Quem vai polarizar com Ronaldo Caiado? Por enquanto, é Mendanha. Mas postulantes do PL e do PSDB podem esvaziá-lo criando outra polarização

O processo eleitoral vai mudando de “forma” assim que os partidos vão definindo suas candidaturas. Inicialmente, até por causa das pesquisas, um quadro começou a ser delineado: o governador Ronaldo Caiado, do União Brasil, teria como principal adversário o ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha, do Patriota. Seria uma disputa entre um gestor bem avaliado, com imagem sólida de político honesto, e um jovem político das cercanias de Goiânia.

Porém, enquanto Ronaldo Caiado expandia suas alianças, Mendanha demorava-se a buscar um partido para se filiar. Em cima da hora, teve de ficar no Patriota — que, ao menos em Goiás, tem a dimensão de um “ong” e tem poucos líderes consistentes. O deputado federal Alcides “Cidinho” Rodrigues e Jorcelino Braga, presidente do partido no Estado, são os nomes mais respeitáveis.

Mendanha continua atrás de partidos aliados, porque, se não consegui-los, seu tempo de televisão será escasso, assim como os recursos financeiros para a campanha. O empresário Sandro Mabel é riquíssimo, mas não terá como bancar uma campanha sozinho, até porque há limites para o financiamento particular.

Gustavo Mendanha (Patriota), Major Vitor Hugo (PL) e Marconi Perillo (PSDB): a partir de determinado momento, os três terão de se “engalfinhar” para tentar descolar e se aproximar do governador Ronaldo Caiado | Fotos: Jornal Opção e reproduções

Há outra pedra no caminho de Mendanha. Ele esperava contar com o apoio de vários candidatos a deputado federal e estadual do PL. Mas sua principal aliada, a deputada federal Magda Mofatto, perdeu o comando do partido para o pré-candidato a governador Major Vitor Hugo. Com o comando do Fundo Eleitoral (além do Fundo Partidário), o deputado federal esvaziou os mendanhistas que estão no PL.

Hoje, aquele pré-candidato do PL que apoiar Mendanha corre dois riscos. Primeiro, o de não sair candidato. Segundo, o de não ter acesso ao Fundo Eleitoral do partido, sobretudo se ficar comprovado que não está apoiando a candidatura de Vitor Hugo a governador.

Com Mendanha esvaziando, e os demais pré-candidatos das oposições ainda tateando, a tendência é que Ronaldo Caiado descole e se consolide na liderança — sem polarização pelo primeiro lugar.

A tendência de polarização provavelmente se dará entre o segundo e o terceiro colocados. Ou seja, entre os postulantes que realmente vão enfrentar Ronaldo Caiado.

Se Marconi Perillo, do PSDB, for candidato a governador, como se especula na base tucana, a situação pode ficar complicada para Mendanha.

Ronaldo Caiado: o governador descolou e segue tranquilo em primeiro lugar, de acordo com as pesquisas de intenção de voto | Foto: Reprodução

No momento, Perillo figura em terceiro lugar, mas próximo de Mendanha. Quando realmente se colocar em campo, dada sua ampla experiência política, há a possibilidade de polarizar com o pré-candidato do Patriota.

Não será surpresa se, para subir, Perillo “puxar” Mendanha para baixo.

Há uma ressalva a se fazer: Perillo e Mendanha, se efetivamente candidatos, estarão disputando o mesmo eleitorado — aquele que não planeja votar em Ronaldo Caiado. Então, a tendência é que um deles, talvez o tucano, cresça “canibalizando” o outro.

Então, se Perillo crescer será às custas do descenso de Mendanha. Se Mendanha crescer, vai “soterrar” o tucano.

Resta concluir que, no lugar de se comportarem como “amiguinhos”, Mendanha e Perillo acabarão por terçar forças, quer dizer, terão de se criticar, às vezes duramente, durante a pré-campanha e, sobretudo, na campanha.

Mendanha pode ser “vítima” dos eleitores, que podem apostar numa disputa entre Ronaldo Caiado e Perillo. Seria uma espécie de tira-teima.

Se Ronaldo Caiado ganhar, sepulta, de vez, o chamado “Tempo Novo” — que ficou 20 anos no poder, em termos de governo do Estado. A vitória do líder do União Brasil seria uma aposta na renovação, porque, se comparado a Perillo — que, sozinho, governou Goiás durante 16 anos — e se for reeleito, ficará no poder só oito anos.

Uma vitória de Perillo representaria uma volta ao passado, isto é, um renascimento do Tempo Novo (período representado por, entre outros, Jardel Sebba, Jayme Rincon e Luiz Alberto Bambu, hoje empenhados em que o tucano-chefe dispute o governo pela quinta vez). O ex-governador foi eleito em 1998 falando na “panelinha” de Iris Rezende. Em 2022, se for candidato a governador, seus adversários poderão falar na “panelinha” de Perillo.

Há também a pré-candidatura do deputado Major Vitor Hugo, o novo presidente do PL em Goiás.

