Campanha prova que o sucesso de Marconi Perillo advém de ter fundido gestão e política

As oposições não conseguem compreender o fenômeno Marconi Perillo, optando por análises perfunctórias e ideologizadas de sua trajetória, e por isso tendem a serem derrotadas. Não ter uma agenda positiva, tirando o foco do tucano, é uma espécie de suicídio político

Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves: o gaúcho e os dois mineiros provaram que o sucesso de um político ocorre quando não se descuida da política e da gestão, unindo-as como se fossem uma coisa só. JK enfrentou técnicos capacitados e construiu Brasília, contribuindo para reeorganizar o desenvolvimento regional do País|Fotos: Wikipedia

Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves: o gaúcho e os dois mineiros provaram que o sucesso de um político ocorre quando não se descuida da política e da gestão, unindo-as como se fossem uma coisa só. JK enfrentou técnicos capacitados e construiu Brasília, contribuindo para reeorganizar o desenvolvimento regional do País|Fotos: Wikipedia

No belo “Crátilo”, o filósofo Platão trata do sentido das palavras. As palavras são como os motores dos automóveis: também se desgastam com o uso e, às vezes, perdem o sentido e passam a dizer coisas indevidas. Ao examinar a política, costuma-se sugerir que há o político-gestor e o político meramente político. Pode ser uma falsa questão. Porque o político que está no governo — seja uma prefeitura, o governo de um Estado ou a Presidência da República — não pode ser apenas político ou somente gestor. Aquele que mais acerta a máquina pública, conciliando maciço investimento com definições precisas das prioridades, é, além de um gestor eficiente, um político atento às aspirações e reivindicações da sociedade. Recorramos à história para ilustrar a ideia.

O presidente Getúlio Vargas governou o País de 1930 a 1945 — a partir de 1937, como ditador — e entre 1951 e 1954, quando se matou com um tiro no peito. Dada sua capacidade de administrador, contribuiu de maneira decisiva para a modernização do Estado nacional. Getúlio é visto, sobretudo, como um grande gestor. Não há dúvida de que era um administrador competente e que tinha noção daquilo que o Estado podia fazer para qualificar o País. Pode-se dizer que o Estado moderno cristaliza-se na gestão de Getúlio, especialmente entre 1930 e 1945. Porém, se fosse apenas gestor, sem a capacidade de articular politicamente e agregar aliados, convencendo-os de que um caminho era mais adequado do que o outro, talvez não tivesse sido um gestor equilibrado e eficiente. Talvez seja possível sublinhar que o político revitalizou o gestor e que o gestor fortaleceu o político. A palavra estadista talvez seja mais útil para defini-lo — desde que não se ignore que o modernizador atento também foi um ditador cujo governo prendeu, torturou e, até, matou adversários.

Juscelino Kubitschek, que assumiu a Presidência da República pouco depois da morte de Getúlio, ficou com a imagem mais de político do que de gestor. Pelo sorriso fácil, com seu semblante simpático — como se estivesse sempre anunciando boas novas —, JK tende a ser visto como “populista”, o que, de fato, não era. Como era menos reservado do que Getúlio, este ficou mais com a imagem de gestor. Já o mineiro ficou com a imagem mais de político.
Porém, assim como Getúlio, Juscelino era um gestor eficiente, que se cercava dos melhores técnicos, sempre dando preferência àqueles que também tivessem visão política. Porque, às vezes, o meramente técnico avalia que não é possível fazer as coisas. A construção de Brasília era vista por alguns auxiliares de JK, como Lucas Lopes e Roberto Campos, como inoportuna e, em termos financeiros, uma temeridade. Do ponto de vista estritamente técnico, pelo menos de um tipo de visão monetarista, Brasília endividaria o País e aumentaria a corrupção e a inflação.

Para além do curto prazo, quem estava certo: os tecnoburocratas ou Juscelino? O presidente, é claro. A construção de Brasília, o deslocamento do cerne do poder federal para o centro geográfico, contribuiu, de maneira decisiva, para “redistribuir” o desenvolvimento para as demais regiões do País. A modernização de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e da região Norte se deve, em larga medida, à mudança da capital para o Centro-Oeste.

A mudança da capital foi uma decisão política e técnica de um gestor que também era exímio político. Juscelino provou que um indivíduo pode reunir as virtudes do administrador e do político, com uma apoiando e fortalecendo a outra.

