Candidato que trocar o mundo físico pelo virtual, as redes sociais, pode não ser eleito em 2018

As redes sociais são importantes, até decisivas, mas os candidatos precisam manter contato direto com os eleitores. É preciso usar estratégicas complementares

Guillaume Liegey, estrategista da campanha do presidente francês Emmanuel Macron: integrantes da campanha visitaram as casas dos eleitores “para perguntar como viam o próprio país”

Na eleição de 2014, para deputado federal, apenas um candidato consagrado pelas redes sociais, o delegado Waldir Soares, então filiado ao PSDB, foi eleito, e com uma votação surpreendente — 270 mil votos —, a maior da história de Goiás. Em 2016, embora avesso às redes sociais — praticamente não usa a internet —, Iris Rezende, do PMDB, foi eleito prefeito de Goiânia. Pela quarta vez. Candidatos mais modernos, como Vanderlan Cardoso, Francisco Júnior, Waldir Soares (cognominado “rei das redes sociais”) e Adriana Accorsi, com presença constante nas redes sociais, e não apenas por intermédio de assessores, não chegaram a ameaçar, eleitoralmente, o postulante peemedebista.

Para a eleição de 2018, um nome parece consagrado pelas redes sociais — o jornalista e vereador Jorge Kajuru, do PRP. Se disputar para deputado federal, possivelmente será aquilo que os jogadores de baralho chamam de “pule de dez”. Porém, se disputar para senador, desconsiderando que Goiás não é apenas a Grande Goiânia, pode ser derrotado. Eleições majoritárias são muito diferentes de eleições proporcionais. As redes sociais podem ajudá-lo a chegar aos eleitores no interior, mas, para uma disputa majoritária, não basta. Precisa ter frequentação nos municípios, construir uma base que possa pedir votos para ele. Outsiders, como Jorge Kajuru, eventualmente têm votos em vários municípios, sobretudo nos maiores, nos quais os eleitores são mais independentes das lideranças políticas. Porém, no caso de candidatos a senador, a tendência é que sejam eleitos os insiders, e não os outsiders, que são mais aprovados pelos eleitores para deputado, seja estadual ou federal.

O que se está dizendo é que, para ganhar eleições, é preciso cair fora das redes sociais? Não é o que estamos sugerindo, não. As redes sociais criaram um espaço, tanto quantitativo quanto qualitativo, para as manifestações dos candidatos. É provável que vários eleitores percebam determinados candidatos — os que não têm grandes estruturas, como as do PMDB e do PSDB, para bancá-los — por meio das redes sociais, sites, blogs e portais na internet. Com a possibilidade, inclusive, de interagir com eles.

O mais importante a reter é que as redes sociais podem criar uma sensação ilusória de que as pessoas vão mesmo votar nos candidatos que estão postando informações e opiniões. Pode ser que um ou outro caia nas graças do público, mas pode ser que caia em desgraça, dependendo de suas opiniões e comportamento. As redes sociais estão mais conflagradas do que as ruas do país. As pessoas estão em busca de identidade e de “amigos” que pensam igual ou parecido. A divergência, mesmo não agressiva, quase sempre é “punida” com o bloqueio, espécie de castigo pós-moderno.

Guillaume Liegey, estrategista da campanha do presidente da França, Emmanuel Macron, afirma que as redes sociais foram “muito importantes” na vitória do líder do movimento En Marche! Entrevistado pelo repórter Marco Rodrigo Almeida, da “Folha de S. Paulo”, o marqueteiro diz que “a campanha de Macron foi muito moderna, mas guiada por uma ideia muito simples. O método era ficar cara a cara com os cidadãos e escutá-los. As melhores campanhas são aquelas que conseguem reunir diferentes canais de comunicação: redes sociais, TV, mensagens por telefone, pessoas nas ruas”. O que torna uma campanha forte, portanto um candidato sólido eleitoralmente, é um conjunto de fatores. Como as campanhas tendem ser mais baratas, dada a falta de dinheiro, as redes sociais tendem a ser ainda mais instigantes.

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A vitória de Macron sugere alguma lição para os candidatos brasileiros? Guillaume Liegey acha que sim. “Macron prometeu mudar a política e fez isso. Orientou seu movimento, o En Marche!, a ouvir os cidadãos franceses. Os membros voluntários foram às casas das pessoas perguntar a elas como viam o próprio país, quais as suas principais preocupações. Com isso, Macron provou ser diferente dos outros políticos”, afirma o estrategista. Observe que o chamado corpo a corpo, o contato direto com as pessoas, não foi abandonado pelo político francês. O contato com eleitores é, por vezes, insubstituível. O contato meramente pela internet, embora seja rápido e, às vezes, eficiente, distancia, é por demais asséptico. Os brasileiros, que não são glaciais como determinados povos europeus, apreciam o encontro, ver os postulantes, dialogar com eles. Até tocá-los.

