Escolas militares sugerem que um tipo de organização social já funciona na Educação de Goiás

O governador Marconi Perillo e a secretária da Educação, Raquel Teixeira, vão implantar as OSs nas escolas públicas de Goiás. O que se quer mesmo, atendendo a reivindicação da sociedade, é melhorar a Educação no Estado para todos

Marconi Perillo e Raquel Teixeira: o governador e a secretária precisam se unir para melhorar a escola pública de Goiás, atendendo ao clamor da sociedade civil. O objetivo é universalizar a qualidade | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Marconi Perillo e Raquel Teixeira: o governador e a secretária precisam se unir para melhorar a escola pública de Goiás, atendendo ao clamor da sociedade civil. O objetivo é universalizar a qualidade | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Um filósofo francês sugeriu que as perguntas às vezes, talvez sempre, são mais importantes do que as respostas. Talvez seja possível sublinhar que perguntas e respostas são apenas partes das mesmas questões ou problemas. Vamos começar com algumas perguntas e, quando possível, tentaremos apresentar algumas respostas.

1 — A sociedade brasileira, não apenas a goiana, aprova o modelo de escola pública vigente? O sistema atual é mais defendido por questões corporativistas e acomodação?
2 — Fala-se muito em mudança com o objetivo de nada mudar? O leitor por certo lembra-se da frase clássica do romance “O Leopardo”, do escritor italiano Tomasi di Lampedusa: “Se estivermos lá também nós, eles acabam fazendo uma república. Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”.
3 — Winston Churchill frisou que a guerra era tão importante que não poderia ficar por conta dos generais. A educação é tão importante que não pode ficar por conta exclusiva dos professores?
4 — Luis Cesar Bueno (PT) e José Nelto (PMDB), deputados estaduais qualificados, defendem o modelo atual de escola pública. Eles educaram seus filhos em alguma escola pública da Prefeitura de Goiânia ou do governo do Estado?
5 — Por que os goianos estão praticamente brigando por escolas públicas administradas por militares? (Tem a ver com a pergunta de número 3?). Não seria a hora de faculdades de pedagogia e outras estudarem o assunto com rigor e sem preconceito com os militares? (Acrescente-se que, ao contrário do que José Nelto destaca, militares não são os únicos responsáveis por ditaduras. No Brasil, o ditador mais longevo no poder foi o civil Getúlio Vargas, que, sem rodízio, ficou 15 anos no poder. Acrescente-se que o arcabouço institucional, o planejamento econômico e a formulação fazendária nos 21 anos da ditadura, entre 1964 e 1985, foram criados por civis, com escassa participação militar.)
6 — A professora Raquel Teixeira, secretária da Educação do governo de Goiás, não quer implantar as organizações sociais na escolas públicas?
7 — Harvard, Yale e Columbia seriam Harvard, Yale e Columbia se estivessem sempre em greve? As greves no setor público “punem” mais os governantes, reduzindo sua popularidade, ou os alunos?

As perguntas contêm respostas, mas é possível ampliá-las — ressalvando que são mais “toques” e “apontamentos” para um debate do que defesa de “verdades absolutas”. Pode ser que, aqui e ali, a exposição não seja pertinente e que é seminal aprofundar o debate. O leitor perceberá que algumas respostas “envolverão” mais de uma pergunta e alguns temas eventualmente serão repetidos na exposição.

Depois de um trabalho relativamente consistente na área de Educação — palavra que merece um “E” maiúsculo em quaisquer circunstâncias —, em seus três primeiros governos, entre 1999 e 2014, avançando tanto com Raquel Teixeira quanto com Thiago Peixoto, dois quadros de rara excelência, Goiás, mais do que o governador Marconi Perillo (PSDB), pôde colher frutos com os resultados do Ideb e do Enem. Mas é preciso seguir adiante.

