Hamilton Mourão puxa Brasil pra democracia e Bolsonaros-boys puxam pra direitização

Os filhos do presidente Jair Bolsonaro querem radicalizar militares para que o governo seja mais reacionário, mas os generais postulam a defesa da diversidade e da tolerância

O ex-ministro Antônio Delfim Netto, de 90 anos, concedeu entrevista ao repórter André Jankavski, da revista “Exame”, publicada sob o título de “O poder hoje está no Congresso”. Instado a avaliar os primeiros 100 dias da administração do presidente Jair Messias Bolsonaro, o economista disse que se trata de “um governo com muitas facetas. Algumas excelentes e outras tenebrosas. Na área da Justiça, há um programa razoável e que precisa obedecer aos ritos institucionais. É algo que já está caminhando. A área econômica está indo muito bem. A equipe colocou que sem o equilíbrio fiscal, que é a mãe de todos os equilíbrios, o país não voltará a crescer. E só vai crescer quando transferir o investimento público, especialmente em infraestrutura, para o setor privado por meio de concessões e privatizações”. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, “está abrindo caminhos para que as coisas andem com mais rapidez”.

Hamilton Mourão, Augusto Heleno e Santos Cruz são generais que trabalham para Jair Bolsonaro ser realista e não sair dos marcos democráticos | Fotos: Reproduções

Delfim Netto é favorável à participação dos militares no governo de Bolsonaro. O economista sublinha que são qualificados. “Devemos ao Bolsonaro a descoberta de uma mina de ouro.” Os militares “se educaram muito nos últimos anos e podem ser utilizados na administração. São pessoas de alta qualidade. Porém, isso não significa que é o Exército que está no governo”.

Os militares que estão no governo de Bolsonaro são competentes, como atesta Delfim Netto, e não são fisiológicos. Mais: generais como Augusto Heleno, Santos Cruz e Hamilton Mourão, para citar apenas três, são democratas e não querem saber de ditadura. Eles são realistas e sabem, mais do que muitos civis, que a ditadura militar — que também foi civil (Delfim Netto foi um de seus próceres, na economia, e apoiou, de maneira decidida, o AI-5, sugerindo até mais endurecimento) — deixou um legado negativo para o país e, sobretudo, para os militares.

Por isso, no poder, que gesta uma espécie de realismo para quem de fato quer governar — e não continuar em campanha durante quatro anos (Bolsonaro imita Donald Trump, presidente dos Estados Unidos) —, os militares demonstram moderação e tolerância.

Três grupos no poder

Há ao menos três grupos no governo. Primeiro, o de Bolsonaro, que é fortemente influenciado pelas ideias do filósofo Olavo de Carvalho — que criou um aguerrido exército de militantes para a direita brasileira —, inclui o presidente, seus filhos e alguns aliados. Em geral, não é o grupo mais qualificado e, sobretudo, não parece preparado para governar e não usa um discurso democrático, esquecendo-se, por vezes, que palavras são atos preliminares.

Segundo, o dos militares. Neste grupo, há mais diversidade do que se imagina, pois nem todos militares pensam da mesma maneira. Porém, dados ao senso de hierarquia e responsabilidade e a disciplina, fica-se com a impressão de que agem em bloco (na verdade, têm pedido moderação inclusive a Hamilton Mourão). Num aspecto, comungam os mesmos ideais: são democratas, tolerantes e trabalham pelo crescimento e desenvolvimento do país. São patriotas no bom sentido. Não advogam perseguições a adversários políticos na máquina pública e não usam palavras como “extirpar” (os “comunistas” de cargos públicos) e “arrancar” (os petistas dos poros do poder; e não há dúvida de que o PT “aparelhou” a máquina pública federal). Eles sabem, mais do que Bolsonaro, que governo é trabalho de equipe e que não é vital que todos pensem do mesmo modo. O importante é que se obtenha resultados que beneficiem a sociedade, o país.

Michelle Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão: o general parece ser mais democrata do que o capitão | Foto: Reprodução

Terceiro, o grupo dos políticos, que não parecem, mas são influentes (e também pensam de maneiras diferentes). Assim como os militares, trabalham para moderar Bolsonaro — que, no poder há quatro meses, comporta-se como se ainda fosse candidato, e não presidente da República. Há quem diga que Onyx Dornelles Lorenzoni não é um político de primeira linha. Pode até não ser. Mas, no Palácio do Planalto, contribui para tentar conter os arroubos de Bolsonaro e para injetar-lhe certa dose de realismo e paciência. A melhoria na convivência com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, se deve, em larga escala, à atuação do ministro-chefe da Casa Civil (que, por sinal, não tinha bom relacionamento com o parlamentar, mas passou a ter).

