Fracasso de Dilma Rousseff produz tese de que Lula pode ser o “salvador da pátria” em 2018

O Lulopetismo opera um jogo arriscado e não muito bem delineado: torce não pelo fracasso total, e sim parcial da presidente, para que Lula da Silva surja como o político-gestor, quase de oposição, para recuperar o país. As oposições? Estão dormindo

Dilma Rousseff e Lula da Silva (com o habilíssimo vice-presidente Michel Temer no meio): a presidente é um elo descartável do Lulopetismo, sobretudo a partir de 2018-2019, e deve ficar como aquém do petista-chefe, o “competente” em termos políticos e administrativos | Foto: Ricardo Stuckart/Instituto Lula

A presidente Dilma Rousseff (PT) é leitora de John Updike — o fino analista da classe média — e de Philip Roth, autor do romance de contrahistória “Complô Contra a América”.

Saul Bellow, John Updike e Philip Roth são experts em expor a vida de personagens — nem sempre políticas — complexas, exacerbadas e, eventualmente, comuns. Os retratos, excessivos ou não, às vezes são caricaturas de pessoas reais. A literatura, mimesis, não é cópia da realidade; antes, é uma transfiguração ou, quem sabe, uma concorrente.

Karl Marx, um radical bem preparado intelectualmente — pode-se discordar de suas ideias, mas não menosprezar sua inteligência e capacidade de pensar —, sugeriu que o escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850) era um intérprete poderoso de seu tempo, que entendeu de maneira mais perceptiva do que muitos historiadores.

Recentemente, o economista francês Thomas Piketty, autor do best seller transnacional “O Capital no Século XXI”, também fez uso da prosa de Balzac para entender as relações econômicas (inclusive a questão das heranças) e sociais no século 19. Descobriu que o filósofo e economista alemão não errara: o autor de “A Comédia Humana” havia interpretado, com notável perspicácia, a sociedade de seu tempo.

John Updike é o Balzac da classe média dos Estados Unidos. Sua famosa tetralogia (seguida de um conto, o que acaba compondo um quinteto) — conhecida como a série “Coelho” — é um retrato vibrante da sociedade americana da segunda metade do século 20. Sem achincalhe, sem firulas acadêmicas, o autor de “Coelho Cai”, “Coelho Corre”, “Coelho Cresce”, “Coelho em Crise”, “Coelho Se Cala” expõe a sociedade de seu tempo como poucos.

Especialistas atentos àquilo que o sociólogo José de Souza Martins chama de “pequenas coisas”, ao examinar os romances e contos de John Updike, vão encontrar análises — diria “mostruário”, se a palavra não fosse um tanto inapropriada — finas sobre o funcionamento real de uma sociedade complexa, com contradições e nuances que não são devidamente compreendidas se o intérprete se prende a reduções como “sociedade de consumo”, “pátria do consumo” ou “imperialismo”.

Philip Roth capta seres mais excessivos (Alexander Portnoy e Mickey Sabbath), menos normativos — cidadãos comuns, da classe média, são o foco de Updike —, mas pouco a pouco caminhou para ressaltar as razões da moralidade americana e, mesmo, o seu uso político, como no caso Bill Clinton-Monica Lewinsky, exposto, de maneira ficcional, no romance “A Marca Humana”.

Uma das diferenças entre a história e a literatura é que a primeira parece falar de coisas mortas — e dizer isto nem sempre é possível, porque os mortos, de certo modo, “sobrevivem” nos vivos, pois os homens de hoje “continuam” a vida dos homens de ontem; as rupturas escondem que a continuidade dá o tom — e a segunda, das coisas vivas. Talvez seja possível dizer que os escritores mostram a história — a vida dos seres — como uma coisa viva, por isso, quem sabe, suas obras interessam tanto às pessoas, intelectuais ou cidadãs comuns.

