Bolsonaro e Caiado não são renovadores como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek

Fernando Collor era a renovação que se tornou retrocesso. O perigoso de certos renovadores é que, na prática, não sabem como mudar um país, um Estado, uma cidade

Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart: os dois primeiros se comportaram como estadistas e os dois últimos como políticos menores, e “levaram” o País para a ditadura militar

No momento em que se discute a renovação na política, em termos nacional e local, cabe um breve exame na história do Brasil de 1930 até os dias atuais.

Em 1930, Júlio Prestes, de São Paulo, enfrentou Getúlio Vargas, do Rio Grande do Sul, para presidente da República. Apoiado pelo presidente Washington Luís, Júlio Prestes foi eleito, mas não assumiu.

Um golpe de Estado derrubou Washington Luís e Getúlio Vargas assumiu a presidência da República, com o apoio de Minas Gerais e dos tenentes (alguns deles ex-participantes da Coluna Prestes).
O golpe consagrou-se como “Revolução de 1930” em parte devido à modernização da economia em­preendida pelo governo de Vargas.

No poder, Vargas derrotou os co­munistas, em 1935, e articulou o golpe do Estado Novo, em 1937. Politica­men­te, uma ditadura. Em termos econômicos (e até comportamental), fez um governo modernizador (voto da mulher, criação do salário mínimo, legislação trabalhista avançada, substituição de importações, o que fortaleceu o mercado interno, e criação de usina siderúrgica), que elevou o País a um novo patamar. Convém trocar liberdade por avanço econômico? Claro que não. Mas, mesmo ditador, o presidente representou uma “renovação”.

Vargas ficou no poder de 1930 a 1945. Uma ditadura de 15 anos, porque o período de 1930 a 1937 nada teve de democrático. Valeu a pena? Há quem avalie que sim, sobretudo do ponto de vista da modernização econômica.

Em 1945, o País elege um general, Eurico Gaspar Dutra, que fazia parte do governo de Vargas, para “renovar” o País. No poder, fez um governo apenas mediano, nada significativo em termos de modernização. Era uma sequência de Vargas sem Vargas. A queda do ditador foi benéfica ao País, ao possibilitar a redemocratização, mas Dutra não representou mudança alguma.

Em 1950, Vargas volta à Presi­dên­cia, agora pelo voto, sob pressão in­tensa dos golpistas da UDN, co­mo Carlos Lacerda, e de militares. Gol­bery do Couto e Silva, então coronel, já conspirava contra o presidente.

Em 1953, enfrentando os adeptos do liberalismo, sobretudo dos golpistas, Vargas criou a Petrobrás. Fundamentalmente, fez um governo democrático, mas, cercado por militares e vivandeiras, acabou se matando, em agosto de 1954. Sua morte “derrotou” (retardou, melhor dizer) o golpe que se avizinhava.

Curiosamente, como democrata, Vargas “renovou” menos o País do que como ditador. Mas, claro, é preferível um democrata razoável a um ditador “qualitativo”. Ditadu­ras, de esquerda ou de direita, en­gessam o País e criam pessoas que, longe de se comportarem como cidadãos, agem como “párias” dependentes do Estado, indivíduos à espera de tutela. Quando se busca a proteção dos homens do poder, e não das instituições, a democracia está comprometida.

Kubitschek e Jango

Com a queda de Vargas, a UDN finalmente acreditou que era chegada a sua vez de eleger o presidente da República. Bancou Juarez Távora, filiado ao PDC, e mais uma vez perdeu.

Juscelino Kubitschek foi eleito e representou uma modernização tanto econômica quanto em termos de prática política. Acossado pelas direitas militar e civil, que pretendiam derrubá-lo, governou o País de maneira democrática, sem arroubos autoritários. Fortaleceu a indústria automobilística, ampliou a malha rodoviária de todo o País e, ao construir Brasília no Centro-Oeste, contribuiu para descentralizar a economia. A Bossa Nova de João Gilberto surge nos anos JK. A renovação era ampla e em vários campos.

Em seguida, a UDN, tão ruim de votos quanto de nomes competitivos, banca um político populista, Jânio da Silva Quadros, para presidente.

