Dilma Rousseff não é Collor mas impeachment não é golpe

A presidente da República comete uma gafe ao comparar ação por impeachment com golpe. O impedimento é uma ação democrática. Em 1992, com a queda de Fernando Collor, a economia estabilizou e voltou a crescer

Fernando Collor e Dilma Rousseff: o primeiro sofreu impeachment, em 1992, e não houve instabilidade alguma; pelo contrário, a economia estabilizou-se com o Plano Real e voltou  a crescer. A segunda tenta sair do lugar, mas não consegue. A presidente paralisa o país

Fernando Collor e Dilma Rousseff: o primeiro sofreu impeachment, em 1992, e não houve instabilidade alguma; pelo contrário, a economia estabilizou-se com o Plano Real e voltou
a crescer. A segunda tenta sair do lugar, mas não consegue. A presidente paralisa o país

Fernando Collor sofreu impeachment, em 1992, porque havia perdido qualquer sintonia com a sociedade e, sobretudo, com o Congresso Nacional. O PRN, seu partido, não tinha qualquer força, nem mesmo para trabalhar por algum equilíbrio, na Câmara dos Deputados e no Senado. Collor estava isolado e não tinha o apoio nem mesmo de alguns de seus familiares, como o irmão Pedro Collor, que o denunciara, de maneira contundente, na revista “Veja”. Era, por assim dizer, um “morto” político. Deixara de fazer política com os homens reais de seu tempo — fisiológicos ou não — e acabou devorado por eles. A realidade é cruel, até cínica, e “castiga”, de maneira inapelável e implacável, aqueles que não a compreendem. A presidente Dilma Rousseff é diferente. Primeiro porque integra um partido forte, o PT, apesar de imensamente desgastado depois do mensalão e, agora, com o petrolão. Nascido como “partido da ética”, o PT corre o risco de cristalizar-se como “partido da corrupção” — o que, a médio prazo, pode levar alguns de seus próceres a proporem a sua dissolução.

Segundo, o grupo político de Lula da Silva e, em menor escala, Dilma Rousseff tem uma ligação profunda com os movimentos sindicais e sociais — que pressionarão pela permanência da presidente. Eles estão contidos politicamente pelos líderes do PT. Liberados, especialmente por Lula da Silva, irão às ruas, apesar do desgaste generalizados de quaisquer aliados do PT. Mesmos apupados, em praça pública, não são frágeis.

Terceiro, ao contrário de Fernando Collor, o PT e, por consequência, Dilma Rousseff não estão inteiramente isolados e acuados no Con­gresso Nacional. A presidente mantém o apoio do PT, de parte significativa do PMDB e de ou­tros partidos, como o PP e o PR. Porém, exceto o PT, não se trata mais de um compromisso sem fissuras. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), comporta-se como adversário figadal do governo da petista-chefe.

Entretanto, mesmo com certo apoio e enraizamento social, o Lulopetistmo, espécie de movimento que controla o PT e atua nos poros do governo de Dilma Rousseff, possivelmente terá dificuldade para enfrentar um amplo movimento pró-impeachment. Até mesmo um fundador do PT, o consagrado jurista Hélio Bicudo — contando com o apoio do jurista Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça —, está pedindo o impeachment da presidente. Chegou a registrar o pedido em cartório e o entregou ao presidente da Câmara dos Deputados.

Gafe da presidente

Mulher inteligente, decidida e, até onde se sabe, decente, a presidente Dilma Rousseff, possivelmente por não ouvir o que lhe dizem Lula da Silva e o marqueteiro João Santana, comete gafes com certa frequência. Na quarta-feira, 16, a petista-chefe, sugerindo ter perdido o controle, fez uma série de comentários que interpretam erroneamente a realidade.

