Carta de Tancredo Neves para Lula e um bilhete para Bolsonaro

“Ex-presidente Lula, não deixe de conversar com almirantes, brigadeiros e generais. Presidente Bolsonaro, não fique na história como defensor de torturadores”

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva,

O sr. sabe que morri em 21 de abril de 1985, há 37 anos — o que equivale a duas gerações —, mas estou vivo há 112 anos. Como discípulo de Machado de Assis, o José Maria do Cosme Velho, digo e redigo: por ser um homem tão experiente, posso dar-lhe alguns conselhos. Antes, preciso me apresentar condignamente, não a vossa excelência, e sim aos possíveis leitores, notadamente aos jovens… Sim, eu sei que tornará a carta pública, como propaganda, mas não me importo com isto, não. Aqui, no Além, somos puros — não temos raiva, só amor.

Nasci em São João del-Rei em 4 de março de 1910, dois anos depois da morte de Machado de Assis e do nascimento de João Guimarães Rosa, aquele fabulista que criou a novela-conto “Miguilim”. Deram-me o nome de Tancredo de Almeida Neves, mas a história retirou “de Almeida”, sobrenome que contém “alma”, e ficou apenas Tancredo Neves, felizmente ninguém, nem Carlos “Corvo” Lacerda, me nomeou de “o Abominável das Neves”.

Getúlio Vargas e Tancredo Neves: o presidente e o ministro da Justiça | Foto: Reprodução

Sou formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais — a majestosa UFMG. Em 1935, com 25 anos, fui eleito vereador e, pela eloquência, me tornei presidente da Câmara Municipal. Era filiado ao Partido Progressista, mas nada a ver com o atual Progressistas, o do ministro Ciro Nogueira, o poderoso chefão do Centrão. Não gostei de tanto “ão” e meu amigo Carlos Drummond de Andrade me recriminaria.

Formado, advoguei e fui promotor de Justiça. Não sei se é folclore político, mas relatam, e talvez tenha sido eu mesmo que contei, que certa vez, quando um barbeiro escanhoava a minha barba com uma navalha afiada, de repente fiquei gelado. O barbeiro me disse: “O sr., quando promotor, contribuiu para minha condenação e eu fui preso”. Pensei: estou morto. Mas o homem havia me perdoado por cumprir a lei.

Em 1937, sob o Estado Novo de Getúlio Vargas, perdi o mandato e fui preso. Cheguei a atuar como empresário. Com a queda de Getúlio Vargas, em 1945, a democracia fez as pazes com os brasileiros. Assim, fui eleito deputado estadual, em 1947, pelo Partido Social Democrático (nada a ver com o PSD de Gilberto Kassab). Tornei-me líder da oposição.

João Goulart, presidente, e Tancredo Neves, primeiro-ministro | Foto: Reprodução

Na década de 1950, quando Getúlio Vargas assumiu a Presidência, agora pelo voto direto dos eleitores, fui convidado a assumir o Ministério da Justiça. Percebi que, cansado de tantas batalhas, o chefe do Executivo não queria lutar para se manter no poder. Por isso, deu um tiro no coração, que, ao matá-lo, salvou a democracia. Aqueles que o acossavam, sugerindo que havia um mar de lama no Catete, o palácio do governo, passaram a ser caçados. Carlos Lacerda, o golpista-mor da República patropi, teve de se esconder da fúria popular.

O tempo passou, assim como a banda do carioca Chico Buarque, e nunca parei de fazer política. Como se sabe, sempre fui, weberianamente, um político profissional. Em 1961, como todos sabem, o presidente Jânio Quadros, depois de ver forças ocultas numa garrafa de uísque (chegou a dizer: “Bebo porque é líquido, se sólido fosse, come-lo-ia”), renunciou ao mandato, criando um caos institucional.

O vice, João Goulart, o Jango, estava na China. Por lá, aconselhado a não retornar de imediato, ficou. Militares e civis golpistas e democratas chegaram a um consenso: o país instalaria o Parlamentarismo. Fui guindado ao posto de primeiro-ministro, com João Goulart permanecendo como presidente.

Porém, Jango “derrubou” o sistema parlamentarista, com o apoio de um plebiscito, e deu no que deu. Entre 31 de março e 1º de abril, um grupo de generais, com o apoio das vivandeiras civis, como Magalhães Pinto e Carlos Lacerda, retirou João Goulart da Presidência e entronizou o general Humberto de Alencar Castello Branco no poder.

