Eleitor goianiense quer prefeito que seja seu contemporâneo. Iris Rezende é um político do passado

Como quer vencer o peemedebista, Vanderlan Cardoso precisa dialogar, de maneira enfática, com os eleitores, notadamente com a classe média, e mostrar se é um agente do presente contra um nome do passado

Vanderlan Cardoso e o vice, Thiago Albernaz; e o candidato do PMDB, Iris Rezende | Fotos: reprodução

Iris Rezende e Vanderlan Cardoso: o primeiro fala para o passado, para um eleitor dependente e que está desaparecendo, e o segundo precisa falar de modo mais enfático àqueles que são seus contemporâneos | Fotos: reprodução

Como sintetizar um político como Iris Rezende, tentando avaliá-lo de maneira justa, do ponto de vista histórico? Primeiro, como sua carreira política não está encerrada, ainda não é possível avaliá-lo de modo abrangente. Porém, como participa da vida política de Goiás desde a década de 1960, quando foi prefeito de Goiânia pela primeira vez, é possível analisá-lo. Em síntese, o peemedebista, de quase 83 anos, é um populista, um filho, quem sabe, de Jânio da Silva Quadros (espécie de Jânio sem caspas). É típico do populista trabalhar para subordinar os eleitores, pois se pretende um messias, um ser que, longe de planejar andar junto, quer sempre andar distante. Observe-se que o ex-governador raramente usa o pronome “nós”, optando por “eu”, o que revela um ego tanto paquidérmico quanto monitorado.

Porém, mesmo sendo populista, a avaliação de Iris Rezende como personagem histórico é inteiramente negativa? Não é. O peemedebista, como governador duas vezes — embora nunca tenha terminado os mandatos, dadas sua obsessão por mais poder e sua ambição pessoal desmedida —, contribuiu para a modernização de Goiás. No seu “tempo” de político hegemônico, como líder estadual, ao menos até a década de 1990, mas notadamente na primeira metade da década de 1980, atuou de modo a melhorar a vida dos goianos. Frise-se que a criação do Fomentar (uma ideia formulada pelo economista Flávio Peixoto, doutor por uma das melhores universidades da Inglaterra) foi decisiva para o fortalecimento da indústria no Estado. Não há como negar ou escamotear os fatos. Trata-se de uma questão de justiça histórica — não de opinião.

Entretanto, o tempo, inexorável, passa para todos — até para José Sarney, que, como Roberto Marinho, costuma dizer para os filhos: “Se um dia eu faltar…”. Fica-se com a impressão de que, em termos de Goiás, Iris Rezende quer “segurar” o tempo, o que é uma missão impossível. O peemedebista perdeu três eleições para governador do Estado — todas as vezes para Marconi Perillo, do PSDB. Em 2018, o PMDB completa 20 anos fora do poder, praticamente uma geração. Mesmo assim, seus integrantes não souberam avaliar, ao menos não com a devida precisão, as razões da derrota. O que mais se comenta é que o grupo de Marconi Perillo reúne uma fabulosa estrutura e, assim, é impossível derrotá-lo. Que é impossível derrotá-lo, até o momento, é uma verdade. São cinco eleições vitoriosas consecutivas, revelando a maior hegemonia democrática da história do Estado. Que a estrutura política é ampla, secundada por uma estrutura financeira azeitada, não há a menor dúvida. Mas “parte” do problema não é o problema “todo”. Portanto, enquanto estiver fazendo avaliações equivocadas, o peemedebismo vai perder eleições para governador. Por exemplo: se bancar Maguito Vilela para governador em 2018, descartando o novo mais uma vez, o que o PMDB estará fazendo? Transformando Maguito Vilela, um político qualitativo, no novo Iris — quando deveria investir no “novo Marconi”, possivelmente Daniel Vilela.

Qualquer avaliação honesta concluirá que o problema do PMDB não é exatamente a força de Marconi Perillo, e sim a fraqueza de Iris Rezende, além da falta de renovação dos quadros que disputam eleições majoritárias. O eleitor de Goiás — frise-se, de Goiás — disse (pelo voto), em três circunstâncias, que Iris Rezende não é mais um político do Estado, e sim, no máximo, de Goiânia. Transformou-o de político regional em político local, se tanto. Por quê? Porque os eleitores concluíram que há uma profunda desconexão entre o que eles pensam e o que Iris Rezende pensa. Pode-se dizer que, embora habite o mesmo espaço dos demais goianos, o tempo do peemedebista é outro. Há muito, por falta de atualização, deixou de ser contemporâneo dos goianos atuais. Os goianos vivem no presente; Iris Rezende é um homem do passado. Não é nada pessoal e não se está dizendo que se trata de uma pessoa ruim. O que está se fazendo é um mero diagnóstico de que os políticos “passam”, desatualizam-se e, de algum modo, se tornam “adversários” dos novos tempos. É uma pena que os políticos jovens do partido, como Agenor Mariano e Andrey Azeredo, precisem do oxigênio de Iris Rezende, já escasso, para respirarem. Os jovens peemedebistas não percebem, quiçá por acomodação, que os principais adversários do veterano peemedebista são os eleitores.

