intuitivo do que racional, não assimilou —, Iris enfrenta um tipo de crítica que não é inteiramente pertinente: a questão de sua idade, quase 81 anos — a 19 anos de um século. Os mais jovens afiançam que, sim, isto conta e que é preciso abrir mais espaço para os mais jovens, como Júnior Friboi, Waguinho Siqueira, Pedro Chaves, Agenor Mariano, Daniel Vilela e, entre outros, Humberto Machado. O “problema” de Iris, se se pode afirmar assim, não é de idade, e sim de mentalidade. Na sua propaganda política, fala de renovação e alternância de poder. Mas como acreditar nisto se não abre espaço para outros políticos do PMDB, jovens ou não, disputarem o governo?

Em 1998, o então governador Maguito Vilela (muito bem avaliado pelas pesquisas) tentou ser candidato à reeleição, mas Iris o barrou e, como era a tradição contra o novo (Marconi Perillo), perdeu a eleição. E parece que continuou não entendendo os “sinais” da política e das ruas.
Em 2010, Iris convidou Hen­rique Meirelles a se filiar ao PMDB e sugeriu que poderia ser candidato a governador. Em seguida, puxou o tapete do ex-presidente do BankBos­ton e ex-presidente do Banco Central. Meirelles era o símbolo da renovação do PMDB, se fosse candidato, mas Iris não permitiu e se lançou candidato a governador mais uma vez. De novo, com um discurso entre o passadismo e o messiânico — as pessoas podem até ser religiosas, mas querem no governo um gestor racionalista, herdeiro do Ilumi­nis­mo francês —, Iris perdeu para Marconi Perillo, do PSDB. E, mais uma vez, nada tinha a ver com idade, e sim com mentalidade. Fica-se com a impressão de que Iris, sempre que é candidato, “renova” Marconi. Mais: Iris, fora do poder, deixa a impressão de que “envelhece” mais, em termos de pensamento e ações. Quanto a Marconi, ainda que circunstancialmente articule com setores que não são inteiramente modernos, há indícios de que o poder o renova — sobretudo quanto mais intensamente pressionado.

Pós-derrota, em 2010, Iris pareceu acordar de um longo transe e convidou Vanderlan Cardoso para se filiar ao PMDB. Ao se filiar, Vanderlan descobriu o óbvio: seria cristianizado em 2014 e se tornaria o novo Meirelles. Iris o queria no partido não como um sopro de renovação, e sim como uma peça “nova” mas meramente auxiliar. Há quem diga que os aliados de Iris apreciavam mais o avião de Vanderlan do que o próprio Van­derlan. Como é um empresário atilado, o ex-prefeito de Senador Canedo caiu fora.

Sem Vanderlan para torná-lo um pouco mais “novo”, Iris assediou o empresário Júnior Friboi e o convocou para ser candidato a governador. Esquecendo-se que a história se repete — como tragédia e, às vezes, farsa —, deixando de relembrar as histórias de Maguito, Meirelles e Vanderlan, apesar dos avisos constantes do ex-deputado Frederico Jayme, o experimentado empresário caiu numa espécie de “conto do pastor”. Seria o candidato a governador apadrinhado por Iris. Este disse para Friboi trabalhar, reorganizando o PMDB, enquanto ele próprio convocava os aliados, no seu escritório de Goiânia, e dinamitava o empresário, sugerindo que não estava preparado para governar Goiás e que não se deve ganhar eleições tão-somente com base no uso de dinheiro (no caso, Iris usou a lógica como instrumento de uma política maquiavélica). Num primeiro momento, Friboi entusiasmou-se e, sem entender como funciona a política, correu o Estado, reorganizando o PMDB, que dava a impressão de uma tapera abandonada há vários anos.

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Vanderlan Cardoso e Antônio Gomide tendem a perceber Marconi Perillo como o principal adversário, deixando de entender que a primeira pedra no caminho deles é Iris Rezende