Tancredo Neves, avô de Aécio Neves, dada sua matreirice mineira, é apontado quase sempre mais como político, mas isto talvez seja enganoso. Porque, como governador de Minas Gerais — e até como ministro de Getúlio Vargas, na década de 1950, e primeiro-ministro, na década de 1960 —, ao mesmo tempo em que fazia política, agregando uma frente partidária que possibilitasse a governabilidade, geriu a máquina pública com eficiência, com responsabilidade fiscal. Tancredo Neves era político hábil, mas não descuidava da gestão.

Fernando Collor e Antônio Anastasia

Há dois casos complexos de gestores. Fernando Collor de Mello se elegeu presidente da República, em 1989, ao derrotar o petista Lula da Silva. Na Presidência, com seu estilo imperial e, quiçá, provinciano, começou a governar tecnicamente e a agir como se a política fosse descartável. Aos poucos, enquanto aliados se envolviam com corrupção, políticos profissionais foram municiando a imprensa com denúncias graves — algumas feitas por Pedro Collor de Mello, seu irmão caçula — contra a gestão de Collor e não demorou que, sob impeachment, tivesse de deixar o governo. A rigor, o político que havia governado Alagoas, caçando marajás e maranis, caiu por que seu governo era venal? Em parte sim. Mas a verdadeira razão da derrocada tem a ver com o fato de que Collor nunca entendeu como o mundo da política devora quem não o entende. Não se faz gestão quando se não faz política e não se faz política quando se não faz gestão.

Veja-se outro caso. O tucano Antônio Anastasia deve ser eleito senador por Minas Gerais, depois de governar com rara proficiência o Estado, organizando as contas públicas e fazendo as obras de infraestrutura necessárias para o crescimento e desenvolvimento do Estado. Entretanto, ao contrário de Aécio Neves, que é gestor e político (até quando delega a gestão para auxiliares competentes, como Andréa Neves e Anastasia, o senador está sendo gestor e político), Anastasia é basicamente um gestor, insistamos, da mais alta competência.

Ao se comportar mais como gestor, deixando a política para Aécio Neves — que, na disputa para presidente da República, descurou da política provincial —, Anastasia contribuiu, indiretamente, para o ocaso do candidato do PSDB a governador de Minas, Pimenta da Veiga. Anastasia beneficia-se a si para o Senado, mas não transfere votos, dada a sua dificuldade de lidar politicamente com os aliados. A escolha de Pimenta da Veiga, depois de governos que misturaram gestão e política com eficiência, não funcionou eleitoralmente. Primeiro, porque é visto mais como político do que como gestor. Ele não foi muito bem na Prefeitura de Belo Horizonte. Segundo, o PT escolheu um candidato, Fernando Pimentel, que tem a imagem de político e gestor competente. Como prefeito de Belo Horizonte, foi visto como superior a Pimenta da Veiga.

O que se quer ressaltar é que não há contradição entre gestão e política, porque, na verdade, são complementares. Aquele que faz opção apenas por fazer política termina mal, porque seu trabalho (obras de forte interesse público), escasso, não agrada o eleitorado, quer dizer, a sociedade. O troco se dará, adiante, nas urnas: é derrota certa. Mas aquele que cuida apenas da gestão, fechando-se nos palácios, isolando-se da vida comunitária, da política, acaba desagradando a sociedade.

Todos os candidatos são gestores

A eleição para governador de Goiás assinalou um marco que poucos analistas perceberam e discutiram: os quatro principais candidatos são gestores experimentados.
O candidato do PSDB, Marconi Perillo, governa Goiás pela terceira vez. Sua gestão é tida como eficiente, tanto que, candidato pela quarta vez ao governo, é o líder nas pesquisas de intenção de voto. Até adversários renhidos admitem que deverá ser reeleito. O segredo do tucano-chefe, se se pode falar em segredo, é o mesmo de Getúlio, Juscelino e Tancredo: administrar e, ao mesmo tempo, fazer política com habilidade.

Marconi Perillo (PSDB) e Iris Rezende (PMDB): o primeiro estudou na “escola” do segundo, mas superou o mestre, ao derrotá-lo duas vezes. O segredo? Possivelmente porque, enquanto o peemedebista faz política só em tempo de eleição, o tucano faz política e gestão em tempo integral. O jovem governador tem uma grande capacidade de renovar-se|Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Marconi Perillo (PSDB) e Iris Rezende (PMDB): o primeiro estudou na “escola” do segundo, mas superou o mestre, ao derrotá-lo duas vezes. O segredo? Possivelmente porque, enquanto o peemedebista faz política só em tempo de eleição, o tucano faz política e gestão em tempo integral. O jovem governador tem uma grande capacidade de renovar-se|Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

A partir de certo momento de seu governo, com algum desgaste político, Marconi operou uma mudança, que, embora parecesse brusca, não o era, porque suas ações estavam estabelecidas no planejamento de sua campanha eleitoral em 2010. Na verdade, ocorreu um outro tipo de fenômeno. O tucano de 51 anos — 30 anos a menos do que Iris Rezende, candidato do PMDB ao governo — não desistiu de fazer política; antes, decidiu fundir política e gestão. Ou melhor, optou por fazer política por intermédio do sucesso da gestão.