No momento, assiste-se o ataque do bolsonarismo, um quase bonapartismo, ao vice-presidente, o general Hamilton Mourão. Curiosamente, a ala que puxa o governo mais para a direita — um quase fundamentalismo político — não é a dos militares, e sim a dos Bolsonaros, o sênior e os boys, que, mesmo passada a eleição, age como se fosse o PT da direita e prega o “nós contra eles”. Em tese, a se aceitar o discurso do bolsonarismo, vive-se uma cruzada entre as forças do bem, a direita radical, e as forças do mal, todas as outras que não comungam seus ideais, se ideais são.

Desprivatizar o Palácio do Planalto

O vereador Carlos Bolsonaro, que pensa ter estrela própria — quando a luz é do poder, e, na democracia, é provisória —, acusa Hamilton Mourão de conspiração. Ele estaria conspirando com e contra quem? Como os Bolsonaros fiam-se mais em palavras — palavras, palavras, palavras, como escreveu o bardo britânico — do que em evidências, não se sabe exatamente do que se tratam suas teorias da conspiração.

Hamilton Mourão é apontado, até, como tendo conspirado com Jean Wyllys, ex-deputado federal do PSOL. Conversar com alguém de esquerda é uma maneira de “contaminar-se” — parece acreditar o clã Bolsonaro. Na verdade, como vice-presidente da República — um representante do país e dos brasileiros, não mais de meros partidos e grupos políticos —, Hamilton Mourão faz bem ao conversar com variados setores da sociedade, sejam de direita, de centro ou de esquerda. Uma sociedade avança de maneira ampla quando agrega pensamentos divergentes. A síntese de um país não se faz apenas com as ideias e teses de um só grupo. O general parece ter entendido isto de maneira mais adequada do que os Bolsonaros. “O Brasil perde todas as vezes que você não pode sentar numa mesa com gente que diverge de você”, disse Hamilton Mourão a respeito de Ilona Szabó, que, escolhida pelo ministro da Justiça, Sergio Fernando Moro, para membro-suplente de um conselho, foi vetada por Bolsonaro.

Quando se falou em intervenção militar na Venezuela, como se o mundo ainda estivesse no tempo do Big Stick de Theodore Roosevelt, Hamilton Mourão posicionou-se contra desde o início. Já que Donald Trump tem interesse numa intervenção — não o disse, mas poderia ter dito, Hamilton Mourão —, que a faça.

Carlos Bolsonaro, Hamilton Mourão e Olavo de Carvalho: chegou-se a propor o impeachment do vice-presidente, mas Rodrigo Maia derrubou o pedido | Fotos: Reproduções

Interrogado pela imprensa, que busca respostas bombásticas — até para gerar uma crise política e render manchetes explosivas —, a respeito das palavras recentes de Carlos Bolsonaro, o porta-voz do caos político, Hamilton Mourão mostrou, mais uma vez, a tolerância do homem maduro que sabe que está lidando com “crianças” (inteiramente irrealistas) com poder (ainda que um poder derivativo, não próprio): “Quando um não quer, dois não brigam”. Trata-se não só de lógica política, e sim do exercício da tolerância e educação mesmo.

Bolsonaro possivelmente está usando o filho Carlos Bolsonaro para tentar enquadrar Hamilton Mourão. Porque o general, inteligente e hábil, está conquistando o país, inclusive a imprensa. O presidente talvez esteja com ciúme. O que é um equívoco, porque o vice-presidente é leal, e, na verdade, está defendendo o governo e o próprio Bolsonaro. No fundo, está tentando atrair setores resistentes a Bolsonaro para que avaliem o governo de maneira mais ampla. Para que não pensem que o governo é composto de tresloucados. A família não pode e não deve “privatizar” o Palácio do Planalto. A democracia, afinal, não combina com a prevalência da oligarquia.