Em poucos meses, Friboi conseguiu se tornar o candidato “do” PMDB, mas descobriu, depois de puxadas de tapete privadas e públicas, que não era o candidato “de” Iris. Mais: percebeu que organizou o partido não para seu projeto político, e sim para o projeto do decano peemedebista. O que o empresário não entendeu é que o PMDB não tem um líder, e sim um proprietário. Neste partido, o mandonismo irista é inquestionável e, mesmo depois de quatro derrotas — três para o governador Marconi Perillo e uma para Alcides Rodrigues —, Iris permanece como “o” eterno candidato, e sempre falando em renovação, o que o eleitor certamente deve perceber como algo da categoria do “mau gosto”. Se fosse vitorioso, ele estaria certo. Quer dizer, o eleitor estaria aprovando sua “continuidade” como “o” nome do PMDB. Se perder para governador, este ano, Iris deve ser candidato a prefeito de Goiânia. Em 2016, na sucessão de Paulo Garcia — cuja imagem é negativa (ele não pode dizer que a gestão de Iris deixou muitas dívidas, quase 400 milhões de reais, e por isso culpa apenas a crise da Comurg e o não-recolhimento do lixo das ruas) —, PMDB e PT deverão caminhar em raias próprias. Por vários motivos. Citemos dois. Primeiro, em 2014, o PT, avaliando o projeto de Iris como “superado” ou “encanecido”, decidiu lançar candidato próprio a governador. Segundo, como Goiânia é uma espécie de cidade-Estado, seu prefeito, se bem-sucedido em termos de gestão, tem um peso eleitoral às vezes decisivo. O PMDB, se eleger o prefeito em 2016, sobretudo se ele trabalhar bem entre 2017 e 2018, possivelmente terá um candidato a governador mais consistente em 2018. Se perder em 2014, e não lançar candidato em Goiânia em 2016, o PMDB pode até não “pedir” falência, mas se tornará um partido de segunda categoria — o que não é positivo para a democracia. Um PMDB forte é importante para o próprio PSDB. A oposição, quando inteligente e qualificada, também “governa”.

Mas, enfim, Iris é o candidato a governador do PMDB em 2014. Marqueteiros têm uma imensa dificuldade de lidar com o peemedebista — insistamos, um político de valor, equilibrado, com história positiva —, porque ele parece não acreditar nos dados apresentados e, por isso, não tem facilidade para mudar o eixo de sua campanha. Se fizesse sessões com um psicanalista, Iris iria descobrir que seu problema não é exatamente Marconi — ou o investimento do governo em publicidade (o eleitor, do mais humilde ao mais requintado intelectual, tem bom senso e só acredita naquilo que pode verificar) —, e sim ele próprio. Se o jovem Samuel Belchior, presidente do PMDB (por “direito irista”, que, no PMDB, é sinônimo de “direito divino”), tivesse coragem para enfrentá-lo, dizendo-lhe a verdade factual, certamente diria: “O problema é que o sr. não encarna a renovação. É um homem do passado que insiste em falar para o presente, mas o presente quer e insiste em devolvê-lo ao passado”. A maioria dos goianos é religiosa, mas, quando se trata de um gestor, os eleitores querem que cite menos Deus e que proponha aquilo que é possível fazer. O eleitor vive na Terra, não no Céu. A história tem mostrado que vários dos que se dizem “enviados” por Deus muitas vezes, no final das contas, se tornam líderes autoritários e, em geral, avessos ao humanismo.

Que Iris é o elemento chave da não-renovação do PMDB, há vários anos, todos sabem. Maguito Vilela, Henrique Meirelles, Vanderlan Cardoso, Júnior Friboi, Marcelo Melo, Humberto Ma­chado, Leandro Vilela, Pedro Chaves e Frederico Jayme — políticos de valor, de histórias qualitativas — podem dar seus testemunhos. Alguns, por temor ao líder, certamente não falarão, ao menos não às claras. Porém, dos citados, quase todos dirão que Iris trava a renovação do PMDB. Mais: du­rante anos, Iris foi um apóstolo da construção. Agora, aparentemente devido às consecutivas derrotas eleitorais, se tornou um elemento da destruição.

Pedra no caminho

O que poucos dizem — nem mesmo os cientistas políticos categorizados — é que Iris trava a renovação global da política de Goiás. O peemedebista não é um problema, uma trava, apenas do PMDB.

Não é o governador Marconi Perillo que é o principal obstáculo a uma possível ascensão de Vanderlan Cardoso (PSB) e Antônio Gomide (PT). Na verdade, ao se colocar entre Marconi, Vanderlan e Gomide, o veterano Iris impede o crescimento das forças novas. A ideia pode ser sintetizada assim: Iris não ganha de Marconi e, ao mesmo tempo, impede que um político novo se aproxime para um confronto direto com o tucano-chefe.

A rigor, portanto, Iris é o principal eleitor ou cabo eleitoral de Marconi. Ele não ganha, não deixa outro ganhar e ajuda o tucano a se eleger. O motivo central? É que, no fundo, Iris é o político que, sendo homem do passado, “renova” o tucano nas eleições. Sua mentalidade arcaica — na qual o “ressentimento” estabeleceu-se como ideia cristalizada — contribui para que Marconi permaneça como símbolo do novo. Iris sequer compreende que o tucano constituiu uma relação construtiva e de parceria com a sociedade goiana. Uma relação de cumplicidade construtiva. So­ciedade à qual Iris parece não mais compreender — daí a falta de sintonia entre ambos. A sociedade pensa em Goiás, no Brasil, em Paris, Londres, Berlim, Pequim, Tóquio e Nova York. Iris, quando contrariado, insula-se no Xingu — distanciando-se das agruras do mundo real e deixando os companheiros do PMDB ao deus-dará.