Vitor Hugo, por si, não é um candidato forte, com densidade eleitoral em todo o Estado. O que lhe confere alguma força — que, a rigor, ainda não aparece nas pesquisas de intenção de voto — é o apoio do presidente Jair Bolsonaro. O líder nacional do PL é bem avaliado em Goiás.

O drummond no meio do caminho de Vitor Hugo é a história, ou seja, nenhum presidente da República, no auge de sua popularidade, conseguiu eleger seu candidato a governador em Goiás. Em 1998, ocorreu um fato curioso: Perillo pertencia ao PSDB, partido do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. No entanto, no lugar de apoiá-lo, FHC bancou a candidatura de Iris Rezende, seu ex-ministro, que perdeu a eleição. Durante os dois mandatos de Lula da Silva e os dois mandatos de Dilma Rousseff, com o PT fortíssimo, o petismo não conseguiu eleger seus candidatos (em 2010, bancou Iris Rezende, que foi derrotado; em 2014, lançou o petista Antônio Gomide, que havia sido excelente prefeito em Anápolis, mas foi derrotado). Pode-se postular, portanto, que as eleições para governador são “estadualizadas” e não “federalizadas”.

Não se está dizendo que, dado o fato de que não se “federaliza” eleições para governador em Goiás, Vitor Hugo está inteiramente fora do jogo.

Vitor Hugo vai tentar, primeiro, polarizar com Mendanha e Perillo, com o objetivo de tirá-los do caminho para tentar se aproximar de Ronaldo Caiado. Do ponto de vista político-eleitoral, quando critica Mendanha — um político de direita que aprecia ficar em cima do muro, como se fosse tucano —, o pré-candidato do PL está certo. É seu alvo imediato. Se Perillo se colocar como candidato, o que ainda não fez de maneira efetiva, terá também de criticá-lo.

Perillo será um alvo ideológico de Vitor Hugo, porque está tentando se aproximar do PT. No fundo, o tucano quer se apresentar como o pré-candidato de Lula da Silva a governador de Goiás.

Lula da Silva está atropelando os pré-candidatos do PT nos Estados e não hesitará um minuto em despachar Wolmir Amado — o venerável ex-reitor da PUC-Goiás — e bancar Perillo para governador. O que o petista-chefe realmente quer é um palanque encorpado no Estado, o que nem Wolmir Amado, do PT, e nem José Eliton, do PSB, terão condições de oferecer.

José Eliton foi governador de Goiás, por ter sido vice-governador de Perillo (que saiu para disputar vaga no Senado, em 2018), e é visto pelos políticos como um “preposto” de Perillo. Até petistas não o veem como um político que tenha identidade.

Ex-tucano, José Eliton se filiou ao PSB sob as ordens de Perillo. Se João Doria for candidato a presidente da República — de cada 100 tucanos, 101 não acreditam que disputará —, Perillo não terá como apoiar Lula da Silva no primeiro turno. Então, para garantir certo apoio ao petista já no primeiro turno, levou José Eliton para o PSB do deputado federal Elias Vaz. O curioso é que José Eliton é um político de direita filiado ao Partido Socialista Brasileiro. Mais incompatível, impossível.

O fato de Perillo vincular-se ao PT de Lula da Silva, navegando no barco da esquerda, levará Vitor Hugo a criticá-lo com o máximo de aspereza durante a campanha. Porque, no caso, se trata de um adversário não apenas eleitoral. Será um adversário — se brincar, até “inimigo” — ideológico.

Retomando Vitor Hugo. Há pré-candidatos a deputado estadual e federal que estão ao seu lado para não perder a legenda e certo apoio do Fundo Eleitoral. Mas a tendência é que promovam uma verdadeira traição durante a campanha, migrando para o lado de Mendanha. Só não o farão se o deputado federal melhorar nas pesquisas e cair a expectativa eleitoral do postulante do Patriota.

O quadro político-eleitoral, neste momento, é mais positivo para Ronaldo Caiado — que tende a “correr” praticamente sozinho na liderança, com Mendanha, Perillo e Vitor Hugo “correndo” atrás na disputa pelo segundo lugar. Há quem acredite, não se sabe se com razão — é preciso esperar as pesquisas com todos os nomes definidos para o governo —, que Perillo e Vitor Hugo podem, juntos, “esvaziar” e “canibalizar” Mendanha, tomando seu eleitorado. Se cair para terceiro lugar, ficando atrás de Perillo, significa que não terá expectativa de poder, e então poderá ser superado inclusive por Vitor Hugo.

Pode-se sugerir que Mendanha pode terminar o pleito em quarto lugar? No momento, não. Mas tudo é possível.

Além dos apontados acima, há outros candidatos, figuras respeitáveis de Goiás, mas sem nenhuma força eleitoral. Estão no jogo para marcar posição e expor as ideias e críticas de seus partidos. Os demais pré-candidatos são: Cíntia Dias (PSOL), Edigar Diniz (Novo), Helga Martins (PCB)