Estudo do Ipea indica que redução da jornada pode ser absorvida pelo mercado e diminuir desigualdades
11 fevereiro 2026 às 19h06

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Uma nota técnica divulgada nesta terça-feira, 10, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) conclui que a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas teria impactos econômicos moderados e comparáveis aos efeitos de reajustes históricos do salário mínimo. A análise mostra que, embora a medida aumente o custo da hora trabalhada, os setores produtivos têm condições de absorver esse acréscimo sem comprometer o nível de emprego.
Nos grandes setores da economia, como indústria e comércio, que juntos concentram mais de 13 milhões de vínculos formais, o impacto seria inferior a 1% do custo operacional. Já em segmentos intensivos em mão de obra, como vigilância e limpeza, os efeitos seriam mais significativos, chegando a 6,6% do custo total. Ainda assim, os pesquisadores lembram que o Brasil já enfrentou choques semelhantes, como aumentos expressivos do salário mínimo em diferentes anos, sem que isso tenha provocado retração no emprego.
Além da dimensão econômica, o estudo chama atenção para os efeitos sociais da medida. Trabalhadores submetidos a jornadas de 44 horas semanais recebem, em média, menos da metade da remuneração daqueles com contratos de 40 horas.
A incidência de jornadas mais longas é maior entre pessoas com menor escolaridade e em ocupações de baixa remuneração, especialmente nos setores da indústria, agropecuária e comércio. Isso reforça a ideia de que a redução da jornada poderia contribuir para diminuir desigualdades estruturais no mercado de trabalho.
A análise também evidencia diferenças de gênero. Apenas 41% dos vínculos registrados são de mulheres, com menor presença em jornadas longas e salários baixos, o que reflete a necessidade de conciliar trabalho remunerado com responsabilidades de cuidado. Para os pesquisadores, a redução da jornada máxima poderia ampliar a qualidade de vida dos trabalhadores e favorecer maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
“O possível impacto sobre o PIB deve ser sopesado com o aumento da qualidade de vida do trabalhador, o tempo disponibilizado para tarefas de cuidados e as consequências para a melhora da saúde da população”, afirma Felipe Pateo, técnico do Ipea.
Com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2023, o estudo conclui que a medida teria efeitos econômicos administráveis e potencial para reduzir desigualdades no mercado de trabalho brasileiro.
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