Crimes de Itumbiara têm a ver mais com “acaso” do que com “descontrole” da violência em Goiás

Assassinatos do ex-deputado federal José Gomes da Rocha e do cabo Vanilson Pereira, da Polícia Militar, além do fato de o vice-governador José Eliton ter sido baleado, sugerem tragédias não diferentes das mortes de John Kennedy e Olof Palme

“Se a história nos ensinou alguma coisa é que se pode matar qualquer pessoa.”

Michael Corleone, no filme “O Poderoso Chefão”

José Gomes da Rocha, ex-deputado federal e ex-prefeito, e o policial militar Vanilson Pereira foram assassinados, em Itumbiara, pelo funcionário público Gilberto Ferreira do Amaral, na semana passada

José Gomes da Rocha, ex-deputado federal e ex-prefeito, e o policial militar Vanilson Pereira foram assassinados, em Itumbiara, pelo funcionário público Gilberto Ferreira do Amaral, na semana passada

Um breve comentário de um promotor de justiça de Goiás sobre a violência em Itumbiara — na semana passada, um suposto lobo solitário, o funcionário público Gilberto Ferreira do Amaral, o Béba, matou o ex-prefeito José Gomes da Rocha e o cabo da Polícia Militar Vanilson Pereira e feriu o vice-governador de Goiás, José Eliton, e um funcionário da prefeitura local, Célio Rezende — peca pela falta de visão histórica, não pela condenação, aí justa, da criminalidade. O promotor parece acreditar que o atentado contra políticos resulta de que se vive numa espécie de Centro-Oeste selvagem. Se “até” o vice-governador e secretário de Segurança é baleado…

“O Poderoso Chefão”, de Fran­cis Ford Coppola, é apontado como um dos melhores — senão o melhor — filmes da história do cinema. O personagem central, Michael Corleone, diz uma frase que se tornou icônica, não pela beleza, mas por ser verdadeira, ante o exame da trajetória do homem: “Se a história nos ensinou alguma coisa é que se pode matar qualquer pessoa”. Saltemos para Alexis de Tocqueville.

O magistrado e historiador francês Alexis de Tocqueville (1805-1859) visitou os Estados Unidos, na primeira metade do século 19, para estudar seu sistema penitenciário. Acabou se apaixonando pelo país, sobre o qual escreveu o clássico “A Democracia na América” (há uma boa edição, com dois volumes, pela Editora Martins Fontes), uma radiografia do país pré-Abraham Lincoln, que, na primeira metade da década de 1860, expandiu a democracia americana, ao abolir a escravatura e contribuir para tornar o modo de produção capitalista ainda mais dominante na economia nacional.

O que Tocqueville descobre de tão fascinante nos Estados Unidos? Não dá para sintetizar um livro de mais de mil páginas em escassos parágrafos, mas é possível registrar o básico, na nossa perspectiva.

O historiador inglês Simon Scha­ma, no livro “Cidadãos — Uma Crô­nica da Revolução Francesa” (Com­pa­nhia das Letras, 728 páginas, tradução de Hildegard Feist), nota que a Revolução Francesa de 1789, com Robespierre, precursor de Stálin, pode ser considerada, mais do que um “avanço”, uma tentativa de setores médios da sociedade de frear as transformações que começavam a se processar no país de Balzac e Flaubert. Talvez possa ser considerada uma contrarrevolução.

José Eliton: o vice-governador e secretário de Segurança Pública de Goiás foi baleado, no município de Itumbiara, passou por cirurgia e já está bem

José Eliton: o vice-governador e secretário de Segurança Pública de Goiás foi baleado, no município de Itumbiara, passou por cirurgia e já está bem

Não se trata de uma visão ortodoxa, obviamente não é de matiz marxista, mas o que precisa se ressalvar, sobretudo, é que a Revolução Francesa, longe de propor a democracia — um regime fundamentalmente inclusivo de personalidades divergentes —, propugnava por um sistema autoritário e, até, totalitário. Os que discordavam de suas ideias básicas eram encarcerados e, por vezes, guilhotinados. O dramaturgo alemão Georg Büchner, na peça “Danton”, a respeito de um dos principais jacobinos — espécie de Liev Trotski (ou Bukhárin) de Robespierre —, escreveu que a revolução é como Saturno: devora seus próprios filhos. Até Robespierre acabou guilhotinado.

