Alianças sugerem que Caiado não tem condições de cobrar coerência de seus adversários

O pré-candidato a governador pelo DEM terá de explicar aos eleitores se é o inventor da coerência prêt-à-porter ou da coerência-incoerente

Ronaldo Caiado (DEM), José Nelto (Podemos), Wilder Morais (DEM) e Jorge Kajuru (PRP): aliados como os quatro políticos de Goiás precisam mesmo de adversários para criticá-los? Talvez não: eles próprios se atacam | Montagem: Arquivo

O pré-candidato a governador pelo DEM, senador Ronaldo Caia­do, costuma afirmar que se trata de um político coerente. Em parte, talvez seja. Mas não no todo.

Durante anos, foi um crítico visceral do prefeito de Goiânia, Iris Rezende — um adversário histórico, do ponto de vista partidário, dos políticos da família Caiado. Há entrevistas e gravações com críticas severas ao decano emedebista.

No entanto, em virtude de interesses políticos contrariados e de tática derivada da realpolitik, decidiu apoiá-lo para governador de Goiás em 2014 e para prefeito em 2016.
As duas eleições resultaram, por assim dizer, de um pacto faustiano entre rivais antes renhidos. Um era a muleta do outro contra um oponente, Marconi Perillo, que jamais foi derrotado para governador; desde 1998, ganhou cinco eleições (quatro como postulante e numa apoiou Alcides “Cidinho” Rodri­gues). Iris Rezende acabou derrotado, mas contribuiu para a vitória do presidente do Democratas para senador.

Sem a ampla estrutura do MDB no interior, Caiado não teria sido eleito senador em 2014. Eleições majoritárias exigem campanhas encorpadas — o que o líder do Democratas não teria condições de bancar.

Hoje, a aliança com o senador Wilder Morais, político sem qualquer ideologia e que nada sabe sobre o liberalismo professado pelo DEM, tem como objetivo, talvez único — e frise-se que não se deve destratar os dois políticos pela aliança; a rigor, lícita —, garantir estrutura para a campanha. Self made man, o empresário, dono da Construtora Orca, de shoppings e vários imóveis, é milionário e possivelmente gastará uma fortuna. Além de dinheiro em si, há outro tipo de estrutura, como avião, helicóptero e chácara e mansão para encontros com aliados. Em tom brincalhão, aliados chamam o engenheiro que se encantou pela política de “Trem-Pagador”. É provável que exista, aí, certo exagero, mas é como o senador é visto.

No momento, Iris Rezende e Caiado estariam distanciados. O uso do condicional “estariam” deriva do fato de que o prefeito colocou dois de seus pupilos políticos — Lívio Luciano e Samuel Belchior — ao lado do senador. O primeiro, postulante a deputado estadual, chegou a ser cotado para vice do democrata. O segundo coordena as ações do senador no interior. Os dois são chamados pelo entourage de Caiado de “os meninos de Iris”.

Mais uma vez, e agora de ma­nei­ra subterrânea, pode-se falar em coerência de Caiado ao compor com o adversário histórico? Deve-se admitir que, como a vida, a política é dinâmica (“sou contraditório? Sou imenso; contenho multidões”, sugeriu o bardo americano Walt Whitman). O problema não é a incoerência do senador, e sim o fato de que só cobra coerência dos rivais políticos.

Candidato limpo
Caiado apresenta-se como o candidato “limpo”. Não há por que duvidar, pois o político tem uma história de decência pessoal e, até agora, é inatacável. Num mundo em que se espalha lixo sobre as pessoas, a ressalva precisa ser feita.

Entretanto, para ser coerente, Caiado tem de vir a público e explicar por qual motivo recebeu dinheiro da Odebrecht e da OAS, como ele próprio explicou na sua declaração à Justiça Eleitoral. Marcelo Odebrecht, ex-presidente da Odebrecht, disse, com todas as letras imagináveis, que as empreiteiras “davam” dinheiro aos partidos para, depois, receber dividendos financeiros.

É uma questão factual: Caiado recebeu dinheiro do Diretório Nacional do DEM, que, por sua vez, recebeu dinheiro da Ode­bre­cht e da OAS. Marcelo Odebrecht, integrante privilegiado do Clube do Bilhão — apontado com o “Príncipe” —, sustenta que dinheiro repassado aos partidos era propina. Posta a questão, pode-se garantir que Caiado foi propinado pelas duas empreiteiras? Não. Porque não é decente. O que se pode sugerir, mais do que afirmar, é que dinheiro de empresas investigadas pela Operação Lava Jato, ainda que de modo indireto, chegou à campanha de Caiado em 2014. Como cobra coerência dos adversários e é um crítico contundente de seus supostos malfeitos, seria de bom tom que o senador esclareça os fatos de maneira minuciosa.

