Fabiane Guimarães, nascida em Planaltina de Goiás, será uma das escritoras da antologia de contos da Editora Rocco inspirados na obra de Graciliano Ramos. Baseado em “Vidas Secas”, obra mais emblemática do escritor alagoano, o livro reunirá 5 contos e será lançado ainda neste ano. “Quero tentar trazer um pouco dessas vidas secas do interior do Centro-Oeste, de pessoas que produzem alimentos, criam gados e preservam a natureza”, explica Fabiane em entrevista exclusiva ao Jornal Opção.

Fabiane foi escolhida para representar o Estado de Goiás entre os cinco autores de diferentes regiões do país que foram convidados por Ana Lima. Os demais escritores serão: Ana Paula Lisboa (Rio), Jarid Arraes (Ceará), José Falero (Rio Grande do Sul), Tanto Tupiassu (Pará). “Quando se fala em Centro-Oeste, normalmente só se pensa nos grandes produtores de soja, mas temos muitas pessoas que moram na roça, que produzem alimentos e não são vistas, ou até elas mesmas não se dão conta da própria importância. Quero falar dessas pessoas”, pontua Fabiane Guimarães.

“Quando eu li Vidas Secas no colégio, lembro que ficou muito gravado as imagens do povo, do sertão e da cachorra Baleia. Me identifiquei muito nesse lado rural e quero abordar essa ruralidade no conto”. A escritora goiana tem dois livros publicados: “Apague a luz se for chorar”, lançado em 2021, e “Como se fosse um monstro”, publicado em 2023. Segundo ela relatou, ambos vão virar filme.

Apesar de ter nascido em Planaltina, ela conta que cresceu em Formosa, entorno do Distrito Federal (DF). Aos 32 anos, relembra que desde antes de saber ler já gostava de contar histórias. Ela conta que os avós maternos e paternos moraram a vida inteira na zona rural e que ela passou a infância e adolescência na “roça”. Aos 17, foi morar em Brasília (DF) com a irmã mais velha.

“Meus pais não tinham dinheiro e o médico amigo da família topou fazer o combo parto cesárea e laqueadura por um precinho camarada, mas eu quis chegar logo e de parto normal. Nasci sem chorar e com o cordão umbilical enrolado ao pescoço (como as grandes rainhas do passado, dizia o Garcia Márquez). Era o vigésimo sétimo dia em Planaltina de Goiás, mas eu cresceria mesmo em Formosa, uma cidade tão charmosa quanto seu nome”, relembra a escritora, de fala tão colorida quanto sua linguagem escrita.

Uma das maiores da literatura brasileira, a obra de Graciliano descreve o cenário e apresenta a saga da cachorra Baleia, da mãe Sinha Vitória, do pai Fabiano e de seus dois filhos, que, no decorrer da história, são chamados de “mais novo” e “mais velho”. Sem nome e sobrenome, eles carregam a “identidade” das famílias que ainda hoje vivem o descaso social e a exploração humana no Brasil. Publicado em 1938, o romance retrata a vida miserável de uma família de retirantes sertanejos obrigada a se deslocar de tempos em tempos para áreas menos castigadas pela seca.

Fotomontagem sobre imagem de uma das diversas capas de Vidas Secas (personagens) e Paisagem de caatinga. | Foto: Glauco Umbelino via Wikimedia Commons

Obras de Fabiane Guimarães

“Não gosto do termo regionalismo, porque faço literatura brasileira, mas o Centro-Oeste está muito presente nas minhas obras”, explica Fabiane. Seu primeiro livro, “Apague a luz se for chorar”, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Candango de Literatura. No enredo, duas narrativas se entrelaçam para compor um retrato do interior do Brasil e pensar até onde é possível esconder um segredo de família. Ao cruzar as histórias, a autora cria um suspense sobre o que significa ser parte de uma família e os limites que estamos dispostos a ultrapassar para mantê-la.

Em seu segundo romance, “Como se fosse um monstro”, Fabiane Guimarães explora os limites da maternidade, da escolha feminina e da expectativa social. Brasília, décadas de 1980 e 1990. A história é de uma jovem que sai do interior para trabalhar como empregada doméstica na casa de um casal rico na cidade grande.

Lá, enquanto tenta entender a dinâmica diária dos dois, ela começa a ver algumas meninas passando diariamente para algum tipo de entrevista a portas fechadas. Depois de meses sem achar a escolhida, o casal finalmente faz a proposta a Damiana (apesar de acharem o tom da sua pele um pouco mais escuro do que gostariam): que ela seja barriga de aluguel para eles. O livro reflete sobre o que significa tomar decisões e como elas impactam a vida dos outros. “Como se fosse um monstro” é uma reflexão sobre a maternidade, a culpa e o direito de escolher.

Escritor entrou em domínio público

Graciliano Ramos, renomado escritor brasileiro, faleceu em 1953. De acordo com a legislação brasileira de direitos autorais, que estabelece um prazo de proteção intelectual de 70 anos após a morte do autor, as obras de Graciliano entraram em domínio público no ano de 2023. Isso significa que agora qualquer pessoa pode utilizar, reproduzir, adaptar e explorar suas obras sem a necessidade de autorização dos herdeiros.

Essa mudança abre oportunidades para novas edições, adaptações para outras mídias e diversas formas de explorar criativamente o legado literário de Graciliano Ramos. Editoras têm mais liberdade para trabalhar com suas obras sem a necessidade de remunerar os herdeiros. Essa liberdade também pode incentivar a produção de edições especiais, análises críticas, adaptações cinematográficas, entre outras formas de explorar e difundir o trabalho do autor.

“A corrida editorial é saudável, se pensarmos que a obra do autor será mais difundida, comentada, adotada e, por fim, lida”, disse Ana Lima, diretora da antologia de contos da Rocco. “Achei que seria mais interessante uma abordagem diferente, visto que o Brasil segue tendo suas famílias de retirantes, paisagens áridas e vidas secas. A miséria que vem com a seca pode ser encontrada em outras regiões do país, nas comunidades, na periferia e no íntimo de tantos brasileiros. Chamar um escritor de cada região do Brasil para repensar como seriam essas vidas secas hoje foi uma forma de homenagear o autor e criar algo novo”, explicou ao Jornal O Globo.