Por que Dilma Rousseff, uma mulher circunspecta, aprecia a leveza da prosa de John Updike e o estilo corrosivo e, até, pesado da literatura de Philip Roth? Difícil apontar uma explicação, pois sabe-se pouco sobre seus gostos literários, exceto que é aficionada pela prosa dos escritores de “Cidadezinhas” e “O Teatro de Sabbath”.

É provável que, como economista, tenha apreciado o amplo painel da sociedade americana, da vida de cidadãos da classe média — usuários e vendedores, por exemplo, do veículo japonês Corolla —, exibido e dissecado na prosa de John Updike. De Philip Roth talvez tenha apreciado a exposição de vidas excessivas (dos personagens) e a história alternativa, por exemplo, de “Complô Contra a América” (Charles A. Lindberg, aliado aos nazistas, chega ao poder nos Estados Unidos, no lugar de F. D. Roosevelt).

Porém, apesar da qualidade da literatura de John Updike e Philip Roth, é provável que contribuam pouco para Dilma Rousseff entender o que está acontecendo com seu governo do ponto de vista político. Talvez a prosa de um cético em tempo integral como V. S. Naipaul, autor de “Os Mímicos” — no qual sugere que só o poder revela o político —, seja mais útil para se entender o jogo por trás do jogo.

A prosa seca de Naipaul, o antipopulista por excelência, mostra os homens como são. Pobres, ricos e integrantes da classe média são exibidos de maneira crua, sem contemplação, sem fantasia. Não há adulação. O mundo é o que é, e não há nenhuma salvação. Há avanços e recuos — não há movimento linear incontornável na história, como pareciam acreditar tanto iluministas quanto positivistas e, segundo o filósofo inglês John Gray, marxistas. Os ventos do progresso às vezes são colhidos e tolhidos pelos ventos do retrocesso. A Alemanha de Hitler — a mesma de Goethe e Thomas Mann — já foi um Estado Islâmico de alta voltagem.

Embora seja presidente da República, e reeleita, Dilma Rousseff não é, a rigor, uma player. É um peão do jogo contraditório de seus próprios aliados — inclusos Lula da Silva, o mais maquiavélico dos políticos atuais, e os peemedebistas Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha — e dos oposicionistas. Como não formatou um grupo político, talvez por se julgar integrante de um grupo maior, o de Lula — o chamado Lulopetismo, que é quase um movimento que comanda o PT, depois da queda de José Dirceu —, Dilma Rousseff não dirige o jogo. É um peão — uma peça — dele.

Quase sempre é “movida” por Lula, às vezes é deslocada pelos peemedebistas. Um joguete? Quase. Note-se que Gilberto Carvalho, no primeiro governo da petista, respondia quase que exclusivamente a Lula. Sua permanência no Palácio do Planalto era um recado — tanto para Dilma Rousseff quanto para os aliados, notadamente petistas e peemedebistas — de que havia duplicidade de poder. A petista era (é) a presidente, mas o ex-presidente a tutelava ou monitorava.

Como Dilma Rousseff está apenas no início de seu segundo mandato, os aliados, os que a fazem jogar, como Lula, petistas e peemedebistas, não sabem exatamente o que fazer com ela. Não podem mandá-la para casa, por intermédio de um impeachment, pois os resultados são quase sempre imprevisíveis. Quando Fernando Collor caiu, os petistas avaliaram que chegariam ao poder nas eleições seguintes, mas viram Fernando Henrique Cardoso controlar o governo de Itamar Franco e ser eleito para oito anos de mandato.

O que fazer com Dilma Rousseff? — certamente se perguntam Lula, Michel Temer e Renan Calheiros? Suportá-la, até 2018. Mas suportá-la de que maneira? Fala-se em impeachment como se fosse golpismo — o que não é, pois o impedimento é um mecanismo legal da democracia —, mas, na verdade, os aliados de Dilma Rousseff, e não seus adversários, estão dando um golpe, a céu aberto, para tomar-lhe o poder de maneira geral e irrestrita. Há uma espécie de regência quase nos moldes de quando d. Pedro II era menino, no século 19. Como assim? “Loucura!”, dirão, e até com certa razão, se uma breve “exposição de motivos” não for feita.

