No 1º turno, todo mundo é oposição a todo mundo. E quem fizer discurso ameno fica fora do 2º turno

Antônio Gomide quer ser candidato a governador, porque avalia que tem condições de derrotar o governador tucano e que o PT tem quase nenhuma identidade com o PMDB. E o que importa mesmo é o primeiro turno, como sugere Vanderlan Cardoso. O segundo turno é outra história

Iris Rezende, Júnior Friboi, Antônio Gomide e Vanderlan Cardoso: qual é a  identidade político-ideológica entre estes quatro grandes atores da política  goiana? Quase nenhuma, e isto dificulta a união entre eles | Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende, Júnior Friboi, Antônio Gomide e Vanderlan Cardoso: qual é a identidade político-ideológica entre estes quatro grandes atores da política goiana? Quase nenhuma, e isto dificulta a união entre eles | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

O filósofo italiano Nor­berto Bobbio, num livro pequeno mas denso, “Esquerda e Direita: Razões e Significados de uma Distinção Política” (Unesp, 2001), pensou contra a corrente ao sugerir que as ideologias não morreram e que os discursos de esquerda e de direita ainda estão em voga (vale a pena ler, incluído no mesmo volume, a polêmica com o historiador marxista Perry Anderson). O mundo de fato mudou, está mais aberto ou, como quer o jornalista norte-americano Thomas Friedman — refutado pelo filósofo inglês John Gray —, mais plano, mas a linguagem, por certo decorrente de uma polarização real, porém mais matizada, ainda está contaminada pelos conflitos que, embora antigos, permanecem atuais. São conflitos entre posições ideológicas e filosóficas sobre como mudar ou conservar o mundo.

Iris Rezende, Júnior Friboi, Antônio Gomide e Vanderlan Cardoso: qual é a identidade político-ideológica entre estes quatro grandes atores da política goiana? Quase nenhuma, e isto dificulta a união entre eles

Iris Rezende, Júnior Friboi, Antônio Gomide e Vanderlan Cardoso: qual é a identidade político-ideológica entre estes quatro grandes atores da política goiana? Quase nenhuma, e isto dificulta a união entre eles | Fotos: Renan Acciolly

É fato que, dados os choques entre as correntes políticas, liberais incorporaram de maneira mais ampla a ideia de que não se pode passar ao largo do social, especialmente num país que tem grandes carências, e esquerdistas incorporaram a tese de que o mercado, se não resolve tudo, não deve ser extinto. Social e mercado não são incompatíveis — talvez seja o recado do mundo gerado pelo fim do socialismo (talvez a palavra apropriada, diria o marxista inglês Eric Hobsbawn, não seja “fim”). Mas a (re)ação do socialismo foi positiva, como notou o sociólogo norte-americano Russell Jacobs, para pressionar o capitalismo a se tornar mais “social”.

A socialdemocracia é, grosso modo, uma espécie de suavização do capitalismo. Sem o socialismo, que era uma espécie de “ameaça”, o capitalismo voltará a ser selvagem — daí a defesa da flexibilização da legislação trabalhista? Pos­sivel­mente, não. Reações retardatárias, de um nacionalismo que diz mais respeito ao século 19 do que aos séculos 20 e 21, assombram na Venezuela de Nicolás Maduro, no Equador de Rafael Correa e na Bolívia de Evo Morales. Os apóstolos racionalistas do capitalismo sabem, por experiência com a história do século 20, que um modo de produção extremamente agressivo, sem preocupações sociais, pode colaborar para levar o nacionalismo latino-americano, ao menos de alguns países, a se transformar numa espécie de socialismo-cavernal. Ah, dirão os céticos: a história não recua, não tem volta, o “se” é uma ficção. Não é bem assim. Uma leitura menos positivista da história, linearidade que o marxismo incorporou — um analista refinado disso é o filósofo John Gray —, certamente concluirá que o mundo avança, mas também recua. Não há certeza alguma de que será melhor ou pior. Depois da Primeira Guerra Mun­dial, entre 1914 e 1918, acreditou-se que a vida caminharia para trilhas melhores. Caminhou mesmo du­rante alguns anos. Mas em 1933 Hitler chegou ao poder e, seis anos depois, o mundo estava atolado em outra guerra. Pode-se falar em recuo histórico.