Na ditadura, como integrante do MDB, o Manda Brasa, combati os governos autoritários e nem sei direito por qual motivo não fui cassado — talvez por ser moderado. Quando 1982 chegou, disputei o governo de Minas Gerais e derrotei o candidato do regime de exceção.

Assumi o governo de Minas em 1983. Percebendo que a ditadura estava se desmanchando, dada a ampliação da Abertura — vários governadores do MDB foram eleitos pra os governos estaduais —, comecei a dialogar com a sociedade civil e a sociedade política.

José Sarney e Tancredo Neves: a transição possível em 1985 | Foto: Reprodução

Sim, eu sabia que, em breve, haveria eleição para presidente da República, direta (com o voto popular) ou indireta (no Colégio Eleitoral). Eu planejava ser candidato a presidente.

A emenda do deputado federal Dante de Oliveira propunha as Diretas Já. Sim, eu queria ser eleito pelo povo brasileiro. Mas, realista até a medula, eu sabia que a emenda não seria aprovada e, por isso, comecei a articular com vários políticos, das oposições e da situação (Aureliano Chaves, Marco Maciel, José Sarney, Antônio Carlos Magalhães e outros). Em Goiás, eu falava com Iris Rezende Machado (tão moderado quanto eu) e, por vezes, com Henrique Santillo e Fernando Cunha, os dois últimos do MDB “autêntico”.

Caro Lula, desculpe-me pela intimidade, preciso lhe sugerir um caminho, que, a rigor, foi o meu entre 1984 e 1985. Comecei a falar com generais, brigadeiros e almirantes. O Exército é mesmo a força mais poderosa, mas não subestime as duas outras. Conversei diretamente e, várias vezes, por intermédio de interlocutores com alguns militares. José Sarney — o escritor Sir Ney lá do Maranhão — e Antônio Carlos Magalhães dialogaram com vários oficiais da mais alta patente. Um deles era o general Leônidas Pires Gonçalves, que fazia a ponte entre nós, democratas, e os homens da ditadura — que, na época, sem deixar de ser “dita”, já era menos “dura”.

Leônidas Pires Gonçalves e José Sarney: o general foi fiador da transição | Foto: Reprodução

No início, os militares nos receberam de maneira desconfiada, pois a ditadura foi feita contra nós, os civis-democratas. Aos poucos, assim como deixaram de nos demonizar, nós também deixamos de demonizá-los. Juntos, concluímos que o que se pretendia era unicamente reinstalar a democracia plena no país — levando a Abertura ao seu limite. Ninguém, nem mesmo a esquerda moderada, incrustada no PT do qual o sr. fazia parte, como fundador, defendia a implantação de um sistema comunista no país. O sr., aos 40 anos, era um jovem garboso, meio radical, mas não era comunista. Era, no máximo, socialista ou social-democrata, e dos mais ligados à Igreja Católica de dom Paulo Evaristo Arns.

As conversas com vários militares, que rejeitavam vendetas, foram úteis para evitar uma tentativa de golpe em caso de vitória de um civil no Colégio Eleitoral. Sim, havia militares golpistas, e nós não tínhamos certeza de que o presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo teria como contê-los. Consta que entre os possíveis golpistas estava o chefe do Serviço Nacional de Informação, Octávio Aguiar de Medeiros, que, postulam alguns bem-informados, gostaria de ter sido o sucessor de Figueiredo, o João dos cavalos.

Nelson Jobim e Lula da Silva: o ex-ministro do STF é um bom interlocutor junto às Forças Armadas | Foto: Reprodução

O fato é que nossas conversas, francas e diretas, impediram qualquer tentativa de golpe. Paulo Maluf, que era apoiado pelo general Golbery do Couto e Silva, perdeu a eleição no colégio eleitoral e não conseguiu mobilizar ninguém de importância nas Forças Armadas.

Lula, o sr. sabe que morri com 75 anos e o sr. está com 76 anos. Portanto, é um homem experiente. Então entenda que todo o arrazoado acima tem um objetivo. Estou sugerindo que abra conversações com almirantes, brigadeiros e generais — direta ou indiretamente. Aqui, do Céu — sim, estou no Céu, felizmente —, recebo a informação, repassada por Juscelino Kubitschek e Ulysses Guimarães, de que o sr. não está parado.

Roberto Marinho contou a JK e a Ulysses que “O Globo” (ou teria sido o “Estadão”) publicou que o sr. enviou emissários para conversar com militares, notadamente generais (e repito: não esqueça os almirantes e brigadeiros). Um deles é o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim, um ex-político e advogado pelo qual os militares têm apreço, dada a sua seriedade e probidade.

