VALÉRIA RAMOS

Na sexta-feira, 3, estava eu vindo para o trabalho como de costume. Levantei de madrugada, fui para o ponto. Esperei, sem novidades, e tomei o ônibus também assim, mesmo porque não me sentei — porque sentar-me seria novidade!

De Trindade até a Praça A, em pé, vim ouvindo conversas entre pessoas que não eram nada que chamasse tanto a atenção, a não ser pelo burburinho que incomodam um pouco quando se vai trabalhar morrendo de sono.

Desci na Praça A para trocar de veículo e pegar agora o Eixo Anhanguera para chegar ao destino. Junto comigo entrou um casal. Uma senhorinha e um jovem senhorzinho. Alto, afrodescendente, forte, com cabelo “black power” (lindo por sinal) e muito, mas muito bem-humorado mesmo, levando em consideração o horário: eram 7 horas da matina, numa sexta-feira. Estar assim de ônibus cheio é para levantar o astral do resto da turma. Inclusive o meu.
Assim que entrou, começou a conversar com essa senhora que estava com ele. Pareciam ser amigos de longa data. Em suas palavras: “Cara, minha mãe quer que eu corte o cabelo. Eu não queria cortar. Mas ela está falando tanto, que resolvi cortar…”

A senhora sorriu e ele continuou: “Fui ali num salão na Avenida Goiás para saber o preço. O moço disse: ‘é (sic) 20 reais o corte. Pensei: meu Deus do céu, se é (sic) 20 um cabelo normal, o meu será de 25 reais pra frente”. Isso já foi suficiente para chamar minha atenção, olhar o cabelo dele e sorrir para ele, que de forma muito delicada sorriu de volta. E continuou: “Cara, falei para minha mãe; ô mãe, não vou cortar o cabelo mais não, Deus me livre, mãe. Vinte e cinco reais dá pra comprar um pacote de fraldas, num vou cortar, não!” Aí eu não resisti, soltei uma risada caprichada e quase todo o Eixo também. Todo mundo olhou para o rapaz e sorriam levemente. De repente, a senhora que estava com ele disse: “E eu, que tenho três filhos? Tenho de pagar para cortar dos três!”

Foi demais. Ele se virou para ela: “Deus me livre, cara! Sessenta reais? Dá para pagar meu aluguel!”. Nesta hora foi impossível não entrar na conversa — eu era a que mais estava próxima dele —, e brinquei: “É, ao menos com o talão de água ou de luz 60 reais dá para ajudar, não é?” E ele: “Tá doído, mas é nunca que vou cortar o cabelo, deixa assim mesmo, está bom demais. Sessenta reais dá (sic) para água, luz, aluguel, fraldas…”. E falava tudo isso o tempo todo sorrindo. E não havia que não sorrisse!

Então, desci no meu ponto e ele continuou a viagem. E eu fiquei a pensar naquela história toda e refletindo como o bom humor pode salvar o dia da gente. A vida da gente. Numa sexta-feira, quando o cansaço é visível, apesar de estar no Eixo lotado, meu dia ficou mais leve, mais agradável, mais digno. Não que eu estivesse mal-humorada, não é meu forte ficar de cara feia. Mas aquilo ajudou a desanuviar o pensamento da semana corrida. Fiquei pensando: é claro que 25 reais, ou mesmo os 60 reais, não vão resolver suas necessidades com filho pequeno, como no caso dele, que falou mais de uma vez nas fraldas, mas certamente farão diferença no orçamento nesse momento de crise. E afinal, que mal há em ter cabelos grandes? “Black power” é o máximo! Ele não está incomodado com a cabeleira e muito menos incomodando alguém com aquela “juba” toda. Enfim, foi um dia que começou e terminou feliz e leve —apesar de todos os pesares.

Valéria Ramos é secretária.