Aos poucos, com dinheiro do Estado e do governo federal, Marconi transformou Goiás num canteiro de obras e, assim, exemplo para outros Estados. Recuperou a maioria das rodovias, está duplicando as que saem de Goiânia — aumentando a segurança de motoristas e passageiros e valorizando esteticamente a capital — e contribuiu para restaurar ruas de vários municípios. Na educação, com o auxílio do economista Thiago Peixoto, implantou novos métodos e o resultado, depois de quatro anos, está no índice do Ideb. Goiás, segundo o governo federal, tem hoje o melhor ensino médio do País. Pode-se discutir filigranas, mas a avaliação do Ideb é isenta e feita por um governo petista, quer dizer, adversário do tucanato. Na saúde, apesar da crítica dos setores corporativistas — que só têm lucro político se a saúde estiver ruim, por isso torcem pelo quanto pior, melhor —, as Organizações Sociais deram um novo norte para os hospitais, requalificando a qualidade do atendimento. Quando se trata da saúde e da educação, para nada resolver, costuma-se dizer que os problemas são “estruturais” e que só podem ser equacionados a longo prazo. O que se provou é que, no curto prazo, tanto a educação quanto a saúde podem melhorar.

É óbvio que Goiás não é Shangri-La. Nenhum lugar é. Mas talvez o principal equívoco das oposições seja colocar-se contra aquilo que as pessoas veem: sob a batuta de Marconi, Goiás melhorou. A economia do Estado é uma das que mais crescem no país e, mais uma vez, os dados são de organismos externos ao governo de Goiás. São dados federais e, portanto, insuspeitos. Mais inteligente seria dizer mais ou menos assim: “Goiás evoluiu com Marconi, mas, com novos métodos, se pode avançar ainda mais”. Sugerir que tudo está ruim, sendo preciso usar uma marreta — como na propaganda de Iris Rezende na televisão — para destruir aquilo que se construiu, com esforço e superando dificuldades, é, na verdade, uma tática equivocada, até suicida. Já se disse que, em política, a crítica errada equivale à vitamina do crescimento para o criticado.

O político que faz apenas a crítica ideológica ou politiqueira, não se atendo aos fatos verdadeiros — que às vezes precisam ser escavados no palimpsesto que é o tecido social —, às vezes não consegue apreender a realidade e, por isso, faz intervenções erradas. Fica-se com a impressão de que as oposições, por terem uma opinião fossilizada e preconcebida sobre Marconi, antes de examiná-lo na sua especificidade, não compreendem o momento em que o político fundiu-se ao gestor e, assim, recuperou sua imagem. As oposições sequer entenderam o momento certo, a luva encaixando-se na mão, em que o goiano voltou a ter identidade com o tucano-chefe. Porque, como se sugeriu acima, estavam fazendo a crítica meramente ideológica e politiqueira, sem examinar o quadro real.

Faltou perspicácia às oposições para entender que Marconi, ancorado em anos de história, estava seguindo a mesma rota de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva (este, político do primeiríssimo time, costuma terceirizar a gestão para técnicos, mas tem autoridade para dirigi-los), quer dizer, fazendo gestão de olho na política e fazendo política de olho na gestão — imbricando-as.
Marconi tende a ser reeleito e sua vitória, se confirmada, deverá muito ao fato de ter entendido, com mestria, que se deve fundir gestão e política. O tucano parece ter percebido que, ao contrário do que comumente se imagina, gestão e política são mais complementares do que contraditórias.

