Movimento redpill avança nas redes e especialistas alertam para aumento da violência contra as mulheres
27 março 2026 às 12h31

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Inspirado no filme Matrix (1999), o movimento redpill ganhou força na última década e passou a levantar críticas a pautas de inclusão social e direitos das mulheres, sendo classificado por especialistas como um “movimento de ódio”.
Casos recentes, como o feminicídio da jovem Raiane Santos, de 21 anos, morta pelo namorado, reforçam alertas sobre a necessidade de medidas educativas e preventivas diante da disseminação da violência contra as mulheres no Brasil.
Disseminação nas redes
A especialista em Direito e Sociologia, Munyque Ribeiro, afirma que o redpill pode ser entendido como uma forma de resistência — especialmente de homens brancos e heterossexuais — à perda de privilégios diante de avanços como a autonomia financeira e a liberdade sexual das mulheres.
Com foco em pesquisas nas relações interseccionais de raça, gênero e sexualidade, ela avalia que o movimento se insere na órbita de grupos alinhados à extrema-direita, como expressão do reacionarismo global. “Vejo esses homens redpill como um antro extremo do conservadorismo, que pode se somar a movimentos políticos ligados à ultradireita”, afirma em entrevista ao Jornal Opção.
Segundo Munyque, o crescimento do fenômeno é impulsionado pelas redes sociais e por figuras que comandam esses espaços digitais, citando nomes como Elon Musk e Mark Zuckerberg, apontados por ela como permissivos à disseminação de discursos misóginos.
Uma das tendências recentes das redes consideradas alarmantes é a chamada “trend da rejeição do pedido de casamento”, na qual homens simulam agressões contra mulheres. Os vídeos mostram espancamentos, tiros e esfaqueamentos em bonecos ou sacos de pancada, representando figuras femininas.
Para a especialista, o risco está no consumo desse conteúdo por adolescentes e pré-adolescentes, que normalizam e incentivam a violência. “Essa trend circulou por quase quatro meses e precisou de movimentos feministas e de direitos humanos para alertar que aquilo não deveria estar na internet”, diz.
Ela defende a retomada de um discurso democrático e não violento, com foco em educação e debate social para enfrentar o machismo estrutural. Também aponta a necessidade de ampliar políticas públicas, como as Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAM). “Se as pessoas não se sensibilizam com a morte de uma mulher, com o que vão se sensibilizar?”, questiona.
Exploração financeira
Já a advogada e socióloga Gabriele Andrade argumenta que o fenômeno antecede as redes sociais e os influenciadores ultraconservadores. Segundo ela, o discurso foi gestado em homens afetados pelo próprio machismo estrutural e que se sentem deslocados diante das mudanças sociais e do protagonismo feminino.
Esses indivíduos, afirma, encontram nas comunidades redpill uma “casa digital”, enquanto influenciadores exploram essas frustrações como estratégia de engajamento, lucro e poder, transformando as mulheres em um “inimigo comum”. “Os homens não são imunes ao machismo”, afirma.
Temos vários homens machucados pela própria cultura machista, e o movimento redpill percebe isso e toca nessa dor. Utiliza essa estratégia para conseguir seguidores, dinheiro e poder”, completa.
Para a socióloga, esse ambiente cria uma dinâmica insustentável, na qual até grupos conservadores de mulheres são afetados por situações de violência.
Como exemplo, cita o caso das TradWives (traditional wives, esposas tradicionais em português), mulheres que renegaram os novos papéis sociais e voltaram apenas aos cuidados do lar, mas que podem ser vítimas de abusos e violência doméstica seguindo a lógica extremista.
Interseccionalidades da violência
As especialistas também alertam que grupos em situação de vulnerabilidade — como mulheres negras, gordas, idosas, mães solo e pessoas LGBTQIA+ — tendem a sofrer violência mais intensa nesses espaços.
Segundo Munyque, mulheres negras e mulheres negras trans enfrentam níveis mais elevados de violência, com “requintes de crueldade”, além de maior dificuldade de acesso a mecanismos legais de proteção.
Diante desse cenário, ambas defendem a combinação de educação, regulação das plataformas digitais e políticas públicas estruturais para conter o avanço do movimento e recuperar indivíduos inseridos nessas comunidades. “Mulheres negras estão na base da pirâmide social, recebem os menores salários e enfrentam mais insegurança alimentar”, afirma.
“Sou professora e defendo a educação como caminho para discutir políticas públicas que contemplem essas especificidades e interseccionalidades”, conclui Munyque.
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