Eduardo Bolsonaro deveria ser embaixador na China e não nos Estados Unidos

O maior parceiro comercial do Brasil não é o país de Donald Trump, e sim a nação dirigida por Xi Jinping

A China é o principal fenômeno econômico-financeiro do século 21 e tende, ao seu término, a ser a maior potência global — superando os Estados Unidos, levando o Império para a Ásia. Como tudo começou?

O comunismo atrasou a China, durante anos, mas deu-lhe uma certa amplitude. De maneira extraordinária, Deng Xiaoping (1904-1997) e outros governantes perceberam que as ideias de planificação importadas da União Soviética por Mao Tsé-tung estavam emperrando a economia do país e decidiram introduzir um sistema híbrido, tipicamente chinês. Concomitantemente, há uma economia de mercado, ativíssima, e um sistema político do século 20, mas modernizado por comunistas que misturam ortodoxia (partido único) e heterodoxia (mercado relativamente livre). Não deixa de ser estranho e contraditório, mas funciona e agrada o povo.

Os cinco homens fortes dos países do Brics (China, Rússia, Brasil, Índia e África do Sul) | Foto: Reprodução

Aproveitando-se da globalização, da conexão internacional dos mercados, a China fez uma primeira revolução industrial — tão pirata quanto a de outros povos — com a produção de bugigangas (e não só, é claro), em alta escala, o que possibilita a redução de preços. O país conquistou os mercados do mundo inteiro. Os chineses se tornaram dominantes na área de brinquedos, roupas, bolsas, sapatos, acessórios de celulares e otras cositas más de baixo custo. Deste comércio, com produtos colocados em quase todas as nações — os camelódromos brasileiros são shoppings chineses nada disfarçados —, os asiáticos fizeram sua acumulação primitiva e conquistaram capitais para voos tecnológicos mais altos, com o objetivo, declarado, de se tornar uma potência hegemônica. Chineses sabem que em economia, como nos esportes, o que vale é ganhar — não é meramente competir.

Com recursos “repatriados”, a China se tornou a segunda maior potência global, cada vez mais próxima da primeira, os Estados Unidos de Donald Trump (este, por sinal, é uma “invenção” do Império americano para tentar controlar os chineses — que podem ser barrados pontualmente, mas são incontroláveis, diga-se. Neste e no próximo século, aquele que quiser ficar up to date de verdade terá de falar inglês, o esperanto que deu certo, e mandarim. Quem viver, se quiser, verá. O inglês se tornará uma língua de nostálgicos — o novo latim? Não, evidentemente. Será utilizada como “língua franca” por muitos anos, porque, mesmo em segundo lugar, os Estados Unidos, dada a competência extraordinária competência de seu capitalismo — alimentado e renovado por universidades e centros tecnológicos de primeira linha —, continuarão como potência comercial e militar.

Jair Bolsonaro e o presidente chinês Xi Jinping | Foto: Reprodução

A China é uma potência tecnológica de ponta — sem deixar de lado as bugigangas, que contribuíram para quebrar parques industriais de outros países (no campo de roupas, brinquedos e sapatos, por exemplo) — e investe maciçamente em tecnologia. Em várias áreas. Fabrica trens e ferrovias de alta qualidade — e em tempo recorde, o que surpreende até economias fortemente tecnológicas, como a americana e a alemã. Sua construção civil é cada vez mais rápida e eficiente. Os automóveis chineses ainda não são os melhores, mas estão avançando e vão se tornar altamente competitivos. Observe-se que uma das principais publicidades na televisão patropi hoje é a respeito de um veículo chinês, o Tiggo, em parceria com um capitalista local, Carlos Alberto de Oliveira Andrade, da Caoa (sigla de seu nome). Celulares e computadores chineses chegaram para ficar e, queiram ou não os americanos, vão se tornar dominantes em determinados mercados, notadamente os emergentes, sobretudo por causa de seus preços mais baixos. Em equipamentos para a área médica logo estarão competindo — de igual para igual — com japoneses, alemães, holandeses e americanos.

