Eleitores de Goiânia sinalizam que querem experimentar o que já foi experimentado

As pesquisas mostram Vanderlan Cardoso, Maguito Vilela e Adriana Accorsi mais bem posicionados. Os dois primeiros têm experiência com gestão

Pesquisas de intenção de voto mostram que os eleitores de Goiânia estão “indecisos”. Mas, como ainda não há campanha eleitoral e os nomes dos candidatos só foram definidos agora, é perfeitamente normal. Os eleitores não têm motivos razoáveis para se definir antes mesmo de os partidos escolherem seus protagonistas. Até alguns dias se pensava que o prefeito Iris Rezende, do MDB, seria candidato à reeleição. De repente, o candidato é outro — Maguito Vilela. A Dra. Cristina Lopes era pré-candidata, mas o PL impediu sua postulação e optou por apoiar o nome do emedebismo. O senador Vanderlan Cardoso, que não era o pré-candidato do PSD — o partido havia optado pelo deputado federal Francisco Júnior —, se tornou, de uma hora para outra, candidato e, surpresa, com o apoio do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do partido Democratas. Portanto, se os partidos estavam “indecisos”, por que cobrar “decisão” dos eleitores?

Pintura de Tommy Ingberg

A rigor, o problema desta eleição não é o número de indecisos — sempre foram muitos e, no geral, só decidem em cima da hora, alegando, com certa razão, que têm de cuidar de suas vidas. O problema maior tende a ser outro: a abstenção pode ser a maior da história — em parte por causa da pandemia do novo coronavírus (morreram mais de 136 mil pessoas). Jovens, alegando não ter interesse pela política — decepcionados com a corrupção e a falta de perspectivas —, podem se abster de comparecer às urnas, optando por pagar a multa, que é irrisória. Aqueles que têm mais de 60 anos — alegando que pertencem a algum grupo de risco, notadamente se forem hipertensos, diabéticos, ou se tiverem outras doenças —, também poderão eximir-se de votar.

Entretanto, mesmo com abstenção e com o número de indecisos, há algo a se destacar a partir das pesquisas quantitativas divulgadas (e das qualitativas não divulgadas, mas examinadas por repórteres do Jornal Opção): o eleitor de Goiânia demonstra, ao menos no momento, que quer experimentar aqueles candidatos que são considerados experimentados — Vanderlan Cardoso, Maguito Vilela e Adriana Accorsi, a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT).

Antes de examinar os três, é preciso ressalvar que os eleitores em geral não observam todos os candidatos — escolhem dois ou, no máximo, três nomes e passam a verificar suas propostas e se transmitem credibilidade ao formulá-las. Há a tendência de verificar se os “escolhidos” para exame mais detido têm alguma experiência. Às vezes, candidatos de alta qualidade apresentam programas criativos, com possibilidade de execução, mas os eleitores passam a campanha inteira ignorando-os. Aqui e ali, os eleitores dão oportunidade a algum outsider. Em 2016, na reta final, eleitores começaram a prestar atenção às ideias de Francisco Júnior — que acabou obtendo uma votação razoável. Mas é possível que, com o término da disputa, continuou desconhecido da maioria dos eleitores.

Goiânia tem 14 candidatos a prefeitos, dispostos em ordem alfabética: Adriana Accorsi (PT), Alysson Lima (Solidariedade), Antônio Vieira (PCB), Cristiano Cunha (PV), Elias Vaz (PSB), Fábio Júnior (UP), Gustavo Gayer (DC), Maguito Vilela (MDB), Major Araújo (PSL), Manu Jacob (Psol), Samuel Almeida (Pros), Talles Barreto (PSDB), Vanderlan Cardoso (PSD) e Virmondes Cruvinel (Cidadania). O ideal é que os eleitores afiram o que todos têm a dizer para melhorar a cidade e a qualidade de vida de seus moradores. Mas não é exatamente assim que funciona. O tempo de televisão de Adriana Accorsi, Maguito Vilela, Major Araújo e Vanderlan Cardoso é muito superior aos dos demais candidatos. Alguns mal conseguem se apresentar. Procede que nas redes sociais os postulantes podem se apresentar de modo mais equânime. Ainda assim, nem sempre têm recursos para contratar profissionais qualificados e, por isso, tendem a apresentar-se de forma canhestra. Por causa da pandemia, a campanha de rua — onde a democracia em tese vigora de maneira mais acentuada — não terá a dimensão das campanhas anteriores. Então, não será fácil para quem é desconhecido. Corre-se o risco de, ao término do pleito, se permanecer desconhecido.

