Em meio à crise nacional, Goiás, Tocantins e o Centro-Oeste podem ser os “vendedores de lenço”

Em um cenário que ataca principalmente o setor industrial, o Sudeste brasileiro – mais dependente das fábricas — tende a ser a região mais afetada. A bola da vez vai para o Centro-Norte do País

Marcelo Miranda (PMDB-TO), Reinaldo Azambuja (PSDB-MS), ministro Mangabeira Unger, Marconi Perillo, Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) e Pedro Taques (PDT-MT): governadores unidos / Divulgação

Marcelo Miranda (PMDB-TO), Reinaldo Azambuja (PSDB-MS), ministro Mangabeira Unger, Marconi Perillo, Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) e Pedro Taques (PDT-MT): governadores unidos / Divulgação

Entre os vários aspectos que se ressaltaram na polêmica que acabou por envolver a morte do cantor Cristiano Araújo, uma delas tratou da identidade goiana. O que significaria “ser goiano” no contexto nacional? Que imagem tem esse povo de si mesmo?

Foi-se o tempo em que o estereótipo do goiano era o de um caipira que gostava de comer arroz com pequi, falar “demais da conta” e pescar no Rio Araguaia. Tal figura talvez não estivesse incorreta e encontrasse correspondência há 30 ou 40 anos, mas é impertinente para os tempos atuais: sim, Goiás mudou, em todos os aspectos. Até mesmo a já alentada música sertaneja, que falava de chuva, boiada e sertão (“Passado de um Boiadeiro”) com André & Andrade — nascidos em Itaguari na década de 50 —, passou depois a reverenciar o automóvel com Leandro & Leonardo (“Rumo a Goiânia”) e hoje afoga as mágoas com bebida mexicana (“Arrocha com Tequila”, de Cristiano Araújo). O sertão se urbanizou.

A transição intensa e veloz de um mundo rural para uma nova era, evocada pela música, se mostra também presente no todo da sociedade. Vale, obviamente, para a economia. Goiás é, desde muito e ainda hoje, um esteio do setor primário, que, em meio à crise e com a queda no consumo, tem voltado a ser um importante motor da economia nacional. Mudou uma palavra, no entanto: não se fala mais em “agropecuária”; o termo é “agronegócio”. Isso traz em si uma mudança significativa. Traduz o nível de tecnologia investida na produção goiana, que é avançado. Trabalhar com lavoura virou coisa para profissionais de mercado. Fazendeiro, hoje, é também empresário.

Os novos tempos não chegaram somente ao campo. Nem faria sentido modernizar a propriedade rural e ter o restante da cadeia ainda se movendo de maneira obsoleta. De que adianta aumentar a produção e não ter como ganhar mais com ela? É preciso evitar o desperdício e aumentar a agilidade no escoamento. Nesse sentido, a questão geográfica — estar no “coração” do Brasil — favorece, desde que os modais acompanhem o ritmo tecnológico. O transporte é fator essencial, portanto.

E nesse ponto é preciso passar a discutir não só Goiás, mas toda a Região Centro-Oeste e, também, o Tocantins. Não faz sentido falar em logística, modais e mercado sem colocar na conta os Estados vizinhos, pois a malha viária de uns se estende aos demais. Da mesma forma, um crescente investimento na área industrial em Goiás acabará por fazer com que sejam avaliadas as condições para se fazer o mesmo em unidades federativas vizinhas.

Foi para buscar unir suas forças e trunfos que, no começo do mês, estiveram em Goiânia, a convite de Marconi Perillo (PSDB), os governadores do Distrito Federal (Rodrigo Rollemberg/PSB), de Mato Grosso (Pedro Taques/PDT), de Mato Grosso do Sul (Reinaldo Azam­buja/PSDB) e do Tocantins (Marcelo Miranda/PMDB). Com o testemunho do ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, Roberto Mangabeira Unger, eles fundaram o Movimento do Brasil Central, com o propósito de trabalharem uma estratégia unificada para o desenvolvimento regional.

