Já se tornou história: o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do União Brasil, foi reeleito, no primeiro turno, com 51,81% dos votos válidos. Votaram no gestor estadual 1.806.892 eleitores.

O segundo colocado, Gustavo Mendanha, do Patriota, com 25,20% (879.031 votos), não conseguiu obter nem a metade dos votos de Ronaldo Caiado.

Ao menos um analista de jornal sugeriu que a vitória de Ronaldo Caiado resultou da “falta de polarização”. Trata-se de uma explicação quase pueril. Primeiro, a vitória do governador não pode ser buscada tão-somente na fragilidade do adversário. Porque este tipo de análise é uma maneira de desqualificar seus méritos. Segundo, não custa lembrar que a suposta falta de “polarização”, se houve, resultou da força do postulante do União Brasil. Marconi Perillo, do PSDB, iria disputar o governo do Estado, mas, ao avaliar pesquisas, percebeu que a profunda conexão do atual gestor com a sociedade era um empecilho ao seu projeto eleitoral. Por isso recuou e disputou mandato de senador.

Observe uma questão não examinada pelos articulistas. O empresário Wilder Morais, do PL, foi eleito senador porque Marconi Perillo, o segundo colocado, era fraco? Na verdade, venceu o pleito porque conseguiu colar sua imagem à do presidente Jair Bolsonaro — que é forte em Goiás. Ele deve sua vitória menos à “vitalidade” de suas finanças (outros candidatos também gastaram bem) e mais à onda bolsonarista. Pois bem: se Bolsonaro é forte em Goiás, por que seu candidato a governador, Major Vitor Hugo, do PL, ficou em terceiro lugar?

Ronaldo Caiado, Major Vitor Hugo e Gustavo Mendanha
Ronaldo Caiado, Major Vitor Hugo e Gustavo Mendanha: o governador venceu os dois candidatos bolsonaristas, e no primeiro turno | Fotos: Jornal Opção e reproduções

A explicação não é nada complexa: a força de Ronaldo Caiado é tamanha que “esmagou” a campanha de dois bolsonaristas — Major Vitor Hugo e Gustavo Mendanha.

Então, a vitória de Ronaldo Caiado se deve ao reconhecimento da população aos três anos e nove meses de seu governo. Estabeleceu-se entre o governador e a sociedade uma sintonia fina.

Articulador político: encorpando a base

Esperava-se que, no poder, Ronaldo Caiado se tornasse um governador “explosivo” e, até, “autoritário” ou “radical” (à direita). Três anos e nove meses depois, a imagem que se tem é outra. Trata-se de um gestor moderado e um articulador político ponderado e flexível. A rigor, agregou forças internas descontentes, como o prefeito de Catalão, Adib Elias, e atraiu novas forças políticas, como Daniel Vilela, do MDB, o ex-prefeito de Trindade Jânio Darrot (ex-PSDB e ex-Patriota) e o prefeito de Trindade, Marden Júnior.

Talvez a maior tacada de mestre de Ronaldo Caiado tenha sido atrair Daniel Vilela, de 38 anos, para sua aliança política. Ao retirá-lo da oposição, o governador fortaleceu sobremaneira suas bases políticas em todo o Estado de Goiás. Porque o MDB é um partido político que está enraizado há décadas — desde quando se chamava PSD (até meados da década de 1960) — em todos os municípios goianos. O que faltou exatamente a Mendanha? Bases nos municípios. Quando visitava o interior era recebido, por assim dizer, por “gatos pingados” — políticos de segunda linha.

Quando Ronaldo Caiado atraiu Daniel Vilela, algumas pessoas de sua própria base não entenderam a largueza de visão do governador. Hoje, com a vitória no primeiro turno, devem ter, finalmente, admitido a astúcia do líder do União Brasil.

Rogério Cruz, prefeito de Goiânia, e Ronaldo Caiado: um reforço para a aliança | Foto: Reprodução

O prefeito de Goiânia, Rogério Cruz, e o Republicanos também ficaram ao lado de Ronaldo Caiado — noutra jogada de mestre do governador.

Um ícone da política goiana, Vilmar Rocha, presidente do PSD, decidiu aliar-se a Ronaldo Caiado. Há quem postule: foi mal votado para senador. Mas Vilmar Rocha tem uma história e uma força moral raras que conferem prestígio àquele ao qual se alia.