Na eleição deste ano, examinando pelo quadro do momento, a impressão que se tem — o leitor deve notar que o Editorial expressa dúvidas — é que os eleitores estão observando mais atentamente três candidatos, Adriana Accorsi, Maguito Vilela e Vanderlan Cardoso. Não temos uma resposta precisa, mas vamos expressar uma ideia, que carecerá de verificação adiante.

Dos candidatos, Adriana Accorsi, Maguito Vilela e Vanderlan Cardoso são os mais conhecidos (é provável que Elias Vaz também seja) e por isso estejam aparecendo como mais bem avaliados. Examinemos os três (nossa escolha não desmerece os demais candidatos, que têm qualidades. O nível dos postulantes é, na disputa deste ano, alto. Alguém podem desmerecer, por exemplo, Major Araújo, Elias Vaz, Samuel Almeida, Talles Barreto e Virmondes Cruvinel, para citar apenas cinco? Não, é claro).

Adriana Accorsi: candidata do PT a prefeita de Goiânia | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Adriana Accorsi, do PT

Primeiro, Adriana Accorsi. A deputada estadual pertence ao PT, uma legenda com imenso desgaste. Talvez, ao menos na capital, a parlamentar esteja se tornando, de eleição para eleição, maior do que o partido. Talvez. Porque, mesmo desgastado, o petismo não está morto e sepultado. A política é delegada de polícia, com recall positivo, e é filha de Darci Accorsi (o criador do belo Parque Vaca Brava, na confluência dos setores Bueno e Nova Suíça), que foi prefeito de Goiânia. Há, portanto, uma identidade com a cidade. Frise-se que já foi candidata a prefeita e é uma deputada da capital. Sua honradez não é questionada. Duas pesquisas mostram a jovem em segundo e terceiro lugar. Numa delas está na frente de Maguito Vilela e atrás apenas de Vanderlan Cardoso. A tendência, até pela estrutura menor, é que fique atrás tanto de Vanderlan Cardoso quanto de Maguito Vilela. A tendência — enfatize-se.

Por vezes, políticos petistas cometem o equívoco de “falar” exclusivamente para os setores corporativos, ignorando os reclames da sociedade. Com Adriana Accorsi, é diferente. Ela não deixa de dialogar com as corporações, mas apresenta-se para o debate com a sociedade e com segmentos organizados. A deputada parece ter uma visão mais ampla da representação política — que deve ser, necessariamente, inclusiva — do que a maioria dos petistas. Sua moderação também parece agradar o eleitorado.

Maguito Vilela, do MDB

Segundo, Maguito Vilela. O candidato do MDB foi vereador em Jataí, deputado, vice-governador, governador, senador, vice-presidente do Banco do Brasil e prefeito de Aparecida de Goiânia. Trata-se de um currículo político e administrativo irretocável e não há notícia que de que tenha se enriquecido às custas do Erário.

Maguito defende conciliação no MDB

Maguito Vilela: candidato do MDB a prefeito de Goiânia | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Maguito Vilela é um político e administrador experiente. Quando deixou o governo do Estado, em 1998, sua popularidade beirava os 90% — número aferido pelo insuspeito Datafolha, que fazia as pesquisas para o jornal “Folha de S. Paulo”. Quando parecia que havia pendurado as chuteiras, disputou a Prefeitura de Aparecida de Goiânia e foi eleito e reeleito. Ao terminar seu segundo mandato, em 2016 — e fez o sucessor, Gustavo Mendanha, também do MDB —, o que se pôde perceber foi uma cidade transformada, moderna. A gestão avançada contribuiu para atrair várias indústrias, que estão gerando empregos — inclusive para moradores de Goiânia, invertendo a lógica que dava à cidade a imagem cristalizada de cidade-dormitório. Goiânia e Aparecida são cidades conurbadas — a rigor, estão se tornando uma única cidade, ainda que com identidades diferentes. Portanto, o que Maguito fez na cidade-irmã se tornou conhecido na capital. Daí que, em determinadas pesquisas, seja mais lembrado como gestor municipal do que como governador de Goiás.

Para além do gestor eficiente, há o Maguito Vilela hábil em termos políticos, um diplomata, desses que sabem agregar divergências, transformando-as em convergências. O que é importante para governar e não perder tempo com miudezas, que, se não levam adiante, puxam para trás.

Vanderlan Cardoso, do PSD

Terceiro, Vanderlan Cardoso. Talvez seja mais fácil ir a Marte do que ser empresário no Brasil. A missão de se tornar empresário e de sobreviver como empresário deveria ser considerada heroica. O líder do PSD começou pequeno, como muitos, e cresceu às custas de uma gestão tão eficiente quanto espartana e uma vontade indômita. Sua empresa, a Cicopal, é um símbolo de eficiência — numa economia frequentemente instável, com regras voláteis e impostos escorchantes.