Conhecedor da história dos jacobinos, autor do livro “O Antigo Regime e a Revolução” (Martins Fontes, 344 páginas, tradução de Rosemary Costhek Abílio), Tocqueville por certo espantou-se com o autoritarismo, que gerou uma violência incontrolável, de seus conterrâneos. Percebeu que a violência institucional não gera uma democracia institucional — o que é até redundante; afinal, não há democracia não-institucional. Na democracia, as instituições são refratárias ao controle do Poder Executivo.

Nos Estados Unidos, Toc­queville percebeu, nitidamente, outra realidade. Os americanos haviam constituído uma democracia sólida, infensa a golpes políticos. Por que a Revolução Ame­ricana de 1776, que resultou na independência do país, influenciou a política francesa — depois de receber influência do Iluminismo francês —, mas não contribuiu para sedimentar uma revolução democrática em 1789, quando os jacobinos (se sentavam à esquerda no Parlamento) tomaram o poder e procederam a uma destruidora caça às bruxas?

Porque os jacobinos franceses não pensaram numa revolução democrática, com fundamento no fortalecimento das instituições. Afinal, instituições sólidas contêm os “homens cordiais” (os do jeitinho, os burladores de regras) e, sobretudo, indivíduos (como Fernando Collor, Lula da Silva e Iris Rezende) que, quiçá por se considerarem líderes messiânicos, se postam acima das leis, das instituições. Nos Estados Unidos, pelo contrário, as leis — a Constituição — e as instituições eram e são vistas como sagradas. Os indivíduos, quaisquer que sejam, estão à mercê delas, nunca acima. Na França de 1789 a 1793, os jacobinos, com Robespierre à frente, avaliaram que, para manter o poder, deveriam abdicar da democracia, contaminando a vida política de maneira incontornável. Mais democracia, com a inclusão de personagens do antigo regime que fossem modernos, poderia ter substanciado o novo regime, garantindo-lhe a “perenidade” de seus projetos e ideias. Porém, ao se colocarem acima das leis, como se fossem as leis personificadas, os jacobinos assinaram, literalmente, suas sentenças de morte — abrindo espaço para a ascensão de Napoleão Bonaparte.

Na pegada de Tocqueville, a filósofa Hannah Arendt reforçou a ideia da democracia plural dos Es­tados Unidos, infensa a ditaduras.

Entretanto, se os Estados Unidos são uma democracia, exemplo (em termos internos) para outros países, por que tantos de seus líderes, políticos ou não, são assassinados? Porque não há sociedade perfeita, na qual se pode controlar toda a espécie de criminalidade. Mesmo países como a União Soviética, que era rigorosa com crimes comuns, não conseguiram controlar a criminalidade — a comum e a política. Nenhum país consegue. Nenhuma sociedade é Shangri-la. A ideia de matiz religiosa e positivista da esquerda, de que um dia se chegaria ao paraíso terreno — o comunismo —, levou à adoção de uma sociedade totalitária em alguns países, como União Soviética e China, e o resultado foram mais de 100 milhões de indivíduos assassinados, no que se pode considerar como a maior tragédia da história. A Segunda Guerra Mundial, com seus milhões de mortos — em batalha, no geral, não assassinados friamente (desconsiderando, claro, os 6 milhões de judeus e mais alguns casos) —, é, sem dúvida, trágica, mas menos trágica do que os assassinatos cometidos por Stálin, Mao Tsé-tung e epígonos.

No século 19, em 1865, depois de derrotar o Sul, na Guerra Civil Americana, e reunificar o país, além de abolir a escravatura, Abraham Lincoln foi assassinado por um sulista, num teatro (frise-se que Lincoln, como William Faulkner, eram devotos de “são” Shakespeare).

Lincoln passou a guerra protegido, mas com o seu fim decerto baixou a guarda, quando foi assassinado. Era o homem certo para reunir o Sul e o Norte, evitando a expansão da violência. A violência era tanta que milhares de confederados saíram dos Estados Unidos, em busca de paz, para vários países, como o Brasil. Neste país, instalaram colônias em São Paulo, Rio de Janeiro e Pará. Muitos foram bem-sucedidos e se integraram ao país, outros, com as feridas cicatrizadas, voltaram para sua pátria. A cantora Rita Lee descende de confederados e o Lee é menos um sobrenome de família e mais uma homenagem ao grande general sulista Robert Lee. No século 21, ainda há descendentes de confederados espalhados pelo Brasil, inclusive em Rio Verde, próspera cidade do Sudoeste de Goiás.

