“Desvio” da Veja, a Lei Anticorrupção e FHC diz que Dilma herdou um sistema corrupto

A maior revista do país se torna amiga do inimigo maior, o Lulopetismo. Fernando Henrique percebe a presidente como prisioneira do Lulopetismo. Modesto Carvalhosa diz que Lei Anticorrupção não precisava ser regulamentada. Instituições resistem às pressões da corrupção sistêmica

Eduardo Cunha na capa da “Veja’: a revista,  de repente, passou a ver virtudes inesperadas  no presidente da Câmara dos Deputados | Foto: reprodução

Eduardo Cunha na capa da “Veja’: a revista,
de repente, passou a ver virtudes inesperadas
no presidente da Câmara dos Deputados | Foto: reprodução

Este Editorial vai expor as ideias de duas entrevistas — do ex-presidente da Re­pública Fernando Henrique Car­doso, publicada pela “Folha de S. Paulo” (quinta-feira, 26), e do advogado Modesto Carvalhosa, editada pelo “O Globo” (terça-feira, 24) — e comentar, brevemente, uma reportagem da “Veja”, a revista mais im­portante do país, e a vitalidade das instituições.

É provável que tenha nascido com o homem a ideia de que “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”. A “Veja”, que presta um serviço ines­timável ao país ao se postar como analista con­sistente e contundente dos equívocos do go­verno da presidente Dilma Rousseff, era uma crí­tica costumeira e ácida do político Eduardo Cunha, pre­sidente da Câmara dos Depu­tados, tanto em re­portagens quanto em notas da coluna “Ra­dar”. Na edição 2418, que circulou a partir do dia 25 de março, tudo “mudou” — e com uma capa estrepitosa: “A súbita força de Eduardo Cunha”.

A reportagem é inteira e surpreendentemente a favor de Eduardo Cunha — configurando que o inimigo, Eduardo Cunha, do inimigo da “Veja”, o Lulopetismo, é amigo da revista. A conclusão do texto merece figurar na próxima edição do livro “Os Donos do Poder”, de Ray­mun­do Faoro: “Cunha pode não ser, co­mo parece mostrar seu passado, um monumento à ética. Mas, desde que seus pecados pertençam ao passado e seu compromisso seja com a saúde ins­titucional, a Constituição e a de­mocracia, há esperança ‘porque o nosso povo mereeeece respeito’”.

Pe­la lógica enviesada, o cabo austríaco Adolf Hitler, que se tornou mandachuva da Alemanha, entre 1933 e 1945, deve ser “perdoado”, pois é um homem do passado. Os ossos de Aristóteles e de Espinosa — filósofos que eram mestres em ética e lógica — “saíram” do túmulo à procura dos ossos de Miguel de Cervantes. Os ossos querem entender por que, de repente, “Veja”, como Sancho Pança, percebeu em Cunha seu Quixote de la Mancha. Pois é: de “mancha” — num mundo, o da política e o da imprensa, em que não há inocência — todos sabem alguma coisa.

Não fosse a “Veja” uma publicação respeitável, le mot juste para nominar a reportagem seria d-e-s-f-a-ç-a-t-e-z. Com vários tracinhos, vulgos hifens, para forçar a palavra a gritar com relativa civilidade. A revista terá “esquecido” que parte considerável dos envolvidos na Operação Lava-Ja­to — na corrupção gigante e sistêmica da Pe­trobrás — é filiada ao PMDB, ao PT e ao PP e, não por acaso, milita no Congresso Nacional, tan­to na Câmara dos Deputados quanto no Senado? Suspender o espírito crítico, quando interessa, é a regra da publicação da Editora Abril? Talvez tenha sido apenas uma derrapada. Um lapso ético? Certamente, não.

FHC e o padecer de Dilma

Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso:  o ex-presidente avalia que a presidente não é corrupta mas está encurralada por seus aliados | Foto: Veja

Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso:
o ex-presidente avalia que a presidente não é corrupta mas está encurralada por seus aliados | Foto: Veja

Fernando Henrique Cardoso, entrevistado pe­los repórteres Daniela Lima e Ricardo Balthazar, mos­trou, como de hábito, uma ironia fina e, aqui e ali, aquele palavreado lacunar típico dos políticos patropis. O título da matéria não reflete o que o diálogo tem de me­lhor: “Dilma se tornou refém de Joaquim Levy”.

