Couro goiano pode gerar mais riqueza se for industrializado dentro do Estado
30 setembro 2026 às 10h12

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O couro que sobra do abate de bovinos ainda tem um longo caminho pela frente antes de chegar a uma loja em forma de sapato, bolsa, cinto ou até mesmo banco de carro. Em Goiás, parte dessa cadeia já é responsável por movimentar a indústria e colocar o Estado entre os principais polos do setor no país. Mas, segundo representantes da indústria, existe espaço para ampliar essa participação, principalmente se mais matéria-prima for processada dentro do próprio território goiano.
Dados da Pesquisa Trimestral do Couro, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que Goiás foi o Estado que mais recebeu couro cru bovino pelos curtumes brasileiros no primeiro trimestre de 2026. Foram cerca de 2 milhões de peças, o equivalente a 19% de todo o couro recebido pelos curtumes do país no período.
O resultado está diretamente ligado ao tamanho da pecuária goiana. O Estado está entre os maiores produtores de gado e também figura entre os líderes nacionais em abate bovino. É justamente desse processo que vem a matéria-prima utilizada pelos curtumes. “O bovino não é abatido pelo couro. Ele é abatido pela carne, pela proteína que vai para a população. E aí sobra o couro”, explica a reportagem do Jornal Opção o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), presidente do Sindicato das Indústrias de Curtumes e Correlatos do Estado de Goiás (Sincouros) e vice-presidente do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), Emílio Bittar.

O trabalho dos curtumes começa justamente nesse ponto. O couro cru é tratado e passa pelo processo de curtimento, que transforma a pele em uma matéria-prima que pode ser utilizada pela indústria em diferentes produtos. Depois de beneficiado, o material segue para segmentos como o automotivo, moveleiro e calçadista, além da fabricação de bolsas, carteiras, cintos, mochilas e outros artigos.
No setor automotivo, por exemplo, o couro pode ser utilizado nos bancos dos veículos. Na indústria moveleira, aparece em sofás, cadeiras e poltronas. Também está presente em produtos que fazem parte do cotidiano, como calçados e acessórios. Para Bittar, o aproveitamento do couro também tem um aspecto ambiental, já que transforma um subproduto do abate em matéria-prima para a indústria. Ele defende que o material seja mais valorizado diante da concorrência dos produtos sintéticos. “O couro é um produto natural. Ele é biológico, dura muito mais e é um produto que respira”, afirma.
Apesar da posição de destaque no recebimento de couro cru, o presidente do Sincouros avalia que os números poderiam ser maiores. O principal problema apontado por ele é que parte da matéria-prima gerada pelos abates realizados em Goiás deixa o Estado antes de ser industrializada pelos curtumes goianos.
Segundo Bittar, isso faz com que as indústrias trabalhem abaixo da capacidade que poderiam alcançar. Ele cita como exemplo Mato Grosso, Pará e Mato Grosso do Sul, estados que, segundo ele, adotam políticas para estimular que o couro produzido a partir dos abates locais permaneça dentro do próprio território. “Goiás poderia ter sido melhor. Não consideramos que foi ótimo. Poderia ter sido ótimo se os abates que são feitos em Goiás tivessem os couros permanecendo aqui”, afirma.
Na avaliação do empresário, manter essa matéria-prima em Goiás permitiria que uma parcela maior do valor gerado pela cadeia permanecesse no Estado. Além da própria atividade industrial, ele cita os efeitos sobre emprego, renda e arrecadação. “Se o couro fosse industrializado em Goiás, se o governo nos ajudasse a manter o couro aqui para industrializar aqui, a receita seria melhor para o próprio Estado”, diz.
A discussão ganha peso porque o couro não é apenas uma matéria-prima comercializada após o abate. O processamento amplia o valor do produto e cria novas etapas industriais antes que ele chegue ao consumidor final.
Exportações e mercado internacional
O mercado do couro também ultrapassa as fronteiras brasileiras. Depois de beneficiado, o produto pode ser destinado a empresas de diferentes países e integrar cadeias industriais que abastecem setores como automóveis, móveis, calçados e acessórios. Para o setor goiano, aumentar a participação nas exportações passa justamente por ampliar a capacidade de processamento e agregar mais valor à matéria-prima.
É nesse ponto que Bittar coloca uma das principais preocupações da indústria: o chamado “Custo Brasil”. Na avaliação dele, questões tributárias e o custo de produção reduzem a competitividade das empresas brasileiras diante do mercado internacional. “Nós temos bitributação. Nós não temos uma política de agregação de valor”, afirma. Para ele, o país precisa criar condições para que mais produtos sejam industrializados e cheguem ao mercado em etapas mais avançadas de produção, em vez de sair apenas como matéria-prima.
O presidente do Sincouros também demonstra preocupação com os efeitos da reforma tributária sobre a indústria e defende a manutenção dos incentivos fiscais utilizados por Goiás para atrair e manter empresas. “Goiás precisa manter os incentivos fiscais para continuar crescendo industrialmente”, afirma.
Setor quer mais clareza para o consumidor
Outro ponto levantado por Bittar envolve o mercado interno. A indústria de couro também disputa espaço com materiais sintéticos que imitam a aparência do produto natural.
Para o representante do setor, o consumidor precisa ter informações claras sobre o material utilizado na fabricação de produtos vendidos como couro. Ele defende que etiquetas indiquem de forma objetiva a matéria-prima utilizada em itens como sapatos, bolsas, cintos e sofás.
A preocupação, segundo ele, está na dificuldade de diferenciar visualmente o couro natural de materiais sintéticos em alguns produtos. “Se você for comprar um sapato ou uma bolsa, você não sabe se verdadeiramente está levando couro”, afirma.
A discussão sobre a cadeia coureira, portanto, vai além do volume de gado abatido ou da quantidade de couro recebida pelos curtumes. Para o setor, o desafio está em fazer com que uma parcela maior dessa matéria-prima seja transformada dentro de Goiás, aumentando o valor agregado e fortalecendo a indústria local.
O tema foi levado por Bittar à Secretaria da Economia de Goiás nesta segunda-feira, 28, durante reunião com a titular da pasta, Renata Lacerda Noleto. O encontro tratou de demandas da indústria e das condições necessárias para ampliar a competitividade das empresas goianas.
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