Na sua declaração de gastos de 2014, Caiado informa que recebeu 300 mil reais da mulher de um dos proprietários da OAS, empresa que, iniciando suas atividades na Bahia, conquistou obras em quase todo o país. Trata-se de uma doação direta. Falta coerência ao senador se não explicar por que a sra. deu quase meio milhão de reais para a campanha de um político de Goiás? As páginas do Jornal Opção estão abertas para suas explicações.

Na eleição de 2010, Caiado recebeu dinheiro de Natalino Bertin, do Frigorífico Bertin. Por qual razão o empresário deu dinheiro para a campanha do então candidato a deputado federal? Não se sabe. Será coerente apresentar uma explicação, não ao jornal, e sim aos goianos, todos eles, e não apenas os eleitores. Produtores rurais, notadamente os criadores de gado de corte, são críticos frequentes dos donos de frigoríficos, que acusam de “cartelização” e de responsáveis por eventuais crises na área.

Kajuru e Nelto
O vereador Jorge Kajuru apresenta-se como “amigo” de Caiado. A amizade é longeva — tem 35 anos, teria começado em 1983, quando o país vivia sob uma ditadura, a do presidente João Figueiredo. Ditadura que, vale lembrar — neste país de memória às vezes tão curta —, havia sido bancada pela família Caiado, desde 1º de abril de 1964. Leonino Caiado, governador nomeado pela ditadura, é parente do senador. Por sinal, foi um gestor eficiente e decente.

Apesar da amizade, certamente sincera — Caiado talvez seja visto como uma espécie de pai substituto, um protetor —, Kajuru é ou era um de seus críticos mais viscerais. Numa entrevista gravada e que certamente será exibida durante a campanha, o vereador do PRP faz críticas contundentes a Caiado, inclusive apontando que recebeu dinheiro das construtoras OAS e Ode­brecht. Chega a citar números.

Como será candidato a senador na chapa de Caiado, o eleitor certamente tem o direito de perguntar: em qual Kajuru deve acreditar: no que apoia o postulante do DEM ou naquele que, dias desses, vituperava-o na televisão e nas redes sociais? Afinal, os dois são amigos ou “mui” amigos, na expressão irônica dos humoristas? No caso, a falta de coerência é de qual deles: do senador ou do vereador? Talvez de ambos. Por que Caiado aceita o apoio de um “aliado” que, esses dias, o atacava num programa de televisão, denunciando-o publicamente?

Kajuru se prepara para disputar mandato de senador e aparece bem nas pesquisas, em terceiro lugar, atrás apenas do ex-governador Marconi Perillo, do PSDB, e da senadora Lúcia Vânia, do PSB. O vereador, jornalista de larga experiência, costuma sublinhar que as pesquisas, quiçá manipuladas, não apontam seus números reais. Tal­vez não. Talvez sim. O fato é que políticos com o seu perfil ganham, até com certa facilidade, para deputado estadual e federal, mas dificilmente são eleitos para cargos majoritárias. Ressalve-se que não se pode, é claro, rifá-lo da lista dos favoritos.

Na chapa majoritária de Ronal­do Caiado, o parceiro de Kajuru, na disputa por uma vaga no Sena­do, é o senador-empresário Wilder Morais. Nas suas entrevistas e manifestações em redes sociais, o vereador crítica, com extrema virulência, seu novo aliado. Chega a chamá-lo de “senador 171”. Não usa a palavra estelionatário, mas, o uso de 171, quer dizer isto. Como justificar, aos eleitores, a aliança entre Kajuru e Wilder Morais, de­pois do que disse o primeiro a respeito do segundo? Como Caia­do a­precia a coerência — ou pelo me­nos a palavra — certamente terá co­mo, durante a campanha, esclarecer a pendenga entre os neoaliados.

O deputado estadual José Nelto, do Podemos, é apodado de “papagaio de pirata” de Ronaldo Caiado. Mas é uma crítica exagerada, porque o ex-emedebista tem luz própria. Os dois não se toleravam. Numa gravação, fácil de ser verificada no YouTube, o senador chama o parlamentar de “mentiroso”, apontando-o como um político desqualificado.

Pode-se frisar que Caiado é coerente por manter José Nelto como um dos articuladores de sua campanha? Quer dizer que, quando o suposto mentiroso muda-se para o nosso lado, deve ser aceito? Quer dizer que os ruins, quando estão ao nosso lado, se tornam bons? O que os eleitores dirão deste comportamento flexível de um político que é tão inflexível nas críticas aos seus adversários?

Caiado teria inventado a coerência prêt-à-porter ou, então, a coerência-incoerente? l

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CONEGUNDES FILHO

Lama, imundice e vergonha é o que é a política goiana.
Lembrem-se que Kajuru já havia cansado de declarar que JAMAIS se candidataria a qualquer cargo político. JAMAIS! E que se candidatasse, que ninguém precisaria votar nele..

Luciano Almeida

Quem acredita na sinceridade de um político?