Jânio Quadros derrota o general Henrique Lott, “bancado” por Juscelino Kubitschek — este, na verdade, já pensava na sucessão de 1965. Eleito democraticamente, o presidente sonha que havia se tornado Getúlio Vargas, o de 1937, e tenta um golpe. Em agosto de 1961, renuncia acreditando que, com o apoio dos militares — que “não” aceitavam a posse de seu vice, o petebista João “Jango” Goulart —, voltaria ao poder, nos braços do povo, com festa cívica. Deu com os burros n’água.

Militares e civis articulam um pacto — a adoção do parlamentarismo — para João Goulart assumir. Sentindo-se engessado, Jango, com o apoio de Juscelino Kubitschek, negocia a volta do presidencialismo, aprovado em plebiscito. Ao não dividir o poder, Jango contribuiu para a escalada golpista de militares e civis da UDN.

Jânio Quadros e Jango Goulart foram avanços políticos e econômicos? Fizeram governos conturbados, o segundo planejava atualizar o capitalismo brasileiro — a reforma agrária é, no fundo, mais capitalista do que socialista, porque cria proprietários (a de Jango não era coletivista como a da União Soviética, que tinha como objetivo fortalecer o Estado comunista) —, mas, na prática, não levaram a um avanço, e sim a um retrocesso. A dupla Jota-Jota é responsável, direta ou indiretamente, pelo golpe de 1964.

José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva: os dois primeiros fracassaram e os três últimos contribuíram para a modernização do País

Governos militares

Se Jânio Quadros e Jango Gou­lart não foram avanços, apesar de acertos pon­tuais, o que dizer dos governos militares?

De cara, é preciso dizer o óbvio: não há ditadura positiva, justificável. Todas, de um modo ou de outro, não criam cidadãos de primeira linha. Governos autoritários criam, por assim dizer, eunucos institucionais. Cidadãos são aqueles que acatam o que determinam as instituições — não o que prega o governante do momento.

O governo de Castello Branco, ainda que uma ditadura — quase uma ditabranda —, com Octávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos, nos ministérios da Fazenda e do Planeja­mento, organizaram e enxugaram os custos do Estado, o que levou a economia a crescer. O Brasil potência, com crescimento chinês no governo de Emilio Médi­ci, tem a ver os ajustes da dupla Bu­lhões e Campos, que era respeitada pelo presidente. Um Estado “menor” levou a uma economia “maior”.

Homem de Estado, Castello Bran­co pode ser enquadrado entre os presidentes modernizadores. Mas, sem dúvida, um ditador. Podia cassar e cassava adversários. Costa e Silva fez um governo razoável, seguindo o básico estabelecido pela turma da Sorbonne civil. Adoeceu e uma junta militar assumiu.

No governo de Emilio Médici, rezando pela cartilha dos liberais da economia, mas professando o velho nacionalismo, o País cresceu economicamente e a maioria dos brasileiros, consumindo como nunca, “aderiu”, por assim dizer, à ditadura.

Em termos políticos, Emilio Mé­di­ci usou de violência extremada para com­bater aqueles que queriam derrubá-lo para implantar uma ditadura comunista no País. Ao exceder, o Estado, que já professava uma legalidade-ilegal — a ditadura é isso —, aprofundou a ditadura. Valeu o crescimento econômico? Não há modernização econômica que compense a falta de democracia.

Em seguida, assume um presidente em quase tudo diferente de Emilio Médici. No governo, com o apoio de Golbery do Couto e Silva, do “abre” e “fecha” — o teórico da sístole e da diástole —, o presidente-general Ernesto Geisel decidiu que era hora de “matar” a ditadura.

No percurso, o governo de Geisel terminou de liquidar os remanescentes da Guerrilha do Araguaia, matou a cúpula do PC do B, no massacre da Lapa, mas também enquadrou, aos poucos, a linha dura. Chegou a exonerar o ministro do Exército, Sylvio Frota, representante da linha dura, e afastou militares que permitiram o assassinato do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho em dependências castrenses. Nacionalista, assim como Médici, criou estatais e enfrentou o governo americano e alinhou-se, em termos de energia nuclear, ao governo da Alemanha Ocidental.

Depois, com o objetivo de ampliar a distensão, para formular uma abertura política ampla, bancou o general João Figueiredo para sucedê-lo. O militar do “prendo e arrebento”, retirando a retórica furibunda, fez o que devia fazer: garantiu a continuidade da Abertura.

Portanto, Geisel e Figueiredo, ao reabrirem o País, merecem aprovação, como modernizadores. A história certamente fará justiça aos dois militares-governantes, destacando a especificidade de cada um, mas não há como absolver ditadores.