PT rompe servidão?

O arrazoado acima tem a ver com a análise que vai se expor a seguir. O PT, para manter-se no poder, subordinou as elites estaduais, sejam conservadoras ou não, e, nas províncias, submeteu-se às mesmas elites.

Ideologia não é o que importa, e sim a lógica da manutenção do comando do governo federal. As elites estaduais, em vários casos, ficam com os governos locais e com a maioria das bancadas de deputado e senador. É um pacto faustiano, diriam Goethe (que, vivendo no século 19, tinha muito interesse pelas coisas do Brasil, como minérios e plantas) e Thomas Mann (homem de dois séculos, o 19 e o 20, era filho de uma brasileira e de um alemão). Mas o que o PT tem a ver com essas elites regionais, em termos ideológicos? O PT é de esquerda, não há dúvida. O que não se deve sugerir, porém, é que o PT é comunista, porque não é. Os grupos hegemônicos no partido são de extração socialdemocrata, com veleidades socialistas, mas, insistamos, nada têm a ver com os comunistas soviéticos e chineses (com estes, quem sabe, têm um pouco a ver na questão econômica).

Numa linguagem mais precisa, pode-se dizer que o PT usa as elites estaduais conservantistas e estas usam o PT para não se desgrudarem do poder nas províncias. O pacto interessa aos dois, mas não significa que pensam da mesma maneira e que a aliança será eterna e sem conflitos. Veja-se o caso específico de Goiás.

Norberto Bobbio: o filósofo italiano diz que o discurso ideológico, apesar de terem decretado sua moratória, continua em voga — esquerda e direita não morreram | Foto: Wikipédia

Norberto Bobbio: o filósofo italiano diz que o discurso ideológico, apesar de terem decretado sua moratória, continua em voga — esquerda e direita não morreram | Foto: Wikipédia

O PT goiano, ou parte dele, quer romper com o PMDB e lançar candidato próprio ao governo. O motivo é prosaico: o PT local, seguindo o pensamento do ex-presidente Lula da Silva, concluiu que, com um candidato do PMDB, o governador Marconi Perillo (PSDB) não será desbancado do poder. O peemedebismo, com o DNA mapeado, se tornou o freguês mais fidelizado do tucanato. O próprio PMDB, ou parte dele, quer impedir a candidatura do líder histórico, Iris Rezende, alegando que se tornou o perdedor-mor para Marconi. Daí a tentativa de bancar o empresário Júnior Friboi, que, além de ser um nome novo no espectro político, tem dinheiro para financiar uma campanha caríssima. Na campanha de 2010, quando precisava de mais recursos, porque já estava sem oxigênio, Iris assistiu Marconi, com uma estrutura superior, ganhar a eleição.

Há três eleições, duas disputas para a Prefeitura de Goiânia e uma para o governo do Estado, que o PT associa-se ao PMDB. Em 2008, o petista Paulo Garcia foi indicado para vice de Iris Rezende, que foi eleito prefeito da capital. Em 2010, Iris Rezende disputou o governo com um peemedebista, Marcelo Melo, na vice e o petista Pedro Wilson e o peemedebista Adib Elias para senador. Em 2012, Paulo Garcia foi eleito prefeito, com um peemedebista, Agenor Mariano, na vice. Agora, a tendência que praticamente construiu o PT no Estado de Goiás, a PT Pra Vencer, cujo principal líder é o deputado federal Rubens Otoni, pretende lançar o prefeito de Anápolis, Antônio Gomide, para governador. Não é birra. É realpolitik e um “reajuste” na história do próprio PT.