A sociedade não está plenamente satisfeita com a escola pública. Fica parecendo que só grupos corporativistas a defendem como funciona atualmente. Por quais motivos? Correndo o risco de ser injusto, dada a generalização, talvez seja possível sugerir — e as palavras da frase anterior indicam a cautela do Editorial do Jornal Opção — que há setores da sociedade, e não apenas da esquerda, que usam a educação como instrumento político. Fala-se dos salários insatisfatórios — semelhantes em gestões do PT e do PSDB, porque vivem-se a realidade do mesmo país — mas às vezes muito mais com objetivos eleitorais, ou eleitoreiros.

As greves são um instrumento legítimo — ainda que às vezes possam ser consideradas ilegais pela Justiça — para reivindicar melhores salários e condições de trabalho mais adequadas.

Mas no Brasil, como noutros países, as greves também podem ser usadas como instrumentos político-partidários. Grupos que querem “conquistar” o poder “aparelham” sindicatos e usam categorias com o objetivo de desgastar a imagem daqueles que estão no poder. Claro que há reivindicações justas e professores merecem ganhar salários dignos. As grandes universidades americanas — Columbia, Harvard e Yale, para citar apenas três — estão entre as melhores do mundo. Estariam neste patamar se greves impedissem que alunos estudassem o ano inteiro? Não estariam, lógico. A Universidade de São Paulo (USP), seguramente a mais importante do Brasil, pode ser comparada às três dos Estados Unidos? Não. Por causa das greves? Não só, mas também.

Uma pausa para uma discussão mais dos campos filosófico e psicológico. As pessoas querem mudar mesmo? Ou a frase do romance de Tomasi di Lampedusa — “Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude” — é mesmo correta? Mudar é mesmo doloroso.

Por isso homens e mulheres preferem adotar o discurso da mudança. Quer dizer, todos defendem a mudança, mas quase ninguém, na prática, a quer. Então, quando alguém se predispõe a provocar uma mudança — que nem precisa ser radical —, quase sempre há um choque. A atitude é defensiva: “Não dará certo. É melhor deixar do jeito que está”. Por que mudanças devem ser graduais e não bruscas, como pretendiam os comunistas, em países como União Soviética, Alemanha Oriental, China e Camboja? Porque, como a maioria dos indivíduos não quer mudar, é preciso forçá-los aos poucos. O termo exato nem é “forçar”, pois vive-se, no Brasil, numa democracia. Numa sociedade aberta, as pessoas precisam ser persuadidas, convencidas. Mas sozinhas, sem quaisquer incentivos e até pressões legítimas, continuarão repetindo o que sempre fazem todo dia. É como diz Chico Buarque, na música “Cotidiano”: “Todo dia ela faz tudo sempre igual”. A rotina é adversária figadal da mudança, da renovação.

Por que Churchill, além de outros, disseram que a guerra não pode ficar por conta dos generais? Primeiro, porque chega um momento em que é preciso parar a guerra e a decisão é tomada com mais largueza de visão por estadistas, não por militares. Por vezes, mas não sempre, os militares, notadamente os generais, querem a continuidade da guerra. Segundo, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando a Inglaterra estava praticamente derrotada — e isolada na Europa — pelo nazista Adolf Hitler, que era fascinado pelos britânicos, militares e alguns nobres, até de primeira linha, chegaram a cogitar a rendição. Churchill reagiu e decidiu que era preciso continuar a guerra — em nome da Civilização, da Humanidade. Mesmo os generais que estavam se “deitando” decidiram “levantar-se” para acompanharem-no. A Educação é tão importante, mas tão importante, que não pode ficar tão-somente por conta dos professores. Sua melhoria deve envolver as forças ativas da sociedade, com os professores, é claro, na linha de frente, mas não sozinhos. A Educação decerto funcionará melhor se contar com o apoio de especialistas de várias áreas — gestores, engenheiros, médicos, dentistas, advogados e políticos (desde que não sejam meros populistas). Os alunos, acrescente-se, não podem ser desconsiderados. Os professores precisam, inclusive, viver no mesmo “tempo” tecnológico e entender as novas linguagens do corpo discente. Se ficar para trás, em termos de buscar novas formas de acessar o conhecimento, o professorado perde sua autoridade e respeitabilidade em sala de aula.

