Ida de Lula à força para depor na PF prova que uma revolução jovem move instituições do país

Jovens que se cansaram do discurso de que “nada muda” e de que tudo está “contaminado” estão provando que o Brasil tem jeito. Eles estão fazendo a sua parte. Cabe aos demais se apresentarem como cidadãos de fato e de direito

Sérgio Moro, Deltan Dall’Agnol e Helio Telho: o juiz e os dois procuradores da República, homens  e profissionais íntegros e competentes, mostram que o Brasil tem jeito e está no caminho certo

Sérgio Moro, Deltan Dall’Agnol e Helio Telho: o juiz e os dois procuradores da República, homens
e profissionais íntegros e competentes, mostram que o Brasil tem jeito e está no caminho certo

O filósofo Francis Fuku­ya­ma relata que, no século 19, a corrupção dominava nos Estados Unidos. O país era um dos mais corruptos do mundo. Aos poucos, com o avanço do capitalismo, com o fortalecimento da sociedade — as pessoas começaram a rejeitar os políticos venais, além de pressioná-los publicamente — e com o surgimento de uma imprensa crítica, mais autônoma em relação ao Poder Executivo, a terra de Henry James e William Faulkner foi se modernizando e o combate às irregularidades alcançou a ordem do dia. Pode-se dizer que a emergência e, em seguida, a expansão das classes médias, exigentes e críticas, em todos os campos da sociedade, sobretudo no Ministé­rio Público, na Justiça e na polícia fe­de­ral (FBI), mudaram os Estados Unidos em um século. Sim, mudanças que são mudanças verdadeiras, e não cosméticas e momentosas, por vezes demoram; a sociedade precisa estar madura para acatá-las e, também, defendê-las.

Uma sociedade com jovens ocupando posições decisivas na sociedade americana — jovens que passaram por duas guerras mundiais, a Primeira, na década de 1910, e a Segunda, entre as décadas de 1930 e 1940 — entendeu que era possível mudar.

Os indivíduos querem mudança, mas, por vezes, fica-se com a impressão de que querem mudança para os outros. Uma mudança verdadeira é aquela sob a qual todos precisam mudar — e não apenas políticos e empresários. O fim (ou redução) do jeitinho, que é um sistema paralelo e incrustado no consciente e no inconsciente, deve ser para todos, não só para alguns. Uma sociedade de iguais pressupõe respeito às leis e aos seus representantes. É preciso entender que muitos, sob o império da lei, podem não se sentir bem — resvalando, mais uma vez, para o jeitinho.

Mas, aos trancos e barrancos, o Brasil está mudando — e muito, e em pouco tempo. O que provoca certo estranhamento e, também, certa volúpia por mais mudanças, inclusive radicais (leia os últimos parágrafos deste Editorial). Desde a rigorosa apuração do caso chamado mensalão, que levou à prisão de condestáveis da República — como José Dirceu (que havia sido deputado federal e ministro do governo de Lula da Silva), José Genoino (ex-deputado federal pelo PT), Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT) e Marcos Valério (publicitário com ligações com tucanos e petistas) —, chegando ao petrolão, a investigação de corrupção na Petrobrás, percebe-se que o Brasil mudou e está mudando ainda mais. Há vários motivos — o mais decisivo é a admissão de que a construção de instituições sólidas é vital para a constituição de uma sociedade melhor para todos. Agora, todos sabem que, independentemente de poder político ou poder empresarial, aquele que desrespeitar as leis estará à mercê da Justiça, com a possibilidade de ser condenado à prisão ou ter de devolver dinheiro ao Erário.

Comenta-se que a Constituição de 1988, dita Cidadã, é responsável pelo fortalecimento das instituições. Contra alinhamentos ideológicos e políticos, a lei, democrática, protege todos de todos. É a favor de todos, mas contra todos aqueles que cometem ilegalidades. Mas a letra fria das leis — por melhores que sejam as leis — não funciona sem que indivíduos queiram cumpri-las e levar os outros a cumpri-las. Pode-se, portanto, falar na emergência de jovens de todas as classes sociais, acentuadamente nas classes médias, que exigem e propugnam por instituições fortes, acima de quizílias ideológicas, políticas e empresariais.

Insistamos que vital mesmo são instituições fortes. Sem elas, nada feito. Mas pode-se falar numa revolução democrática dos jovens, que, atuando em vários setores da sociedade — Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal, Receita Federal e Imprensa —, perceberam que podem contribuir para mudar o seu país, mais agindo do que falando, e sempre atuando de acordo com os rigores da lei. A geração jovem, que tem esperança de que é possível construir um país democrático — e a democracia começa com o cumprimento das leis por todos, não apenas com igualdade política e social —, mostra, além de vontade e coragem, alta capacidade técnica para nortear as mudanças.

Promotores, procuradores, policiais federais, auditores da Receita Federal, sobretudo os mais jovens — mas não só eles, é claro —, são pontas de lança de mudanças cruciais. É como se, a partir de determinado momento, percebendo a força das leis — “que são boas, só não são aplicadas”, dizem quase todos —, tais jovens tenham decidido mudar a nação. Pode-se falar num movimento silencioso — que são os mais fortes; os movimentos das ruas são tão barulhentos quanto esquecíveis, porque não são práticos — de reconstrução do Brasil.

