China pode utilizar o Brasil como laboratório para tentar atropelar, a longo prazo, os Estados Unidos

Os chineses querem se tornar a potência dominante do século 21 usando como arma a economia. Já os Estados brasileiros menos ricos precisam de incentivos fiscais para garantir seu crescimento e desenvolvimento

O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, e a presidente do Brasil, Dilma Rousseff: negócios entre potências, a segunda e a sétima maiores do mundo, nunca são “ações entre amigos” | Roberto Stuckert Filho/PR

O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, e a presidente do Brasil, Dilma Rousseff: negócios entre potências, a segunda e a sétima maiores do mundo, nunca são “ações entre amigos” | Roberto Stuckert Filho/PR

 

“As pessoas não param de confundir com notícias o que leem nos jornais”, disse, de maneira sardônica, o jornalista americano A. J. Liebling. Na semana passada, os jornais brasileiros, num otimismo menor apenas do que o dos integrantes do governo da presidente Dilma Rousseff, esbaldaram-se com a notícia de que a China vai investir 53 bilhões de dólares no Brasil. Fica-se com a impressão, lidas as reportagens — ressalve-se que nem todos os textos foram panglossianos —, de que a China está fazendo negócio de pai para filho com o Brasil. Melhor: de avô para neto. Quem acredita em certa candura dos governantes chineses deve ler “Sobre a China” (Objetiva, 556 páginas), livro de Henry Kissinger. Nesta obra excepcional, escrita por quem tem um olhar apaixonado e, ao mesmo tempo, realista direcionado à terra de Mao Tsé-tung, é possível verificar toda a implacabilidade dos negociadores chineses. Eles não gritam, não esperneiam, não batem na mesa, mas são duríssimos. Sobretudo, como não têm nada de Simão Bacamarte, não jogam dinheiro fora.

Por que exatamente a China quer ampliar sua rede de negócios com o Brasil? Não se trata, lógico, de bom-mocismo. O fato é que o Brasil, as contrário de vários países europeus e asiáticos, é um gigante — em termos de áreas aproveitáveis para o agronegócio e de recursos naturais, como minérios. Trata-se de um país que está em construção e, em alguns setores, está sendo refeito, ou reestruturado, como na área de transportes. Abre-se um parêntese sobre a Alemanha.

Entre 1933 e 1945, num período de 12 anos, a Alemanha de Adolf Hitler dominou praticamente toda a Europa. Em busca de espaço vital para garantir sua expansão econômico-financeira — e mesmo a populacional —, o nazismo optou pela guerra. As armas seriam o instrumento para o país de Goethe e Thomas Mann assenhorar-se dos recursos europeus, inclusive os da União Soviética de Stálin (Hitler tinha certo fascínio pelas terras férteis da Ucrânia). Entretanto, a Europa, que seria germanizada, optou por se manter diversificada, sem controle único, contando, para tanto, com o apoio dos Estados Unidos, da União Soviética e, modestamente, do Brasil, que lutou na Itália, entre 1944 e 1945, contra o nazi-fascismo.

Há 70 anos, depois de batalhas sangrentas — a Normandia é apenas a mais simbólica, sobretudo porque a mitologia norte-americana é dominante; a Batalha de Kursk merece ser lembrada com mais destaque —, depois de vencer a guerra por um bom período (Andrew Roberts sugere que estava derrotando os Aliados até 1943), a Alemanha foi derrotada por uma coalizão transnacional. Setenta anos depois, a Alemanha, superando França, Itália e Inglaterra, se tornou a potência dominante da Europa — e sem dar um tiro. Preservadas a autonomia política e as fronteiras regionais, a Europa se tornou, para exagerar um pouco, uma espécie de feudo da nação de Bach, Brahms e Beethoven.

Feito o parêntese, retomemos o tema inicial. As relações entre o Brasil e a China não se darão na mesma perspectiva que as relações Alemanha-Europa. Mas os governantes chineses sabem que, para se tornar a potência dominante do século 21 ou do século 22, a China precisa espraiar seus tentáculos pelo mundo — exercendo certa dominação, ou hegemonia, por meio da economia. Se quiser superar os Estados Unidos, país que tem uma economia ajustada e poderosa — constituindo-se num império-republicano —, precisa estreitar seus laços com outros gigantes econômicos, como o Brasil. A China não se tornará um império, quiçá “o” império, pelo poder das armas, e sim pela economia.

O bem-vindo anúncio de bilhões de dólares significa que o Brasil se tornará uma colônia-país da China? Não. Porque não há mais espaço para este tipo de dominação. Porém, para que a economia brasileira não seja engolfada pelo gigante chinês, o Estado patropi tem de desenvolver uma diplomacia comercial menos defensiva e mais ofensiva. A presidente Dilma Rousseff, economista que sabe muito bem como se dão as relações econômico-comerciais, tem razão ao comemorar os dólares chineses. Mas precisa formular de maneira mais adequada os parâmetros dos negócios. Repita-se: o capital é bem-vindo, desde que administrado de fato para articular ou rearticular projetos de infraestrutura — ferrovias, portos, rodovias e aeroportos — e não para financiar um Estado que gasta muito e quase sempre mal.

