Mais de 700 mil goianos não têm acesso ao gás de cozinha, aponta levantamento
23 fevereiro 2026 às 13h22

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Mais de 700 mil goianos não utilizam gás de cozinha como principal combustível para o preparo de alimentos e dependem exclusivamente de lenha ou carvão. O número corresponde a cerca de 10% da população do Estado, segundo estimativa da instituição Brasil em Mapas.
Os dados foram calculados a partir de recorte dos dados primários da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes aos anos de 1993, 2016, 2017, 2022, 2023 e 2024.
O levantamento indica, no entanto, uma redução histórica desse índice em Goiás. Em 1990, quando o IBGE iniciou a coleta sistemática de dados, mais de 2,5 milhões de goianos dependiam da biomassa — o equivalente a aproximadamente 30% da população à época. A queda é atribuída, principalmente, ao processo de urbanização e à ampliação do acesso à infraestrutura energética.

Em Goiânia, 1,5% da população, cerca de 22 mil pessoas, ainda utiliza exclusivamente lenha ou carvão para cozinhar. Em 1990, esse percentual chegava a 30%, o que representava aproximadamente 270 mil moradores da capital.
Cenário nacional
Em âmbito nacional, a estimativa para 2025 aponta que mais de 29 milhões de brasileiros ainda dependem de lenha ou carvão para o preparo de alimentos. Em 1990, esse contingente era de aproximadamente 70 milhões de pessoas.
Em relação aos domicílios, levantamento de 2023 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indica que 11,8 milhões de lares utilizam exclusivamente lenha para cozinhar. A extração do recurso ocorre sem custo para cerca de 90% da população rural, prática frequentemente associada a situações de vulnerabilidade socioeconômica.
Para a socióloga Gabrielle Silva, os dados evidenciam entraves na implementação de políticas públicas voltadas às populações do interior, tanto pela dificuldade logística quanto pela ausência de atualização cadastral no Cadastro Único (CadÚnico), utilizado para programas sociais como o auxílio para aquisição de gás de cozinha.
Segundo ela, a limitação no acesso obriga famílias vulneráveis a fazer escolhas entre a compra de alimentos e a reposição do botijão de gás.
“A expansão dos programas sociais existentes e a fiscalização da forma como são implementados são essenciais para que essas pessoas não precisem enfrentar essa escolha. É inadmissível que alguém tenha que decidir entre comprar comida ou comprar gás”, afirmou.
A socióloga destaca ainda que o impacto recai, sobretudo, sobre mulheres, especialmente mães solo, em razão da divisão sexual do trabalho doméstico, que historicamente atribui às mulheres a responsabilidade pelas tarefas da casa, independentemente de exercerem atividade remunerada fora do lar.
Impactos na saúde
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a poluição decorrente da queima de biomassa foi responsável por aproximadamente 2,9 milhões de mortes no mundo em 2021, incluindo 309 mil crianças com menos de cinco anos.
Entre as principais causas associadas estão doença cardíaca isquêmica (32%), acidente vascular cerebral (23%), infecções do trato respiratório inferior (21%), doença pulmonar obstrutiva crônica (19%) e câncer de pulmão (6%).
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