Lula da Silva, Tancredo Neves e Jair Bolsonaro: lições de história de um político de centro para dois políticos polarizados — um de direita e o outro de esquerda | Fotos: Reproduções

Nelson Jobim, depois das primeiras abordagens, disse ao sr., e certamente a um jornalista, que os militares respeitam e vão continuar respeitando as instituições. Isto é muito bom. Mas o sr., um político experimentado, sabe que não basta um interlocutor. Porque precisa colher uma “média” do que realmente pensam almirantes, brigadeiros e generais. O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal pode ter abordado oficiais moderados e é preciso saber se representam a “média” das Forças Armadas.

Recentemente, o sr. disse que, se eleito, vai retirar quase 8 mil militares do governo federal. A atitude é correta, mas não deve ser vista, pelos próprios militares, como uma ação revanchista. Portanto, seus interlocutores junto à Aeronáutica, ao Exército e à Marinha precisam expor claramente o que, exatamente, fará, no caso de derrotar o presidente Jair Bolsonaro na eleição deste ano. Uma transição moderada, sem caça às bruxas, é o melhor caminho. Sugiro, até, que o sr. mande dizer aos militares que eles próprios ficarão encarregados da transição, quer dizer, da retirada dos militares do governo.

Prezado Lula, Brizola está aqui ao meu lado e manda um abraço pra você e pra sua Janja. Com quase 118 anos, está mais moderado do que nunca. Ele manda dizer o seguinte: peça à meninada dos jornais, assim como à admirável decana Miriam Leitão e ao notável historiador Carlos Fico, que modere suas críticas aos militares. A tortura é abominável, não resta a menor dúvida, e é preciso denunciá-la. Não só, é preciso contar o que aconteceu, sem tergiversações, nos tempos da ditadura (a tortura é um acinte anti-civilizatório). Mas gestar uma crise com as Forças Armadas, a cinco meses das eleições, pode não ser uma boa arma de defesa da democracia. Repito: não se deve esconder a história. Mas, num período de contencioso, no qual os militares são mais favoráveis a Bolsonaro, a pressão pode resultar num tiro pela culatra.

Não, Lula, não estou postulando que os militares darão um golpe para impedir sua posse e, até, sua candidatura. Não é isso. O que estou dizendo é que, num momento de conflito, é preciso ter cautela, suavizar os espíritos. Só isso. Políticos experientes, como tu (estou falando como Erico Verissimo, naquela bela tradução de “Contraponto”, o subestimado romance de Aldous Huxley), precisam ter foco.

Ao articular uma aliança com o conservador Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo, o sr. deu o recado certo para a sociedade brasileira: está caminhando para o centro, não marchando para a esquerda. Os militares viram isto e, certamente, não desaprovaram. Entenderam que o sr. está mandando recado para o mercado, mas também para eles. Se eleito, é o que está sugerindo, não haverá radicalização. Eu aprovo isto, caro Lula.

Com o cordial abraço mineiro,

de seu Tancredo Neves

Um bilhete respeitoso ao presidente Jair Bolsonaro

Mui digno presidente Jair Bolsonaro,

Excelência, escrevo-lhe com o máximo de respeito, pois é o representante de todos os brasileiros. Quando morri, o sr. era um garoto balzaquiano de 30 anos. O grande Hélio Gracie, nosso personal trainer no Céu, me conta que foi um militar encorpado, adepto de tarefas hercúleas. Enfim, um capitão do Exército nacional.

No poder, levou vários militares para o governo, a maioria deles de alta qualidade, gente respeitável, do maior gabarito. Falo, por exemplo, dos generais Santos Cruz e Joaquim Silva e Luna. Este presidiu a Petrobrás com rara competência, de maneira técnica, seriíssima. Sei que saíram do governo em desacordo com o sr. Mas pelo menos fica a certeza de que não escolheu mal parte dos militares. Seu vice, o general Hamilton Mourão, também é um homem decente e competente. Me contaram que vive às turras com o sr. Deveria ouvi-lo um pouco mais, pois Mourão sabe das coisas, sobretudo conhece a Amazônia como a palma de sua mão direita.

Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão: o capitão deveria ouvir o general | Reprodução

Desculpe-me se o ofendo com a catilinária, mas é um equívoco da parte de sua excelência defender torturadores. Não há um torturador que tenha brilhado na história da humanidade. Pense nisso, sr. presidente.

Tudo indica que o sr. tem mais apreço pelos ditadores Arthur da Costa e Silva e Emilio Garrastazu Médici, os mais cruentos do período ditatorial. Alegrar-me-ia mais se o sr. admirasse o liberal Castello Branco e o nacionalista Ernesto Geisel — possivelmente os dois melhores presidentes-generais do período que vai de 1964 a 1985.

