Com dólar em queda, Brasil vive alívio cambial, mas há riscos a serem observados. Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, a presidente do Conselho Regional de Economia, 18ª Região, de Goiás (Corecon-GO), Adriana Pereira de Sousa, analisou, nesta quarta-feira, 28, a persistente queda do dólar frente ao real desde o segundo semestre de 2025 e sua continuidade neste início de 2026. A economista destacou que o fenômeno é resultado de uma combinação de fatores externos e internos, mas fez questão de alertar que não deve ser interpretado como sinal permanente de solidez econômica.

Adriana Pereira de Sousa, que é professora do curso de Economia da Universidade Estadual de Goiás (UEG) | Foto: Divulgação

Nesta terça-feira, 28, o dólar comercial encerrou o dia cotado a R$ 5,27 na venda e R$ 5,27 na compra, segundo a taxa PTAX do Banco Central. Isso representa uma queda de -4,29% em relação ao mês anterior e de -11,68% nos últimos 12 meses.

Segundo Adriana, o dólar vem perdendo força globalmente porque os Estados Unidos caminham para um cenário de juros mais baixos. Com a inflação americana mais controlada, cresce a expectativa de que o banco central reduza os juros ao longo do tempo. Isso diminui a atratividade dos ativos em dólar e leva investidores a buscar alternativas em países que oferecem retornos maiores. Nesse contexto, o Brasil se beneficia por ainda manter juros elevados em termos reais, atraindo capital estrangeiro em busca de ganhos financeiros.

Internamente, a política monetária brasileira exerce papel decisivo. Mesmo com a queda gradual da taxa Selic, o diferencial de juros entre o Brasil e as economias desenvolvidas segue alto. Para investir aqui, o capital externo precisa ser convertido em reais, o que aumenta a oferta de dólares no mercado e contribui diretamente para a valorização do real. Esse tipo de fluxo, no entanto, é majoritariamente financeiro e bastante sensível a mudanças de expectativas.

Outro fator relevante é o saldo comercial positivo. O Brasil continua exportando mais do que importando, especialmente commodities como soja, minério de ferro e petróleo. Quando exportadores recebem em dólar e convertem parte desses recursos para reais para pagar despesas internas, há uma pressão adicional de queda sobre a cotação da moeda americana. Esse efeito costuma ser mais forte em períodos de bons preços internacionais ou de volume elevado de exportações.

A percepção de maior previsibilidade econômica também conta. Um ambiente institucional menos conflituoso, sinais de compromisso com o equilíbrio fiscal e uma atuação mais técnica das autoridades econômicas ajudam a reduzir o chamado risco país. Quando o investidor percebe menor risco, sente menos necessidade de se proteger comprando dólar, o que reduz a pressão de alta sobre a moeda americana. Nesse contexto, as expectativas passam a ter papel central: a simples crença de que a inflação ficará sob controle e de que não haverá rupturas na política econômica já influencia decisões no presente.

Há ainda o efeito indireto da atuação do Banco Central. O fato de o Brasil possuir reservas internacionais robustas e demonstrar capacidade de intervir no mercado cambial, se necessário, funciona como um freio a movimentos especulativos. Muitas vezes, não é preciso agir diretamente; a credibilidade da instituição já é suficiente para acalmar o mercado.

Apesar do otimismo momentâneo, Adriana Pereira de Sousa alerta para os riscos de se interpretar a queda do dólar como sinal permanente de solidez econômica. Boa parte desses fatores é conjuntural e pode se inverter rapidamente diante de mudanças no cenário internacional ou de deterioração das expectativas internas.

Para ela, o verdadeiro desafio do Brasil é aproveitar esse momento de câmbio mais favorável para avançar em reformas estruturais, estimular o investimento produtivo e fortalecer sua base econômica. Só assim será possível atrair e manter o capital externo, favorecendo a valorização do real perante o dólar de forma mais sustentável e estável no longo prazo.

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