Os repórteres inquirem: “O que diferencia o ‘Fo­ra FHC’ do ‘Fora Dilma’?” A resposta do ex-presidente: “O ‘Fora FHC’ era partidário, limitado ao PT. Eu nunca perdi o Congresso. Não perdi a credibilidade nem a capacidade de ação política. Não é a mesma situação de hoje. Há um elemento de descrédito”.

Lima e Balthazar insistem: “Mas qual é o principal vetor da insatisfação popular: a corrupção, o estelionato eleitoral, a economia?” O sociólogo analisa: “É a somatória. O que dá sustentação é a economia — que está [a crise] só começando —, mas é indiscutível que a corrupção pesou. O movimento foi de repulsa”. O político moderado acrescenta: “Tudo se concentrou simbolicamente no anti-Dilma. Não quer dizer que efetivamente queiram tirar a Dilma” da Presidência. “Até porque, pela corrupção, não é ela a responsável maior.”

O crítico de Lula da Silva acrescenta: “Ela [Dilma Rousseff] herdou. Todo esse sistema que está aí não foi criado no governo dela. Ela tentou se livrar. Demitiu ministro, mexeu na Petrobrás. A­gora, o povo não percebeu assim. Simbo­li­ca­mente centrou na Dilma. Ela está numa armadilha. Não sei se acham que ela é corrupta. As pesquisas dizem que acham que ela sabia e não fez nada. A imagem da Dilma que fez a faxina sumiu”.

Para FHC, Dilma Rousseff, para reorganizar as contas do governo, recrutou o economista Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. “E isso só aumentou a armadilha, porque agora ela não pode demitir. É refém dele.”

Dilma Rousseff, prisioneira de uma estrutura que não criou — a suposta governabilidade financiada com dinheiro público —, “deve estar padecendo”, afirma Fernando Henrique.
Lula da Silva é tido como imbatível para presidente da República. É? FHC acha que não: “O Lula perde hoje. Hoje [se Dilma cai e fazem novas eleições], o Lula perde”.

Fernando Henrique é mais preparado intelectualmente do que Lula da Silva, mas o petista é de uma sagacidade que talvez supere à do uspiano. O petista-chefe mantém o pé direito no barco do governo Dilma Rousseff — ninguém em sã consciência abandona uma presidente (sobretudo o “caixa” e os cargos), ainda que fragilizada — e o pé esquerdo noutro barco. O mote começa a ser dito: “Dilma não me ouve”.Ah, Lula desmentiu isto. Mas é o que se diz nos bastidores do Lulopetismo. Resumindo, Lula é fortíssimo. Sua pele política é feita de “teflon”.

Na questão do discurso do ódio, não há dúvida de que Fernando Henrique avalia com precisão: “Houve uma coisa ruim que é a ideia do nós contra eles. Isso foi proposto pelo PT e pelo Lula. Criaram um antagonismo. Agora reclamam que tem ódio nas ruas. Mas [foram] eles que soltaram”.

Uma coisa é certa: quando se lê uma entrevista de FHC, é possível concluir o quanto Aécio Neves é, política e intelectualmente, “pequeno”. Jovem sem energia e conteúdo, é tão moderno quanto Hermes da Fonseca.

Político não pode julgar empreiteiro

Modesto Carvalhosa: o governo de Dilma Rousseff quer retardar a aplicação  da Lei Anticorrupção | Foto:  Maurício Garcia de Souza

Modesto Carvalhosa: o governo de Dilma Rousseff quer retardar a aplicação
da Lei Anticorrupção | Foto: Maurício Garcia de Souza

Aos 82 anos, o advogado Modesto Car­valhosa persiste atuante e crítico. Entrevistado pelo “O Glo­bo” — “Co­mo pode colocar um po­lítico para jul­gar em­preiteiras?” —, analisou a regulamentação da Lei An­ticorrupção. Ele é crítico corrosivo do decreto.

O repórter Tia­go Dantas pede que analise a regulamentação da Lei Anticorrupção, assinada pela presidente Dilma Rousseff. Sua resposta: “Essa regulamentação é uma farsa. A Lei Anti­corrupção é autoaplicativa, não precisava de regulamentação. A única coisa que precisava ser objeto de um regulamento era o artigo 7, que fala sobre parâmetros de avaliação de mecanismos e procedimentos que são levados em conta na aplicação das sanções às empresas corruptas. Além disso, um decreto do Executivo não pode modificar a lei que ele regulamenta. Isso tudo é para adiar a aplicação da lei. Essa regulamentação tem que ser anulada pelo Ministério Público”.

