Goiânia é uma capital marcada por contrastes sociais relevantes: enquanto oferece elevada qualidade de vida e dinamismo econômico, o custo para “viver bem” varia intensamente conforme o bairro escolhido, tornando a renda necessária uma questão estratégica de localização e estilo de vida. Em entrevista ao Jornal Opção, a presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), Adriana Pereira de Sousa, analisou, nesta segunda-feira, 23, em profundidade, o custo de vida em Goiânia e destacou como a escolha do bairro é decisiva para definir o padrão de vida na capital.

Adriana Pereira de Sousa, professora do curso de Economia da Universidade Estadual de Goiás (UEG) | Foto: Divulgação

Segundo Adriana, a resposta à pergunta sobre quanto é necessário para viver bem depende do padrão de vida desejado, do perfil familiar e, principalmente, da localização. “Quando se fala em custo de vida, endereço não é apenas geografia, é estrutura de preços, acesso a serviços, externalidades positivas e diferenciação de mercado”, explicou.

A especialista apontou que Goiânia consolidou-se como uma capital com qualidade de vida relativamente elevada, marcada pela forte presença do setor de serviços, expansão imobiliária verticalizada e dinamismo no comércio. Contudo, ela afirmou que essa mesma dinâmica produziu diferenças significativas nos preços intraurbanos, especialmente no mercado imobiliário, que é o principal determinante do custo de vida.

Nos bairros mais centrais e demandados, como Setor Marista e Setor Bueno, o aluguel de um apartamento de padrão médio pode variar entre R$ 3 mil e R$ 5 mil mensais, sem considerar condomínio e demais encargos. “São regiões com alta densidade de serviços, gastronomia sofisticada, proximidade de polos empresariais e forte valorização imobiliária”, afirmou.

O resultado é claro, para uma pessoa solteira viver com conforto, incluindo moradia adequada, alimentação, transporte, lazer e alguma capacidade de poupança, a renda líquida ideal situa-se entre R$ 5 mil e R$ 9 mil mensais. No Setor Oeste, tradicional e bem localizado, os custos são levemente inferiores, mas ainda exigem renda na faixa de R$ 5 mil a R$ 8 mil.

Já bairros como Jardim América e Setor Negrão de Lima oferecem equilíbrio mais interessante entre infraestrutura e preço, com necessidade estimada de renda entre R$ 4.500 e R$ 8.000. O Setor Leste Universitário, associado ao público estudantil e jovem profissional, apresenta valores mais acessíveis, mas para viver bem a renda ideal gira em torno de R$ 4 mil a R$ 6.800 mensais.

Além da moradia, outros gastos pesam no orçamento. A cesta básica em Goiânia, em janeiro de 2026, foi de R$ 735,94, segundo o DIEESE. Esse valor refere-se a uma cesta individual padrão. Para uma família de quatro pessoas, o gasto mensal apenas com itens básicos pode ultrapassar R$ 2.500. Em relação à saúde, embora o Sistema Único de Saúde seja essencial, muitos moradores optam por plano privado.

Em Goiânia, os valores médios estão entre R$ 400 e R$ 800 para plano individual e entre R$ 1.200 e R$ 3 mil para plano familiar. “Em média, recomenda-se que o orçamento reserve entre 6,5% e 12% da renda mensal para saúde, especialmente para famílias”, destacou Adriana. Há ainda gastos com medicamentos e exames que não são cobertos integralmente, dependendo do plano.

O lazer também integra o conceito de viver bem. Em bairros como Marista e Bueno, onde há concentração de bares, restaurantes e academias premium, os custos tendem a ser mais elevados. No geral, para um padrão confortável, o gasto mensal com lazer pode variar entre R$ 300 e R$ 1.200, ou até mais, dependendo do estilo de vida.

“É importante destacar o conceito de viver bem. Aqui não falo de luxo, mas de estabilidade: moradia adequada, alimentação de qualidade, transporte eficiente, lazer básico e capacidade de formação de reserva financeira”, ressaltou.

Sob essa ótica, percebe-se que a renda necessária para viver com tranquilidade em bairros centrais e valorizados supera, em muitos casos, a renda média formal da capital, considerando que a média salarial da cidade está em torno de R$ 4.238, de acordo com o IBGE.

Porém, considerando a cidade como um todo, tanto os bairros mais centrais quanto os mais afastados, o custo de vida em Goiânia, no geral, está em torno de R$ 4.150 mensais. Dessa forma, na média geral, é necessário no mínimo uma renda entre R$ 4.500 e R$ 5 mil para viver bem na capital do estado de Goiás. Para casais, a renda necessária aumenta aproximadamente 30% em relação ao custo individual.

Adriana destacou ainda que Goiânia mantém vantagem competitiva quando comparada a metrópoles como São Paulo ou Brasília. O custo relativo ainda é menor, e isso atrai população, investimentos e novos empreendimentos. Entretanto, essa atratividade pressiona o mercado local e aprofunda a segmentação socioespacial. “A decisão locacional torna-se, cada vez mais, uma decisão econômica estratégica”, afirmou.

Do ponto de vista macroeconômico, Goiânia apresenta dinamismo nos setores de comércio, saúde, educação superior e construção civil. Esse dinamismo sustenta empregos e renda, mas também retroalimenta a valorização imobiliária. “É um ciclo virtuoso para o crescimento, porém desafiador para a acessibilidade urbana”, avaliou.

Para ela, mais do que discutir valores absolutos, é preciso refletir sobre política urbana, mobilidade eficiente e oferta habitacional diversificada. “Afinal, qualidade de vida não deveria ser privilégio restrito às faixas de renda mais elevadas, mas um projeto coletivo de cidade”, concluiu.

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