Edson Leite Júnior
Todo dia 6 de janeiro é Dia de Reis, data em que não pode faltar uma folia em Goiás. Esse é o momento, inclusive, em que se desmonta a árvore de Natal, como manda a tradição. E isso porque seria quando os três reis magos teriam visitado Jesus em Belém depois do seu nascimento para levar presentes: incenso, mirra e ouro.

Segundo o padre Walmir Garcia, da Paróquia Nossa Senhora da Guia, no Setor Maysa, em Trindade, não se sabe ao certo nem “se eram reis ou se eram três”. Na Bíblia, o relato da visita dos reis magos a Jesus é encontrado apenas no evangelho de Mateus. E, como está escrito que são três presentes, deduz-se que seria um de cada rei. “Algumas correntes acreditam que esse número chegaria até dez reis”, comentou.

A tradição popular da Folia de Reis teve início na Idade Média na Europa na região de Portugal. E ainda na época em que o Brasil era uma colônia, começou a espalhar pelo interior. Padre Walmir, inclusive, acredita que na zona rural é mais comum encontrar esse tipo de festividade por causa da simplicidade. Para ele, “é uma manifestação de fé popular” que “depende da criatividade de cada um por causa da espontaneidade das cantorias que não possuem uma fórmula fixa”.

Em Goiás, grupos de Folia de Reis passam essa tradição de geração em geração. No Setor Maysa, em Trindade, nesta sexta-feira, 6, um grupo se reúne para fazer a coroação dos reis, finalizando as festividades.

Entre os foliões, vai estar José Primo da Costa, lavrador aposentado de 74 anos e pai de Zenaidy da Costa, que é folião há 35 anos, desde quando ela tinha 15 anos (hoje ela tem 50). Hoje, José coordena um grupo de cerca de 15 pessoas, participando também da cantoria. Seus amigos foliões o ajudam no pandeiro, na viola, no violão, no triângulo e na sanfona, além de entoar as músicas tradicionais em um coro de vozes.

Zenaidy conta que desde criança, quando ainda morava em São Luiz de Montes Belos, a folia já passava na sua casa porque seus pais eram festeiros. Na tradição, festeiro é aquele que dá pouso e comida aos foliões e são divididos em dois tipos: os de chegada e os de saída. Esses últimos são os responsáveis para organizar todo o roteiro da folia, verificar por onde os foliões vão passar, garantindo o conforto de todos. Já os primeiros têm a responsabilidade de organizar o encerramento das festividades.
“Geralmente oferecer pouso e comida é promessa”, afirmou Zenaidy, ressaltando que a fé é o que move todos esses grupos.

E por onde a folia passa, os foliões convidam a comunidade para participar do encerramento da festa que, na visão do padre Walmir, é um momento importante para a comunidade, que visita os vizinhos com o intuito de evangelizar. “Um bom costume para homenagear Jesus”, destaca o religioso.

E, durante todas as festividades, Zenaidy conta ainda que existe uma crença curiosa: “não se pode cruzar a bandeira”. Na prática, significa que o roteiro tem que fechar um círculo, o que não permite que os foliões passem pela mesma rua duas vezes. E do pai, ela herdou a paixão pela Folia de Reis, ajudando a preservar uma tradição que faz parte do “DNA” do goiano.