John Kennedy, Martin Luther King, Bob Kennedy, americanos, e o sueco Olof Palme foram assassinados, mesmo sendo, três deles, homens muito poderosos. O primeiro era superprotegido por agentes altamente qualificados

John Kennedy, Martin Luther King, Bob Kennedy, americanos, e o sueco Olof Palme foram assassinados, mesmo sendo, três deles, homens muito poderosos. O primeiro era superprotegido por agentes altamente qualificados

Noventa e oito anos após a morte de Lincoln, outro presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, foi assassinado por um atirador de primeira linha, Lee Oswald, na cidade de Dallas, capital do Texas, em 1963. O líder do Partido Democrata estava protegido pelo FBI, por agentes especiais da CIA e por policiais texanos. O aparato policial e militar que protege o presidente dos Estados Unidos é um dos mais organizados e eficientes do mundo. Mesmo assim, do alto de um edifício, Lee Oswald mirou seu fuzil e acertou a cabeça do homem mais guarnecido do país.

Sabe-se quem matou o presidente, mas até hoje, 53 anos depois, não se sabe quem mandou matá-lo. Há livros com variadas explicações. Há quem garanta que teria sido assassinado pelo establishment americano, inclusive com a participação de militares. O livro “Irmãos — A História Por Trás do Assassinato dos Kennedy” (Benvirá, 656 páginas), de David Talbot, sugere, até, que militares chegaram a cogitar um golpe de Estado contra Kennedy.

Há quem sustente que a Máfia, até com envolvimento com setores do FBI, teria articulado a morte. Mafiosos, como Sam Giancana (amigo de Frank Sinatra), teriam apoiado a eleição de Kennedy, inclusive com doação de dinheiro, mas, quando o filho de Joseph Kennedy (ligado à Máfia) chegou ao poder, nomeou seu irmão, Bob Kennedy, para o cargo de ministro da Justiça (na verdade, procurador-geral). No lugar de adoçar a vida dos mafiosos, e até contrariando Edgar Hoover, o onipresente diretor do FBI, Bob Kennedy procedeu uma perseguição cerrada aos seus negócios ilegais. Há quem afiance que John Kennedy foi assassinado pelos soviéticos. O fato é que não há nada conclusivo. Candidato a presidente dos Estados Unidos, Bob Kennedy foi assassinado em 1968.

Uma espécie de Gandhi dos Estados Unidos, Martin Luther King Jr. foi assassinado em 1968, aos 39 anos. Maior líder do movimento dos direitos civis dos negros no país, era defensor da não-violência como instrumento político.

Com o know-how adquirido depois do assassinato de John Kennedy, com a segurança reforçada, o governo dos Estados Unidos temia muito pouco novos atentados internos. No entanto, em 1981, sessenta e nove dias depois de ter assumido o governo, o presidente Ronald Reagan — o estadista que, anos depois, se tornou o político decisivo para a demolição do comunismo na União Soviética e países-satélites — sofreu um atentado. John Hinckley Jr. baleou Reagan, que teve um pulmão perfurado, e mais três pessoas.

Como um homem que não pertencia a nenhuma organização política, que não estava protegido por nenhum grupo especializado e não havia recebido treinamento qualificado, se aproxima do presidente do país mais rico do mundo, o que mais protege seus líderes (assim como a Rússia de Vladimir Putin), e consegue feri-lo gravemente? Especialistas em segurança dizem que um indivíduo determinado, ainda que tenha treinamento apenas básico com armas, pode matar qualquer pessoa. O que se pode fazer é evitar riscos, com cercos estratégicos e mapeamento dos locais por onde passará o presidente (e outros governantes), mas não há como evitar todos os ricos. O mundo é mais dado à fatalidade do que à perfeição do planejamento.

