Caminhando a passos lentos vem “seu” Luiz Carlos Teixeira Bahia, de 77 anos, um dos mais antigos guias do Museu Pedro Ludovico, em Goiânia. Trajado com a camisa da instituição histórica, calça e sapatos sociais e um relógio de pulso prata, ele segura uma bengala de madeira na mão direita, consequências da ação do tempo, enquanto explica que seu lugar preferido do museu é a sala de estar.

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Auto declarado uma peça viva do museu, pergunto sobre o motivo do carinho pelo espaço, “seo” Luiz, que dedicou metade da vida a instituição, explica: “foi aqui que brinquei muito com meu avô, Pedro Ludovico Teixeira”. O guia é descendente da única filha mulher do fundador de Goiânia, Lívia Teixeira Bahia, que morreu em 2011, aos 90 anos.

“Minha infância toda foi aqui, morava na Rua 82 e sempre vinha na casa dos meus avôs. Às vezes brigava com meu pai, que era muito intolerante, e vinha para cá, mas também eu não era santo não. Meu avô, então, falava para o meu pai que aqui ele não iria bater em mim. Pedro Ludovico era meu protetor, um homem inteligente, trabalhador e de respeito”, afirma. 

O neto do fundador de Goiânia e de Dona Gercina, esposa de Pedro Ludovico Teixeira, além de ter passado a infância na companhia dos avós, também chegou a dividir a casa com eles depois de se separar da ex-esposa, quando tinha 26 anos, na década de 70. O quadro de Luiz continua intacto desde que morou no local, assim como todo o museu. 

Ele fica no andar superior do prédio, mesmo espaço onde está localizado o quarto dos seus avós. Devido à idade e aos problemas de saúde, no entanto, Luiz não consegue mais visitar o antigo espaço que chamava de “seu”. 

Durante o período em que viveu no local, ele acompanhou o leito de morte de Dona Gercina e Pedro Ludovico, em 1976 e 1979, respectivamente. Ele garante que era um dos netos mais próximos do avô. O apego era tanto que, depois que o casarão virou museu, em 1987, ele retornou para trabalhar no local. 

 “Sou a única peça viva que anda, fala e não mora aqui, mas não sou fantasma. Venho aqui todos os a pé. O melhor momento da minha vida foi morar com eles aqui. Era uma casa muito movimentada, vinha vários políticos, escolas. Meu avô me ensinou a atender os visitantes. Ele não tinha diferença [entre os netos], mas eu e o Pedrinho, filho do Mauro Borges, tínhamos um carinho maior”, disse. 

“Ele gostava muito de ir ao cinema e eu o acompanhava. Ele não pagava entrada, mas não me deixava entrar sem pagar. Sempre tirava o dinheiro do bolso e me dava 5 cruzeiros para comprar o ingresso e falava que não iria me deixar entrar de graça. Era muito honesto”, reforçou. 

Sala de estar do museu, onde viveu Pedro Ludovico Teixeira | Foto: Pedro Moura

“Fez tudo pelo progresso”

Luiz afirma que Pedro Ludovico era seu exemplo como líder político e que, se fosse vivo hoje, iria se deslumbrar com a forma em que Goiânia cresceu e se tornou a cidade mais populosa do estado. Vale ressaltar que a capital, inicialmente, foi construída para 50 mil pessoas. Hoje, segundo o Instituto Brasielirto de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade conta com mais de 1,4 milhão de habitantes. 

“Pedro fez tudo pelo progresso de Goiânia. Tem até uma frase dele: ‘o homem que fez tudo pelo progresso de Goiás, construindo Goiânia’. Ele até pediu para colocar essa frase no túmulo dele. Foi um dos seus últimos pedidos, assim como tocar o tango La Cumparsita no velório. Ele era um ótimo dançarino”.

Questionado sobre o motivo de não ter seguido os passos do avô na política, “Seo” Luiz diz que nunca se interessou pela área, mas que Pedro insistiu para que ele se candidatasse a vereador em quando ainda estava vivo. Os decentes do fundador de Goiânia já ocuparam cargos políticos municipais, estaduais e federais. 

“Meu avô queria por tudo que eu fosse vereador, ele tinha muito prestígio. Mas a política não é comigo, eu gosto de ajudar as pessoas, mas ser candidato não”, concluiu o guia que, após a entrevista, me presenteou com uma manga. 

A árvore faz parte das plantas frutíferas espalhadas pelo quintal que conta com uma grande piscina. Todas as plantas foram plantadas por Pedro e Dona Gercina no século 20. 

“Seu” Luiz quando criança | Foto: Arquivo pessoal