Ideias de Dani Rodrik, Francis Fukuyama e Armínio Fraga para melhorar o governo de Dilma Rousseff

Pesquisador de Princeton sugere que vitalidade das instituições é o ponto forte do Brasil. Filósofo de Stanford sublinha que melhorar a qualidade dos serviços públicos é fundamental. Especialista brasileiro diz que, se o governo fizer algumas reformas, a recuperação da economia começa em dois meses

Dani Rodrik, Armínio Fraga e Francis Fukuyama: dois economistas e um filósofo apontam caminhos para fortalecer as instituições, reformar o Estado e melhorar os serviços públicos. Aposta-se nas institiuições

Dani Rodrik, Armínio Fraga e Francis Fukuyama: dois economistas e um filósofo apontam caminhos para fortalecer as instituições, reformar o Estado e melhorar os serviços públicos. Aposta-se nas institiuições

Três entrevistas publicadas na “Exame” (duas) e na “Época” (uma) contribuem para entender o Brasil. A publicação do Gru­po Globo ouviu o economista Ar­mínio Fraga, doutor por Princeton, uma das mais prestigiosas americanas. A revista da Editora Abril dialogou com o cientista político e filósofo Francis Fukuyama, professor de Stanford, listada entre as cinco mais importantes unidades de ensino superior dos Estados Unidos, e com o economista Dani Rodrik, pesquisador de Princeton e ex-professor de Harvard.

Análise de Dani Rodrik

Autor do livro “As Regras da Economia” (apresentado como brilhante pela “The Economist”), Dani Rodrik sublinha que os economistas não escapam aos modismos e tendem, por vezes, a confundir o quadro real com o matiz ideológico. O scholar turco-americano diz que não há “apenas um modo correto de encarar problemas econômicos. Em certo casos, é necessário recorrer a mecanismos como a substituição de importações. Em outros é preciso recorrer aos incentivos ao mercado e ao investimento privado”.

Perguntado sobre a corrupção no Brasil, Dani Rodrik frisa: “A sensação é que a lei é aplicada com mais rigor no Brasil do que em outros países emergentes. Quando a turbulência passar, o Brasil estará em uma posição muito melhor do que a maioria dos emergentes no caminho para se tornar uma economia avançada. E acho que o mercado financeiro internacional não está reconhecendo essa vantagem. (…) A China teve um crescimento espetacular, mas não fortaleceu suas instituições judiciais. Como pode haver uma economia avançada onde há dúvidas sobre as regras que protegem a atividade intelectual? A China ainda enfrentará problemas graves de desinteresse do capital privado estrangeiro devido a esse tipo de incerteza. E o Brasil está equacionando essa questão”.

Sobre o crescimento da economia, Dani Rodrik analisa: “Nas últimas décadas, o crescimento veio de uma combinação entre um boom nos preços dos recursos naturais e altos fluxos de investimentos estrangeiro. Nenhuma dessas duas coisas oferece uma fonte de crescimento sustentável. Eu creio piamente que países bem administrados vão continuar seu caminho de desenvolvimento”.

O economista frisa que o Brasil, como outros países, tem de ficar atento ao fenômeno da desindustrialização prematura, que é resultado da divisão internacional do trabalho e das mudanças tecnológicas. “Esse fenômeno limita o crescimento de muitos países emergentes, como o Brasil. Principalmente porque essa tendência de longo prazo foi combinada com uma mais pontual, que é a elevação do preço das commodities, algo que certamente acelerou a desindustrialização.”

Se a desindustrialização é irreversível, como conclui Dani Rodrik, é possível buscar o crescimento acelerado nos próximos anos? Para crescer, de maneira estável, será preciso fazer “investimentos em capital humano, em melhoria das instituições e com cumprimento das leis. A partir de agora, só será possível crescer melhorando os fundamentos. E isso não produz milagre econômico, mas permite que um país cresça de forma consistente, com aumentos no PIB per capita de mais ou menos 3% ao ano”.

Sobre incentivos fiscais e financeiros, como os concedidos pelo BNDES ao grupo JBS — que alguns chamam de a mais estatal das empresas privadas do Brasil —, Dani Rodrik ressalta: “É um erro pensar que política industrial é apenas conceder subsídios. É muito melhor buscar as necessidades urgentes e específicas de cada setor. Essas demandas podem estar no campo financeiro, mas podem ser relativas à infraestrutura, à falta de mão de obra qualificada ou a aspectos das leis trabalhistas. O segredo é estabelecer um diálogo constante entre o governo e a indústria. Já a questão fiscal vai muito além disso. Os governos deveriam aprender a perseguir superávits primários maiores durante períodos de alto crescimento para criar uma reserva que permita mais gastos em períodos de baixo crescimento. Não apertar a política fiscal quando os ventos estão soprando a favor é um erro muito comum entre os países emergentes. Mas, como se vê hoje, ele pode custar caro”. O grupo de Dilma Rousseff ouve este tipo de orientação? Não parece. A entrevista foi concedida ao repórter Daniel Barros