As redes sociais funcionam melhor, ao menos para a maioria dos candidatos — exceto para os outsiders —, quando há um trabalho paralelo e sedimentado no mundo físico. Replicar informações, a torto e a direito, não funciona muito bem. É preciso saber, ao menos em parte — a possibilidade de “tiro no escuro” é grande nas redes sociais —, com quem se está comunicando. As curtidas podem significar mais quando há comentários, quando há uma interação de fato, menos formal, entre os indivíduos das redes e os candidatos. Uma informação (ou um debate) replicada em determinadas cidades ou regiões onde o candidato está (ou esteve) presente pode resultar num efeito mais consistente do ponto de vista eleitoral.

Há um detalhe que merece destaque. Há políticos que não profissionalizam sua participação nas redes sociais, a maioria é amadora e funciona praticamente no piloto automático. Portan­to, as redes sociais podem ser bem ou mal utilizadas, gerando bons ou maus resultados político-eleitorais. Vídeos e textos curtos e com informações sucintas, sem discurso palavroso ou professoral, funcionam mais na internet, não só nas redes sociais. Infor­ma­ções temáticas, apresentadas como es­mero e dados precisos, podem dar mais resultados positivos. Discurso meramente politiqueiro, com informações técnicas mal calibradas, no lugar de render votos, tende a reduzir apoio aos políticos. Noutras palavras, as redes sociais, para darem resultados político-eleitorais, precisam ser bem utilizadas.

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Centro político

O repórter da “Folha” sugere que os pré-candidatos de centro a presidente da República são em maior número e isto poderá “favorecer candidatos extremistas”. Jair Bolsonaro não é mencionado, mas a referência é possivelmente a ele. Se estiver incluindo Lula da Silva, é um equívoco. O dirigente do PT é de esquerda, mas é moderado e, no fundo, está mais próximo do centro, não é extremista. É possível que faça uma campanha mais radicalizada, em 2018, se puder ser candidato? É provável, mas não se governa um país como extremista. O petista-chefe sabe disso, tanto que está se reaproximando de Renan Calheiros, que conhece o Congresso como poucos. Mas eis a resposta de Guillaume Liegey: “É um risco real. Se há muitos candidatos de centro, a estratégia que aconselho a eles é: provem que essa posição política é a melhor para o país. E então tente criar conexão com a sociedade. A partir daí será possível combater os extremismos”. Não há dúvida de que se trata de uma resposta adequada. Mas o repórter não aponta outra questão: há pré-candidatos que, mesmo não sendo extremistas, são de um centro que se pode nominar de “não-político”. O exemplo mais cabal é o apresentador de televisão Luciano Huck.

Exibindo-se como bem-sucedido fora da política, portanto como não político, Luciano Huck parece que planeja galvanizar o voto popular e, ao mesmo tempo, o voto conservador. Mas, se é empresário ou investidor, não se pode sugerir que tem a experiência de Macron. Governar um país não é o mesmo que apresentar um programa de televisão ou investir na bolsa. Exige-se o mínimo de experiência técnica e habilidade política. Enganam-se os que pensam que, mesmo renovado em termos de pessoas, o próximo Congresso será muito diverso do atual. Será diferente, mais institucional e, certamente, menos corrupto. Mas conquistar o seu apoio vai continuar difícil, exigindo barganhas para as quais um neófito como Luciano Huck não está preparado. Assim como um extremista, como Jair Bolsonaro, mesmo sendo deputado federal, terá dificuldade de lidar com deputados e senadores.

Luciano Huck, Jair Bolsonaro, Bernardinho Rocha de Rezende, Ciro Gomes e João Doria às vezes são comparados com Fernando Collor. Sim, são parecidos, mas é preciso fazer uma ressalva: Fernando Collor havia sido prefeito de Maceió e governador de Alagoas. Portanto, não era um político e um administrador inexperiente quando se tornou presidente da República. Os quatro nomes citados, ainda que sejam íntegros, podem resultar noutra aventura, similar à do político de Alagoas.

O mais provável mesmo é que a disputa se dê entre Lula da Silva, do PT, e Geraldo Alckmin, do PSDB. O tucano paulista é, a um só tempo, conservador e centrista. Assim como o petista, tem experiência política e administrativa. Henrique Meirelles, do PSD, é um outsider de centro, sobretudo um liberal. Os políticos profissionais o veem como imprevisível. Ciro Gomes, do PDT, talvez possa ser enquadrado entre os extremistas de que fala a “Folha”. Apesar disso, tem experiência política e administrativa.

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