Não resta a menor dúvida de que Iris Rezende, o candidato do PMDB a governador de Goiás, é um gestor eficiente. Sua história mostra isto. A ressalva é que, por um problema mais de mentalidade do que de idade — o peemedebista fará 81 anos em 22 de dezembro —, o respeitável Iris ficou para trás, está preso ao passado, daí dizer com frequência que “máquinas roncam” (as máquinas hoje são silenciosas, como se fossem automóveis). O peemedebista já está nos livros de história — absolutamente datado —, mas quer sair deles para participar do presente, que o rejeita. Entretanto, como dissemos, é gestor, mas, por incrível que pareça, não faz mais política com a desenvoltura dos tempos em que ainda não era personagem dos livros de história. O peemedebista-chefe isola-se, depois das eleições, e só volta a procurar os liderados, que nem o consideram mais como líder, nos períodos eleitorais. No momento, se não contasse com a máquina relativamente azeitada pelo empresário Júnior Friboi — que reorganizou o PMDB em todo o Estado —, não teria estrutura alguma no interior.

Em algum momento de sua história, Iris como que desconectou-se da realidade, distanciando-se de seus aliados e passando a tratá-los mais como espécies de servos, obrigados a segui-lo em quaisquer circunstâncias. Os tempos mudaram, mas não Iris. As pessoas podem até aceitar a chefia política, a consentida, mas rejeitam qualquer tentativa de encabrestamento. Iris tem valor, insistimos, mas é um homem da história, dos livros. Não à toa encomendou uma biografia à jornalista Cileide Alves, editora-chefe de “O Popular”. Por certo, percebeu que seu ciclo político “fechou-se”, daí a possibilidade de uma biografia “autorizada”.

Paságarda de Vanderlan Cardoso

O candidato do PSB a governador, Vanderlan Cardoso, é um caso complexo. Fica-se com a impressão de que prefere ser mais gestor do que político. Trata-se de um equívoco. O político precisa ser acima de tudo político. Pois, como notou o sociólogo alemão Max Weber (que Vanderlan deveria ler, pois ele diz, em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, que os evangélicos, como o político goiano, foram fundamentais para o desenvolvimento e cristalização do capitalismo como modo de produção dominante na Alemanha e, por conseguinte, em outros países europeus), são os políticos por vocação, os políticos profissionais, que mais contribuem para o desenvolvimento das sociedades. Há uma tentativa, espera-se que vã, de desqualificar a política, mas não há outra maneira de mudar o mundo, na tradição democrática de tolerância e respeitando o tempo dos indivíduos, sem a política. Com ou sem corrupção, a política é o verdadeiro oxigênio de uma sociedade saudável.

Vanderlan, gestor competente — qualificou-se na Prefeitura de Senador Canedo —, ainda não percebeu que precisa melhorar sua imagem como político. Ele não é caipira; ao contrário, é um empresário moderno. Porém, quando fala, parece desconectado da realidade da moderna sociedade goiana. Parece mais um mujique transportado da Rússia do século 19 do que um goiano moderno e viajado do século 21. Não adianta fazer plástica no rosto, diminuir o tamanho do nariz e retirar rugas, e fazer implante de cabelo. O que importa mesmo é renovar o discurso e apresentá-lo de maneira moderna, com palavras precisas, afiadas.

O marketing de Vanderlan comete outro erro. Afinal, é candidato a prefeito de Senador Canedo ou a governador de Goiás, um Estado complexo e, geograficamente, gigante, muito maior do que Cuba, Suíça, Israel e Portugal juntos? Senador Canedo é sua Paságarda ou sua Ítaca, é certo, mas não representa Goiás e significa muito pouco, quase nada, para os eleitores do Nordeste, do Sudoeste, do Norte e do Entorno do Distrito Federal. O socialista precisa ter um discurso para Goiás, mas não pode apresentá-lo de maneira acaipirada, como tem feito. Na televisão, quando a imagem e a fala (para piorar, ele parece um robô com uma fala mal decorada) não são modernas, contamina-se tudo e o que fica cristalizada é a imagem do caipira. Como é pouco conhecido, não pôde usar um apresentador competente, com fala adequada para televisão, nos seus programas.

Momento errado para Antônio Gomide

Antônio Gomide (PT) e Vanderlan Cardoso: a fragilidade de suas campanhas possivelmente tem a ver com o fato de esquecerem que Iris Rezende também era adversário e abriram pouco espaço para uma agenda ampla e agressivamente positiva|Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Antônio Gomide (PT) e Vanderlan Cardoso: a fragilidade de suas campanhas possivelmente tem a ver com o fato de esquecerem que Iris Rezende também era adversário e abriram pouco espaço para uma agenda ampla e agressivamente positiva|Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

O candidato do PT a governador de Goiás, Antônio Gomide, é um caso a ser examinado com lupa, o que não se fará aqui, por falta de espaço. Embora seja petista e, por isso, certamente refute a ideia, aliás uma ideia a ser expandida, para ser notada como mais crível, se trata do político que mais tem parentesco com Marconi. Não há sintonia nenhuma entre Gomide e Iris. Porque Gomide é um político do presente e Iris é um político do passado. Se os dois fossem comida, Gomide seria comida japonesa e Iris seria galinhada (Ronaldo Caiado costuma chamá-lo de “galo velho”). Não há “liga” entre Gomide e Vanderlan. Porque o primeiro é mais moderno e antenado do que o segundo. Gomide fala como um citadino e Vanderlan, como um homem do campo que mora na cidade mas carrega em si, especialmente na linguagem, um velho e renitente caipira.