Como o Lulopetismo de Lula e o peemedebismo de Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha são experts em política do real — mais da linha de Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes do que das invenções literárias de John Updike e Philip Roth, e mesmo Naipaul —, adotaram uma tática (e não uma estratégia, diga-se) curiosa.

Como perceberam que as oposições são frágeis — se o sensaborão Aécio Neves fosse general no tempo de Winston Churchill, a Inglaterra teria sucumbido a Adolf Hitler; e Fernando Henrique Cardoso não tem idade e saúde para atuar como o Abraham Lincoln dos trópicos —, o Lulopetismo e o temerismo (de Temer), o renanismo e o cunhismo, que estão acima do peemedebismo, descobriram o ovo de Colombo: podem adotar dois discursos.

Num primeiro momento, fica-se com impressão de que Dilma Rousseff é defendida pelo Lulopetismo e pelo triunvirato temerismo, renanismo e cunhismo (leitores de jornais, notadamente dos diários, por certo acreditam que renanismo e cunhismo são anti-Dilma Rousseff). Na verdade, não estão defendendo a presidente, e sim um projeto de poder. O que de fato estão fazendo é “defendendo-a” das críticas — inermes — dos opositores.

Num segundo momento, mais sutil ma non troppo, fica-se com a impressão — e talvez se esteja configurando uma certeza — de que o Lulopetismo e o peemedebismo em seus vários matizes estão atacando diretamente o governo de Dilma Rousseff, quem sabe ocupando o espaço de uma oposição que dorme em berço esplêndido, sem viço e conteúdo.

O que se está dizendo é herético? Pode parecer, mas não é. Nós começamos o Editorial mencionando escritores, como John Updike e Philip Roth, porque são atentos ao captar certas filigranas que jornalistas, escrevendo em cima da hora, sob pressão intensa dos fatos, nem sempre percebem.

É possível que a presidente Dilma Rousseff termine seu governo de maneira melancólica. Por quê? Ah, dirão: é autoritária, não compõe com o PMDB, é avessa às determinações de Lula. Tudo é verdade? Quase nada. A petista — que, aliás, tem pouco a ver com o petismo — não é, na verdade, autoritária. Inclusive as propostas de controle-regulação da imprensa são do Lulopetismo, mas há quem acredite que são dela, dado seu passado de esquerdista-guerrilheira.

O fracasso de Dilma Rousseff, por incrível que pareça, parece que será mais útil a Lula, em 2018, do que à oposição. Curiosamente, a manipulação do Lulopetismo envolve inclusive os críticos de Dilma Rousseff. Se a presidente é “ruim”, se os fundamentos econômicos ruíram em seu governo — sem que se investigue como realmente recebeu o governo de Lula em 2011 —, afigura-se que Lula é “bom”. Aécio Neves? Pra que, se “temos” Lula!

Lula, em 2018, tende a aparecer como salvador da pátria. Nos braços de todos? O que se pode dizer é que — mesmo sem ter lido John Updike, Philip Roth e Naipaul — o petista é um mestre da manipulação política. Quase todos que “atacam” Dilma Rousseff estão a serviço, direta ou indiretamente, de Sua Majestade — mr. Lula “Teflon” da Silva.

 

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Adalberto De Queiroz

Um comentário meu foi perdido…Bom porque reli este texto. De fato, a presidente da República parece ter tempo – disposição e tempo dos quais não dispõe seu mentor – a ler e a ler livros de qualidade: “Por que Dilma Rousseff, uma mulher circunspecta, aprecia a leveza da prosa de John Updike e o estilo corrosivo e, até, pesado da literatura de Philip Roth? Difícil apontar uma explicação, pois sabe-se pouco sobre seus gostos literários, exceto que é aficionada pela prosa dos escritores de “Cidadezinhas” e “O Teatro de Sabbath”. Como não conheço a ficção de Naipaul, falo de Roth… Leia mais