O pP de Alexandre Baldy, Roberto Naves e Adriano do Baldy também marchou unido ao lado de Ronaldo Caiado.

Ronaldo Caiado e Alexandre Baldy: a força no pP na base aliada l Foto: Reprodução

Manter a base unida e ampliá-la, com a atração de novas forças, tornaram a estrutura política de Ronaldo Caiado, que já era sólida, invencível.

Os resultados falam por si: Ronaldo Caiado eleito no primeiro turno e os candidatos mais votados para deputado federal, Silvye Alves (quase 250 mil votos), e deputado estadual, Bruno Peixoto (73.692 votos), são do União Brasil. A base governista elegeu 11 deputados federais (e pode ser ampliada com a possível “adesão” de mais dois eleitos).

O jornalista e pesquisador Gean Carvalho assinala: “Há um mandamento em política, em termos de eleições — governo bom não perde. Só perde governo ruim. Como o governo de Ronaldo Caiado é muito bem avaliado, não havia sentimento de mudança”.

Jânio Darrot e Ronaldo Caiado: aliado novo na base | Foto: Facebook

De fato, a vitória no primeiro turno sinaliza que houve um “reconhecimento”, por parte dos eleitores, das qualidades do governo de Ronaldo Caiado. Os eleitores não ligam a mínima para ideologias, para o debate carnavalizado, e sim para resultados. E o que viram aprovaram.

 Gostar de gente e retidão foram decisivos

Quando começou a pandemia do novo coronavírus, Ronaldo Caiado já era um governador bem avaliado. Dizia-se que governava de maneira equilibrada e, crucial, honesta. Não há escândalos no seu governo. É verdade, e não marketing, que o governador não rouba e não deixa roubar. A população percebeu isto e aprova sua conduta.

Há quem tente menosprezar isto, mas é importante salientar que os goianos aprovam o respeito e o apreço que Ronaldo Caiado tem por Goiás. Há um bem-querer genuíno, e não meramente patrioteiro. Noutras palavras, há identidade — uma íntima conexão, digamos — entre o governador e as pessoas do Estado que administra. Quem não acreditar nisto, ancorado em intelectualismos alheios à realidade, vai continuar perdendo eleições. (Curiosamente, Perillo tinha identidade com Goiás e acabou por perdê-la, porque aos poucos foi se conectando noutras plagas, “levado” pelos “parceiros do luxo”, e desconectando-se. Não se faz política em Goiás morando em São Paulo.)

Dizia-se a respeito da segurança pública, de maneira fatalista: “Não tem saída. O melhor que se faz é mudar para um condomínio murado e com guardas na portaria”. A classe média e os ricos “migraram” para o Aldeia do Vale, para o Alphaville, para os vários Jardins e Portais do Sol, e outros menos requestados — esquecendo-se, por vezes, que também precisam sair às ruas.

Fátima Gavioli: secretária da Educação de Goiás | Foto: Divulgação

Pois Ronaldo Caiado deu uma estruturada na Polícia Civil e na Polícia Militar, aparelhadas com sistemas inteligentes de investigação, e, quase quatro anos depois, o que se pode dizer é que, mesmo não sendo o Nirvana, Goiás é um Estado mais seguro para se viver. Ande de táxi e uber à noite e pergunte o que os motoristas têm a dizer sobre o assunto. Se não todos, a maioria afirma que está muito mais seguro trabalhar. Vale sublinhar que os serviços de Inteligência estão atuando muito na prevenção. Quadrilhas do crime organizado têm sido desmanteladas antes mesmo que cometam crime. A polícia é dura, é fato. Mas o que tem funcionado mesmo é o uso de Inteligência no combate ao crime. Como a Inteligência é “invisível” cristaliza-se a crença de que a violência diminuiu exclusivamente porque as polícias estão mais proativas, ou “ameaçadoras”.

No campo da educação, Goiás ganhou o primeiro lugar no Ideb. Quer dizer, tem a melhor educação pública do país. O que aconteceu? Houve uma mudança ampla de mentalidade. Pode-se dizer, sem exagero, que se criou um Estado do bem-estar na educação. Os alunos recebem uniforme completo (incluindo tênis), mochilas, cadernos e livros, chromebooks e, no caso do ensino médio, 100 reais por mês. Não há mais evasão na maioria das escolas e criou-se um sentimento de pertencimento e proteção.