Auxiliares sugerem que estava mandando recado para empresários que, ante a crise econômica cada vez mais grave, estariam começando a aceitar a tese do impeachment. Pode ser que estejam certos, mas a interpretação esconde outra. Dilma Rousseff, militante histórica da esquerda, certamente estava enviando recados para seus aliados políticos, sindicais e, quiçá, para os beneficiários de programas sociais.

“Qualquer forma de encurtar o caminho da rotatividade democrática é golpe sim, é golpe. Principalmente quando esse caminho é feito só de atalhos. É feito só de atalhos questionáveis”, disse a presidente Dilma Rousseff. “Essas pessoas [golpistas] geralmente torcem para o quanto pior, melhor, e em todas as áreas. Todas elas esperando para pescar em águas turvas.”

Não há a menor dúvida de que a linguagem da presidente Dilma Rousseff é turva e enviesada. O motivo é prosaico: a petista-chefe sabe que o impeachment não é um propósito tão-somente dos tucanos — “essas pessoas” —, mas de políticos de vários partidos, como o PMDB de Eduardo Cunha e, mais à frente, até do vice-presidente Michel Temer, que seria o principal beneficiário do impedimento. Dilma Rousseff possivelmente está vendo “inimigos”, mais do que adversários, em todos os lugares — daí o recado amplo e sem transparência.

A rigor, não tem nenhuma figura de grande ex­pressão política e jurídica propondo “golpe po­lítico” para retirar Dilma Rousseff da Presidência da República. O impeachment não é um golpe — é uma medida legal, como foi no tempo de Fer­nando Collor, quando o PT atuou no ataque, com uma fúria e uma volúpia viscerais. Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior, dois juristas consagrados, sempre com propósitos democráticos — o primeiro sendo apontado como esquerdista, até por ter fundado o PT —, querem seguir os ritos legais e legítimos. São homens que acreditam e defendem o Estado de Direito Democrático. Nunca proporiam, como não estão propondo, um golpe

Fernando Henrique Cardoso: “Quem sofre a crise não quer dar golpe, quer se livrar da crise”

Fernando Henrique Cardoso: “Quem sofre a crise não quer dar golpe, quer se livrar da crise”

O uso da palavra “golpe”, de conotações ne­ga­tivas, visa basicamente desqualificar o movimento que sugere, às vezes de modo cauteloso, a proposta de impeachment. Porque “golpe” lembra ditadura e ninguém, nem mesmo os militares, querem saber mais de ditadura. Mas o uso equivo­cado da palavra golpe, apresentada como sinônimo de impeachment, permitiu que figuras lúcidas da República, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pudessem colocar os pingos no “i”.

“Quem sofre a crise não quer dar golpe, quer se livrar da crise. Na medida em que o governo faz parte da crise, começam a perguntar se [o governo] vai durar. Mas não é golpe”, pontuou, com exatidão, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso numa entrevista à “Folha de S. Paulo”, na edição de quinta-feira, 17.

Fernando Henrique sublinha que duas condições são seminais para que o impeachment seja possível. O governo fica “ralo”, frisa, quando perde-se a capacidade de gerir a máquina e o país. É o que está ocorrendo, na sua opinião.

Depois, há a configuração da responsabilidade. No registro da “Folha”, “se o Tribunal de Con­tas da União ou a Justiça Eleitoral detectarem irregularidades nas contas do governo ou da campanha de Dilma”, “aí”, segundo FHC, “não tem jeito” (de evitar o impedimento). “Que há essa possibilidade, há. E não é golpe. Golpe seria se eu dissesse agora: ‘Tira’”, contrapõe o ex-presidente.

Com sua cautela habitual, decorrente de sua vivência política e de sua formação cultural — que poucos políticos têm, inclusive seus aliados, como o senador tucano Aécio Neves (que ataca aqueles que financiaram a campanha de Dilma Rousseff, quando, como se sabe, são os mesmos que contribuíram com sua própria campanha) —, Fernando Henrique Cardoso afirma que, como a sociedade teme que o impeachment provoque conturbação da ordem, é preciso que surja alguém que “renove a esperança” dos indivíduos. “Por enquanto não” há “ninguém para assumir essa liderança”, admite.