O pacto para sair do poder, depois da exaustão da ditadura — que havia se tornado uma “bagunça”, segundo Ernesto Geisel, e tão corrupta quanto alguns governos civis —, foi articulado por militares e civis, como Petrônio Portela.

Sarney e Collor

Em 1985, Tancredo Neves é eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral. Com sua morte, assume o vice-presidente José Sarney. Depois de um começo auspicioso, revelou-se um fracasso, pois, embora democrático e tolerante, não era um homem de Estado, e, como Michel Temer, não tinha a legitimidade do político de Minas Gerais.

Primeiro governo civil pós-ditadura, pode-se dizer que, como gestor, José Sarney foi inferior a Castello Branco e Ernesto Geisel. Mas com uma diferença crucial: governou de maneira democrática. Uma democracia mediana, e até ruim, é muito superior a uma ditadura. Como modernizador, apesar de alguns acertos de Dilson Funaro — quase um primeiro-ministro, como preposto de Ulysses Guimarães, o primeiro-ministro de fato —, José Sarney nada fez de relevante a (e)levar o Brasil a outro patamar. Fica-se com a impressão que, desconsiderando seus planos econômicos — no geral, catastróficos, depois da euforia inicial —, José Sarney deixou o País funcionar no piloto automático, quase sem a interferência do Estado.

Depois, com Fernando Collor, que prometia modernizar o País — sua principal contribuição talvez tenha sido, ao comparar os automóveis brasileiros com carroças, melhorar a indústria automobilista do País, incluindo a atração de novas montadoras —, o País deu marcha-à-ré. A corrupção se tornou, com o primeiro-ministro Paulo César Farias, o PC, endêmica.

Fernando Collor era uma renovação que, no fundo, se tornou um retrocesso. O perigoso de certos renovadores é que, na prática, não sabem mesmo como renovar um país, um Estado, uma cidade.

Itamar e FHC

A queda de Fernando Collor e a ascensão do presidente Itamar Franco, um homem seriíssimo, foram bálsamos para o País.

Frequentemente, o que é puro preconceito, Itamar Franco é tratado como um caipira. Mas não era. Havia sido senador e governador. Portanto, tinha noção tanto de administração quanto de costura política.

Ao contrário de Fernando Collor, que não tinha conhecimento suficiente das limitações de um presidente da República — lembra muito Jânio Quadros, exceto pela falta de caspas —, Itamar Franco sabia que, para governar bem, precisava de uma frente política equilibrada e ideias arejadas.

Daí que, com a equipe de Fernan­do Henrique Cardoso (ministro da Fazenda) — que incluía Pedro Malan, Pérsio Arida, André Lara Resende e Edmar Bacha —, o governo de Itamar Franco criou o Plano Real.

Diferentemente de planos anteriores, o Real nada tinha de mágica e seus criadores tinham uma visão de longo prazo. Era preciso reequilibrar a economia — com a estabilidade da moeda, redução imediata da inflação e retomada do crescimento —, mas sem permitir que, adiante, o plano naufragasse. O Real não era, portanto, um plano eleitoreiro. Era um plano de modernização do País.

O governo de Itamar Franco inscreve-se, portanto, como um dos melhores da história do País. Tanto que, em seguida, Fernando Hen­rique Cardoso foi eleito e reeleito presidente. Os brasileiros perceberam que o Plano Real precisava de continuidade e, por isso, bancaram o tucano duas vezes para o controle do poder central.

Os governos de Fernando Hen­rique Cardoso mantiveram a estabilidade da economia, acrescentaram uma responsabilidade fiscal rara no País — a Lei de Respon­sabilidade Fiscal é um avanço extraordinário —, uma privatização que universalizou e melhorou o sistema de telefonia do País e criou o Fundo de Manutenção e Desen­volvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundeb), o instrumento que contribuiu para requalificar a educação nas escolas públicas.

Fernando Henrique Cardoso contribuiu para modernizar o Estado e governou sem arroubos autoritários. Na sua gestão, o Estado se tornou um fardo menos pesado para a sociedade. Por que não fez o sucessor?

Porque, quando se avança muito, gerando conquistas para a sociedade, as demandas, longe de caírem, se tornam maiores.