É evidente que, como Sérgio Moro, há outros magistrados honestos, competentes e corajosos, que são capazes de enfrentar os homens do poder político e suas poderosas conexões sociais. Mas o juiz federal do Paraná é a prova de que, com competência e lisura pessoais e profissionais, além de coragem — que pode ser chamada de cívica —, é possível enfrentar o poder da ilegalidade, que é sólido e substanciado, inclusive por advogados do mais alto gabarito, e colocar todos como “iguais” perante a lei. Os processos judiciais instruídos por Sérgio Moro são tão bem feitos que os ministros do Supremo Tribunal Federal — no qual atuam algumas sumidades jurídicas do país, como Celso de Mello — preferem não “revisá-los”, por assim dizer.

Na Procuradoria da República, que tem sido vital para a legalidade no país, destaca-se, entre outros, Deltan Dall’Agnol. O procurador é cuidadoso e competente na formulação de suas denúncias, deixando pouco espaço para dúvidas. Em Goiás, para citar apenas um procurador, é preciso mencionar Helio Telho — competente, participativo e ético.

Os jovens que estão denunciando e penalizando integrantes do PT e criminosos de outros partidos, e até sem partidos — meros oportunistas, alpinistas, arrivistas —, eram crianças (ou nem tinham nascido) quando o PT foi criado, em 1980, há 36 anos. Sérgio Moro tinha 8 anos. Deltan Dall’Agnol não era nascido. Helio Telho tinha 12 anos. Eles estudaram Direito, prestaram concurso público, sabem que não podem ser removidos pelos poderosos, e não são controlados partidária e ideologicamente por nenhum grupo. Quando investigam o PT, são vistos como tucanos. Quando investigam o PSDB, são vistos como petistas. No fundo, são cidadãos que querem que os demais se comportem como cidadãos. São jovens que se cansaram do discurso de que nada muda e de que tudo está “contaminado” no Brasil. Eles estão provando que o país tem jeito e estão fazendo a sua parte.

O fato de Lula da Silva ter sido levado, sob condução coercitiva para depor na Polícia Federal, prova que uma revolução jovem está movendo as instituições do país. Jovens que estão dizendo “basta!” àqueles que só pensam em conveniências e acordos espúrios. A reação anti-institucional de Lula e de seus aliados sugere que não estão compreendendo o Brasil, que estão deixando de ser contemporâneos dos atuais brasileiros.

Sociedade pura é fantasia

Não há sociedades puras. Não há nenhuma possibilidade de constituir uma sociedade de puros. Por isso é preciso que a imprensa tenha mais cuidado ao sugerir que, feita a depuração dos governos do PT, o país estará caminhando rumo ao Nirvana. O que se deve dizer, com todas as letras, é que, com instituições fortes — que rejeitam pressões e nas quais seus integrantes têm receio de fazer acordos de conveniência —, a corrupção e a impunidade tendem a cair. Entretanto, uma depuração total, por meio de mudanças radicais, é impossível na sociedade democrática. A democracia, para proteger as liberdades dos indivíduos, é sempre mais lenta do que as ditaduras.

Ditaduras de direita e de esquerda, que se assemelham mesmo quando são diferentes — casos dos totalitarismos nazista e comunista, espécies de Cain e Abel ou, diria Machado de Assis, Esaú e Jacó —, acreditam que podem “construir” o “homem novo”, infenso à corrupção e partícipe da ideia de que se pode edificar uma sociedade de iguais. Sonhos de tardes de verão. Sistemas que tentaram construir sociedades e homens ideais naufragaram e, não raro, se tornaram violentas — um perigo à inteireza da individualidade. O indivíduo é contraditório, meio reto e meio torto, quase sempre de uma ambivalência ímpar, portanto não é possível “ajeitá-lo” ou “sujeitá-lo” integralmente. O que se precisa, para criar uma média de aceitabilidade para todos, que possibilite uma sociedade mais harmônica, é de instituições sólidas. É o que ocorre em países como Alemanha, França, Suécia, Ingla­terra, Japão e Estados Unidos, mas não em Cuba e China. Mas não há, insistamos, sociedades perfeitas.

Os envolvidos na Corruptobrás criada ou azeitada por petistas estão sendo investigados e, por certo, serão penalizados pela Justiça — alguns já foram condenados. Mas isto não significa, como muitos querem, que se trata de uma mudança radical. Trata-se, isto sim, de penalidades típicas — normais — de uma sociedade democrática, nas quais as instituições funcionam e não são controladas por poderes (como o Executivo), grupos políticos e empresariais ou indivíduos que se avaliam como deuses do Olimpo (caso, quem sabe, de Lula da Silva). Modernidade não é ter apenas carros importados de qualidade na garagem e nas ruas. Modernidade é, sobretudo, ter instituições que, de tão estruturadas (o que não é sinônimo de perfeitas), são respeitadas por todos os cidadãos — inclusive por seus integrantes.

Ninguém está acima da lei. Porque, na democracia, a lei, e não o poder de “A” ou “B” — devido a força política ou dinheiro —, é o limite legal. Trata-se do consenso que todos devem aceitar para que as regras mínimas de civilidade sejam acatadas e respeitadas.

Os brasileiros precisam entender, portanto, que uma mudança está em curso. Mas não devem se iludir sobre o que são os indivíduos. Uma sociedade melhor é possível, mas não uma sociedade perfeita. Uma dose de realismo é vital para evitar pileques de decepção.

1
Deixe um comentário

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
Adalberto De Queiroz

Sem pileque de decepção, saúdo o editorial como daqueles feitos (escritos) para durar…