Entenda por que Daniel Vilela é mais adequado ao PMDB do que Ronaldo Caiado

Num segundo turno contra Ronaldo Caiado, o postulante do PMDB teria o apoio de Marconi Perillo e José Eliton. Num segundo turno contra José Eliton, teria o apoio do senador do DEM

Daniel Vilela: se o deputado federal mostrar coragem, além de ideias claras de como governar, poderá ser uma alternativa renovadora na política de Goiás; se correr da raia, compromete seu futuro político | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Há duas batalhas na política. A primeira, às vezes mais sofisticada, é a do discurso. No campo da palavra não raro travam-se verdadeiras guerras. A segunda é a peleja real, durante as campanhas eleitorais. Esta é tributária daquela — porque contribui para formatá-la —, ainda que tenda a subordiná-la. No momento, há dois discursos básicos no PMDB. Como os líderes do partido não são dados à formulação intelectual, não se forjam debates com documentos — digamos textos norteadores —, é preciso, de certa maneira, organizar os pensamentos articulados de modo tênue.

O PMDB tem basicamente dois pré-candidatos a governador — Maguito Vilela, ex-governador e ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, e Daniel Vilela, deputado federal e presidente do PMDB regional. O primeiro, pai do segundo, costuma dizer, de maneira enfática, que o candidato do partido a governador será Daniel Vilela. Aliados complementam, com ligeira ressalva: “Se Daniel quiser”. Os danielistas, como o deputado estadual José Nelto, afirmam que o parlamentar quer, de fato, disputar o governo, considerando-se como uma renovação política tanto em termos do partido quanto da política de Goiás.

Ao ser citado como tendo recebido dinheiro da Odebrecht, Daniel Vilela teria “mergulhado” durante alguns dias, afastando-se das bases e mesmo dos aliados mais próximos. Em seguida, retomou as conversações com os líderes partidários e parece disposto a disputar o governo, apesar dos percalços. Na política, como na vida, às vezes fica-se mais forte depois de certos tropeços. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche sugeriu que aquilo que não nos mata acaba por nos fortalecer (Millôr Fernandes, “traduzindo” sua linguagem refinada para o vulgo, apresenta outra versão: “O que não mata engorda”). Um político só se torna “grande” quando os eleitores, avaliando suas contradições — por saber que todos as têm —, o avalizam como digno de certa confiança. Portanto, como Daniel Vilela pode desistir da disputa se seu nome nem mesmo foi colocado, de maneira oficial, para o pleito de 2018?

Os iristas, que são uma espécie de “tendência” minoritária do PMDB, forçam a barra para que o candidato do partido seja o senador Ronaldo Caiado. No grupo, há duas correntes. Uma sugere que o presidente do DEM se filie ao PMDB — aí o prefeito de Goiânia, Iris Rezende, teria como bancá-lo para governador. A outra propõe que, mesmo sem se filiar, o democrata seja bancado pelo PMDB.

Ronaldo Caiado reluta em se filiar, porque teme que o convite seja exclusivo de Iris Rezende e iristas, como os prefeitos Ernesto Roller, de Formosa, e Adib Elias, de Catalão. Filiado, se confrontado na convenção do partido, dificilmente terá condições de ganhar de Daniel Vilela e Maguito Vilela. Porque, como cristão-novo, estará, se se tornar hegemônico, ocupando o espaço daqueles que, nos últimos 18 anos, mantiveram o partido ativo, ainda que aos trancos e barrancos.

Por que os Vilelas, tendo conquistado a hegemonia — aquilo que se busca na política —, a “devolveriam” de mão-beijada ao irismo, bancando Ronaldo Caiado? Se o fizerem, serão tudo, até missionários e filantropos, menos políticos. Mas há três (talvez duas) outras questões que favorecem os Vilelas contra o senador do partido Democratas.

Postas as questões acima, examinemos dois aspectos especulativos sobre o segundo turno na disputa para governador de Goiás.

Cenário um

Se Daniel Vilela disputar o segundo turno, em 2018, contra José Eliton, o pré-candidato do PSDB, é praticamente certo que terá o apoio de Ronaldo Caiado. Porque os principais adversários do senador na política estadual são o governador Marconi Perillo e o vice-governador José Eliton. Portanto, não terá escolha e, como dificilmente ficará neutro, a tendência é que, no segundo turno, suba no palanque do postulante do PMDB.

