A dependência do diesel importado expõe país a riscos no abastecimento e na economia. Em entrevista ao Jornal Opção, a economista Adriana Pereira de Sousa, professora da UEG e presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), analisou, nesta sexta-feira, 20, o debate recente sobre o suposto “desvio” de navios carregados de diesel para o Brasil. Para ela, a questão não está em irregularidades, mas sim em fatores estruturais que revelam a vulnerabilidade do país diante do mercado internacional.

Economista Adriana Pereira de Sousa | Foto: Divulgação

Segundo Adriana, navios não “desaparecem” no meio do caminho. “Eles respondem a incentivos. E, no mercado internacional de combustíveis, isso significa preço. Se outro país está pagando mais pelo diesel, é natural que a carga seja redirecionada. Isso não é ilegal, não é novo e nem deveria ser tratado como surpresa. É o funcionamento básico de um mercado globalizado”, explicou.

A economista destacou que o Brasil depende da importação de diesel para atender sua demanda interna. “Algo próximo de 30% do que consumimos vem de fora. Isso, por si só, já nos coloca em uma posição delicada, porque precisamos competir com outros países por esse produto. E essa competição não é política, é econômica”, afirmou.

Esse cenário se torna ainda mais complexo diante das tensões internacionais. “O aumento das incertezas envolvendo Irã e Estados Unidos pressiona o preço do petróleo no mundo inteiro. Não é só quando há conflito direto, a simples possibilidade de instabilidade em uma região estratégica já faz o mercado reagir. O preço sobe, o risco aumenta e o diesel fica mais disputado”, avaliou.

Ela ressaltou que, nesse ambiente, qualquer diferença entre o preço interno e o internacional pesa ainda mais. “Se o Brasil segura os preços para evitar impactos na inflação, o que é compreensível do ponto de vista político, acaba, ao mesmo tempo, reduzindo o interesse de quem traz combustível de fora. O resultado é simples: menos oferta potencial”, disse.

Apesar disso, Adriana esclarece que não há risco imediato de desabastecimento. “Isso não significa que o país vai ficar sem diesel amanhã. É importante dizer isso com clareza. Mas também não dá para ignorar o sinal que está sendo dado. Se importar não compensa, o fluxo diminui. E, se isso se prolonga, o risco começa a deixar de ser teórico”, apontou.

Segundo ela, o debate público muitas vezes se perde em narrativas simplificadoras. “De um lado, se fala em ‘desvio de navios’ como se fosse algo irregular. De outro, tenta-se jogar toda a responsabilidade em decisões políticas internas ou em disputas tributárias entre União e estados. Nenhuma dessas leituras, isoladamente, explica o que está acontecendo”, pontuou.

Adriana enfatizou que o Brasil enfrenta um dilema clássico. “Segurar preços hoje ajuda a conter a inflação, mas pode comprometer a oferta amanhã. Liberar preços, por outro lado, garante fluxo de produto, mas pesa no bolso da população. Não existe solução simples aqui, e fingir que existe só atrapalha o debate”, disse.

Para ela, mais do que discutir navios que mudaram de rota, é preciso avaliar a coerência da política de abastecimento. “Enquanto o Brasil continuar dependendo de importação relevante de diesel, não há como se desconectar do que acontece lá fora. E, em um mundo mais instável, essa dependência cobra um preço, seja agora, seja mais à frente”, concluiu.

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