*Matéria publicada originalmente em 24 janeiro 2023

O termo ‘sigma male’ começou a ser amplamente propagado no TikTok. Hashtags como “sigmagrindset” no site de mídia social chinês revelam milhares de vídeos com personagens masculinos fictícios: Thomas Shelby de “Peaky Blinders”, Nate do programa de TV “Euphoria” ou Patrick Bateman do filme “American Psycho.” Com bilhões de visualizações os vídeos misturam conselhos de autoajuda, música pop e misogenia.

Mas, o que é um macho sigma? O termo foi cunhado pela primeira vez por um ativista de extrema direita em 2010. De acordo com a ideia de ‘machos alfa’, o macho sigma seria um degrau na escada já que aparece associado ao sucesso. Em 2021, uma conta no Twitter trouxe esse termo pouco conhecido para o centro das atenções ao compartilhar fotos de gráficos de hierarquia sociossexual, um tutorial sobre como “se tornar” um ‘homem sigma’ e um livro de desenvolvimento pessoal chamado “The Sigma Male”.

A pesquisadora Michele Prado, autora do livro “Tempestade Ideológica”, explica nas suas redes sociais que o fenômeno é ainda mais preocupante porque “o sigma também tem relação direta com algumas correntes neofascistas, sendo utilizado como símbolo por muitos grupos e movimentos da extrema direita. No Brasil, o sigma é utilizado pelos integralistas e por alguns movimentos neofascistas separatistas”, afirmou no twitter. Além disso, a pesquisadora comenta que a misoginia tem servido de porta de entrada para a radicalização e mergulho, às vezes sem volta, na extrema direita.

American Psycho é o filme mais famoso associado ao fenômeno e levanta questões preocupantes. Patrick Bateman (Christian Bale) é um assassino sádico, profundamente inseguro e dificilmente seria considerado qualquer tipo de modelo. Apesar disso, clipes de filmes retratando Bateman em um terno elegante inundam as páginas de motivação sigma. Além disso, chega a ser perturbador que um psicopata violento seja visto como um ícone de virilidade cujas atitudes devam ser seguidas. Os seguidores desse modelo fazem uma leitura literal de um personagem que na verdade pretende ser uma sátira social, ao invés de um modelo.

A cultura masculina sigma é caracterizada por protagonistas masculinos solitários; atos de violência e/ou hedonismo; misturado a um tema de insatisfação com o mundo. Além disso, por oposição ao feminino, esses machos sigma retratam as mulheres como facilmente manipuláveis e intercambiáveis. “A amplificação brutal de suas estúpidas e nocivas ideias ocorreu ainda na ascensão da Alt-right, com quem sempre teve relação e sua primeira investida ocorreu dentro da subcultura online de misoginia extrema, PUA (pick-up artists) que ensinam jogos de sedução embaralhados à objetificação de mulheres como somente repositórios de esperma”,escreve Michele.

Essas personalidades amplificadas pelo TikTok ganham força em poucos meses, e como as pessoas gostam de atribuir um rótulo a si mesmas e de se sentirem validadas acabam fazendo parte do clube. A pesquisadora finaliza as explicações sobre o fenômeno reforçando a preocupação de que os responsáveis pelos jovens fiquem atentos a essas subculturas on-line.