Lula e Dilma

Em 2002, ganhou aquele que prometia o Céu e mais alguma coisa — um avanço no campo social. Fernando Henrique Cardoso antecipou o PT no sentido de criar ações socialmente inclusivas. Mas Lula da Silva prometia muito mais e os eleitores quiseram testá-lo. O petista, de origem pobre e ex-operário, tinha autoridade para propor uma melhoria ampla no campo social.

No poder, Lula da Silva, com preocupações sociais genuínas, exacerbou a política social do governo de FHC, por intermédio do Bolsa Família, programa largamente inspirado no Renda Cidadã, do governo do tucano goiano Marconi Perillo.

Mesmo depois da denúncia de que havia corrupção no governo, com o mensalão, os eleitores deram crédito ao presidente Lula da Silva e o reelegeram. O investimento no social “calou” mais fundo do que propostas de modernização do Estado. Na campanha de 2006, enfrentando Geraldo Alckmin, do PSDB, o petista foi reeleito.

Em 2010 e 2014, os eleitores mais uma vez colocaram uma petista no poder. Dilma Rousseff representava o PT e Lula da Silva — quer dizer, investimento no social combinado com crescimento econômico (consumo).

Porém, Dilma Rousseff não era Lula e perdeu o comando do governo. Como Fernando Collor, a ex-presidente nunca deu a importância adequada ao Legislativo, o que sugere que, como ex-esquerdista radical, sempre desconfiou do sistema representativo. A corrupção se tornou uma instituição autônoma e poderosa. Não tinha mais o objetivo de gerar governabilidade, e sim de enriquecer pessoas isoladas e grupos mafiosos que se apropriaram do Estado, com anuência do PT.

Com o impeachment de Dilma Rousseff — criticadíssima por Lula da Silva, porque se comportou como não-política —, assumiu o presidente Michel Temer. Ela representou uma renovação? Não. Lula, pelo contrário, representou um avanço.

Temer e legitimidade

Com Michel Temer no poder, eis um paradoxo: há um governo “econômico” e há um governo “político”. O político, operando relativamente bem no Congresso Nacional, permitiu que o econômico governasse com relativa tranquilidade. Mas o que deu certa credibilidade ao governo foi o econômico.

O ex-“primeiro-ministro” Hen­rique Meirelles, na verdade ex-ministro da Fazenda, governou e ajustou, em parte, o Estado. Aos poucos, inclusive com segurança jurídica, além de sua credibilidade nos mercados nacional e internacional, Meirelles reorganizou a economia, que voltou a crescer. Quanto a empregos, a recuperação vai ser mais lenta, sobretudo porque o mundo, e não apenas o Brasil, assiste a vigência da chamada quarta revolução industrial, que extingue empregos em larga medida. Cria outros, é certo, mas não na escala necessária. Não fossem os camelódromos e as ruas, congestionados de subempregados, o problema seria ainda mais grave. Quem atua nos camelódromos e nas ruas, embora vendam produtos da indústria — especialmente da chinesa, mas não só —, são os excluídos da nova revolução industrial. Se não estivessem lá, a situação seria ainda mais precária.

Por que, se Michel Temer faz a coisa certa, há uma sensação de que seu governo já acabou e que o País não está crescendo? Porque o presidente perdeu legitimidade. No momento, está mais preocupado em salvar sua cabeça, dado o suposto envolvimento em corrupção. Até o fim do ano, o governo será guiado por uma espécie de “piloto automático” — às custas mais da economia real, a dos que produzem, do que devido às suas ações.

Enfim, pode-se dizer que Michel Temer faz um governo modernizador, com relativa estabilidade, inclusive com responsabilidade fiscal, mas a sociedade não tem percepção disto. Por incrível que pareça, governos que fazem ajustes, que reduzem gastos, raramente são vistos de maneira favorável. Se falta legitimidade política, como no caso do emedebista, as coisas pioram. O País anda, mas não parece andar. As portas para aventureiros, outsiders políticos, são escancaradas.

Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB): a direita, a esquerda e o centro estão presentes no atual espectro político. A questão chave é que os eleitores estão em busca de candidatos radicalizados. Na hora agá, podem caminhar para o centro?

Bolsonarizar ou marinar

O governo de Michel Temer termina no dia 31 de dezembro deste ano, numa segunda-feira. Na prática, o governo já acabou. O que se comenta, desde já, é qual será o próximo presidente.