Fátima Gavioli, secretária da Educação, é uma da auxiliares que mais tem prestígio junto ao governador Ronaldo Caiado. Porque está mudando o foco da educação pública em Goiás.

Sobre a saúde vale um breve relato. Ronaldo Caiado é médico, especializado em ortopedia na França. Então, com a pandemia, não agiu ideologicamente, ao contrário do presidente Jair Bolsonaro. Atuou como médico, homem de ciência e um governante cioso de sua responsabilidade social. Rapidamente, rearticulou as principais unidades de saúde de Goiás, em suas várias regiões, dotando-as de UTIs (não havia UTIs no interior, exceto em três ou quatro cidades, se tanto), com os aparelhos (como respiradores) necessários. O governador aproximou-se das universidades, notadamente da UFG, e ouviu e seguiu atentamente as orientações dos cientistas. Muitas vidas foram salvas em decorrência da ação rápida e instruída do gestor estadual. Quando a vacina chegou, ele colocou a estrutura governamental a serviço da vida.

A regionalização da saúde tem sido aprovada tanto pela população quanto pelos profissionais de saúde.

O resultado é que, sem populismo e proselitismo marqueteiro, Ronaldo Caiado viu-se carimbado com a imagem de “o político que gosta de gente”.

A pandemia gerou uma crise econômica, que abalou toda a sociedade, notadamente os mais pobres. Como se sabe, Ronaldo Caiado é um político liberal, mas dotou o Estado de ampla rede de proteção social, com programas assistenciais que foram vitais para reduzir o impacto da crise. O governo criou o Mães de Goiás e paga o aluguel de milhares de pessoas pobres (até 350 reais). E há outros programas.

Daniel Vilela tem voto e sorte

Daniel Vilela: vice-governador eleito de Goiás | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Daniel Vilela foi mais decisivo para a vitória da chapa Ronaldo Caiado-Daniel Vilela do que se costuma imaginar. Ao se tornar vice do governador, ele esvaziou as oposições, deixando-as sem alternativa e, portanto, viabilidade eleitoral. A candidatura de Gustavo Mendanha tentou entrar no vácuo da “ausência” de Daniel nas oposições. Mas não era o substituto à altura.

Ao se tornar vice de Ronaldo Caiado, Daniel Vilela se comportou de maneira madura e inteligente. Porque, como vice, a tendência é que, se Ronaldo Caiado sair do governo para disputar o Senado, em 2026, assuma o governo e dispute a reeleição.

Estadistas veteranos, como o mineiro Tancredo Neves, diziam que o político precisa ter, além de votos, sorte. Pois Daniel Vilela é um político sortudo, por assim dizer.

Além de ter se tornado vice de Ronaldo Caiado, o que gerou uma dobradinha poderosa entre União Brasil e MDB, Daniel Vilela viu seu mais provável adversário de 2026, Perillo, perder para senador. Não só: o PSDB elegeu apenas uma deputada federal, Lêda Borges, com pífios 51.346 votos (1,49%), a menos votada do pleito, e dois deputados estaduais, Gustavo Sebba e José Machado. Noutras palavras, o partido, ao se tornar nanico, não terá estrutura ampla para uma campanha majoritária daqui a quatro anos.

Se tivesse sido eleito senador, Perillo seria o provável adversário de Daniel Vilela. Agora, com a debacle do tucano, o emedebista está sem adversário à altura para 2026. Claro que surgirá um nome, como o do senador Vanderlan Cardoso. Mas, por enquanto, há um vazio na oposição.

Por ser jovem, Daniel Vilela, em 2026, também poderá se apresentar como a renovação do ciclo de Ronaldo Caiado.

Equívoco e falta de autocrítica de Marconi Perillo

Marconi Perillo: o tucano parece ter perdido o arrojo e a perspicácia políticos | Foto: Divulgação

Não há dúvida de que houve problemas nos governos de Marconi Perillo, mas, na média, não foi um gestor ruim. A história talvez lhe faça justiça, como pode estar fazendo a Lula da Silva.

Entretanto, a imagem de Perillo, cristalizada, é ruim. O que fez de positivo, como o Crer, o Hospital de Urgência Otávio Lage (Hugol), a Universidade Estadual de Goiás (UEG) e a Bolsa Universitária, não se sobrepõe a supostos problemas no campo da probidade administrativa.