João Paulo 2º

Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos, e o papa João Paulo 2º foram baleados, em 1981, apesar dos aparatos de segurança que os protegiam

Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos, e o papa João Paulo 2º foram baleados, em 1981, apesar dos aparatos de segurança que os protegiam

O papa João Paulo 2º, superprotegido pela Guarda Suíça, foi baleado gravemente pelo turco Mehmet Ali Ağca, em 1981, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Fala-se que era um agente do serviço secreto búlgaro, que obedecia ordens do KGB soviético. Qual a motivação do atentado? O caso não foi inteiramente esclarecido, especialmente sobre “mandantes” e motivações. João Paulo 2º, um dos maiores líderes religiosos e, sim, políticos do século 20, articulou com habilidade, ao lado dos dirigentes políticos dos Estados Unidos e da Alemanha Ocidental, a queda dos países comunistas, como União Soviética, Alemanha Oriental, Polônia (onde as ações do papa foram mais evidentes), Hungria e Romênia. Suas ações teriam desagradado os comunistas.

Olof Palme, primeiro-ministro da pacífica Suécia, foi assassinado, em 1986, aos 59 anos, quando saía de um cinema, no centro de Estocolmo. Christer Pettersson (alcoólatra e viciado em drogas), apresentado como responsável pelos tiros contra o político socialdemocrata, acabou liberado pela Justiça, por falta de provas. Como Olof Palme era um dos críticos mais contundentes do Apartheid, chegou-se a mencionar que serviços secretos da África do Sul poderiam ter articulado sua morte, assim como um extremista de direita e o movimento curdo do PKK. Porém, se Ronald Reagan e João Paulo 2º planejavam o fim do comunismo, Olof Palme não era um intervencionista. As contestações da Suécia, no concerto internacional, são quase sempre suaves, raramente polêmicas.

Crimes em Itumbiara

O crime de Itumbiara, qualquer que seja a motivação — independentemente de ser política ou pessoal —, é condenável. Mas não resulta de Goiás ser um Estado “atrasado” (é cada vez mais moderno) ou “violento”. As informações acima, mostrando líderes políticos superprotegidos que foram assassinados, sugerem que a fatalidade, o acaso, pode se sobrepor a poderosos esquemas de segurança e que países altamente desenvolvidos, como Estados Unidos e Suécia, não escapam às ações de grupos organizados ou não. O fato é que tragédias nem sempre podem ser evitadas — é a logica enviesada da vida — e não resultam necessariamente de uma região ser ou não ser violenta.

Portanto, ao contrário do que sugere o promotor de justiça mencionado no primeiro parágrafo, não se pode falar em “era uma vez no Centro-Oeste”, citando o grande diretor de cinema Sergio Leone.

A violência gera uma onda de histeria, da qual não escapam nem mesmo promotores de justiça sensatos — ao menos um deles é de uma insensatez extrema, comportando-se no Twitter como se fosse presidente de grêmio estudantil — e produzem, por vezes, avaliações irracionais. É óbvio que não se pode negar que há violência em Goiás e em todo o Brasil — aliás, em todo o mundo. Há crime organizado? Há, ainda que em menor escala do que em Estados como Rio de Janeiro e São Paulo. Não se pode, porém, falar em violência sistêmica e altamente contaminadora. Qualquer avaliação justa, não politizada, terá de reconhecer que o governo de Marconi Perillo está combatendo a violência e o crime organizado. Ao nomear seu vice-governador, o advogado José Eliton, para a Secretaria de Segurança Pública, o tucano-chefe deixa patente que tem como um de seus principais objetivos reduzir a violência e tornar o Estado mais pacífico para todos os cidadãos de bem.

O crime organizado está se espraiando por todo o Brasil, se tornando cada vez mais nacional. Criminosos especializados de São Paulo e Rio de Janeiro, Estados nos quais o crime organizado está enraizado, quando combatidos duramente nas duas regiões, escapam para os demais Estados. Tanto para sobreviver quanto para cometer assaltos, por exemplo contra bancos, com o objetivo de azeitar as finanças de seus integrantes e adquirir armas potentes no mercado interno e externo (Paraguai). Há pouco, a polícia goiana prendeu um integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC) e, em confronto, matou membros de uma quadrilha que assalta caixas eletrônicos dos bancos, como um do Banco do Brasil, na Praça Tamandaré, em Goiânia.