Depois de organizar os negócios, Vanderlan Cardoso percebeu que a política, se feita de maneira republicana, pode ser transformadora. Por isso se candidatou a prefeito de Senador Canedo, próspera cidade do Entorno de Goiânia. Ao fim de sua gestão, o município era outro — deixara de ser uma espécie de “bairro” abandonado da capital e se modernizara. Primeiro, limpou as ruas e áreas públicas e reestruturou o setor urbano. Deu cara de cidade a uma cidade que parecia uma filha rejeitada da principal cidade do Estado. Segundo, criou uma política de atração de empreendimentos geradores de empregos. Aos poucos, Senador Canedo se tornou uma referência.

Vanderlan Cardoso: candidato do PSD a prefeito de Goiânia | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Ao se tornar referência, dada a gestão bem-sucedida, Senador Canedo promoveu Vanderlan Cardoso a político estadual, por isso ele disputou o governo do Estado duas vezes e a Prefeitura de Goiânia uma vez (perdeu para Iris Rezende, um ícone da cidade). Em 2018, foi eleito senador, derrotando pesos pesados como Marconi Perillo, Lúcia Vânia e Wilder Morais. Obteve mais votos do que o jornalista Jorge Kajuru, que levou a segunda vaga.

Vanderlan estava se preparando para a disputa do governo em 2022, numa possível aliança com o MDB de Daniel Vilela e Maguito Vilela, mas foi surpreendido, e sem ser avisado, pela informação de que o emedebismo estava articulando uma aliança com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do partido Democratas, tendo em vista a disputa tanto de 2020 quanto de 2022. Decidiu, com o apoio de seu partido — dirigido em Goiás por Vilmar Rocha —, articular com Ronaldo Caiado e conquistou o seu apoio para disputar a prefeitura. Como o governador é bem avaliado pelos eleitores, é um reforço e tanto. Não se trata de um “cabo”, e sim de um “general” eleitoral.

Na verdade, Vanderlan Cardoso é um senador eficiente, sobretudo na área econômica, por exemplo no debate das questões tributárias, mas sua vocação efetiva é executiva. É um empresário eficiente e foi um gestor competente em Senador Canedo. Por isso, a opção pela gestão da Prefeitura de Goiânia. Continua pensando no governo do Estado?

De fato, Vanderlan Cardoso quer ser governador de Goiás. Mas sabe que, muito bem avaliado pela sociedade — dadas a gestão eficiente e a decência moral —, Ronaldo Caiado é um páreo difícil de ser vencido. Por isso, o mais provável é que Vanderlan Cardoso dispute o governo em 2026 — quando terá 64 anos. Será o pós-Caiado. Se fizer uma boa administração em Goiânia, cidade que reverbera em todo o Estado, poderá sair consagrado, o que o fortalecerá para uma possível disputa ao governo de Goiás daqui a seis anos.

Pintura de Igor Morski

Em sã consciência, até porque bolas de cristal não funcionam, exceto como enfeites, não se pode dizer que o candidato “x” está eleito ou derrotado em Goiânia. É cedo. Os eleitores só vão decidir bem adiante, e talvez em cima da hora. Mas, pelas pesquisas de intenção de voto — também prematuras, mas não descartáveis —, os eleitores não estão preocupados nem com o “novo” e nem com discursos excepcionais, à beira da pirotecnia. O bom senso, bem distribuído entre os eleitores, indica que a preferência é por políticos com experiência, que saibam administrar, e não vão tentar aprender administrando. É provável que esteja se apostando que quem tem experiência também pode ser criativo e inovador. É o que parece. Talvez a campanha mude alguma coisa. Mas talvez não. Seria positivo que os eleitores avaliassem todos os candidatos e suas propostas, de maneira cuidadosa.

No início deste Editorial comentou-se sobre “indecisos” e “abstenção”. Como se sabe, candidatos não poderão buscar eleitores em suas casas. O que a Justiça Eleitoral, que não é mágica, poderá fazer para despertar o, digamos, civismo dos eleitores? Melhorar o transporte coletivo — direcionando-o para os locais de votação — no dia da eleição pode ser um caminho? Não se sabe.

Por fim, dada a quantidade de candidatos, a eleição de Goiânia deve ser decidida no segundo turno. Portanto, a tarefa de agregar começa no primeiro turno. No caso de segundo turno entre Maguito Vilela e Vanderlan Cardoso, por exemplo, quais partidos ficarão com um e com o outro? O PT de Adriana Accorsi e o PSL de Major Araújo e do deputado federal Delegado Waldir Soares caminharão com Maguito Vilela? O PSB de Elias Vaz e Lissauer Vieira marcharão com Vanderlan Cardoso? Não dá para saber, obviamente. Até porque os três candidatos mencionados acreditam que irão para o segundo turno…

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