Há candidatos a granel, a maioria usando os partidos para negociações políticas e outras que, de tão pouco católicas, nem merecem menção. Mas quem representa a estabilidade, a renovação?
No momento, sem Lula da Silva no páreo, Jair Bolsonaro é o favorito. Ao seu lado, há um economista brilhante e liberal, Paulo Guedes. Mas terá mesmo oportunidade para influenciar o deputado-militar? É provável que não.

O deputado federal Jair Bolsonaro é mais nacionalista do que liberal. Sua ligação com setores militares — alguns deles com pensamento semelhante àqueles que comandaram a linha dura no regime civil-militar — sugere que, entre o liberalismo e o pensamento estatista, deve prevalecer o segundo. Mas seu problema nem é o fato das ligações militares ou de liberalismo versus nacionalismo. É de outra natureza.

O pré-candidato do PSL seria mesmo capaz de governar o País e de agregar uma base parlamentar que possibilitasse fazer reformas tanto básicas quanto estruturais? O mais provável é que, assim como Ciro Gomes (PDT), Jair Bolsonaro, se eleito, comece, antes de se tornar realista, a fazer um governo instável. Sem governabilidade, que só é garantida por certa harmonia com a Câmara dos Deputados e com o Senado, nada funciona. Não adianta esbravejar. Fernando Collor e Dilma Rousseff falaram “grosso” e caíram. Demo­cracia é diálogo, tolerância.

Por que Bolsonaro é forte? Primeiro, é o contraponto do PT, da esquerda. Segundo, é um candidato que se apresenta como defensor da “ordem”. Por ser capitão reformado do Exército, tende a ser visto como uma “intervenção militar” indireta. Aliás, muitos estão clamando por uma intervenção militar direta, o que nem os generais de primeira linha das Forças Armadas querem.

Desconfiados do centro político, que seria liberticida, em termos de defesa dos valores, parte da sociedade brasileira está exigindo um pouco mais de conservadorismo. Bolsonaro entra nesta “brecha” ou “onda” do conservantismo. Que mudança ou renovação o líder do PSL — o PRN da hora — representa? Talvez nenhuma. Pode-se dizer, então, que o apoio a ele é mais uma rejeição ao sistema político do País. Bolsonarizar é sugerir que se está com “raiva” de tudo e que não se quer apoiar nada — exceto o suposto “novo”. Ele é mais do que o Cacareco, o famoso “candidato” rinoceronte, mas não deixa de ser uma espécie de Cacareco.

Ciro e Marina

No caso de Ciro Gomes, a única possibilidade se consolidar como alternativa real é aliar-se ao PT. Absorve certo desgaste, mas também colhe a popularidade de Lula da Silva — que, apesar da prisão e da corrupção, os brasileiros apreciam, porque o percebem como “gente como a gente” — e a estrutura do PT em todo o País. Com o PT e o PSB, o ex-governador do Ceará é carta no baralho; sem, é a ausência até do baralho.

No caminho de Ciro Gomes, no campo das esquerdas, há Marina Silva, mais bem posicionada nas pesquisas. A líder da Rede é uma incógnita. Não pertence à esquerda tradicional, de matiz autoritário, mas não se sabe o que exatamente pensa a respeito de temas cruciais. Ela concede entrevistas, fala de vários temas, como meio ambiente, mas não se sabe como faria para negociar com o Congresso — teria, possivelmente, imensas dificuldades com um Parlamento hostil — sobretudo no caso das reformas necessárias para dinamizar e destravar o País. Se eleita, pode ser tanto renovação quanto beco sem saída.

Centro e Alckmin

O principal nome do centro político não são Flávio “Riachuelo” Rocha (PRB) e Josué Alencar (PR), e sim Geraldo Alckmin. Se não for alvejado pela Lava Jato, que está na sua cola, o tucano de São Paulo é a aposta dos que buscam um postulante moderado e experiente. Governar São Paulo é praticamente como governar países como Argentina e Colômbia. A estrutura do PSDB, ancorada em todo o País, é uma armada poderosa. Seu problema, um verdadeiro drummond no meio do caminho, é que os eleitores estão desconfiados de políticos moderados, não radicalizados. Entretanto, se prevalecer um nome do centro, certamente Alckmin estará no segundo turno.