Há uma tentativa de desmoralizar o filósofo Olavo de Carvalho, que tem uma obra filosófica consistente (para além dos artigos panfletários e dos xingamentos pornográficos), ao chamá-lo de “primeiro-astrólogo”. Mas uma coisa é entender de filosofia — Platão desistiu de orientar o tirano de Siracusa — e discutir ideias. Outra coisa é governar. Primeiro, governos democráticos podem ter ideias excelentes sobre determinadas questões, mas têm de ouvir o Congresso (que as aprova ou não) e discuti-las com a sociedade. Não se faz uma democracia a toque de caixa, com decisões apressadas. Segundo, nem sempre, em confronto com a realidade, ideias tidas como boas dão resultados de qualidade. Terceiro, governar é incluir, até mesmo aqueles dos quais, politicamente, não se aprecia. Porque um presidente, como Bolsonaro, governa para todos — não só para os “escolhidos”. Não dá para “extirpar” aqueles dos quais não se gosta. Pode-se até não acolhê-los, mas é preciso conviver, de maneira tolerante, com todos. Os Estados Unidos, país admirado por Bolsonaro, é uma sociedade profundamente democrática e Donald Trump pode esbravejar, mas tem de aceitar as decisões do Congresso e da Suprema Corte. Olhando de longe, de uma perspectiva de um país que teve ditadura, o Brasil, para um país poderoso, mas que não teve ditadura, os Estados Unidos, pode-se acreditar que Trump tem queda para ditador. Talvez até tenha, mas, se tentar ser ditador, cairá: o Congresso e a Suprema Corte não deixarão que governe acima das leis e das instituições.

Rodrigo Maia e Onyx Lorenzoni: o deputado e o ministro representam forças políticas moderadas e democráticas | Foto: Reprodução

Realismo político e democracia

Bolsonaro cercou-se de militares democratas, que não querem a ditadura — daí serem execrados pela direita mais radical —, mas é orientado por civis, dos quais os filhos são apenas bonecos de ventríloquo, que não se comportam de maneira inteiramente democrática. Querem puxar o presidente mais para a direita, quando, na democracia, mesmo um gestor de direita não pode perder contato com o centro — observe, na questão da Reforma da Previdência, a prevalência do centrão — e, por vezes, nem deve perder de vista o que a esquerda pode ter de melhor (nem toda a esquerda é corrupta e stalinista).

Ao tentarem puxar Bolsonaro para a ultradireita, os mentores dos “meninos” Bolsonaros tentam demonizar os militares, que estariam “evitando” a direitização do governo, o jogo contra os adversários. O que os irrealistas não percebem é que, se caminhar para a ultradireita — a radicalização extremada —, o presidente não conseguirá governar, e poderá se tornar uma espécie de Fernando Collor Segundo. A votação da Reforma da Previdência está ensinando que, na prática, o gestor federal está sendo moderado pela realidade.

O que os mentores dos “garotos” Bolsonaros querem é radicalizar os militares, o que levaria à radicalização de Bolsonaro sênior. Mas os militares, escaldados com a longa noite de 21 anos — ficaram com o desgaste e até civis que os apoiaram (e até manipularam, por vezes) sugerem que não apoiaram o golpe e a ditadura (seriam meros figurantes) —, querem o governo nos marcos da legalidade, do respeito às instituições. Por isso, e contra o radicalismo dos que não têm experiência com a política do real e estão sendo manipulados (e estão tentando manipular), os militares, como Hamilton Mourão, merecem o apoio e, até, o aplauso da sociedade.

Pode parecer incrível para alguns, mas os militares propugnam pela democracia, pelo convívio das diferenças — ainda que lutando pela hegemonia de suas ideias —, enquanto nichos do governo Bolsonaro, cuja face visível são os Bolsonaros-boys, querem seguir a via tortuosa e infrutífera de um governo próximo da democradura. Ora, por que então criticar a Venezuela e Cuba se, no fundo, se quer um governo parecido — só que de direita?

Por sorte do país, os militares, Hamilton Mourão, Augusto Heleno e Santos Cruz, estão “puxando” o país e Bolsonaro para a democracia, para o realismo. Os civis, como Onyx Lorenzoni e Rodrigo Maia, seguem pelo mesmo caminho. O que prova que há, para além do discurso imoderado do presidente, sensatez no seu governo. Ele próprio, na prática, é mais racional do que sugerem suas palavras. Ninguém é amador tendo se tornado presidente da República, mas quem é profissional politicamente tem de escapar dos amadores — os bem e os mal-intencionados. Os Bolsonaro-boys entendem tanto de política quanto o presidente de física teórica.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.