Esse livro não precisou recorrer à ficção para provocar angústia, bastou a autora relatar com precisão e coragem, o que de fato aconteceu. É difícil definir qual seria o livro mais triste da história, mas poucos provocam uma tristeza tão profunda quanto Eichmann em Jerusalém, da filósofa Hannah Arendt. Fruto de um trabalho jornalístico rigoroso e intelectualmente sofisticado, a obra narra o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela logística do Holocausto. O impacto da leitura é tão intenso que há relatos de leitores que não conseguiam ler o livro à noite. Não por medo de criaturas sobrenaturais, mas por confrontar o que um ser humano pode fazer a outro.

Ao acompanhar o julgamento em Israel, Arendt revela um retrato perturbador: Eichmann não era um monstro sádico, mas um funcionário medíocre, eficiente e obediente, que agia sem qualquer reflexão ética. Essa constatação levou Arendt a formular um dos conceitos mais inquietantes da filosofia política moderna: a “banalidade do mal”. Segundo ela, grandes atrocidades podem ser cometidas por pessoas aparentemente normais, que se escondem atrás da legalidade e da obediência, sem questionar moralmente suas ações.

O livro é uma crítica contundente à ausência de pensamento crítico diante de sistemas totalitários e à fragilidade da responsabilidade individual. Arendt não precisou se esforçar para dramatizar os fatos: a tragédia histórica se impõe por si só. Sua escrita mescla precisão factual com uma interpretação histórica e filosófica profunda, tornando a leitura dolorosa e reveladora.

Adolf Eichmann foi condenado à morte por uma série de crimes: o assassinato de milhões de judeus; a condução de milhões a condições que levavam à destruição física; a imposição de danos físicos e mentais severos; ações de proibição de nascimentos e interrupção de gestações de milhares de mulheres; crimes contra a humanidade; pilhagem de propriedades; perseguições por motivos raciais, religiosos e políticos; crimes de guerra; expulsão de poloneses de suas casas; expulsão de milhares de eslovenos; deportação de milhares de ciganos para Auschwitz; e participação ativa em três das quatro organizações consideradas criminosas: SS (Schutzstaffel), SD (Sicherheitsdienst) e Gestapo (Geheime Staatspolizei).

Ao final do julgamento, Eichmann não demonstrou arrependimento em sentido pleno. Alegou ter sido apenas um cidadão obediente às leis, cuja principal virtude — a obediência — foi instrumentalizada para o mal. Afirmou que, mesmo sem sua presença, os resultados teriam sido os mesmos. Essa tese, no entanto, foi refutada: os horrores só foram possíveis graças à sua eficiência em todas as fases da Solução Final: 1º expulsão, 2° concentração e 3º extermínio.

A figura de Eichmann, que se dizia medíocre, pouco inteligente e não maligno nos termos convencionais, e que se expressava por meio de frases vazias e pensamentos sem substância, tornou-se o exemplo que levou Arendt a formular sua tese mais perturbadora. A banalidade do mal não reside em atos monstruosos, mas na ausência de julgamento moral diante da burocracia do horror. É o mal cometido por indivíduos que, protegidos por uma estrutura legal ou pela aparência de legalidade, deixam de questionar suas ações, e, assim, tornam-se agentes de atrocidades inimagináveis.

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