O que, em termos de renovação, Alckmin significa? Talvez quase nada. Mas país que está em processo de recuperação do crescimento econômico, depois de uma recessão brutal — ainda em vigência —, precisa menos de soluções radicais, de discursos virulentos, e mais de equilíbrio, inclusive político e fiscal. No caso, quem tiver experiência sai na frente. Quem tiver de aprender a governar governando pode travar o crescimento e o desenvolvimento da nação.

Candidatos como Álvaro Dias e Fernando Haddad — o plano B de Lula da Silva e do PT (o ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro admite que o partido e o ex-presidente discutem, sim, um plano B) —, se forem candidatos, certamente serão figurantes.

Renovação em Goiás

Ronaldo Caiado, José Eliton e Daniel Vilela, pré-candidatos a governador de Goiás pelo DEM, pelo PSDB e pelo MDB: a renovação, de repente, pode surgir de quem está no poder, e não nas oposições? É possível

No Estado de Goiás, há seis pré-candidatos a governador: o senador Ronaldo Caiado (DEM), o governador José Eliton (PSDB),o deputado Daniel Vilela (MDB), a presidente do PT regional, Kátia Maria (PT), o procurador do Trabalho aposentado Edson Braz (Rede) e Weslei Garcia (PSOL).

São políticos qualificados, mas os que estão no páreo mesmo são Ronaldo Caiado, o favorito nas pesquisas de intenção de voto, José Eliton e Daniel Vilela. Só os três serão capazes de articular estruturas de campanha em todo o Estado.

Embora líder nas pesquisas de opinião, Ronaldo Caiado representa de fato a renovação política? Na verdade, trata-se, dos seis candidatos, o mais tradicionalista. Falta-lhe, apesar dos 68 anos de idade, experiência administrativa. Do ponto de vista estritamente político, se eleito, teria dificuldade de construir uma base de apoio na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Seu grupo não terá maioria nos legislativos de Goiás e do País. No momento, seu discurso é de mero candidato, não é de estadista. Dado a arroubos autoritários, como se comportaria ante uma greve de funcionários públicos?

José Eliton representa um grupo que está no poder há quase 20 anos, mas que não perdeu sintonia com a sociedade moderna de Goiás. Experiente em termos administrativos, sabe, como nenhum outro postulante, qual é a situação do governo do Estado. Por mais que existam problemas, seu governo — dado o fato do eficiente ajuste fiscal feito pelo ex-governador Marconi Perillo —, numa comparação com dois governos do MDB, o do Rio Grande do Sul e o do Rio de Janeiro, e um do PT, o de Minas Gerais, é quase o céu. Os salários dos funcionários estão sendo pagos, o 13º salário não está atrasado, a saúde e a educação estão funcionando. As prefeituras têm recebido, por intermédio do programa Goiás na Frente (uma ação francamente municipalista), recursos para fazer obras.

Em síntese, o governo de Goiás tem funcionado. Se não estão no Céu, os goianos estão longe do Inferno — ao contrário dos gaúchos, dos cariocas e dos mineiros. Porque o tucanato, ao longo do tempo, tem se comportado como um agente da renovação e da modernização. Vai continuar assim? José Eliton tem dado pistas de que sim. A renovação, de repente, pode surgir de quem está no poder, e não nas oposições.

Daniel Vilela é mais renovação pela idade e pela entrada recente na política. Mas alinha-se com as forças tradicionais da política brasileira, como o presidente Michel Temer. Este subirá no seu palanque em Goiás? É provável que não. En­tretanto, comparado com Ronaldo Caiado, é uma grande renovação.

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Renato

Essa conversa com ranço de psd já cansou.

pedro

Estamos precisando do Geraldo Alckmin!

pedro

Alckmin é sem dúvida o mais competente. Pesquise e veja que ele tem as principais caracteristicas para se governar um país.

Marcia

O Brasil precisa neste momento de gente competente para colocar o país no caminho do crescimento. Meu voto é do Alckmin.

ana

Geraldo Alckmin é o melhor nome sem dúvida,pois fez um excelente trabalho como Governador de SP e tenho certeza que fará o mesmo pelo Brasil.E pelo que acompanho sempre foi um político com a vida política honesta e transparente.

Felipe Pansano

Eu voto em Geraldo Alckmin, é o único que esta preparada para ser Presidente do Brasil e tem experiência para saber tirar o Brasil da crise.

Trago Verdades

Faltou destacar que José Eliton responde a dois processos por improbidade e Ronaldo Caiado tem ficha limpa…