Durante 16 anos, entre 1983 e 1998, o PT cresceu e se fortaleceu tecendo as críticas mais severas a Iris Rezende e seus aliados, como Henrique Santillo e Maguito Vilela. Iris não é socialdemocrata, não é socialista, não é, enfim, de esquerda. É um político de centro-direita, mais de centro, moderado. Trata-se de um gestor rigoroso e modernizador. O PT nunca aprovou suas ideias e seus governos. No entanto, sob pressão do PT nacional, que transformou o PMDB no seu principal aliado — e inimigo cordial, por assim dizer —, o PT de Paulo Garcia, Rubens Otoni e Pedro Wilson se uniu ao PMDB de Iris. Entretanto, apesar do apreço que Paulo Garcia tem por Iris — trata-se de apreço pessoal e de uma aliança estratégica, que tem mais a ver com Goiânia (a prefeitura) do que com o Estado —, o PT e Iris, ou mesmo o PMDB, exceto, quem sabe, Maguito Vilela (que é visto, no plano nacional, como um petista honorário), não têm identidade ideológica alguma. Pensam diferentemente sobre quase tudo. Mas a divergência, sobre comportamento e política, ficou em segundo plano, dada a necessidade circunstancial da aliança, mas, no momento de conflito, reaparece. É o que está se dando agora.

O PT de Paulo Garcia prefere uma composição com o PMDB, especialmente com Iris, porque está de olho na disputa de Goiânia, em 2016. Mas o PT de Rubens Otoni e Antônio Gomide prefere lançar candidato próprio, apostando no discurso da renovação, da mudança, do novo. Quanto a Júnior Friboi, apesar da aliança de sua família com o “novo” BNDES — o financiador das empresas ditas campeãs (“eleitas” talvez seja um termo menos impreciso), como JBS —, o PT não tem identidade alguma com o empresário do PMDB. Pelo contrário, apoiá-lo, do ponto de vista da militância do PT, seria como trair os trabalhadores, pois, embora tenha se afastado do grupo JBS, Friboi é um capitalista, um patrão. Ideologicamente, é de direita, nem mesmo é de centro. Em termos comportamentais, é muito mais conservador do que o PT.

Portanto, não há identidade ideológica e comportamental entre o PT de Rubens e Gomide e o PMDB de Iris e Friboi. O que une os dois partidos são interesses, circunstâncias. Noutras palavras, a dificuldade para derrotar um político, o governador Marconi Perillo, que, fortalecido em quase 16 anos, até agora não foi derrotado por PT e PMDB separadamente e/ou juntos. Do ponto de vista estritamente ideológico, o PT tem mais a ver com Marconi, um político de centro-esquerda, que sempre se manteve próximo da esquerda. O “problema”, ou divergência, entre o PT e Marconi tem a ver com duas questões. Primeiro, o PT é a legenda das corporações sindicais no Estado e, segundo, o petismo e o PSDB travam uma batalha pelo controle do governo federal. Daí a oposição local ser forte. Mas a divergência ideológica é mínima, porque PT e PSDB são socialdemocratas. O primeiro mais de esquerda e o segundo mais próximo do centro. Mas são irmãos — espécie de Caim e Abel ou, diria Machado de Assis, Esaú e Jacó.

Marconi Perillo: o governador de Goiás, um político  de centro-esquerda, tem identidade com a esquerda,  que chegou a participar de dois de seus governos | Foto:  Fernando Leite/Jornal Opção

Marconi Perillo: o governador de Goiás, um político de centro-esquerda, tem identidade com a esquerda, que chegou a participar de dois de seus governos | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Na eleição deste ano, então, o inimigo a bater, do ponto de vista do PT, não é apenas Marconi, o tucano. É também o PMDB, seja o de Iris, seja o de Friboi. A contradição, que estava adormecida pela realpolitik nacional, reapareceu, e com alguma força. O PT goiano, se não houver pressão nacional, certamente vai buscar sua alforria, porque é evidente que o partido está subordinado ao PMDB e que seu principal líder, ao menos em Goiânia, não é Paulo Garcia nem Rubens Otoni, nem outro petista, e sim um peemedebista, Iris Rezende.

Se Gomide for candidato, pode-se dizer que o PT “volta-se” para a esquerda, ainda que sem radicalização. Se ficar com o PMDB, com Iris ou Friboi, então se tornará, cada vez mais, um partido de centro e, sobretudo, uma legenda submetida. A subordinação ao PMDB pode custar caro ao PT, que, cada vez mais, assiste sua militância espontânea, no lugar de crescer, minguar. Lutar pelo PT é uma coisa, dizem militantes, especialmente os da área universitária, mas lutar pelo PMDB, adversário histórico, é outra coisa. Gomide vai romper o novo ciclo de dominação voluntária do PT ao PMDB? Não se sabe. Se depender de Gomide, o pacto faustiano será rompido, corroborando o que disse Norberto Bobbio: a partir de certo momento, as conciliações pelo alto, entre agentes políticos divergentes, tendem a romper-se e dão lugar aos grupos que têm mais identidade.