Eleição de 2016
Os eleitores de Goiânia são considerados os mais bem informados do Estado. Um dos motivos é que a classe média, forte e sólida na capital, é independente e, votando como quer, pode desequilibrar os pleitos de um dia para o outro (pesquisas quantitativas não têm como aferir o fenômeno e, por isso, ficam, às vezes, desmoralizadas). A classe média — ou, mais precisamente, classes médias — não se avalia como representada pelo espectro político, porque os políticos não conseguem percebê-la com a devida nitidez. João Dória Jr. foi eleito prefeito de São Paulo em larga medida porque conseguiu atrair a classe média, eternamente cansada do discurso dos populistas, que em geral falam quase que exclusivamente dos e para os pobres. Observe-se que a classe média não se sentiu muito bem representada no primeiro turno em Goiânia e, numa prova de que estava atenta (e se “mexendo”), na última hora despejou votos em Francisco Júnior. Os votos não são de Francisco Júnior ou do PSD. São votos “dos” eleitores e eles os manejam como querem. É como se fosse o que costumam chamar de inconsciente coletivo. A classe média deu um recado aos demais políticos por intermédio de Francisco Júnior. Este foi, por assim dizer, um canal.

Se Goiânia tem um eleitorado autônomo, que decide como quer, ao menos em grande parte, por que Iris Rezende persiste fazendo um discurso messiânico, falando em mutirões — alguém da classe média tem tempo para participar de mutirões? — e apresentando promessas vãs, que já foram apresentadas, e não cumpridas, noutras campanhas? Porque, como se está dizendo desde o início deste Editorial, o peemedebista vive em desconexão com o que se pode chamar de nova Goiânia, com seus moradores cada vez mais cosmopolitas.

Os eleitores de Goiânia percebem que nas entrevistas e nos debates (só participou de um, mas participou de debates em campanhas anteriores), quando Iris Rezende fala, há duas ausências e uma presença. A presença é o passado, pois o peemedebista está cada vez mais nostálgico. As ausências são o presente e o futuro. Fica-se com a impressão de que o venerável peemedebista fala para os “mortos”, ou, mais precisamente, para o passado. Os eleitores com os quais se comunica ou tenta se comunicar não são seres autônomos, que pensam pela própria cabeça, e sim indivíduos dependentes, que precisam, não de um prefeito, e sim de um paizão. Pergunta-se: por que, no primeiro turno, Iris Rezende, com toda a sua história, são 60 anos de vida política, obteve apenas 40,47% dos votos válidos? A maioria, praticamente 60% dos eleitores, disse “não” ao decano peemedebista. É que, mesmo em Goiânia, tida como “seu” território, seu eleitorado está diminuindo. Quanto mais livres, os eleitores mais optam por políticos modernos, conectados com o seu tempo.

O marketing tenta atualizar Iris Rezende, mas acaba por criar uma caricatura. Nos programas de televisão, em vários deles, o que se viu foi a marquetagem inserindo jovens, numa tentativa forçada de renovar o que não se pode renovar. O que o marqueteiro Jorcelino Braga não percebe é que o problema de Iris Rezende não é precisamente sua idade, 83 anos em 22 de dezembro, e sim o fato de que, política e administrativamente, está superado. Para piorar, talvez seja possível sugerir que Iris Rezende não quer se atualizar, não quer se tornar contemporâneo dos atuais goianienses. O que se percebe é que tenta “parar” a história e levar os goianienses não para frente, para o presente e o futuro, e sim para o passado. O peemedebista é um retorno, não um avanço (parece aquele indivíduo que está se afogando e tenta afogar o colega). Como gestor, faz o arroz com feijão, mas Goiânia, um filé, precisa de mais filé, de ser mais filé. A capital precisa de um gestor que contribua ainda mais para sua modernização, e não de um gestor que vive falando de mutirão.

O candidato do PSB a prefeito de Goiânia, Vanderlan Cardoso — que precisa ser mais incisivo nos debates —, é um gestor aprovado duplamente. Como João Dória, antes de se tornar político, venceu na iniciativa privada, tornando-se proprietário da Cicopal, uma empresa respeitada no mercado de alimentos. Depois, foi prefeito de Senador Canedo, considerado o melhor da história do município. Pode-se dizer que, com sua experiência empresarial, com seu anti-populismo, modernizou o município.

Goiânia precisa de um toque novo, de uma mudança verdadeira. Talvez o nome certo, o nome do momento, para canalizar os ventos da mudança seja o candidato do PSB. Mas Vanderlan Cardoso precisa dizer, nos debates, entrevistas e programas de televisão e rádio, que é diferente, muito diferente, de Iris Rezende. Em suma, que é um homem do presente, atualizado e verdadeiramente contemporâneo dos atuais goianienses.

Cabe, portanto, aos eleitores a decisão: uma aposta no passado, Iris Rezende, ou uma aposta no presente-futuro, Vanderlan Cardoso.

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