Francisco deve virar inspiração para Paulo Garcia fazer acontecer o “milagre da sustentabilidade” de Goiânia

O histórico encontro com o papa deve servir para o prefeito se revigorar na convicção de fazer o que deve ser feito para o futuro e a sobrevivência da capital

Paulo Garcia assina documento de compromisso com a questão ambiental

Paulo Garcia assina documento de compromisso com a questão ambiental

Virou costume, e já faz tempo, principalmente entre veículos de comunicação, escolher alguém que se destaque em determinado cenário e durante um período de tempo especificado. Assim, surgiram o “Político do Ano”, a “Personalidade do Século”, “Os Mais In­fluentes”, entre outros rankings por meio dos quais se destinam louros a certos indivíduos, homens ou mulheres, que se sobressaem em relação a um determinado conjunto.

Nesse particular, se fosse para eleger alguém como “O Homem da Década”, o argentino Jorge Mario Bergoglio estaria bem perto da consagração, apesar de ainda estarmos no meio dela. O papa Francisco — nome do mais popular santo católico, São Francisco de Assis, e que ele adotou assim que foi escolhido para a sucessão de Bento XVI — já fez mais coisas pelo mundo em menos de dois anos e meio de pontificado do que poderosos de nações importantes que mantiveram a supremacia por décadas. Seu trabalho não é aprovado apenas pelos cristãos católicos: tem sido um alento para toda a humanidade. Líderes e populações inteiras, de diversas crenças e etnias, veem em sua figura a silhueta da esperança de um futuro melhor.

Nesse trabalho de levar o sentido e a mensagem de sua missão para todos os seres humanos, o documento mais importante de que um papa dispõe é a encíclica. O termo é originário do latim “encyclios” — como de resto tudo o que envolva o Vaticano, os documentos da Santa Sé são redigidos nessa língua tida como “morta” —, que quer dizer “circular” ou “aquilo que circunda (ou abraça) tudo/todos”. Assim, principalmente após o Concílio Vaticano II, na década de 60, as encíclicas têm sido encaradas como um “recado” da Igreja a todos, católicos ou não católicos.

Paulo Garcia (ao fundo na foto da esquerda) em audiência no Vaticano, com o Papa Francisco

Paulo Garcia (ao fundo) em audiência no Vaticano, com o Papa Francisco

A primeira encíclica totalmente editada por Francisco chama-se “Laudato si’” (“Louvado seja”, em latim, língua em que são publicados todos os documentos do Vaticano) e é também o primeiro documento de um papa redigido para falar de um tema cada vez mais atual e obrigatório: meio ambiente. Foi lançada em 18 de junho e antes mesmo de seu anúncio já gerava polêmica sobre seu conteúdo.

Pela maioria dos vaticanistas e demais especialistas religiosos, a encíclica foi considerada uma obra destinada a deixar uma marca fortíssima não só dentro da Igreja, mas principalmente fora dela. Francisco imprimiu, ao mesmo tempo, riqueza espiritual, olhos abertos para o mundo e muita veemência no discurso. Não isolou o problema ecológico ao largo do econômico, pelo contrário: afirmou que a causa ambiental não pode ser vista separadamente do drama social, em um mundo que chega agora à assustadora marca de metade de todas as riquezas do planeta concentrada nas mãos de 1% da população. Não precisa ser marxista para saber que um mundo com tal distorção precisa de mais justiça social para que o caos não prolifere. Francisco sabe disso. E, ao contrário do que querem fazer pensar seus detratores (mesmo dentro da Igreja), não é marxista.

Em suma, o papa fez exatamente o que se espera de um líder como ele em um momento considerado crucial para os destinos do planeta, que terá nova conferência climática no fim do ano, em Paris. Pouco mais de um mês depois de publicar a “Laudato Si’”, Francisco recebeu, na semana passada, prefeitos do mundo inteiro no Vaticano. Eles foram escolhidos por serem considerados adeptos da causa do meio ambiente e, juntamente com o pontífice, assinaram em um termo pelo qual se comprometem a se esforçar de forma mais efusiva pela questão ambiental em suas administrações.

Ao todo, participaram do encontro cerca de 70 gestores de cidades de vários países. Entre os presentes na comitiva brasileira estava o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT). Por coincidência ou não, a plataforma de governo com que o petista foi eleito para seu segundo mandato tem como lema “Goiânia Cidade Sustentável”. Um assunto um tanto árido de levar até o eleitor — e nisso a fraca concorrência para o pleito de 2012 acabou por dar a liberdade necessária à coligação puxada pelo PT para prosseguir nessa temática sem medo de percalços. Mas, como o próprio prefeito vem podendo comprovar, é menos árido para discursar do que espinhoso para ser executado.

Até o momento, pode-se dizer que o cenário para cumprimento do que foi projetado em campanha, especialmente em relação à sustentabilidade, foi de muita dificuldade para o Paço. Isso quando não foi pior: houve ações que foram combatidas pela sociedade como contra o meio ambiente, como a atualização do Plano Diretor em 2013, onde muita polêmica envolveu, por exemplo, a ocupação da região norte da capital, e também a crise do lixo, no ano passado.

Agora, o progresso de obras como o BRT, no eixo Norte-Sul da cidade, e do complexo Macambira-Anicuns, que vai melhorar a qualidade de vida para mais de uma centena de bairros da cidade quando concluída, começa a mudar o cenário em favor da administração. E o encontro com o papa Francisco deverá servir para o prefeito se revigorar na convicção de fazer o que deve ser feito pelo futuro de Goiânia. Ainda que isso envolva desgastes — e isso sempre haverá para um gestor —, é preciso levar adiante o que seja vital para o bem comum e não apenas para alguns setores. A questão capital é enfrentá-los: é fato que tais grupos se mostram com grande poderio, inclusive econômico, para conseguir impor interesses particulares quase nunca saudáveis para a coletividade.

Um dos desafios de Paulo Garcia é ser fiel ao propósito de tornar a cidade cada vez mais compacta, adensada, aos moldes de algumas das cidades mais sustentáveis e modernas mundo afora, como Cingapura, Tóquio, Melbourne, Copenhague, Bogotá, entre outras. Essas devem servir como espelho para Goiânia. Mas para isso será preciso enfrentar um velho fantasma: a sanha da especulação imobiliária pela abertura de mais áreas de loteamento por meio da votação de nova expansão urbana.

Certas investidas da Prefeitura que batem de frente com o interesse dos vereadores em suas “bases” não têm dado certo. Duas delas, em anos seguidos, tiveram a ver com o aumento do IPTU. Nas duas, imperou a vontade do Legislativo. É preciso agora fazer os integrantes da Câmara de Goiânia entenderem o papel decisivo que têm no destino da capital. Aprovar leis que favoreçam — e não que contrariem — a questão da sustentabilidade precisa passar a ser muito mais do que uma questão partidária ou eleitoreira: é matéria que diz respeito à sobrevivência da cidade. Como católico que é e também integrante da delegação goianiense que esteve com o papa, o presidente do Legislativo da capital, Anselmo Pereira (PSDB), também tem consciência de sua responsabilidade.

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