Excelência, não inscreva seu nome entre os presidentes que nunca ficarão bem na história. O sr. já imaginou como, daqui a alguns anos, ficará na história do país? Há tempo para tomar uma decisão: pode ficar como um democrata ou como um líder autoritário. O problema não é que o sr. seja de direita, pois eu também nunca fui de esquerda. A questão é outra: o sr. deixa transparecer a imagem de ser um político que passa o tempo todo pondo a democracia em xeque. Isto gera instabilidade institucional e mexe com o mercado, atrapalhando inclusive os investimentos estrangeiros no Brasil.

Há coisas positivas. O “companheiro” Roberto Marinho me informa, tendo ao lado o grande Evandro Carlos de Andrade, que o sr. se aproximou do Centrão e se tornou mais moderado. Aprecio isto. Não sou moralista e não vejo o Centrão como a pior coisa do mundo. Fala-se em corrupção, e talvez seja um fato, mas o Centrão, apesar de seus defeitos morais, comunga com a democracia, o que é altamente positivo.

O companheiro Nascimento Brito e o hábil Carlos Castello Branco (Castelinho), do “Jornal do Brasil”, me informam que o sr. está crescendo nas pesquisas. Por que será? Talvez esteja melhorando o governo, sobretudo por causa dos programas sociais. Se o preço da gasolina cair, o sr. sobe tende a subir um pouco mais. Portanto, excelência, o sr. não precisa de golpe algum. Me disseram, e talvez tenha sido Assis Chateaubriand ou David Nasser, que um cientista político chamado Antônio Lavareda (eu entendi, no início, “Labareda”), teria dito que o sr. está crescendo nas pesquisas de intenção de voto lenta mas constantemente. Lavareda talvez concorde que um crescimento assim, sustentado, pode ser mais importante do que um crescimento aos saltos. Quem cresce rápido pode cair de maneira veloz. Lula que coloque as barbas de molho. Por falar em Lula, envio a cópia de uma carta que escrevi para o ex-presidente. Leia-a, por favor, com atenção. Ao falar de Lula, estou, de alguma maneira, falando, um tantinho que seja, do sr.

Agora, encerro esta missiva, porque pretendo rever o filme “O Sexto Sentido”, com minha Risoleta, que, sim, já me perdoou por eu ter amado a dona Antônia, aquela senhora tão simpática de Pires do Rio, em Goiás.

Cordialmente,

Tancredo Neves

Presidente eleito em 1985

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3 respostas para “Carta de Tancredo Neves para Lula e um bilhete para Bolsonaro”

  1. Avatar Alcivando Lima disse:

    Ler o Opção aos domingos é deleitar-se com os artigos de Irapuan, do Hélio Rocha, do Sismeira Jacob e de tantos outros talentosos jornalistas e escritores. E é, sobretudo, aprazar-se com as resenhas literárias da Mariza Santana. Na edição de hoje, 24/4, o editor presenteou os milhões de leitores com a carta de Tancredo Neves para Lula e um bilhete para Bolsonaro. Obrigado pelo mimo, senhor editor, pois editoriais costumam ser pomposos, alambicados, durões e hoje o senhor produziu algo que me desenfadou com originalidade, solilóquio e brejeirice.

    • Avatar Haeckel de Lisboa Araujo Silva disse:

      Impressionantes.essas cartas do presidente Tancredo Neves.a Jair Bolsonaro e a Luiz Inácio Lula da Silva.também tem um dom e um tom de conciliador.e tao conciliador.quanto o próprio Tancredo.que nos deixou um belo exemplo de vida.de lealdade e de fraternidade em relação ao seu próximo.alem de democrata.que nunca se deixou guiar pelo ódio.e rancor.para ele.e uma palavra fora do vocabulário.

  2. Avatar Mauro Fernandes Soares disse:

    Os editoriais do Jornal Opção, críticos e analíticos, destoam do ramerrão do jornalismo. Porque saem do disse-me-disse. No domingo,em Belo Horizonte, li, enchanté, o editorial que contém uma carta fictícia, mas plausível, de Tancredo Neves para o ex-presidente Lula e um bilhete para o presidente Jair Bolsonaro. Os dois deveriam lê-la. Até porque, neste momento, o país precisa de moderação, e não de agressões. Recomendo o texto para os leitores que queiram ler um texto inteligente, divertido e ponderado. Nós, mineiros, nos sentimos representados pelo editorial.

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