por Ycarim Melgaço*

Os rombos contábeis e bilionários das Americanas logo no alvorecer de 2023 trazem à luz certas figuras lendárias e cinematográficas, isto é, os antigos piratas saqueadores de embarcações marítimas. Edward Teach, o “Barba Negra” (1680-1718), por exemplo, tornou-se o mais famoso pirata do mar das Caraíbas.

Pois bem: o que conecta os piratas dos mares dos séculos XVII e XVIII com os bilhões desviados das Americanas? Ao que parece, até o momento, seria fruto de saque efetuado, provavelmente, por três ilustres empresários de organizações modernas – com requintes do estilo “Barba Negra” – por meio de práticas antigas de usurpar bens alheios ou, como gostam de ser definidos, “sócios de referência”.

Segundo assegura o economista Peter T. Leeson, autor do livro: “The Invisible Hook: The Hidden Economics of Pirates” (O Gancho Invisível: A Economia Oculta dos Piratas [tradução livre]), os piratas são conhecidos por estridência, imprudência e rapina caótica, mas a realidade pirata difere dessa imagem. Ao contrário dos psicopatas fanfarrões dos filmes e livros de ficção, os piratas da vida real eram criminosos altamente organizados, reitera Leeson, e os piratas históricos exibiam estruturação sofisticada e muita coordenação.

Esses saqueadores marítimos não podiam usar o governo para impor e obter apoio, nem mesmo fazer arranjos cooperativos entre eles. Apesar disso, eles conseguiam ter essa cooperação com centenas de outros bandidos. Em meio a um potencial onipresente para o conflito, eles raramente brigavam, roubavam ou enganavam uns aos outros. De fato, a harmonia pirata era tão comum quanto a harmonia entre seus legítimos contemporâneos que dependiam do governo para a cooperação social.

As formas modernas de apropriação de bens, ou melhor, de roubo pela pirataria moderna podem ser encontradas ainda em outros autores. Em 2010, dois professores franceses em escolas de gestão de organizações, Rodolphe Durand e Jean-Philippe Vergne, publicaram “L’Organisation Pirate: Essai sur l’evolution du capitalisme” (“A Organização Pirata: Um Ensaio sobre a Evolução do Capitalismo” [tradução livre]).

Logo no início, Durand e Vergne afirmam que os piratas aparecem em períodos cruciais da história e citam o tempo em que o capitalismo começou a se espalhar ao longo das rotas comerciais em direção às Índias.

Asseguram que o capitalismo anda de mãos dadas com o aparecimento de novas formas de pirataria, isto é, como a dos piratas contemporâneos, por exemplo, quando a internet se tornou parte da economia global. A web tem seus ciberpiratas e, na ocasião do avanço da revolução biotecnológica, a biopirataria borbulhou.

Não é por acaso que essas “Eras de Ouro” da pirataria correspondem a grandes pontos de virada na história do capitalismo. Ou seja, a pirataria não é aleatória e não pode ser separada do capitalismo.

De volta às Americanas, o trio mais rico do Brasil e mais respeitado até a explosão do rombo contábil naquela varejista, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, era exemplo de sucesso no mundo corporativo, incluindo até mesmo um livro escrito sobre o sucesso do trio: “Sonho grande: como Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira revolucionaram o capitalismo brasileiro e conquistaram o mundo”. O prefácio é assinado pelo professor Jim Collins, um influente consultor, palestrante e escritor de livros considerado referência em escolas de administração.

Diz o livro: “… a fórmula de gestão que desenvolveram era seguida com fervor por seus funcionários, se baseia em meritocracia, simplicidade e busca incessante por redução de custos”. Mais adiante, assegura: “Uma cultura tão eficiente quanto implacável, em que não há espaço para o desempenho medíocre.” Será isso mesmo?! Por fim, a face oculta da pirataria moderna, essa do “Sonho Grande”, expõe um rombo de mais de 40 bilhões de reais em dívidas. Pasmem! Isso apenas nas Americanas. E as outras empresas do trio?

*Ycarim Melgaço é doutor em Geografia, Pós-Doc em Economia e em Administração de Organizações