Quanto a Vanderlan Cardoso, pré-candidato a governador pelo PSB, teoricamente, ao se apresentar como socialista, teria alguma liga com Gomide. Porém, Vanderlan e Gomide, ideologicamente, são profundamente diferentes. Além de capitalista, o líder do PSB é evangélico e o PT, ao menos no Congresso Nacional, tem se confrontado, em questões de comportamento — como na discussão sobre aborto e união gay —, com os segmentos evangélicos. Do ponto de vista ideológico, Vanderlan aproxima-se mais da direita e Gomide, como já se disse, é socialdemocrata, ou até socialista.

Importa o 1º turno

O presidente do PMDB de Goiás, deputado estadual Samuel Belchior, disse que as oposições estão radicalizadas e que devem chegar ao segundo turno divididas. Ele está certo. Mas não explicita o que está por trás das divergências atuais. Primeiro, Vanderlan, Iris, Friboi e Gomide pouco têm a ver um com outro, política e ideologicamente. A rigor, embora tenham se tornado adversários, Vanderlan tem mais identidade, até por serem empresários, com Friboi. E, dada a vagueza ideológica de ambos, não há uma divergência crucial com Iris. Segundo, ante a possibilidade de derrotar o governador Marconi Perillo — que, pela primeira vez, apresenta vulnerabilidades mais sérias —, todos querem enfrentá-lo. Terceiro, candidato que atacar preferencialmente Marconi mas ficar “alisando” os demais adversários, acreditando que estarão polarizando com aquele que deve ir para o segundo turno, exatamente o tucano-chefe, pode não ir para a disputa seguinte. O candidato forte será aquele que desafiar Marconi, mas conseguir, sobretudo, distinguir-se dos demais adversários. Aqueles que quiserem ficar “iguais”, diferençando-se tão-somente de Marconi, podem ser esquecidos pelos eleitores. Deve ir para o segundo, possivelmente contra o tucano, aquele candidato que, além de apresentar a crítica mais consistente, conseguir levar ao eleitor uma agenda positiva para o Estado de Goiás continuar crescendo. Quem não ampliar a crítica, concentrando-a em cima de Marconi, pode ficar fora do processo. Vanderlan Cardoso está criticando Marconi e também Paulo Garcia. Ora, Paulo Garcia não é candidato. Não é. Mas é prefeito de uma cidade que tem 900 mil eleitores num universo de 3 milhões de eleitores. Vanderlan quer ganhar os votos da capital e, por isso, vai apresentar, cada vez mais, o discurso de que o prefeito petista está governando mal a cidade (na verdade, não está, mas passa a imagem de que está). Mais: atento, o socialista sabe que quem pensa demais em segundo turno pode se sair muito mal no primeiro turno. Porque o que importa mesmo, sabem os políticos profissionais, é o primeiro turno. O segundo turno é outra história e poucos candidatos transferem votos. O eleitor de Vanderlan vai para Marconi ou para Iris? É provável que vários anulem o voto. Muitos votarão em Iris e muitos votarão em Marconi. O eleitor tem razões que até as urnas desconhecem.

Eleição tem pouco a ver com ideologia, é certo. Mas as ideologias não vão ser excluídas inteiramente do debate. Portanto, quem avaliar que as oposições são idênticas, ou até que alguns setores delas são muito diferentes de quem está no poder, Marconi Perillo, não vai conseguir entender o que é possível perceber no processo político. Insistamos apenas num ponto, por demais apresentado acima: o PT e o PMDB de Goiás, embora aliados circunstanciais, têm pouco a ver um com o outro. Na campanha, apesar dos possíveis salamaleques, terão de dizer isto ao eleitor. Se não o fizerem, Vanderlan o fará, e, se montar uma estrutura adequada, poderá polarizar com Marconi. Mas o PT e o PMDB poderão se unir? Sim, se houver a decantada pressão nacional. Mas a união dos partidos poderá se tornar, no curto prazo, no abraço da morte? Só as urnas dirão.

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