O tucano deveria ter disputado mandato de deputado federal, pois havia 17 vagas — note-se que Lêda Borges, do PSDB, foi eleita com uma votação ínfima —, com o objetivo de ir restabelecendo sua imagem aos poucos.

Porém, decidiu tentar voltar pelo “alto”, como candidato a senador — e só havia uma vaga. Político de rara astúcia, Perillo fiou-se nas pesquisas de intenção de voto, quantitativas (que são úteis se bem lidas), deixando de observar com atenção as pesquisas qualitativas.

Havia várias questões a considerar, mas o tucano, quiçá incensado pelos aduladores de praxe —, ignorou todas. Primeiro, havia a rejeição. Perillo era o mais rejeitado de todos os candidatos. Qualis mostravam uma resistência firme ao seu nome. Eleitores usavam um palavreado nada leve para nomeá-lo. Segundo, parte significativa de seus eleitores diziam que poderia mudar o voto, ou seja, poderiam trocá-lo por outro candidato — o que fizeram. Terceiro, não percebeu a possibilidade de uma onda bolsonarista para o Senado, o que de fato ocorreu. A ascensão de Wilder Morais começou nos últimos dez dias da campanha, mas poucos, inclusive uma raposa como Perillo, perceberam o que estava acontecendo. Quarto, sua frente nunca foi grande e, de algum modo, era inercial. O eleitor parecia esperar que alguém deslanchasse para “trocá-lo”, ou melhor, para derrotá-lo.

Sublinhe-se, por fim, a incapacidade de autocrítica de Perillo, um político inteligente e que sempre “leu” a realidade com rara perspicácia. Agora, ao ser derrotado, apontou que perseguições políticas o prejudicaram. Porém, quando liderava as pesquisas, nada disse a respeito. Se quiser voltar à política, como vitorioso, o tucano precisa reconquistar os eleitores. Para tanto, deve estabelecer uma nova relação com a sociedade. Sobretudo, deve evitar deslocar a causa de seus problemas eleitorais para outros indivíduos. Porque, se acredita que o rejeitam unicamente por causa de terceiros, está subestimando a capacidade de pensar e avaliar dos eleitores.

Comenta-se que Perillo pode disputar a Prefeitura de Goiânia, em 2024. O que pode ser seu terceiro equívoco político. Depois de uma segunda derrota, ainda que menos acachapante do que a de 2018, deveria passar por um processo de quarentena e retomar a atividade política só em 2026, possivelmente como candidato a deputado federal. Depois de deixá-lo fora da política, “castigando-o” por duas vezes, os eleitores poderão “perdoá-lo”. Em 2026, ele terá 63 anos, estará mais maduro e tranquilo, e poderá ser eleito para o Parlamento. Porém, se continuar morando em São Paulo, ausentando-se de seu Estado — onde poderia criar uma fundação de caráter social e cultural ou assumir alguma atividade empresarial —, é provável que perderá, cada vez mais, conexão com os goianos. A visão do “bandeirante” nem sempre é a mais adequada para se compreender uma terra e seu povo.

Mendanha furou a fila e voltou para seu final

Maguito Vilela (já falecido), Gustavo Mendanha e Daniel Vilela: o ex-prefeito rompeu com quem o colocou no poder e acabou perdendo substância política | Foto: Reprodução

Seguindo o modelo político e administrativo deixado por Maguito Vilela, o melhor prefeito da história de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (Patriota), não deixou a peteca cair. Em seis anos, revelou-se um gestor relativamente eficiente e um “marqueteiro” respeitável.

Trata-se de um político jovem, que, se tinha futuro, parece ter perdido o tino ao “furar” a fila e, com a derrota para governador, poderá voltar para o fim dela.

Quando Daniel Vilela, presidente do MDB e agora vice-governador eleito de Goiás, anunciou que seria candidato a vice de Ronaldo Caiado, Mendanha, no lugar de apoiá-lo, decidiu romper com seu fiador na disputa de 2016, em Aparecida. Naquele ano, o prefeito Maguito Vilela pretendia bancar Euler Morais para prefeito, porém, alegando que era preciso investir em renovação e num político local, Daniel bancou Mendanha, que foi eleito.

Portanto, quando precisou de retribuição, Daniel não a teve. Mendanha abandonou seu projeto e decidiu seguir trilha própria, candidatando-se a governador. Parecia pensar que seria o Marconi Perillo de 1998 — aquele que derrotou Iris Rezende, do MDB. Chegou a tricotar, por algum tempo, com o tucano.