O curioso é que Vanderlan, Gomide e seus marqueteiros parecem não perceber que, para se aproximarem de Marconi, precisam desidratar primeiro a barreira que impede sua ascensão, ou seja, precisam criticar, com mais presteza e inteligência, Iris. O peemedebista está “segurando” as novas forças políticas, impedindo o combate mais direto delas com o gestor tucano. É ó óbvio, mas às vezes, como escreveu o antropólogo Darcy Ribeiro, o óbvio não é percebido de maneira ampla e translúcida.

A campanha-xingatório não funciona. O eleitor não quer isto e cobra a apresentação de uma agenda positiva crível. Mas Vanderlan e Gomide, se quiserem acordar, precisam retirar a pedra, pesada, que impede que se aproximem de Marconi. O problema deles — e, como são inteligentes, vão perceber aquilo que está se tornando óbvio — é Iris, o político que trava o crescimento das oposições em Goiás e se tornou o freguês preferencial do governador tucano.

Então, antes de chegar a Marconi, é preciso livrar-se de Iris. Isto é possível? Muito difícil. Primeiro, porque, errando, “permitiram” que o tucano se consolidasse em primeiro lugar e, no momento certo, está estabilizando-se e até crescendo. Segundo, porque Vanderlan e Gomide não estão cercados por uma estrutura partidária e financeira similar à de Iris. Terceiro, parecem acreditar que o caminho adequado é atacar o líder nas pesquisas, com o objetivo de garantir pelo menos o segundo turno. Quarto, aqueles que estão em terceiro e quarto lugares, como Vanderlan e Go­mide, não têm de pensar em segundo turno. Devem trabalhar, de maneira concentrada, para ampliar sua ação eleitoral já no primeiro turno. Se deixarem Iris de lado, podem contribuir para a vitória de Marconi no primeiro turno.

Há, por fim, um problema que é de todos os candidatos de oposição: a apresentação prioritária de uma agenda negativa que esconde a agenda positiva. A apresentação de uma ampla agenda positiva, mostrando o que se pretende fazer e quais recursos há para se fazer, é muito mais importante do que afiançar que tudo está errado. Os eleitores, seres que têm bom senso — bom senso não é coisa exclusiva de intelectuais —, sabem o que está ocorrendo e verificam por si sós se o governador Marconi está trabalhando ou não. Se a crítica não encontra ressonância na realidade, como às vezes acontece, o eleitor desconfia.

Vanderlan e Gomide, políticos jovens e modernos, deveriam observar com atenção o programa de Dilma Rousseff (PT) e de Marconi Perillo. A apresentação de uma agenda positiva, mostrando o que se fez, o que se está fazendo e o que se pode fazer, é o que o eleitor espera de fato. As pessoas não querem saber de destroços, de críticas que pregam uma terra arrasada que só existe no marketing — o crescimento da economia goiana, superior ao crescimento da economia nacional, mostra que o governo e a iniciativa privada estão acertando. Quando Iris fala tem-se a nítida impressão de que fala de um tempo que não existe mais e que só pode ser encontrado nos livros de história ou, quem sabe, na memória dos velhos. Entretanto, insistimos: o problema de Iris não é sua idade, e sim sua mentalidade. Ele vive no presente, mas é, cada vez mais, um homem do passado. Marconi, Vanderlan, Gomide, Friboi, Humberto Aidar, Agenor Mariano, Maguito, Hum­berto Machado, Marcelo Melo, Fre­derico Jayme, Daniel Vilela, Thiago Peixoto, Giuseppe Vecci, Ale­xandre Baldy, Antônio Faleiros, Rubens Otoni, Olavo Noleto, Edward Madureira, Paulo Garcia (que só precisa se libertar do “pai” político), Pedro Chaves, José Mário Schreiner, Gustavo Sebba, Luis Cesar Bueno, Marina Sant’Anna, Armando Vergílio, Vilmar Rocha e Ronaldo Caiado são contemporâneos dos goianos atuais. Iris, em definitivo, não é. Daí o desencontro de tempos e linguagens. Mas, como político que fez muito pelo Estado, que contribuiu para a criação e expansão de sua infraestrutura, merece o respeito dos goianos. Ele se tornou história. Está nos livros — cristalizado. O que os eleitores querem, se as pesquisas estiverem certas, é que “saia” das urnas e abra espaço para o novo… O grande adversário de Iris é Iris… É o recado do eleitor por meio das pesquisas… Neste Editorial, até as reticências têm valor e significado, caro leitor-eleitor…

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elson

esta visão esta correta Iris tem que deixar que so ele pode derrotar Marcone vai perder mais uma

Homero A Machado

O tempo do Íris já foi a muito tempo. Por isso perderá mais uma vez.
E mais uma vez. Quantas vezes ele candidatar.