Retomando a frase inicial, de A. J. Liebling, é preciso entender, como notou o “Valor Econômico”, que “a cifra de 53 bilhões de dólares ainda deve ser lida como uma intenção de investimentos”. O capital chinês, como o capital americano, alemão ou japonês, não está disponível para brincadeira e não é repassado sem acertos rigorosos. A China certamente está usando o Brasil como um laboratório para lances cada vez mais ousados na tentativa de criar uma economia ainda mais competitiva e mais próxima da americana. O Brasil, agindo de maneira inteligente e ousada, pode capitalizar isto. Assim como o presidente Getúlio Vargas, noutro contexto, articulou muito bem na primeira metade da década de 1940 — quando arrancou forte apoio financeiro dos Estados Unidos.

Dilma Rousseff e os reds do PT não devem temer o capital chinês. Pelo contrário, devem aproveitá-lo da melhor maneira possível. A aposta da China no país por certo vai atrair investimentos de outras nações. É uma aposta no Brasil, uma demonstração de que, apesar da corrupção articulada pelo PT e partidos aliados, se trata mesmo de um player internacional. A China não vai arrancar o país da crise, levando-o imediatamente a ter um PIB positivo, mas anúncios positivos, quando verdadeiros, são decisivos para criar ambientes propícios ao crescimento. Na semana passada, um consultor disse que a China confia mais no Brasil do que o Brasil acredita em si mesmo. O raciocínio é em parte verdadeiro. Os chineses colocaram a bola na marca do pênalti. Cabe aos brasileiros, e não apenas à presidente da República, chutá-la e marcar o gol.

O gigante chinês tem um desafio: incluir mais pessoas ao mercado de alto consumo. É uma exigência do capitalismo. Comer melhor — leia-se, em geral, carne — é uma das exigências de um país que, tradicionalmente excludente, mesmo sendo socialista, está formulando projetos de inclusão social. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo e tem área física e tecnologia para ampliar a produção. Ao mesmo tempo, tem um mercado consumidor relativamente homogêneo e, apesar da crise, sólido.

No momento em que anuncia investimentos chineses, a presidente Dilma Rousseff paradoxalmente anuncia corte no Orçamento de aproximadamente R$ 69 bilhões. Enquanto a China aplica recursos financeiros maciçamente em educação, o que começa a gerar uma revolução tecnológica — sem tecnologia avançada o país nunca se aproximará da economia dos Estados Unidos —, a gestora petista anuncia cortes de investimentos em várias áreas, como educação.

Pendenga do ICMS

Os Estados Unidos, potência hegemônica e em franca recuperação, com uma economia muito mais moderna do que a chinesa, com tecnologia de ponta em várias áreas e recursos humanos altamente qualificados, são de fato uma federação. Os Estados americanos funcionam praticamente como países, com independência em vários campos — uns têm casamento gay e pena de morte, outros não têm. A economia é interligada, mas os Estados dispõem de certa independência, com os governadores concedendo incentivos para a iniciativa privada. Lá, ao contrário daqui, não se fala em guerra fiscal. Mas a competição entre os Estados é feroz.

No Brasil, país no qual de vez em quando se formula uma ideia mágica para resolver seus problemas, agora começou-se, inclusive com recurso ao Supremo Tribunal Federal, uma tentativa de unificar o ICMS. Seria uma forma de acabar com a chamada guerra fiscal — graças à qual Estados como Goiás, Mato Grosso, Pernambuco e Bahia, para citar apenas quatro, saíram da indigência e se tornaram potências emergentes.

Graças aos incentivos fiscais — que agora o governo de Dilma Rousseff quer extinguir —, os Estados cresceram e se desenvolveram. É fato que houve exageros e, por isso, a arrecadação de alguns Estados está comprometida. Mas os incentivos são mesmo um instrumento de crescimento e desenvolvimento.

É preciso criar novas regras? É provável que sim, pois os Estados precisam arrecadar mais, com o objetivo de fazer investimentos com recursos próprios, e não apenas à custa de empréstimos internos ou externos. Porém, se não colocar nada no lugar, optando por um fundo talvez insuficiente, é bem possível que algumas economias sejam prejudicadas. Ao mesmo tempo, não se deve aceitar a tese de alguns empresários, que sequestraram o Estado — assim como as empresas-campeãs sequestraram o BNDES —, de que, se os incentivos fiscais caírem, as empresas deixarão os Estados. Direitos adquiridos devem ser mantidos, e os incentivos não podem ser cortados imediatamente, mas alguns Estados, como Goiás, que está no centro do Brasil, certamente não perderão a maioria de seus empreendedores.

Uma resposta para “China pode utilizar o Brasil como laboratório para tentar atropelar, a longo prazo, os Estados Unidos”

  1. Avatar Cristiano disse:

    …”A presidente Dilma Rousseff, economista que sabe muito bem como se dão as relações econômico-comerciais, “… Quase parei de ler aí. A mulher leva a falência uma loja de 1,99 e ainda tem quem defenda…

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