Análise de Francis Fukuyama

O cientista político e filósofo Francis Fukuyama se tornou célebre graças ao livro “O Fim da História e o Último Homem”, no qual celebra a vitória “final” do liberalismo sobre o socialismo. A queda do socialismo, a partir de 1989, levou-o a concluir que o liberalismo havia vencido em definitivo. Acabou muito criticado pela tese, e não só pela esquerda. Mas continua influente e seu último livro, “Ordem Política e Decadência Política”, será publicado este ano no Brasil, conta o repórter Eduardo Salgado, da “Exame”.

Fukuyama postula que “os países precisam ter um governo com algum nível de qualidade para que possam ficar ricos. Mas nenhum país começou sua escalada com ótimos governos já estabelecidos. (…) O caso dos Estados Unidos é emblemático. No século 19, o país tinha um governo bastante corrupto do alto ao baixo escalão, o clientelismo era a regra, a prestação de serviços era ruim porque sofria muita influência política. (…) À medida que se tornou mais rico, conseguiu reformar o Estado e diminuir a corrupção na primeira metade do século 20”.

O Brasil é um “caso interessante”, afirma Fukuyama. “É um país que está ficando rico e tem as condições necessárias para que haja uma elevação na qualidade da gestão estatal. A classe média tem crescido, e isto aumenta a demanda por um Estado mais eficiente. Diria que o Brasil atualmente está no mesmo estágio que os Estados Unidos estavam no fim do século 19. O Brasil se industrializou, promoveu mudanças na área social, mas isso tudo ainda não resultou numa ampla reforma do setor público. O que divide o mundo… são cleptocracia e países com governos que servem ao bem-comum. (…) A qualidade dos serviços públicos é o grande tema da atualidade.”

Uma resposta de Fukuyama tem muito a ver com o Brasil e com Goiás (no momento em que setores corporativos resistem, de maneira quase insana, à implantação de organizações sociais na gestão das escolas públicas do governo do Estado): “As pessoas resistem muito a prestar contas do que fazem. Isso é marcante em funcionários públicos de todas as partes do mundo. Eles abominam a ideia de ter metas e de ser punidos por não conseguir atingi-las. Os sindicatos são contra as tentativas de criar bônus por performance. Lutam pela segurança do emprego sem conexão com a realidade do serviço. É por isso que as reformas da burocracia quase sempre envolvem brigas com os sindicatos. Para elevar a eficiência do Estado, os governos precisam separar os funcionários que trabalham muito e são competentes dos preguiçosos e descomprometidos”.

Análise de Armínio Fraga

Ex-presidente do Banco Central e ex-golden boy de George Soros, Armínio Fraga concedeu entrevista a Samantha Lima, na qual diz que, “se em dois meses forem sinalizados ao menos alguns pontos, como idade mínima para aposentadoria, desvinculação do salário mínimo na Previdência, reformas do ICMS e do PIS/Cofins — que estão bem desenhadas —, enfim, se o governo mostrar esforço em pôr em prática tais medidas, o clima muda e a recuperação começa”.

Sobre o Banco Central, Armínio Fraga assinala: “O BC passou um tempão remando num direção, e a política creditícia remando na direção contrária. Um modelo disfuncional. Esquizofrênico. Não dá certo. É muito difícil um banco central fazer seu trabalho sem o governo ter o mínimo de solidez fiscal. Estamos falando de algo que precisa acontecer para o Brasil ter juros normais sem inflação. Isso, o BC não consegue fazer sozinho”.

De que o país precisa? “No momento, o país precisa mesmo é de uma grande reforma do Estado, incluindo uma clara e estrutural correção de rumo na área fiscal. Nesse meio-tempo, o BC faz sua parte, muito prejudicado pelo resto do governo”, destaca Armínio Fraga.

A repórter pergunta: “Dá para retomar o crescimento sem investimentos, só pelo consumo?” Armínio Fraga explica sua posição: “Não. Não tem mágica. Nenhuma economia vive sem crédito nem expectativa de demanda, mas isso está longe de ser suficiente. Falta o lado do investimento e da produtividade”.

Dá para acreditar no Brasil, em sua recuperação. Armínio Fraga afirma que recomprou a Gávea Investimentos, do banco JP Morgan, porque põe fé no país. “Se tivéssemos desistido do Brasil, não teríamos comprado.”

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