Jorcelino Braga e Gustavo Mendanha | Foto: Divulgação

Porém, Mendanha parece não ter percebido — e é estranho que o experimentado Jorcelino Braga, marqueteiro que sabe das coisas, não o tenha alertado — que a renovação de Perillo deixou, ao “final” de um ciclo de vinte anos, uma imagem desgastada, profundamente negativa. Os eleitores, por vezes, não querem “renovar” só por renovar. O elemento da renovação precisa ser crível. Quando começou a articular com o presidente Jair Bolsonaro, com o PT de Lula da Silva (seu gabinete era frequentado pelos deputados estaduais Antônio Gomide e Adriana Accorsi, do PT) e com Perillo, em pouco tempo, Mendanha deixou os eleitores confusos. O que ele “é”: direita, centro ou esquerda? Tudo indica que se trata de um político de direita, mas seu estilo de camaleão não agradou os eleitores, que passaram a cobrar sua posição real (Ronaldo Caiado, pelo contrário, nunca escamoteou suas preferências ideológicas).

Ao não conquistar um partido de peso para se filiar — teve de se contentar com o Patriota, uma espécie de “ong” — e ao não atrair partidos com bases políticas estabelecidas em todo o Estado, Mendanha acabou ficando só. Durante a campanha, quando passou certa empolgação inicial com o “menino” de Aparecida — era tão desconhecido que no interior, em algumas cidades, era conhecido como “o menino da Magda” (Mofatto) —, ele começou a ficar cada vez mais só. Os candidatos a deputado federal que o apoiavam, a partir de certo momento, passaram a cuidar de suas campanhas, porque começaram a perder bases político-eleitorais. Na pré-campanha, Mendanha conversou com líderes de vários partidos, como Alexandre Baldy, do pP, mas só conseguiu o apoio do Republicanos. E acabou “enterrando” a campanha de João Campos para senador (ficou em quinto lugar, atrás de Wilder Morais, Marconi Perillo, Delegado Waldir e Alexandre Baldy).

Ao final, Mendanha ficou só — solamente só. Se tornou uma espécie de maior abandonado.

A face arrogante de Mendanha, que se considerava o “Mito” de Goiás, quase não é conhecida. Mas, quando repórteres de jornais críticos ligavam para sua assessoria, ouviam mais ou menos o seguinte: “A gente conversa depois do dia 2 de outubro”. Ou seja, acreditando que Mendanha seria eleito — pois contava com o suposto apoio de “O Popular” —, sua turma brandia ameaças à liberdade de expressão.

Em toda a campanha, o que mais faltou a Mendanha foi maturidade e, ao mesmo tempo, humildade. Mas sobrou arrogância. E não se deve culpar Tatá Teixeira. A perna que “chutava” era a do filho de Norberto Teixeira, mas o chute real era do ex-prefeito de Aparecida.

O símbolo principal da República de Aparecida, tão criticada pelos aliados de Jorcelino Braga, não é Tatá Teixeira, e sim Mendanha. O provincianismo — decorrente de má formação cultural e falta de conhecimento — não permite que se tenha uma visão mais larga da realidade. Portanto, Tatá Teixeira é Mendanha e este é aquele. Como Jorcelino Braga, uma raposa política, suportou tal turma por tanto tempo fica no terreno do inexplicável.

O pior para Mendanha é que, assim como Perillo, talvez tenha, ao perder o presente, perdido o futuro.

O mito da força dos prefeitos

Candidatos que não operaram diretamente a própria campanha, deixando-a para prefeitos, não se deram muito bem. Os motivos são prosaicos. Nos dois primeiros anos, os prefeitos estão arrumando a casa — é um método antigo, mas funcional —, com o objetivo de deslanchar nos dois últimos anos e obter a reeleição ou emplacar o sucessor.

Roberto Naves e Ronaldo Caiado: o prefeito de Anápolis mostrou ter força política, pois contribuiu para a vitória do governador e elegeu sua mulher para deputada estadual | Foto: Reprodução/Facebook

Na eleição de 2022, os candidatos irmanaram-se com prefeitos que estão no segundo ano de suas gestões. Muitos têm desgastes severos. Então, a parceria entre os candidatos e os prefeitos funcionou quando há identidade entre os primeiros e os municípios. Candidatos que chegam de repente, montando estruturas caras, com cabos e sargentos eleitorais pagos, nem sempre conseguem receber a maioria dos votos. Às vezes saem decepcionados.