O poder da China está consolidado no mercado externo — e em fase de expansão, como se fosse o novo Império Romano. Seu desafio hoje é mais interno, ou seja, precisa integrar mais pessoas ao mercado.

O Brasil, os chineses e os americanos

Assiste-se, no momento, a pendenga sobre se o presidente Jair Bolsonaro deve ou não indicar o filho Eduardo Bolsonaro para embaixador nos Estados Unidos — criando uma espécie de “nepoticracia”. Para além da questão da legalidade e legitimidade, é evidente que Dudu Hambúrguer não tem qualificações técnicas necessárias nem maturidade pessoal e política para ser embaixador na maior potência global. Se indicado, seria “engolido” pelo Império americano em poucos dias, tornando-se um serviçal da máquina azeitada e altamente profissional dos Estados Unidos, que funciona à revelia do presidente, acima de um Barack Obama e de um Donald Trump. Alianças comerciais entre países têm pouco ver com ideologia (a cereja que, às vezes, pode estragar o bolo).

Eduardo Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Donad Trump: paixão pelo Império americano em tempo de quase nova Guerra Fria | Foto: Reprodução

Por que o presidente Jair Messias Bolsonaro quer pôr o filho na embaixada brasileira nos Estados Unidos? É possível que queira qualificá-lo e torná-lo uma persona política transnacional. Quem sabe, em anos vindouros, um substituto político (na prática, o presidente sabe que falta-lhe preparo e, por isso, quer preparar o filho? Não se sabe. Eduardo Bolsonaro talvez queira se tornar uma espécie de Posto Ipiranga 2, atrás de Paulo Guedes, que estudou em Chicago). Não só. Os Estados Unidos mantêm a economia mais pujante do mundo e são o centro da política global. Trata-se de um segundo Império Romano, que viceja desde o século 20 — quer dizer, é relativamente novo.

Entretanto, se são o centro da economia e da política internacional, os Estados Unidos não são o maior parceiro comercial do Brasil. Do ponto de vista da economia, o maior “amigo” do país de Jair Bolsonaro é a China — e talvez o presidente devesse enviar seu filho para o Oriente, lugar do futuro que está se tornando presente. Aprender como funciona a Ásia, como a China se tornou uma potência global — assim como o Japão e as micropotências, como Coreia do Sul e Singapura — e entender a língua de nosso parceiro, talvez sejam mais adequado do que morar nos Estados Unidos. Afinal, Eduardo Bolsonaro já sabe inglês e até sabe fazer hambúrguer (nutricionistas, nutrólogos, endocrinologistas e cardiologistas aprovam a refinada arte culinária do deputado federal?). Na China, além da milenar sabedoria dos chineses, poderia aprender mandarim e diversificar o gosto culinário. É possível que a China tenha muito mais a ensinar (poupar, por exemplo) aos brasileiros do que os americanos. O caminho de Santiago dos patropis talvez seja mais oriental do que ocidental…

Jair Bolsonaro e Donald Trump: o presidente republicano é uma invenção do Império americano para combater o poderio da China | Foto: Reprodução

Recentemente, depois de se encontrar com o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, no Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro disse: “Nós queremos nos aproximar do mundo todo, ampliar nossos negócios, nossas fronteiras e essa foi a diretriz dada a todos os ministros”. A fala do presidente é lúcida e nada tem a ver com sua produção habitual de discursos ideológicos.  Discreto, como são os chineses, Wagnmig afirmou: “O Brasil é um dos sócios principais e mais importantes da China tanto no sentido político, quanto econômico e comercial, por isso que as reformas e as mudanças da instituição política e econômica do Brasil vão trazer mais oportunidades de negócios com a China”. Quem está dizendo isto é o representante de um país, por assim dizer, comunista; na verdade, comunista na política e capitalista na economia — uma espécie de comuno-capitalismo que está dando certo.