Na mesma semana do encontro, Marcelo Miranda concedeu entrevista ao Jornal Opção. Em meio à apatia geral com a economia brasileira, o governador tocantinense se mostrou animado e disse que por lá “não há crise, mas demandas”. É a forma positiva de ver o cenário — como diz aquela clássica aula de executivos para seus gerentes, “em períodos de crise uns choram e outros vendem lenços”. “Sempre digo que o Tocantins é a bola da vez. Temos de mostrar para o Brasil e para o mundo que é possível investir e trabalhar conjuntamente com setores fortes da economia”, afirmou. E ele tem arregaçado as mangas em busca de assegurar investimentos, viajando bastante, como recentemente à Europa. Anotou as muitas observações que possíveis interessados têm no Brasil e em seu Estado — a questão hídrica, o potencial para gerar alimentos e o aproveitamento da intensa luz solar como energia estiveram entre esses pontos. Marconi já fez o mesmo, várias vezes em seus vários mandatos.

A crise está aí, é um fato, mas não há nada a perder por ser positivo e propositivo. É por esse prisma que deve seguir o olhar dos líderes. Marconi Perillo — que sempre se mostra um passo à frente, politicamente falando — e agora Marcelo Miranda mostram que seus Estados têm o que apresentar para colaborar. E aí vem a questão de sempre: Goiás e Tocantins são periféricos na economia nacional. Os protagonistas são outros.

É preciso ir mais a fundo na questão, porém. No fim de junho, durante a visita de Dilma Rousseff (PT) aos Estados Unidos, o presidente norte-americano, Barack Obama, interferiu em pergunta da repórter Sandra Coutinho, da Globonews. Ela fez o seguinte questionamento à presidente: “O Brasil se vê como um ator global e liderança no cenário mundial, mas os EUA nos veem como uma potência regional. Como você concilia essas duas visões?” Obama interveio para afirmar que Dilma preside um “líder-chave” no que diz respeito à economia global e em negociações sobre as mudanças climáticas.

Aos mais céticos, a declaração soou como meramente política. Pode até ser, se tomarmos como referencial o imenso poderio dos EUA. Mas em um mundo globalizado, onde o risco de calote de uma economia modesta como a da Grécia pode geral um contágio altamente nocivo, como rebaixar a “potência regional” a 7ª economia do ranking?

Os Estados Unidos têm um produto interno bruto (PIB) de US$ 16,7 trilhões, cerca de 7,5 vezes maior do que o do Brasil — que, ainda assim, é o segundo maior do continente americano. Da mesma forma, somado o PIB do Centro-Oeste inteiro ao do Tocantins não se chega a um valor que seja um terço do PIB de São Paulo, de R$ 1,4 trilhão. Isso não quer dizer que São Paulo possa abrir mão de toda uma região, nem que os ianques prescindam de qualquer outra economia vizinha.

Em um cenário que ataca principalmente o setor industrial, o Sudeste brasileiro tende a ser o mais atingido. A bola da vez vai para o Centro-Norte do País. Não é à toa que tanto Goiás como toda a região estão crescendo acima da média nacional no que se refere ao PIB. No ano passado, enquanto o Brasil estagnou seu crescimento — 0,1% —, a economia goiana teve 1,8% de avanço.

Não é muito? Em números absolutos, claro que não. Mas a boa notícia é que o Estado está se preparando em infraestrutura para driblar o cenário econômico complicado. A reconstrução e a duplicação de trechos importantes das rodovias, o aeroporto de cargas e a chegada da Ferrovia Norte-Sul são um extraordinário conjunto de ações com esse viés. É a prova de que Goiás está trilhando o caminho de líder de uma região que tem muito a crescer e a oferecer ao País. Com seus líderes trabalhando em conjunto, a possibilidade se multiplica. A clássica referência à identidade do goiano como um personagem rural, bucólico, tende a ser cada vez mais esquecida. Para a economia local, isso é um ótimo sinal.

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