Políticos têm de visitar as cidades, precisam conhecer seus líderes nos vários segmentos e dialogar com o povão. Senão correm o risco de gastar fortunas e terem uma votação decepcionante. Os eleitores brasileiros estão cada vez mais maduros e independentes. Por isso podem até votar nos candidatos dos prefeitos, mas antes vão examinar seu histórico e, até, se fez alguma coisa pela cidade.

Veja-se um caso específico: em Porangatu, o deputado José Nelto, do pP, recebeu 4106 votos (18,71%) e Alcides “Cidinho” Rodrigues, do Patriota, obteve 916 votos (4,17%). A diferença é imensa. E o motivo é simples: Nelto está sempre na cidade e contribui para fortalecer a gestão da prefeita Vanuza Valadares. Já Alcides Rodrigues só visitou o município durante o período eleitoral.

Há, claro, prefeitos arrojados, como o de Anápolis, Roberto Naves, do pP, que contribuiu para a vitória de sua mulher, Vivian Naves. Ela obteve quase 40 mil votos para deputada estadual.

Major Vitor Hugo: o candidato “estranja”

Wilder Morais (senador eleito, soube surfar na onda bolsonarista), Jair Bolsonaro e Major Vitor Hugo (tido como “estranja”, não tem identidade com Goiás) | Foto: Divulgação

Por que Major Vitor Hugo, o candidato de Bolsonaro em Goiás, fracassou eleitoralmente na disputa para governador, obtendo apenas 14,81% dos votos?

Vale lembrar que Vitor Hugo foi eleito deputado federal em 2018 com apenas 31.190 votos (1,03%). Na verdade, foi carregado pelo deputado federal Delegado Waldir Soares, que obteve 274.406 votos (9,05%). Na disputa de 2022, seu candidato a deputado federal, Major Hugo Christiani, conquistou meros 8.080 votos (0,23%).

Há duas questões básicas. Primeiro, Vitor Hugo não tem identidade com Goiás; portanto, é visto como um “estranja” a ser derrotado. O Estado não é terra de ninguém — Brasília parece ser uma terra de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém, daí o fenômeno eleitoral Damares Alves, que foi eleita senadora — e, por isso, costuma rejeitar aqueles que se “mudam”, quando se mudam, para suas cidades com o único objetivo de obter um mandato eletivo.

Segundo, Vitor Hugo se comunica mal e não convence os eleitores. Não se trata nem de questões ideológicas, e sim verbalização não convincente.  

Política de pé no chão e as redes sociais

Silvye Alves: campeã de votos para deputada federal | Foto: Divulgação

A eleição de 2022 foi a das redes sociais? Talvez sim. Talvez mais em termos das eleições presidenciais. Porém, nos Estados, a campanha depende muito do pé no chão, do abraço, da emoção. Observe-se que os políticos não dispensaram caminhadas e carreatas — fórmulas tradicionais. Os programas de televisão, parte deles, foram feitos de maneira profissional e, também, convencional.

Gustavo Gayer: deputado federal eleito pelo PL | Foto: Reprodução

Exceto o youtuber Gustavo Gayer (PL), a figura mais típica (e eficiente) das redes sociais, praticamente todos os demais eleitos para deputado estadual e federal, assim como o senador eleito Wilder Morais, circularam por várias regiões do Estado. Mantiveram contatos com suas bases, falaram ao povão, fizeram centenas de reuniões. Quem ficou concentrado em redes sociais, sem buscar aliados reais, no corpo a corpo, acabou perdendo a eleição.

Mesmo Silvye Alves (União Brasil), egressa da rede de televisão tradicional — a TV Record em Goiás —, não ficou fazendo campanha apenas em redes sociais. Pelo contrário, viajou pelo interior, frequentou feiras livres. Habilmente, a deputada federal eleita usou as redes sociais para reforçar e divulgar aquilo que fazia fora do mundo virtual.

Bruno Peixoto, deputado estadual reeleito: campeão de votos em 2022 | Foto: Reprodução

Bruno Peixoto (União Brasil), o mais votado para deputado estadual, circulou praticamente por todo o Estado. “Parecia até onipresente”, afirma um parlamentar.

Campanhas exitosas são aquelas que combinam formas antigas — nem o tapinha das costas é descartável — e modernas de se fazer política.