Assim como o tucano-chefe, Gomide é gestor e político. Parece apenas gestor, depois de duas bem-sucedidas gestões em Anápolis — sua aprovação, no município, beira os 90%. Mas não é assim. Trata-se de um político habilidoso. Porém sua frieza, que talvez seja produto de certa timidez, assusta os aliados. Há momentos em que se olha para o político anapolino e fica-se com a impressão de que se está vendo a presidente Dilma Rousseff. Porque ambos são gélidos, embora, como político, Gomide seja muito mais articulado.

O problema de Gomide na eleição deste ano, e certamente chegará à mesma conclusão depois do fim da campanha, não é ele em si. A polarização entre Marconi e Iris desconectou os eleitores de que havia outra alternativa — Gomide ou Vanderlan. O eleitor, às vezes, não se dá ao trabalho de avaliar todos os candidatos com o mesmo interesse. Então, entre o elemento “velho”, sequioso de vingança, e o elemento que não envelheceu no poder, prometendo e, desde já, mostrando um Goiás mais avançado, os eleitores ficaram com a segunda hipótese, Marconi. E, assim, desconsideraram as demais alternativas.

Falta de táticas variáveis

Gomide e Vanderlan cometeram um erro crasso em política: não perceberam que, na guerra, é preciso ter uma estratégia definida, mas com táticas variáveis. De acordo com os combates e as circunstâncias, as táticas devem ser cambiáveis. O petista e o socialista definiram a meta — ganhar o governo do Estado de Goiás —, mas erraram no estabelecimento das táticas, permitindo que fossem rígidas e não mutáveis no decorrer do embate. Eles decidiram, desde o início, que o alvo era o governador Marconi, que está no poder, e por isso partiram para o ataque direto.

De fato, Gomide e Vanderlan não tinham como deixar de fazer crítica a Marconi, mas não perceberam, assim que Iris cristalizou-se em segundo lugar, que tinham dois adversários, o tucano e o peemedebista, e não apenas um, o tucano. O combate deveria ser mais intenso contra Iris, que estava em segundo, portanto era a primeira barreira a ser ultrapassada, e não contra Marconi, que estava distante, praticamente garantido no segundo turno, e com a possibilidade de ser eleito no primeiro turno. Gomide e Vanderlan não entenderam, focados apenas em Marconi, que era Iris que não permitia que chegassem no tucano-chefe. Não capturaram a ideia de que Iris “não” ganha, mas também “não deixa” ninguém ganhar de Marconi. O peemedebista-chefe trava a renovação da política em Goiás.

O petista e o socialista também se esqueceram de uma coisa que é fundamental. Candidatos, governistas ou oposicionistas, precisam ter uma agenda positiva para o eleitorado. Porque a agenda puramente negativa não agrada os eleitores. Porém, seguindo Iris, tanto Gomide quanto Vanderlan descuidaram-se da agenda positiva, concentrando-se no ataque direto a Marconi, o que, longe de prejudicar, ajudou o tucano, chamando a atenção para o que de fato fez.

No momento, com os ânimos exaltados, os oposicionistas não terão isenção para perceber que a análise exposta neste Editorial é um retrato fidedigno da realidade. Mas o dever de um jornal é dizer a verdade mesmo quando não querem notá-la. As oposições goianas continuarão perdendo eleições para Marconi e seus aliados porque não conseguem compreendê-lo. Criticam e o atacam, mas não o compreendem.

Voltando ao “Crátilo”, de Platão, e espantando os lugares comuns e recuperando o sentido das palavras, pode-se resumir este Editorial da seguinte forma: só há contradição entre política e gestão quando se tenta levar apenas uma adiante. Quando se tenta, para usar uma linguagem afeita a Vanderlan, costuma se dar com os burros n’água.

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otto jr

de muita lucidez e competencia este artigo ; agora vejamos se acaba caindo nas mãos daqueles que por algum momento se imaginam governando Goias….