O que se pode dizer é que José Eliton aumentou o poder de pressão das polícias Civil e Militar contra os criminosos. Mas, o que é importante, dentro da lei. Cobra-se, no governo, que a polícia seja forte e ativa, mas não que seja justiceira. Porém, entre os criminosos e os policiais, o importante é a vida dos agentes da lei. Neste sentido, o jornalismo precisa entender de maneira mais ampla o trabalho da polícia, sobretudo da Polícia Militar. A sociedade cobra mais rigor no combate ao crime, a PM age de maneira forte e aí a imprensa, como fez um diário de Goiânia, começa uma campanha sistemática contra ela.

Policiais costumam dizer que há outro problema: prende-se o criminoso num dia e, logo depois, ele está solto. O prende e solta é, de fato, uma trava ao trabalho da polícia. Mas é preciso apresentar uma ressalva. Juízes decidem com base nas leis e são os primeiros que não podem desrespeitá-las. Assim, ante evidências falhas e inquéritos e denúncias mal costurados, com discurso demais e provas de menos, como não soltar os infratores? Mas há casos em que os juízes, sem receio de serem considerados mãos pesadas, precisam decidir contra o criminoso e a favor, não da polícia, e sim da sociedade.

Ministério da Segurança

Há outro aspecto que merece discussão: se o crime organizado se tornou nacional e a maioria dos Estados não tem condições de combatê-lo — por falta de armas modernas, escassez de policiais altamente qualificados e inexistência de serviços de Inteligência de primeira linha —, o governo federal tem de criar uma política de segurança nacional que não fique apenas no papel ou em declarações pomposas e bacharelescas. É preciso escapar das ideias mágicas, das panaceias, mas é provável que a criação de um Ministério da Segurança Pública — talvez mais necessário do que o Ministério da Defesa (o Brasil não tem participado de guerras) — poderia contribuir para reduzir a violência.

Um Ministério da Segurança Pública, se eficiente e não burocrático, poderia coordenar as políticas policiais dos Estados, unificando o trabalho das polícias, compartilhando de maneira mais produtiva os setores de Inteligência e suas investigações, sem ciúmes e puerilidades. O que não se pode é o governo federal permanecer omisso, assistindo de camarote a ascensão e a consolidação do crime organizado no país em várias áreas, como tráfico de drogas, roubo de cargas, assalto a caixas eletrônicos.

A existência de um Ministério da Segurança Pública poderia ser útil também para pressionar pela construção mais rápida de penitenciárias amplas, decentes e que, de fato, contribuam para tentar, ao menos tentar, reinserir o preso na sociedade. A prisão, como existe hoje, ainda que seja um lugar de exclusão necessário, é também uma escola de malandragem. Portanto, é preciso mudar sua concepção, com a oferta aos presos de saídas para escapar da vida criminosa.

Àqueles que clamam, ou até bradam, nas praças, nos comícios, nos jornais e nas emissoras de rádio e televisão que a violência aumentou, o Jornal Opção recomenda que leiam o livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza — Por que a violência diminuiu” (Companhia das Letras, 1048 páginas, tradução de Bernardo Joffily), do psicólogo Steven Pinker, professor-doutor de Harvard. Trata-se de uma pesquisa exaustiva, extremamente bem documentada e sem nenhum achismo.

Porém, por motivações políticas, partidárias e ideológicas — e até ignorância mesmo —, muitos vão continuar falando, em alto e bom som, que a violência é crescente. Jornalistas adoram estatísticas, mas são poucos os que sabem avaliá-las com o devido cuidado. Às vezes, dão manchetes, a partir de pesquisas fajutas, e não se preocupam com a questão da responsabilidade social, com a possibilidade de que, por ignorância — muito mais do que por má-fé —, estejam contribuindo, não para conter a violência, e sim para aumentar a sensação de insegurança. A leitura do livro de Steven Pinker não faria nenhum mal a jornalistas e políticos. Faria um bem imenso, dado o caráter luminoso e iluminista de sua pesquisa. É como se dissesse: pense pela própria cabeça e deixe de ficar repetindo aquilo que “todo mundo” diz… mas não se sabe de “onde” se pescou.

1
Deixe um comentário

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
Adalberto De Queiroz

Excelente!
Aos coleguinhas jornalistas e leitores que não têm muito “tempo” (e ânimo!) para o item “leitura”, talvez seja útil essa síntese do discurso do Pinker, no youtube: https://youtu.be/wtPHieLCWrs?t=16s -; como também essa amostra do livro: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13271.pdf
Abraços,
Beto.