Por que a anulação? A explicação de Modesto Carvalhosa: “A regulamentação fala que a competência de instaurar processos administrativos contra as empresas é de ministros, e não da Contro­ladoria Geral da União (CGU). O processo administrativo tem que ser feito por um ente público de corregedoria, ligado ao Estado, e não ao governo. Como pode colocar um político para julgar empreiteiras? Um ministro, que foi indicado por um partido que recebeu dinheiro da corrupção na Petrobrás por meio de empreiteiras, vai julgar essas empreiteiras? Esse é um princípio universal da administração pública: nenhuma pessoa política pode fazer processo administrativo. Para isso existe a CGU”.

O que o governo pode fazer contra a corrupção? A orientação de Modesto Carvalhosa: “Para acabar com corrupção tem que quebrar a interlocução direta entre fornecedores e o governo. E isso deve ser feito através de um instrumento chamando ‘performance bond’ (seguro de desempenho). Uma seguradora garante qualidade, prazo e preço do projeto. Então, para não pagar um seguro monumental, ela toma conta da obra. Desde 1887, isso é utilizado nos Estados Unidos. Qualquer país civilizado no mundo tem ‘performance bond’. E advinha quem é o maior conhecedor desse processo no Brasil? A Petrobrás. Eles têm vários contratos de ‘performance bond’ quando interessa (à empresa)”.

A vitalidade das instituições

Não há dúvida de que há uma grave crise política no país. Mas as instituições per­manecem sólidas e independentes. Comecemos pela imprensa, que deve ser vista como uma instituição. Até agora, e tudo indica que continuará assim, não se submeteu ao controle do governo da presidente Dilma Rousseff e de poderes pa­ralelos. A Operação Lava-Jato é um sucesso graças à atuação da Polícia Federal, da Procuradoria da República e da Justiça, mas seguiu adiante, sem maiores pressões de certos poderes, dada a cobertura ativa e isenta (até certo ponto) da imprensa.

A Polícia Federal, que serve ao Estado e não ao governante de plantão, fez um trabalho inatacável. Assim como o juiz Sérgio Moro e o Ministério Público. A cúpula do Legislativo tem pressionado o procurador-geral, Rodrigo Janot. O governo da presidente Dilma Rousseff, apesar das derrapadas do sério ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, permanece quase impassível. O que, na última edição, a “Veja” deixou de perceber, não se sabe por quais motivos.

6
Deixe um comentário

6 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
2 Comment authors
Adjabir Fernandes

quem não dá valor as opiniões sobre sua pessoa no futuro, já devia estar no mais longínquo entre os dois polos ( norte e Sul )Observa-se que alguns políticos não se amam e estão pouco se incomodando o que a história falará sem dúvida até vergonhosamente no futuro já bem próximo sobre estes maus brasileiros.

Cleuzaas

Coisa pra analfabeto ler – Lei Anticorrupção regulamentada.

.

Mudou nada.

Olhem a proposta do MPU:
.
.2) Criminalização do enriquecimento ilícito de agentes públicos

– Posse de recursos sem origem comprovada e incompatível com a renda do servidor se tornaria crime, com pena de 3 a 8 anos de prisão.

CORRUPÇAO DEVE SER CRIME HEDIONDO: 30 anos na cadeia.

Cleuzaas

É tudo um teatrinho que engana até os ativistas que pediram crime hediondo para a improbidade administrativa. Não foi o CGU que acabou com a corrupção na petrobrás – muito pelo contrário. Mas é a CGU o único que pode executar a lei anticorrupção segundo a propria lei. kkkkkkkk….

Cleuzaas

– à passagem de ônibus aumentou mesmo após as passeatas e quebradeira ! Só deram um tempinho. Quem não é estudante se fudeu.
– a tarifa de energia elétrica e água aumentam desumanamente. E NENHUM MAGISTRADO DE DIREITOS HUMANOS ou político bonzinho FAZ NADA !!! Mas vão até a Venezuela defender os direitos humanos. kkkkkkkk…. Adeus Brazil.

Cleuzaas

O negócio é consumir PRODUTOS INFORMAIS isentos de impostos. Porque imposto só serve aos politicos em prejuízo de quem paga impostos. Não aprovam a lei do voto facultativo, mas da na mesma – continuo não votando, porque são todos bosta do mesmo pinico – é tudo empresa de marketing pra lavar dinheiro.

Cleuzaas

Uma reportagem da Isto É, diz que o comércio informal movimentou 860 Bilhões em 2014. kkkkk… Como é que eles calcularam isso ? Estatística ? kkkkkkkk