Jair Bolsonaro sublinhou que, em termos de relações comerciais, a China é o principal parceiro do Brasil. O presidente tem razão: o maior comprador de produtos brasileiros — como soja — é a China. O país exportou 64,2 bilhões de dólares para a China em 2018 (43% de toda a produção exportada). Os Estados Unidos são o segundo maior comprador de produtos brasileiros. Os capitalistas brasileiros reclamam, com razão, que o Brasil tem de ampliar sua venda de produtos manufaturados para os chineses — não apenas commodities, como soja e minérios.

Jair Bolsonaro e o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming: país do Oriente é o maior comprador de produtos brasileiros | Foto: Reprodução

O economista César Bergo disse a um jornal que Bolsonaro tem de ficar de olho na China. “A China, apesar de ter aspectos de uma economia emergente, mas que cresce cerca de 6,5% ao ano, integra, juntamente com o Brasil, os Brics (grupo político de cooperação composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e é o nosso principal parceiro comercial. O posicionamento geopolítico do Brasil, no mundo, se alinha mais à China que aos Estados Unidos”, afirma. Por que, então, a identificação com os Estados Unidos? Trata-se mais de uma afinidade ideológica? E, se o Partido Democrata conquistar o poder na próxima eleição, como fica o governo de Jair Bolsonaro? Chineses estão preocupados com negócios, e não perdem tempo com o debate ideológico — e, ao menos neste ponto, o presidente brasileiro deveria copiá-los. O maior comprador de frangos do Brasil é a Arábia Saudita, e não Israel. Porque, então, cultivar relações mais estreitas com o país que fala hebraico e não árabe? Os capitalistas patropis estão pouco interessados em guerras ideológicas-culturais — assim como o povão, que, certamente, está mais interessado que a China compre mais produtos do Brasil, para elevar o crescimento econômico deste, com a consequente geração de novos empregos, do que com alinhamento aos Estados Unidos.

Na sexta-feira, 19, o “Valor Econômico” publicou a reportagem “BRF começa a deixar turbulência para trás” (o texto é de Luiz Henrique Mendes). O grupo, que controla a Perdigão e a Sadia, informa que está investindo 160 milhões de reais para produzir mais carne suína para vender para a China. A empresa está no vermelho, há três anos, e aposta que voltará ao azul, em 2019, e graças, em larga escala, ao consumo dos orientais (“a peste suína africana dizimou o plantel da China”, país que é “responsável por 50% do consumo global de carne suína”). A China, informa o jornal, já é “a maior importadora de frango do Brasil, superando a Arábia Saudita.

Portanto, se ler o livro “Sobre a China”, de Henry Kissinger, e os jornais brasileiros e americanos — seu inglês não é o da rainha, mas dá para o gasto —, Dudu Hambúrguer ficará sabendo que o futuro é chinês e, talvez, também brasileiro. Passa pelos Estados Unidos? Também. Mas a China é o grande aliado. A geopolítica, que o general Golbery do Couto e Silva apreciava — diga-se que não é “amado” pelos generais Hamilton Mourão, vice-presidente, e Augusto Heleno, ministro —, ensina que um olhar mais candente para o Oriente (se “oriente, rapaz”, diria o cantor e compositor Gilberto Gil) pode ser mais transcendente, do ponto de vista econômico e até político, do que a subserviência ao país de Donald Trump. Nas questões de economia, a ideologia serve mais ao parceiro dominante, no caso os Estados Unidos. Por isso, chineses, com seus olhinhos miúdos e espertos, podem nos ajudar, inclusive ao presidente Jair Bolsonaro, a abrir os olhos.

“São os chineses, estúpido” — eis a frase da hora. O resto, leitor, é pistolagem verbal. Ah, e quem mais ganha com o conflito entre China e os Estados Unidos? O Brasil, claro.

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