O hoje senador José Serra, do PSDB, estudou engenharia na USP e fez mestrado (no Chile) e doutorado (na Uni­versidade de Cornell, nos Estados Unidos) em economia. O país teve vários ministros da Saúde médicos, muitos deles muito bons. José Serra, mesmo não sendo da área, foi considerado um dos melhores. Por quê? Porque a função do ministro da Saúde não é fazer cirurgias ou receitar medicamentos. O que se precisava, no Ministério da Saúde, era de um gestor de pulso firme e capaz de retirar do papel as boas ideias. Os medicamentos genéricos — que tornaram os preços dos remédios mais realistas, quer dizer, mais baixos — e o tratamento das pessoas que têm o vírus da aids são avanços da era José Serra no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Falemos das escolas militares. Em Goiás, dezenove escolas públicas são geridas pela Polícia Militar, que, como se sabe, não é especialista em Educação. Por que deu certo? Por um motivo prosaico, mas fundamental: nas escolas ditas militares — aliás, os uniformes e a disciplina camuflam a realidade, pois são menos militarizadas do que imagina o deputado José Nelto — há aulas todos os dias e o conteúdo das matérias é exposto corretamente. Na quarta-feira, dia de jogos do Campeonato Brasileiro da Série A, algumas escolas podem até dispensar os alunos. As escolas militares não dispensam. Além disso, introduziram também uma saudável competição intelectual entre os alunos. Os melhores alunos são destacados publicamente.

Os deputados estaduais Luis Cesar Bueno (PT) e José Nelto (PMDB) educaram seus filhos em escolas particulares. Se as OSs derem certo, é provável que seus netos poderão estudar em escolas públicas | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Os deputados estaduais Luis Cesar Bueno (PT) e José Nelto (PMDB) educaram seus filhos em escolas particulares. Se as OSs derem certo, é provável que seus netos poderão estudar em escolas públicas | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Os jornais, possivelmente patrulhados pelas esquerdas, hegemônicas na área da Educação, raramente registram que há uma guerra pouco silenciosa por vagas nas escolas ditas militares. Não só. Os prefeitos cobram que o governador Marconi Perillo implante escolas militares nos municípios que administram. Há uma “grita” generalizada. Por isso o governo vai instalar mais 19 escolas militares em Goiânia, Aparecida de Goiânia e Senador Canedo. É a sociedade civil que está atropelando os políticos — como Luis Cesar Bueno e José Nelto, que por certo nunca visitaram uma dessas unidades de ensino — e, mais do que pedindo, exigindo escolas militares em seus municípios.

O que as pessoas — nada ideológicas e nada partidárias — estão clamando não é, a rigor, por escolas militares, e sim por escolas públicas decentes, onde se tenha aula todos os dias e traficantes de drogas não beirem nem mesmo suas portas.

Noutras palavras, o que são as escolas militares? Nelas, a Polícia Militar é, pondo o pingo no “i”, uma espécie de organização social sem ser nominada como tal (e em harmonia com os professores, que são civis). Então, ao planejar a instalação de organizações sociais — que nada têm de mafiosas (o petista Luis Cesar Bueno faria bem se saísse do conforto de seu gabinete refrigerado, na Assembleia Legislativa de Goiás, e desse um pulinho na Bahia, Estado gerido pelo PT, e no qual as OSs atuam na área de saúde) — na Educação, a partir de 2016, o governador Marconi Perillo não está inventando a roda. O tucano-chefe está atendendo à sociedade. Juntos, Marconi Perillo e sociedade, querem uma educação pública de qualidade.