Por intermédio de alguns de seus integrantes, como o senador paulista José Serra, o PSDB começa a negociar o pós-Dilma, com a possibilidade de o impeachment, ao retirar Dilma Rousseff, catapultar o vice Michel Temer para a Presidência. Porém, como a Operação Lava Jato pode provocar uma devastação no PMDB, inclusive na facção do vice-presidente, Fernando Henrique Cardoso recomenda um pé atrás e, por certo, o outro parado, não adiante. “Já disse ao PSDB: vai devagar porque não sei quem vai estar de pé depois da Lava Jato. Temo que se faça aliança precipitada com gente que vai ser expurgada.”

Hélio Bicudo (ex-petista) e Miguel Reale Júnior são dois juristas democráticos e nada golpistas

Hélio Bicudo (ex-petista) e Miguel Reale Júnior são dois juristas democráticos e nada golpistas

Apesar da recomendação, o PSDB já discute a participação num possível governo Michel Temer. Os tucanos dariam sustentação ao governo Temer, inclusive com participação no ministério, mas o peemedebista teria de dar garantia de que não pretende disputar a reeleição.

Como pretendem disputar a Presidência em 2018, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e Aécio Neves são contrários à participação num hipotético (cada vez menos hipotético) governo Temer. Porque perderiam a imagem de oposição. Fernando Henrique, apesar de sugerir cautela, frisa que, se Dilma Rousseff, cair, o PSDB acabará tendo de participar do novo governo. “Para não parecer que joga contra o país”, assinala. “Chega uma hora que você não faz o que quer, faz o que é preciso”, acrescenta. O senador José Serra defende a aliança com Temer: “Como foi com o Itamar” Franco.

O que resta a Dilma Rousseff — se resta-lhe al­guma coisa —, se quiser se defender de verdade, sem falar em golpe, é enfatizar sua honestidade pessoal.

Voltando a Fernando Collor. O hoje senador sofreu impeachment, em 1992, e não houve nenhuma crise institucional. Do ponto de vista da economia, com a adoção do Plano Real no governo de Itamar Franco — uma criação da equipe econômica articulada pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso —, o país estabilizou-se e voltou a crescer.

3 respostas para “Dilma Rousseff não é Collor mas impeachment não é golpe”

  1. Avatar agenor pereira mota disse:

    PT sempre usou a tatica de jogar suas más intenção nos outros quando Dilma ruimchef fala que impeatchment é golpe se referia as suas intenções de dá golpe maior ainda nos brasileiros por tanto impeatchment nela o brasil precisa se livrar desta praga egipcia chamada PT

  2. QUEM sofre (com) a crise, quer acabar com a crise. A crise do Brasil tem nome e sobrenome: um partido praticando a cleptocracia e uma senhora que pedala, pedala e não governa. Perdeu o vínculo com a sociedade, por isso tem que pagar para pessoas aplaudi-la quando diz suas (dela) besteiras num discurso inintelígivel, insosso até para os esquerdófilos mais entusiastas.
    O sobrenome da crise é Rousso, Rousseff, bandalheira em volta, do lado, acima e abaixo. Por muito menos, um presidente meteu uma bala na cabeça; mas eram tempos em que ainda se ouvia a “consciência”, essa instância que se ouvida diria à indigitada sra. Presidente: Renuncia, Dilma.

  3. O governador Geraldo Alckmin está correto em defender cautela no pedido de impeachment. É fundamental nesse momento se ater a apuração dos fatos e o cumprimento da Constituição. São as investigações que vão definir o destino de Dilma. À oposição cabe cobrar que as investigações sejam feitas com transparência e que os responsáveis pelas irregularidades sejam punidos. Cabe também ao PMDB assumir sua responsabilidade nesse processo. Não podem jogar toda responsabilidade nas costas dos tucanos.

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