Trata-se de uma questão menos de simpatia do que de sobrevivência política, de realpolitik. Em 2022, expira o mandato de Ronaldo Caiado no Senado. Em 2014, para ser eleito, enfrentando um candidato como Vilmar Rocha, teve de ser “empurrado” pela máquina do PMDB, estruturada em todo o Estado de Goiás. Sem a máquina peemedebista, a máquina azeitada criada pelo governador Marconi Perillo teria conseguido levar Vilmar Rocha para o Senado. Em 2022, Ronaldo Caiado vai precisar, mais uma vez, do PMDB se quiser manter-se em Brasília, especialmente no Senado. Portanto, pode usar o pleito de 2018 — ao menos no segundo turno — como moeda de troca para a eleição seguinte.

Ronaldo Caiado: o senador quer submeter os Vilelas com o objetivo de fortalecer Iris Rezende e o irismo

Cenário dois

Na hipótese de um segundo turno entre Daniel Vilela e Ronaldo Caiado, o primeiro fatalmente terá o apoio do grupo dos tucanos Marconi Perillo e José Eliton. A tendência é que os líderes do PSDB avaliem o postulante do PMDB como menos “destrutivo”. Por isso, por uma questão de racionalismo político, subirão no seu palanque. Mesmo se não subirem, o apoiarão de maneira direta.

Se eleito, Daniel Vilela até poderá fazer críticas ao grupo de Marconi Perillo, àquilo que considera como equívocos de sua gestão. Mas dificilmente — até por ter como orientador um político moderado como Maguito Vilela, de matiz sempre diplomático — usará o governo com o objetivo de “destruir” adversários. Seu foco será muito mais o de consolidar-se como político e, sobretudo, gestor. Porque políticos, sobretudo os mais jovens — aliás, veja-se aí Iris Rezende, com quase 84 anos, na Prefeitura de Goiânia, depois de derrotar, no segundo turno, um candidato 29 anos mais jovem, Vanderlan Cardoso (PSB) —, certamente participarão de novas disputas.

Cenário três

Quanto a Ronaldo Caiado pode-se garantir que, se for para o segundo turno contra José Eliton, terá o apoio automático de Daniel e Maguito Vilela? É provável que não, especialmente se provocar uma divisão do PMDB no primeiro turno, com a absorção de Iris Rezende e de iristas como Iris Araújo, Ernesto Roller, Adib Elias e, entre outros, Nailton Oliveira. Hoje, embora o quadro do futuro não esteja definido, o chamado vilelismo, notadamente a corrente maguitista, tem certa simpatia tanto por Marconi Perillo quanto por José Eliton. Tal cordialidade, ou empatia, pode se traduzir em apoio no segundo turno, no caso de uma disputa entre José Eliton e Ronaldo Caiado.

Uma vitória de Ronaldo Caiado para governador, sabem os vilelistas, será, também, uma vitória de Iris Rezende. Noutras palavras, se o senador for eleito, o irismo irá retomar o controle do PMDB e, possivelmente, articulará um expurgo direto ou indireto de Maguito e Daniel Vilela e aliados. Sublinhe, pois, que a disputa eleitoral de 2018 está “jogando” tanto o futuro do PMDB quanto o dos Vilelas, principalmente o de Daniel Vilela, de 33 anos. Aliás, se não disputar em 2018, os eleitores dirão que “acovardou-se”. Os maledicentes dirão que bastou Iris Rezende bater o pé, bancando Ronaldo Caiado, para Daniel Vilela recuar e retirar sua candidatura. O “futuro” cobra ideias, posicionamento e, sobretudo, coragem do jovem peemedebista. Se fugir da raia agora, em especial da disputa de 2018, ficará com a imagem carimbada de que teme os debates e embates. Perderá, em síntese, a confiança dos eleitores e dos próprios aliados. Quanto ao PMDB, se bancar um candidato de outro partido, ou se convocar um político de outra legenda para disputar o governo pelo partido, ficará com a imagem de que está esfacelado e não tem mais líderes.

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