Uma educação em que os filhos de José Nelto e Luis Cesar Bueno poderão colocar seus filhos.
A professora Raquel Teixeira disse recentemente que tem 68 anos e é uma defensora da escola pública. Tem razão. Mais do que isto, Raquel Teixeira é uma estadista, uma das mais qualificadas gestoras educacionais do país. É séria, íntegra e competente. Ao colocar a Educação de Goiás em suas mãos, Marconi Perillo sabe o que está fazendo.

Mas Raquel Teixeira é contra a implantação das OSs na Educação? Comenta-se que é. Mas a verdade é outra. Patrulhada no seu ambiente, a universidade, a secretária às vezes reluta e cobra mais cautela do impetuoso governador Marconi Perillo. Os dois têm razão. Mudanças apressadas na Educação, sem projetos-pilotos, às vezes podem derrubar anos de boas ideias enraizadas — aquele basicão que, bem ou mal, funciona. Portanto, Raquel Teixeira não é contra a adoção das OSs na Educação — exceto quando aceita o patrulhamento ideológico de seus pares. Porém, a função de Marconi Perillo, eleito pelo voto popular, é pressionar para que se saia do lugar (sobretudo do comum) e se faça as coisas mais rapidamente, como ocorreu na área de Saúde. As OSs dinamizaram o setor e já estão chamando a atenção do país para Goiás; ressalte-se que o Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo, mais conhecido pela sigla Crer, tornou-se referência para o governo federal, dirigido pela petista Dilma Rousseff, que o recomenda como modelo para outros Estados.

Fala-se que Raquel Teixeira pode “cair” da Secretaria da Educação. Se sair, é um erro dela. Se for exonerada, será um erro do governador Marconi Perillo. Trata-se de gestora e educadora competente, de integridade a toda prova, qualificada para implantar as OSs na Educação. Mais do que isto, os dois são os principais agentes de uma mudança que poderá ficar na história de Goiás e do país — se for levada adiante com inteligência, certa paciência e competência. O que se pede é que Marconi Perillo tenha tolerância com Raquel Teixeira e que esta tenha tolerância com aquele.

Acatando o sentimento da sociedade, que o elegeu para fazer mudanças — inclusive aquelas que desagradam os setores corporativos —, Marconi Perillo tem vontade e vai implantar as OSs na Educação, quer dizer, melhorar a escola pública para todos, especialmente para os pobres e para a classe média baixa (e para quem quiser, na verdade). Porém, para tanto, precisa de técnicos (com visão política global) qualificados, como Raquel Teixeira. Os dois precisam irmanar-se. Porque se não pode ficar por conta exclusivamente dos professores, a Educação também não pode ficar sob o controle total de gestores de organizações sociais. Tanto Marconi Perillo quanto Raquel Teixeira são figuras públicas respeitáveis e cônscias de que as OSs não são entidades mágicas e, por isso, devem subordinar-se ao poder público, àqueles que têm visão de Estado.

Já que citamos Chico Buarque, terminemos este Editorial com o início da música “Velha Roupa Colorida”: “Você não sente nem vê/Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/Que uma nova mudança em breve vai acontecer/E o que há algum tempo era jovem novo/Hoje é antigo, e/precisamos todos rejuvenescer”. É isso: a Educação de Goiás precisa escapar à modorra, aos velhos conceitos, às ideias encanecidas. É preciso tentar outros caminhos. Sem medo. Porque o medo é paralisante.

Uma resposta para “Escolas militares sugerem que um tipo de organização social já funciona na Educação de Goiás”

  1. Avatar Angela Silva disse:

    Gostaria de receber os salários de um professor das universidades de Harvard, Yale e Columbia ou ter as mesmas condições de trabalho deles… outro detalhe que todos os “assessores críticos/ pessoas que dão pitaco na educação” esquecem é que ” O aluno da escola estadual está preocupado em aprender?

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